[43ª Mostra de São Paulo] A Fera e a Festa (La Fiera e la Fiesta, 2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Vera (Geraldine Chaplin) é uma atriz que chega à República Dominicana para realizar um sonho: reencontrar seus amigos do mundo do cinema, entre eles Henry (Udo Kier), para que possam gravar um roteiro inédito. Trata-se do musical A Fera e a Festa, escrito pelo cineasta dominicano Jean-Louis Jorge, que faleceu em 2000. Acontece que Jorge realmente existiu e partiu dos diretores do filme, Laura Amelia Guzmán e Israel Cárdenas, a ideia de adaptar o roteiro dele. Ou seja, A Fera e a Festa é o filme e o filme dentro do filme em um processo metalinguístico.

Essa proposta parece ser bastante interessante, mas na prática a execução é confusa. O roteiro original trata de uma história de vampiros, que aqui é borrada com os personagens apresentados. A própria Vera passa o filme inteiro com um casaco de vinil preto, que range ao menos movimento, às vezes com a gola levantada, remetendo ao imaginário de um vampiro clássico.

O sangue é um elemento visual recorrente, que aparece na boca de uma estátua de mármore ou no corpo de uma dançarina nua e morta em uma banheira. Quando os dançarinos são contratados, um deles, Yony, com longos cabelos, corta sua coxa em um acidente com um vidro. Vera acode e lambe os dedos com que manipulou o sangue. Mais para frente diz que ele é deu neto e que sabe disso porque “têm o mesmo sangue”. A androginia das criaturas míticas e monstruosas também é acionada na aparência de Vera, mas também de Yony e de Stonem, a assistente.

As mortes que deveriam acontecer no filme que está sendo encenado, passam para a produção fictícia. Nesse momento há que se destacar que a estética utilizada é interessante, não só dos figurinos citados, que geram ambiguidades, mas também na fotografia que capta diversos momentos na hora dourada, tornando a água do mar vermelha e fazendo as cenas adquirirem um tom onírico.

Mas, afora isso, o filme e o filme dentro do filme se embaralham de uma maneira pouco atrativa. Talvez com algum contato com a filmografia de Jean-Louis Jorge o contexto auxiliasse o entendimento, mas como uma obra solo, que precisa funcionar por si só, a narrativa acaba por perder seu rumo. A Fera e a Festa pode até funcionar como proposta de exploração experimental, mas como um filme por si só, confunde mais que entretém.

Nota: 2 de 5 estrelas
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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Bacurau

Que roupa é essa menino?

Spoilers moderados à frente

Bacurau, dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é significativo em meio ao cenário político brasileiro de 2019, retratando processos e atores sociais que são muito próximos de nossa realidade, mas moldando-os em um complexo e instigante hibridismo de gênero. A história se desenrola na cidadezinha também chamada Bacurau, no Oeste de Pernambuco. A localização não é por acaso, pois o faroeste (sertanejo) se desenrolará por ali.

Longe demais das capitais, a população local está abandonada à sorte de um prefeito almofadinha, Tony Jr (Thardelly Lima) que só é capaz de lhes fornecer alimentos e medicações vencidos, alguns significativos caixões e o resto dos livros de qualquer outro lugar, tão decrépitos que são tratados como lixo. Passam pela região também uma classe média entreguista do sul (Karine Teles e Antonio Saboia) que os enxerga como um objeto curioso e exótico. Esses, na presença de estrangeiros, creem que estão em pé de igualdade com eles, porque se consideram brancos, “de regiões com colônias italianas e alemãs”. Não conseguem se perceber na sua própria latinidade e subalternidade em um mundo que olha com desprezo, ou no máximo desejo de exploração, para o Sul Global.

Bacurau está literalmente fora dos mapas, já que foi, de alguma forma apagada até mesmo das imagens de satélite. Um grupo de estadunidenses aficionados por armas antigas e liderados pelo alemão Michael (Udo Kier) escolhe o lugar para caçar a população um a um. A ficção científica se enredam na narrativa: em algum lugar um comando nunca mostrado mas sempre presente computa os pontos dos participantes. Nesse momento cabe ressaltar a importância do próprio isolamento geográfico da cidade, uma vez que sequer sabemos o que está acontecendo no resto do Brasil. No noticiário da televisão há uma pista, quando se anuncia as execuções públicas no Vale do Anhangabaú, dando sinais do tipo de regime político sob o qual o Brasil se encontra (e, mesmo, talvez, do porquê da colaboração facilitada com estrangeiros que prejudicam a própria população). 

Mas, ao contrário do que os gringos possam esperar, não há passividade na espera da população de Bacurau. Como Sete Samurais, eles aguardam, herdeiros de uma trajetória de sobrevivência. Nem o descaso da classe política, nem a exploração do capital, nem a abordagem colonial do estrangeiro derrubam Bacurau. Orgulhosamente perguntam a cada pessoa que entra se ela visitou o Museu da Cidade, sempre recebendo respostas repletas de descaso e desdém. Não por um acaso, o Museu e a Escola passam a ser os espaços da resistência local: o primeiro como o lugar próprio da memória; a segunda protegendo as crianças que a herdarão. O senso de localidade se reflete como pertencimento e este como identidade, seja por meio dos diversos marcadores sociais de diferença apresentados seja pela própria noção de ser nativo. Um museu pode ser um espaço de exclusão, de criação de narrativas, de construção de cânones pautados em um olhar de colonização. Mas, recobertos com ideias e artefatos de um passado de luta, resguardando os conhecimentos populares, ele se torna a muralha identitária da população. O Museu de Bacurau fala do sangue que já correu no lugar. Sangue é lavado, mas não todo, porque uma mancha pode somar a essa história. Se bacurau, a ave, está em extinção, Bacurau, a cidade, permanece.

Domingas (Sônia Braga), Teresa (Barbara Colen), Pacote (Thomas Aquino) e Lunga (Silvero Pereira) são facetas diversas que compõem uma mesma resistência. Nesse sentido o filme parece levantar a questão sobre quais são os mecanismos e as possibilidades para exercê-la. A Resistência é mulher, é negra e mestiça, é sertaneja. Acima de tudo, a Resistência performa gênero na sua não-conformidade: pode até ser violenta, caso assim seja necessário, mas é uma violência cuja performatividade não é apresentada como a de uma masculinidade tradicional, como nos retratos mais comuns. 

Em certo momento um personagem diz “não use clichês estúpidos para irritar”, o que parece brincar com o próprio filme, em que os personagens são esboços de personas e as situações apresentadas são bastante diretas, dialogando, novamente, com o nosso momento político, em que as posições precisam ser tomadas sem meias palavras. A complexidade fica por conta da estrutura e dos entrelaçamentos propostos. Seja faroeste, seja ficção científica, memória, identidade, pertencimento e resistência se emaranham em Bacurau.

4,5 de 5 estrelas
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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