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Figurino: O Grande Hotel Budapeste

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 20/08/2014.

O Grande Hotel Budapeste, último filme de Wes Anderson, reúne um grande elenco em uma obra que apesar da temática mais sombria que a de seus filmes anteriores, bem como de certa violência, ainda que estilizada, mantém o tom fabulesco e a estética impecável que lhe são característicos. O design de produção faz uso de maquetes e miniaturas (também como em filmes anteriores) e o figurino é assinado pela veterana Milena Canonero, que também foi responsável por Barry Lyndon, já aqui comentado.
O filme retrata três décadas diferentes, cada uma com suas paletas de cores e até mesmo razões de aspecto específicas, diferenciando umas das outras.
Logo na sequência de abertura vemos uma menina com camiseta rabiscada, sobretudo adornado com botons, boina, meias brancas e pesados sapatos pretos caminhando na neve para homenagear um Autor no cemitério. O tipo de roupa da garota já nos remete a personagens de filmes passados do diretor. Embora algumas peças pareçam ser antiquadas ou passar uma imagem de bom comportamento, são os detalhes que revelam que debaixo dessa superfície algo deve estar se agitando no fictício país de Zubrowka.
O ano é 1985. Passamos a um escritório onde o Autor (Tom Wilkinson) fala com o espectador sobre sua trajetória. Móveis antigos e pesadas cortinas laranjadas adornam a sala e ele veste, de forma muito conservadora, paletó marrom de lã, com gravatas em tom de caramelo. Tudo é sem vida e sem frescor, como se sobrevivessem a algum regime político que subjugou a população, o que depois nos é revelado.
A narrativa passa para o ano de 1968, quando o jovem Escritor (Jude Law) conhece Zero Moustafa (Murray Abraham), o misterioso proprietário do Hotel Budapeste. Este decide conta-lo a história de como adquiriu o hotel.
Moustafa veste-se de azul marinho, vinho e marrom, uma combinação um tanto quanto inusitada e de gosto duvidoso

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Acrescenta-se a isso o hall do hotel com paredes cor de laranja e móveis em laca brilhante em amarelo intenso e verde amarelado. A fachada ganhou um letreiro alaranjado e a libré dos funcionários é em um tom aberto de roxo. As paredes são cobertas de painéis amadeirados com aparência barata. Todas as cores contrastam de um jeito estranho entre si. Tudo isso serve para indicar que com o passar dos anos o Hotel foi redecorado para um estilo modernista cafona, com aparência decadente, possivelmente filtrado pelo regime.

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Moustafa retrocede a narrativa para o ano de 1932. Foi ali que, ainda chamado simplesmente de Zero (Tony Revolori) começou a trabalhar no hotel como ajudante, contratado pelo exuberante M. Gustave (Ralph Fiennes). Esse período é retratado como uma época de opulência e bom gosto. A libré dos funcionários no passado também era roxa, mas em um tom mais fechado. O hall é decorado em vermelho e dourado e possui um ar de grandiosidade. As mesmas cores se repetem no salão de refeições. Embora as cores ainda sejam contrastantes, formam uma composição mais refinada e grandiosa.

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As paredes dos ambientes são de um tom de rosa pálido, novamente evocando o passado de forma saudosista, retratando-o como mais elegante. O retrato da década é repleto de tons pastel.

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M. Gustave se envolve de forma bastante intensa com as suas hóspedes mais idosas. Uma delas, Madame D. (Tilda Swinton), veste-se de forma extravagante e suas ricas roupas são inspiradas pela obra do artista Gustav Klimt. As peças foram confeccionadas pela grife Fendi.

O beijo, de Gustav Klimt.

O beijo, de Gustav Klimt.

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A marca também foi responsável pelos casacos com bordas de pele utilizados pela polícia.

Casaco ao centro confeccionado pela marca Fendi.

Casaco ao centro confeccionado pela marca Fendi.

É fácil perceber que em meio a todo o festival de cores utilizadas no filme, não é por acaso que a polícia e o exército fascista são retratados em cinza e preto. Eles são as figuras de autoridade a se temer e roubam a cor a seu redor. A mesma cor é utilizada para marcar pessoas relacionadas a Madame D: sua família de luto e especificamente seu filho Dmitri (Adrien Brody), além do capanga Jopling (Willem Dafoe). Este último utiliza um sobretudo de couro confeccionado pela grife Prada.

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Sobretudo de couro produzido pela marca Prada.

Sobretudo de couro produzido pela marca Prada.

Ela também contribuiu com a produção de um conjunto de malas utilizadas por Madame M.

Ao fundo, malas Prada confeccionadas especialmente para o filme.

Ao fundo, malas Prada confeccionadas especialmente para o filme.

A colaboração entre Wes Anderson e Prada começou com duas peças publicitárias dirigidas por ele: uma campanha para o perfume Candy, estrelada por Léa Seydoux e um curta, Castello Cavalcanti, estrelado por Jason Schwartzman e Giada Colagrande.


Wes Anderson é conhecido por fetichizar roupas e cenários de seus filmes, tornando-os parte essencial do visual esquematicamente composto para eles. O Grande Hotel Budapeste talvez não tenha roupas tão marcantes como Os Excêntricos Tenenbaums e mesmo Moonrise Kingdom, mas ainda assim elas fazem parte de um conjunto que provavelmente é sua mais elegante composição até agora. A temática está mais madura, embora aspectos políticos continuem sendo secundários e experimentação estilística segue sendo o ponto forte. O trabalho de Milena Canonero é lúdico, mas mais que isso, dialoga com cenários criando, mais uma vez, as paletas de cores inusitadas que são características do diretor.

Para ler mais sobre o uso de cores e perspectiva em O Grande Hotel Budapeste, acesse aqui.

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O Grande Hotel Budapeste, cores e perspectivas

Quando analisamos um filme de Wes Anderson dois aspectos principais chamam a atenção: o uso de cores e a perspectiva. Seu novo filme, O Grande Hotel Budapeste, por exemplo, tem cenas que ocorrem em três décadas diferentes, cada década representada por um esquema de cores próprio.

É interessante tentar analisar as composições de cores no filme. Tomemos um círculo cromático, por exemplo. Esse círculo já foi visto e feito por todos que já tiveram algum tipo de aula de desenho. Trata-se das três cores primárias (azul, amarelo e vermelho) combinadas para gerar as três cores secundárias (verde laranja e roxo), que por sua vez são misturadas às primárias, gerando as cores terciárias.

Círculo cromático

Círculo cromático

Quando observamos um círculo cromático, as formas mais simples de fazer cores combinarem entre si são o uso de cores complementares (que se localizam em lados oposto do círculo) e as análogas (as duas cores vizinhas uma cor escolhida). Todas as cores possuem tons mais claros e mais escuros, que dizem respeito ao acréscimo de preto à matiz original. Ao observarmos todas as possibilidades de combinações de cores que são dispostas em O Grande Hotel Budapeste, (bem como outros filmes do diretor) o que se percebe é que elas seguem essas lógicas. Apesar disso as paletas são mais complexas e ainda assim criam o efeito desejado.

Hall do Grande Hotel Budapeste na década de 1960

Hall do Hotel Budapeste na década de 1960

Nesta cena no Hotel em que é mostrado seu Hall na década de 1960, por exemplo, o amarelo aberto e o verde-amarelado até conversam entre si, por serem cores análogas, mas o laranja está distante destes no círculo e o roxo não é complementar a nenhuma delas. A ideia é que a década seja caracterizada pelo uso de cores estranhas, que não criam harmonia.

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Hall do Hotel Budapeste na década de 1930

Na década de 30, o mesmo hotel tem um Hall não só decorado com maior grandiosidade, mas também as cores que predominam, vermelho e tons rosados, pertencem à mesma escala. Assim, através do uso de cores, Wes Anderson e sua direção de arte garantem a sensação para o espectador de que algo está desconexo na década de 1960, mas tudo está como deveria na década de 30.

Outro ponto interessante na composição das cenas é o uso constante, quase exclusivo, de perspectivas com apenas um ponto de fuga. Essa forma de retratar um objeto coloca o espectador de frente para ele e o transforma em algo que pode até transmitir senso de profundidade, mas passa a ideia de cenário artificial. Isso acontece porque na vida real raramente paramos exatamente no centro de um cômodo, de forma perpendicular à parede. Geralmente nós formamos algum ângulo que garante uma perspectiva com dois pontos de fuga, expandindo a visão para laterais dos objetos.

Perspectivas com um e com dois pontos de fuga (desculpe a tosquice, os desenhos tem mais de 10 anos)

Perspectivas com um e com dois pontos de fuga (desculpe a tosquice, os desenhos tem mais de 10 anos)

Assim, no filme, as linhas estão sempre convergindo para um ponto imaginário ao fundo da cena, fazendo com que tudo tenha aparência de cenário, e criando imagens que parecem tableaus

perspectiva

Perspectivas com um ponto de fuga

A opção por esse ângulo específico para composição de cena se repete em sua filmografia, demonstrando a intencionalidade de compor imagens teatrais.

Esses foram apenas dois exemplos de aspectos que chamam atenção no filme, já que Wes Anderson tem um estilo bastante característico e seus filmes são facilmente marcados como sendo seus.

 

Para ler mais sobre o figurino de O Grande Hotel Budapeste, acesse aqui.

 

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Moonrise Kingdom (2012)

Assistido em: 15/01/2012


Mais novo filme fabulesco de Wes Anderson, em que ele está wesardersoniando como nunca. Está tudo lá: a paleta de cores quentes, o visual retrô (se passa em 1965), os personagens meio esquisitos e inadequados… Basicamente é a história de um menino  e uma menina, ambos com 12 anos, que resolvem fugir juntos. A história não tem muito mais que isso. Achei bonitinho.
Obs: Estaria Wes Anderson timburtuniando?

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