[43ª Mostra de São Paulo] Mr. Jones (2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Agnieszka Holland, cineasta polonesa cujo pai era judeu, tem uma filmografia que reiteradamente se volta à II Guerra Mundial como seu objeto, de Colheita Amarga (Bittere Ernte, 1985), passando por Filhos da Guerra (Europa, Europa, 1990) até Na Escuridão (In Darkness, 2011). Todos esses filmes são debatidos no podcast Feito por Elas #o1 Agnieszka Holland, justamente sobre a diretora. Em Mr. Jones, com o roteiro de Andrea Chalupa, a diretora retrocede para a época que antecede esse evento histórico, para, dessa vez, abordar a União Soviética durante o ano de 1933.

O protagonista é o jornalista freelancer Gareth Jones (James Norton), que havia recém conseguido uma entrevista exclusiva com Adolf Hitler. Com as falas do ditador, o galês temia que a Alemanha marchasse para outros territórios da Europa, dando início a uma nova guerra. Tal preocupação foi recebida com descrença por seus colegas britânicos. Mas, agora, com a fama obtida com a matéria, pretende ir para a Rússia entrevistar Stalin, porque não consegue entender como, em pleno período que sucede a Grande Depressão, o país tem verba para as obras divulgadas na imprensa do Ocidente.

Embora em certo momento do filme seja dito que uma obra deve falar por si mesma, Holland se contradiz e insere George Orwell como fio condutor e, ao mesmo tempo, divisão de capítulos da história aqui apresentada, com trechos de A Revolução dos Bichos utilizados de maneira pontual como comentário didaticamente posicionado.

Esse didatismo se repete na maneira caricata como o roteiro se desenrola, passando, também, pelas escolhas estéticas da direção. Quando Jones chega a Moscou e acessa o hall do hotel onde se hospeda, projeta longas sombras no tapete de entrada, como se algo sinistro estivesse para ocorrer. Depois disso é apresentado para o correspondente do New York Times, Walter Duranty (Peter Sarsgaard), que o convida para uma festa em sua casa. A festa é retratada como um grande bacanal envolvendo pessoas importantes, fetiches e drogas. O próprio anfitrião circula nu, mancando com sua bengala. Já o protagonista mostra-se espantado, como se nunca antes houvesse visto algo como aquilo. Com muito moralismo o filme trata de estabelecer que o socialismo equivale à perversão.

Após apenas dois dias na cidade, Jones resolve investigar o interior da Ucrânia. Tal qual Chris McCandless, protagonista de Na Natureza Selvagem (Into the Wild, 2007), o faz despreparado. Toma um trem e leva consigo como alimento apenas um pedaço de pão e uma laranja. A laranja, fotografada com uma cor vistosa, contrasta com o cinza que recobre tudo mais, como uma forma de destacar a importância do alimento. Jones chega a uma aldeia distante, com neve na altura de suas panturrilhas, para descobrir que a população local está faminta e morrendo. É o Holocausto Ucraniano ou Holodomor, causado por Stálin e que levou milhões de pessoas à morte. Enquanto por onde passa reina o silêncio quase absoluto, o design de som do filme trata de amplificar o som de mastigação, conferindo ar dramático e desesperador à fome que o próprio protagonista passa, levando-o a comer cascas de árvores.

Com uma narrativa e uma estética bastante clássicas, fazendo uso de bonitos figurinos e fotografia, o filme usa cores dessaturadas quando Moscou é retratada e enche a tela de cores quando Jones volta à Inglaterra. Conversando com a também jornalista Ada Brooks (Vanessa Kirby), ele afirma que só há uma verdade, isenta de agenda. Novamente, o filme contradiz a fala do personagem, ao escancarar sua própria agenda no retorno dele à pátria. Ele se mostra chocado com o que chama de “fome causada por humanos” que testemunhou e, apesar de ter passado apenas duas noite em Moscou e não ter entrevistado Stalin, fala dele como se o conhecesse. Assim que anda pelas ruas de Londres, ele vê peças imensas de carne sendo carregadas, contrastando com os nacos de pão velho e duro encontrados na Ucrânia. Encontrou com seu editor em um café refinado, em frente ao qual crianças felizes brincavam, rindo, em uma rima com as crianças esquálidas e famintas, cantando sobre frio e fome, que encontrou na União Soviética.

Com essas cenas, Holland parece tentar nos convencer que todas as pessoas do Reino Unido teriam acesso a cafés sofisticados ou gordas peças de carne. Qualquer pessoa que tenha assistido à Call the Midwife, seriado baseado nas memórias de Jennifer Worth, sabe que tal fato está longe de corresponder à verdade. A autora era parteira e enfermeira nos bairros mais pobres de Londres, onde pessoas adoeciam e morriam por sua condição social e por “fome causada por humanos”, só que dentro do capitalismo. Ainda há que se lembrar as tantas “fomes causadas por humanos” que os britânicos infligiram ao povos que colonizaram, causando guerras civis e genocídios por meio de seu imperialismo também capitalista.

Não é querer diminuir a brutalidade do genocídio testemunhado por Jones, longe disso. Acontece que Agnieszka Holland defende tanto que não existe agenda quando se trata da verdade, que seu recorte específico e discurso didático acaba por construir Mr. Jones como uma espécie contraditória de propaganda anti-comunista retroativa, que se caracteriza como essa mesma agenda. Esteticamente bem realizado, o filme não sustenta sua própria política.

P.S. É significativo que a punição de Mr .Jones pela desobediência ao governo, retratada no filme, seja “punida” com a prática de jornalismo cultural.

Nota: 2 de 5 estrelas
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Missão: Impossível- Efeito Fallout (Missão: Impossível- Fallout, 2018)

É comum se dizer que Tom Cruise é um dos últimos astros à moda antiga: carrega consigo sua persona dentro e fora das telonas e ainda é capaz de atrair bilheteria apenas com seu nome. Apesar das notícias relacionadas à sua religião, a cientologia, como o afastamento de sua filha mais nova, Suri, seu sucesso não se abala. E com Missão: Impossível- Efeito Fallout, sexto filme da franquia que chega a vinte e dois anos de idade, mostra que continua carregando Ethan Hunt, seu protagonista, com carisma, mostrando porque os filmes de ação são onipresentes em sua carreira nos últimos anos.

O filme é dirigido por Christopher McQuarrie,o primeiro diretor a trabalhar duas vezes na série, retornando após Missão: Impossível – Nação Secreta (Mission: Impossible – Rogue Nation, 2015). Com isso ele dá continuidade de maneira direta àquela trama. Solomon Lane (Sean Harris), terrorista anarquista preso no filme anterior, aparece novamente, mas dessa vez o Sindicato, como se chama o grupo que lidera, é comandado pelo anônimo John Lark que afirma que “quanto maior o sofrimento, maior a paz”. Por isso pretende matar cerca de um terço da população mundial com a detonação de uma bomba nuclear na divisa entre China e Paquistão. Política não é a força do roteiro e é utilizada apenas para dar sentido às reviravoltas mirabolantes.

O humor continua sendo, justamente, um ponto forte, marcado na presença recorrente dos personagens Luther (Ving Rhames) e Benji (Simon Pegg). A eles soma-se August Walker (Henry Cavill), simpático em seu bigode mas muitas vezes bastante inabilidoso ao ler suas falas. O absurdo manifestado nas máscaras de borracha que imitam perfeitamente o rosto de outra pessoa, apenas para revelar a identidade real por trás delas continua sendo utilizado com sucesso. É uma estratégia que lembra as tramas rocambolescas de Scooby Doo, mas que é efetivo, resgatando o clima de espionagem exagerado, pautado na Guerra Fria, que permeava o seriado de televisão que originou os filmes. Em certo momento é falado que eles agem como se fosse Halloween: adultos mascarados falando “gostosuras ou travessuras”. Mas, como a própria trama trata de assegurar, essa é parte da sua graça.

É uma pena que o carinho dedicado à equipe masculina não se estenda às mulheres do elenco. A vilã Viúva Branca (Vanessa Kirby) é desperdiçada em subtramas que ao final são descartadas. Erica Sloan (Angela Basset) é responsável por algumas das piores decisões do filme, ao não confiar na IMF. E mesmo Ilsa Faust (Rebecca Ferguson), que foi introduzida na película anterior como uma personagem de destaque, aqui se divide entre o papel de antagonista inexplicável, interesse amoroso e até mesmo donzela em perigo (por mais que ela mesma se salve). Pelo menos se manteve o cuidado em relação ao seu figurino e é possível vê-la de paletó e sapatilha, perfeitamente confortável para lutar em uma sequência de ação movimentada em uma casa noturna. A volta à cena da primeira esposa de Ethan, Julia (Michelle Monaghan) desvela a escrita fraca e preguiçosa por trás de ambas, que, em uma construção genérica de destreza e destemor, acabam por serem praticamente intercambiáveis.

Como nos demais filmes da franquia, as set pieces chamam atenção e entre elas há uma cena de luta em um banheiro particularmente frenética. Tom Cruise corre, como sempre, e segue fazendo suas cenas sem dublês. Mas nem tudo funciona. Uma longa perseguições de carros em Paris se torna rapidamente repetitiva. Um veículo preso em um lugar alto ameaçando cair sobre as pessoas abaixo e uma luta perto de um desfiladeiro já foram feitos melhor em Jurassic Park: Parque dos Dinossauros (1993) e Pantera Negra (2018), por exemplo. Mas a sequência que se destaca é a que tem sido utilizada para divulgar o filme: uma perseguição de helicópteros que bailam entrem penhascos e montanhas.

Apesar dos deslizes, Missão: Impossível – Efeito Fallout é um filme que diverte e entretém, mostrando que a franquia não só se mantem consistente, como ainda tem fôlego para seguir em frente, enquanto o físico e disposição de seu astro permitirem.

Nota: 3,5 de 5 estrelas

 

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