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Jogador Nº 1 (Ready Player One 2018)

Poster do filme Jogador Nº 1 em que o protagonista, Wade, aparece subindo uma escada vertical, olhando para o horizonte. Ao fundo, numa favela de formas geométrica retangulares empilhadase, é possível ver relas e antenas. Uma espécie de círculo luminoso ilumina o céu noturno e toda a imagem é azulada.

Na década de 1980 o sobrenome Spielberg era sinônimo de inventividade e qualidade. Filmes eram anunciados exaustivamente usando-o como selo de validação, mesmo quando sua função era a de produtor. Até as pessoas que mantinham um interesse apenas superficial por cinema eram atraídas por ele. Por isso parece óbvia a escolha de seu nome para dirigir Jogador Nº 1, filme adaptado do livro homônimo de Ernest Cline e que é largamente inspirado por elementos da década. É uma pena que o conteúdo não esteja à altura da expectativa criada.

A história começa em 2045. Wade (Tye Sheridan) é um adolescente órfão que mora com a tia. A Terra parece estar devastada: a realidade é de tal deterioração que as pessoas passam a maior parte de seu tempo em um universo de MMORPG, onde podem ser quem quiser, criar outra imagem para si e viver vidas melhores. Com a tela preta ao som de Jump, do Van Halen, somos transportados com o clima exato para o mundo que vai nos ser apresentado: Wade, descendo as escadas da favela onde mora, circula em meio às casas empilhadas, de maneira a nos apresentar visualmente às tecnologias em uso por seus moradores. Nesse momento, a narração em off não esconde o esforço de adaptar o texto para a tela. Ele se dirige a um container abandonado, onde, com seu óculos de realidade virtual, se torna Parzival, o cavaleiro solitário em busca do seu Santo Graal. Nesse caso, o prêmio do jogo em que todos interagem é entregue depois da obtenção de três chaves secretas que dariam a quem as coletasse o direito de propriedade de todo o sistema.

Parzival se vê desafiado por uma famosa caçadora de tesouros, Art3mis (Olivia Cooke). Olivia é habilidosa e admirada por isso, mas logo vai firmar uma parceira com ele. Na época do lançamento da animação Uma Aventura Lego (2014), muito se escreveu sobre a Síndrome de Trinityquando mulheres badass com experiência no que fazem são criadas como um desafio para o personagem principal masculino, novato ou representante do Homem Comum, criando uma espécie de linha de chegada para ele, de forma que no final, ele, sendo “o escolhido”, é capaz de superá-la. É claro que é exatamente isso que ocorre aqui. Mas tem mais: Art3mis, ao ouvir uma declaração apaixonada de Wade, lhe diz que ele sequer sabe quem ela é, que aquele corpo não é seu corpo real e sua imagem é muito diferente, criando a expectativa da possibilidade de uma heroína que fugisse dos padrões. Quando Wade encontra com Samantha, a pessoal real por trás do avatar, trata-se de uma menina magra, branca, ruiva, completamente dentro dos padrões de beleza esperados, apenas com um detalhe: uma marca de nascença cobrindo parte de seu rosto, sobre um olho. Dessa forma, em uma construção de roteiro preguiçosa, o nobre herói pode dizer que está apaixonado para além das aparências e é capaz de aceitá-la como ela é.

Nessa busca pelo prêmio principal do jogo, o Homem Comum desafia a Grande Corporação. A mítica da criação do jogo diz que ele foi feito anos antes por Halliday (Mark Rylance) um nerd solitário, apaixonado por tudo que envolve videogames e cultura popular. Embora ele não soubesse se relacionar com mulheres e tenha tirado seu sócio e melhor amigo da empresa, é apresentado como um bom moço. Em oposição a ele, existe Sorrento (Ben Mendelsohn), um dono de corporação que contrata os melhores jogadores para conseguir a posse das chaves e assim, controlando o jogo, poder finalmente… colocar publicidade nele? Enfim, a separação entre empresa boazinha porque seu responsável está fazendo por amor e a empresa malvada, cujo dono nem gosta de cultura popular de verdade e só quer dinheiro é bastante rasa. Vimos, na vida real, o que essa narrativa Gates X Jobs acarretou e a mudança de discursos refletida em filmes como Piratas da Informática: Piratas do Vale do Silício (1999) e, posteriormente Steve Jobs (2015).

Mas Parzival não está só na sua luta do Homem Comum. Ele tem tem um grupo simpático de amigos que o acompanha, composto por Aech (Lena Waitch), Sho (Philip Zhao) e Saito (Win Morisaki). Além disso, de punhos erguidos e com discurso motivacional, o herói angaria milhares de seguidores para ajudá-lo. Art3mis, que até então era uma jogadora que se destacava, ressalta que ele conhece Halliday como ninguém e por isso só ele pode conseguir vencer o jogo. Dessa forma criando todo um grupo diverso de amigos (ainda que marcados por estereótipos, como o da mulher negra durona e do menino asiático ás no que faz) para que no final, sem nenhum motivo aparente, o garoto branco seja o “especial” e O Escolhido: todos unidos se sacrificando por sua vitória. Dessa, forma, repetindo o erro de outros filmes que homenageiam a década de 80, o roteiro repete tropos da época, sem que haja preocupação em atualizar esse tipo de narrativa.

Há que se dizer que a estética do filme é bastante interessante e ele tem bons momentos de diversão. A criação dos personagens dentro do jogo é visualmente bonita e trabalha bem o excesso de computação gráfica, já que faz parte do contexto de irrealidade do universo criado, compartilhado pelos jogadores. As referências, que vão de um DeLorean a tiranossauro de Jurassic Park, passando pelo Hotel Overlook, funcionam como uma cutucada no espectador, lembrando-o de se empolgar com o que lhe é familiar.

O saudosismo que envolve a década de 80 começou há bem mais de dez anos e perpassa a música, a moda e, claro, a produção audiovisual. É de se questionar se ainda há fôlego para homenagens como a apresentada aqui, pautada em referências e não na complexidade dos personagens criados. Se a construção de universo tem potencial e é interessante, topo o resto se assemelha a uma grande fanfic que mescla elementos diversos da cultura popular. Funcionando como uma mistura de filme com atores de Detona Ralph (2014) com Uma Aventura Lego, Jogador Nº 1 se perde justamente ao não conseguir superar, mas apenas repetir, os erros cometidos em narrativas da década que tenta homenagear.

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X-Men: Apocalipse (X-Men: Apocalypse, 2016)

Em meio a uma enxurrada de filmes de heróis que chegam aos cinemas todo verão americano, os da franquia X-Men costumam se destacar por trazerem ao gênero subtextos que o tornam mais interessante. Com tramas que remetem à luta pelos direitos civis, temos papéis que não são necessariamente de heróis e vilões, mas sim de pessoas com abordagens diferentes para um mesmo problema: a discriminação contra os mutantes. Dessa forma, Xavier (James MacAvoy) seria o representante da vertente pacifista por vias legais e Magneto (Michael Fassbender) da luta armada, e Mística (Jennifer Lawrence) divide-se entre as duas possibilidades e o afeto que tem pelo dois. Mas o terceiro filme da nova trilogia abandonou completamente o tom político.

Dessa vez a narrativa se passa no começo da década de 1980. O vilão é Apocalipse (Oscar Isaac), uma entidade com poderes praticamente ilimitados, pois consegue absorver aqueles dos demais. Considerado o primeiro mutante da história, Apocalipse já era adorado como divindade no Egito Antigo, onde permaneceu enterrado até ser liberado novamente. Acompanhado de seus Quatro Cavaleiros, Tempestade (Alexandra Shipp), Psylocke (Olivia Munn), Anjo (Ben Hardy) e o próprio Magneto, planeja, como todo vilão padrão, dominar o mundo.

Por outro lado, a Escola Xavier para Jovens Superdotados está estabelecida e com ela temos uma gama de novos alunos para integrar o elenco, incluindo Jean Grey (Sophie Turner), Ciclope (Tye Sheridan), Destrutor (Lucas Till) e Jubilee (Lana Condor). A dinâmica entre a nova turma é ótima e com isso se garante que, em possíveis filmes futuros, a transição de elenco possa ser feita de maneira adequada.

Como se pode perceber, o elenco desse filme é imenso e por isso nem todos são aproveitados como poderiam ser. Sem a questão política como plano de fundo, mas com uma divindade como vilão, o filme desperdiça também a oportunidade de debater questões religiosas mais a fundo. Magneto, por exemplo, vive afastado de todos com sua esposa e filha, que são mortas por forças policiais. O clichê da mulher na geladeira, que demonstra preguiça no tratamento do roteiro, é utilizado para motivar o personagem, que se une ao grupo de Apocalipse. Em determinado momento ele olha para o céu e grita “É isso que você quer?”, questionando um deus que nada lhe responde, indiferente. A religião do personagem, o judaísmo, é intrinsecamente conectada à sua trajetória, que passa por um campo de concentração alemão na II Guerra Mundial. Noturno (Kodi Smit-McPhee), cujo catolicismo também marca sua caracterização, também não é explorado nesse sentido. Apocalipse, por sua vez, ao despertar revela ter sido chamado de Rá, mas também de Pushan (divindade solar hindu) e Elohim (um dos termos utilizados para se referir a Javé, deus judaico-cristão, no Antigo Testamento). Não deixa de ser estranho, já ele foi enterrado antes dessas religiões terem se estabelecido. De qualquer maneira, o que poderia ser uma abordagem que trouxesse à tona as crenças dos personagens limita-se a esse breve verniz mitológico.

Outro problema do filme é a passagem de tempo: são vinte anos entre ele e X-Men: Primeira Classe, mas os atores pouco ou nada envelheceram nessas décadas. Magneto, que presenciou, como já mencionado, a II Guerra Mundial, deveria ter em torno de 50 anos. Mercúrio, que era um jovem em Dias de um Futuro Esquecido, dez anos antes, segue sem mudar de aparência. Poderia citar um a um os atores que participaram da trilogia, porque o problema é generalizado.

Por fim, Oscar Isaac foi desperdiçado em um vilão desinteressante, escondido atrás de uma maquiagem de qualidade duvidosa. Sem motivações fortes, seu plano maligno de dominação é genérico e culmina em uma batalha anticlimática, em que tudo se resolve fácil demais ante a ameaça que ele parecia oferecer.

Por outro lado, a direção de arte do filme, como nos anteriores, é competente e a recriação da década, especialmente através das roupas, é muito bem realizada. Além disso, Sophie Turner e Alexandra Shipp se mostraram ótimos acréscimos ao elenco.

Esse foi o quarto filme da franquia X-Men dirigido por Bryan Singer, o segundo na atual trilogia e o mais fraco dentre eles. Em uma cena os mutantes adolescentes saem do cinema, onde assistiram a O Retorno de Jedi um deles desfere um comentário afirmando que “o terceiro filme é sempre o pior”. Synger provavelmente não se deu conta de que isso poderia se referir a sua própria obra. De toda forma, o carisma dos personagens e a empatia que sentimos por eles ajudam a sustentar a carregar o expectador pela trama que nem sempre entrega todo o seu potencial.

3estrelas

x-men apocalypse

 

P.S. Hugh Jackman faz uma breve participação, que além de desnecessária demonstra o desgasto de Wolverine enquanto personagem na franquia.

 

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