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42ª Mostra de São Paulo- Garotas em Fuga

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 18 e 31 de outubro na cidade. 

Em Garotas em Fuga (Cavale, 2018), Kathy (Lisa Viance) é uma adolescente órfã de mãe que foi levada a uma instituição psiquiátrica e colocada como colega de quarto são de mais duas meninas, Nabila (Yamina Zaghouani) e Carole (Noa Pellizari). Rapidamente fica claro que seu comportamento não seria de ajuda em sua situação: ao mesmo tempo em que é calada, se recusa a obedecer as regras que lhe são impostas.

Nesse momento o filme destaca de a violência institucional que marca a normativa daquele local, numa tentativa de apagar qualquer traço de personalidade das internas. Não há espaço para afeto nem para liberdade na rotina daquele lugar. Além disso, a medicalização a que são forçadas mostra que qualquer tipo de comportamento divergente ou desviante é entendido como patológico e precisa ser controlado, mas que isso não é uma forma de cuidado e de carinho, mas algo imposto sem que se importa com o impacto das ações.

Em um descuido das figuras de autoridade do local, Kathy consegue fugir e Nabila e Carole a seguem, mostrando o porquê do título do filme. Nesse momento, ele se torna um um road movie focado no desejo da protagonista de encontrar seu pai, que havia sido identificado pela mãe. O pai seria quase como que uma figura mítica, que representaria cuidado e proteção em um mundo que lhe é tão hostil.

Mas a viagem não é feita apenas de diversão: as garotas nem sempre se entendem e embora existam os momentos de carinho, de risadas e de alegria juvenil descompromissada,elas já foram marcadas por tempo demais pela violência para não terem sido afetadas. A crueldade das relações que se repetem fica clara. Bullying e agressividade se fazem presentes na comunicação entre elas, porque essa é a forma de se relacionar que é ensinada ou acentuada pela institucionalização.

A direção de Virginie Gourmel potencializa a tensão e o desconforto de cada uma, não privando a narrativa de temas pesados como o vício, a automutilação, a depressão, a solidão e o desamparo de suas protagonistas. O processo de crescimento pode ser mais difícil para algumas pessoas do que para outras e Garotas em Fuga destaca a dureza de um mundo que pune as garotas que fogem às regras do que se espera delas e onde não há espaço para ternura ou esperança.

Nota: 4 de 5 estrelas

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