Bacurau

Que roupa é essa menino?

Spoilers moderados à frente

Bacurau, dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é significativo em meio ao cenário político brasileiro de 2019, retratando processos e atores sociais que são muito próximos de nossa realidade, mas moldando-os em um complexo e instigante hibridismo de gênero. A história se desenrola na cidadezinha também chamada Bacurau, no Oeste de Pernambuco. A localização não é por acaso, pois o faroeste (sertanejo) se desenrolará por ali.

Longe demais das capitais, a população local está abandonada à sorte de um prefeito almofadinha, Tony Jr (Thardelly Lima) que só é capaz de lhes fornecer alimentos e medicações vencidos, alguns significativos caixões e o resto dos livros de qualquer outro lugar, tão decrépitos que são tratados como lixo. Passam pela região também uma classe média entreguista do sul (Karine Teles e Antonio Saboia) que os enxerga como um objeto curioso e exótico. Esses, na presença de estrangeiros, creem que estão em pé de igualdade com eles, porque se consideram brancos, “de regiões com colônias italianas e alemãs”. Não conseguem se perceber na sua própria latinidade e subalternidade em um mundo que olha com desprezo, ou no máximo desejo de exploração, para o Sul Global.

Bacurau está literalmente fora dos mapas, já que foi, de alguma forma apagada até mesmo das imagens de satélite. Um grupo de estadunidenses aficionados por armas antigas e liderados pelo alemão Michael (Udo Kier) escolhe o lugar para caçar a população um a um. A ficção científica se enredam na narrativa: em algum lugar um comando nunca mostrado mas sempre presente computa os pontos dos participantes. Nesse momento cabe ressaltar a importância do próprio isolamento geográfico da cidade, uma vez que sequer sabemos o que está acontecendo no resto do Brasil. No noticiário da televisão há uma pista, quando se anuncia as execuções públicas no Vale do Anhangabaú, dando sinais do tipo de regime político sob o qual o Brasil se encontra (e, mesmo, talvez, do porquê da colaboração facilitada com estrangeiros que prejudicam a própria população). 

Mas, ao contrário do que os gringos possam esperar, não há passividade na espera da população de Bacurau. Como Sete Samurais, eles aguardam, herdeiros de uma trajetória de sobrevivência. Nem o descaso da classe política, nem a exploração do capital, nem a abordagem colonial do estrangeiro derrubam Bacurau. Orgulhosamente perguntam a cada pessoa que entra se ela visitou o Museu da Cidade, sempre recebendo respostas repletas de descaso e desdém. Não por um acaso, o Museu e a Escola passam a ser os espaços da resistência local: o primeiro como o lugar próprio da memória; a segunda protegendo as crianças que a herdarão. O senso de localidade se reflete como pertencimento e este como identidade, seja por meio dos diversos marcadores sociais de diferença apresentados seja pela própria noção de ser nativo. Um museu pode ser um espaço de exclusão, de criação de narrativas, de construção de cânones pautados em um olhar de colonização. Mas, recobertos com ideias e artefatos de um passado de luta, resguardando os conhecimentos populares, ele se torna a muralha identitária da população. O Museu de Bacurau fala do sangue que já correu no lugar. Sangue é lavado, mas não todo, porque uma mancha pode somar a essa história. Se bacurau, a ave, está em extinção, Bacurau, a cidade, permanece.

Domingas (Sônia Braga), Teresa (Barbara Colen), Pacote (Thomas Aquino) e Lunga (Silvero Pereira) são facetas diversas que compõem uma mesma resistência. Nesse sentido o filme parece levantar a questão sobre quais são os mecanismos e as possibilidades para exercê-la. A Resistência é mulher, é negra e mestiça, é sertaneja. Acima de tudo, a Resistência performa gênero na sua não-conformidade: pode até ser violenta, caso assim seja necessário, mas é uma violência cuja performatividade não é apresentada como a de uma masculinidade tradicional, como nos retratos mais comuns. 

Em certo momento um personagem diz “não use clichês estúpidos para irritar”, o que parece brincar com o próprio filme, em que os personagens são esboços de personas e as situações apresentadas são bastante diretas, dialogando, novamente, com o nosso momento político, em que as posições precisam ser tomadas sem meias palavras. A complexidade fica por conta da estrutura e dos entrelaçamentos propostos. Seja faroeste, seja ficção científica, memória, identidade, pertencimento e resistência se emaranham em Bacurau.

4,5 de 5 estrelas
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015)

Em E Não Sobrou Nenhum (anteriormente chamado de O Caso dos Dez Negrinhos), de 1939, um dos romances policiais mais famosos da escritora britânica Agatha Christie, dez desconhecidos se vêm confinados em uma casa isolada em uma ilha durante um fim de semana. Eles morrem um a um, gradativamente aumentando a tensão entre os sobreviventes, que precisam descobrir quem é o responsável pelos assassinatos. A premissa da cabana isolada não é nenhuma novidade, mas o diretor e roteirista Quentin Tarantino faz bom uso dela em Os Oito Odiados. Kurt Russel é John Ruth, um caçador de recompensas que transporta Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), por quem são oferecidos dez mil dólares viva ou morta, dinheiro o bastante para aguçar a cobiça alheia. Em meio a uma nevasca, juntam-se a eles o também caçador de recompensas Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e Chris Mannix ( Walton Goggins), que afirma ser o novo xerife da cidade vizinha, Red Rock, além do guia da diligência, O.B Jackson (James Parks). Para abrigar-se da neve, param em uma estalagem onde estão o veterano dos confederados General Sandy Smithers (Bruce Dern), o mexicano Bob (Demián Bichir), Oswaldo Mobray (Tim Roth) e o janota Joe Gage (Michael Madsen), formando, assim o grupo que dá nome ao filme.

western funciona como uma peça de teatro, com poucas mudanças de cenário e diálogos afiados desde o começo. De fato, os três primeiros atos se sustentam basicamente em torno deles e são a melhor parte do filme.

O uso largamente propagandeado de câmeras Panavision 70mm resultaram em uma fotografia muita bonita. Na abertura vemos a diligência cortando a neve, engolida pela natureza ao seu redor, enquanto os créditos rolam de maneira bastante tradicional, acompanhados da trilha sonora de Ennio Morricone.

A largura extrema da razão de aspecto favorece tomadas externas e a captura da paisagem como um personagem da trama. Por isso, depois que o filme se encerra na estalagem, ela poderia ser desperdiçada nas mãos de um diretor menos habilidoso, mas continua servindo ao propósito narrativo aqui. O cenário, construído com muitos móveis entulhados de pequenos objetos, é desvelado ao espectador em detalhes. Mas, mais que isso, essa razão permite a observação de ações paralelas durante os diálogos. A profundidade de campo também é explorada de maneira sugestiva e interessante e o terceiro ato, especificamente, tem uma sequência em que ela é utilizada de maneira alternada com o foco em dois personagens, em um momento de negociação que funciona muito bem.

As referências, como em outros filmes do diretor, são várias. Do grupo heterogêneo em No Tempo das Diligências, passando pelo ameaça interna, ambientação e alguns detalhes provenientes de O Enigma de Outro Mundo até chegar na auto-referência em relação a Cães de Aluguel.

São os diálogos, como já mencionado, que seguram e desenrolam lentamente o filme. O isolamento alimenta a tensão entre os personagens, que é pautada nos conflitos já existentes nesses Estados Unidos pós-Guerra da Secessão. Em cena há representantes da União e dos Confederados. Temos um homem da lei, militares e uma fora-da-lei. Há questões de classe social e também de migração. A sociedade americana está representada no pequeno grupo composto por oito pessoas. Mas o mais importante: ele escancara os conflitos étnico-raciais e de gênero. O racismo torna-se o foco principal. Homens brancos destratando homens negros, destratando homens latinos e todos odiando todos.

E nesse ponto Tarantino perde a mão. Parece que tentou rebater as críticas, especialmente do também diretor e roteirista Spike Lee, de que ele aborda questões raciais de maneira insensível. Mas o fez de maneira a demonstrar ainda mais a falta de cuidado com que trata o tema. O filme não precisa ter caráter de crítica social, mas é isso que ele propõe ao colocar frente a frente Warren, um ex-militar negro, e sulistas racistas e confederados. Na verdade, Tarantino já havia feito coisa similar ao confrontar um grupo de mulheres e um stalker misógino em À Prova de Morte, judeus e nazistas em Bastardos Inglórios e um homem negro escravizado e liberto e escravistas em Django Livre.

Por isso a quantidade de vezes que seus personagens falam “nigger”, expressão de cunho racista, é desconfortável. Sim, todos eles são pessoas desagradáveis e o desenvolvimento deles torna isso claro. Mas as falas são colocadas sem crítica e sem ironia, permitindo uma ambiguidade perigosa ao texto.

O mesmo ocorre, em relação a gênero, especialmente com o tratamento conferido a Daisy. O fato de o diretor se apresentar como aliado de causas anti-racistas e feministas o exime de autocrítica? Daisy é apresentada como assassina, mas seus crimes não são deixados claros. Como outros, ela profere injúrias racistas, mas por estar acorrentada, não pode reagir àqueles ao seu redor de forma violenta. Mesmo que reagisse de alguma forma, é patente que todos os demais tem um prazer especial em dirigir seus atos violentos a ela. Os homens em cena repetidamente a chamam de vadia e empilham a violência física. Sangue é derramado, dentes se vão, seu rosto e cabelos são cobertos por pedaços de outros seres humanos, mas não é dado a ela a chance de se limpar ou de se apresentar humana como os demais. Há um certo prazer na forma lenta como ela é torturada. O mesmo ocorre com as demais personagens femininas, reveladas em flashback.

Aí também questiono porque o diretor tem tanto apelo entre o grande público e o que esse mesmo está entendendo sobre o que assiste em seus filmes. Toda cena que envolvia algum personagem duvidando que Warren, por ser negro, tivesse uma carta escrita de próprio punho por Lincoln, foi recebida com grandes gargalhadas pela plateia. Cada soco desferido no rosto de Daisy foi recebido com vibrações, risadas e exclamações dizendo “Esse é o Tarantino” e “Tarantino é foda”. Com o tratamento ambíguo dado ao texto, o discurso é comprado de forma literal e a tortura vira pornografia que deleita um espectador que compactua com os preconceitos e opressões apresentados.

Assim, o terceiro ato do filme se perde ao se transformar em um banho de sangue que não tem o propósito de comentar nada em específico: serve apenas como catarse para o isolamento dos personagens. Violência é esperada nos filmes de Tarantino, mas a falta de uma amarração faz com que ela enfraqueça o restante do texto. As alianças mudam e os comentários a respeito do racismo são esquecidos. E se nos seus filmes anteriores citados aqui o confronto final era a realização de um sonho de vingança violenta de uma minoria oprimida em relação aos seus opressores, a cena final desse torna-se uma aberração discursiva que não se encaixa nessa lógica. Homens brancos e negros, sulistas e nortistas, se juntam com o intuito de dar a última palavra e dominar a mulher, unidos no mesmo sorriso de escárnio. O que Tarantino tenta dizer? Qual é a conclusão que se espera que tenhamos diante dessa cena, no contexto de sua obra?

Os Oito Odiados não parece ter suas quase três horas de duração. Tem uma bela fotografia e uma trilha sonora competente, com atuação forte de todo o seu elenco, direção de arte impecável e diálogos bem escritos. O filme peca no terceiro ato porque Tarantino parece esquecer que o pastiche pós-moderno que lhe é tão querido só funciona com o uso de ironia para clarear os discursos. Mas mesmo assim é um filme interessante e visualmente bonito.

3,5estrelas

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Vento e Areia (The Wind, 1928)

Baseado em uma novela de Dorothy Scarborough e dirigido pelo sueco Victor Sjöström, Vento e Areia conta a história de Letty (Lillian Gish) uma jovem que se muda para uma região afastada e inóspita, para morar com o primo. Devido a problemas com a esposa deste, aceita casar-se com um pretendente local, Lige (Lars Hanson), cuja casa fica a quilômetros de qualquer vizinho. A região, assolada por ventos ininterruptos, parece espelhar a angústia interna da personagem, que se vê só com um desconhecido, em uma situação de vulnerabilidade.

O filme impressiona com a forma como compõe uma atmosfera de tensão em um crescendo que se torna insuportável. O diretor faz uso de closes em objetos específicos e nos pés dos personagens, em determinados momentos, de forma muito significativa. É possível sentir o desespero causado pelo vento que nunca para de soprar e a angústia interna da protagonista, levada à loucura por ele. A agonia mental e física causada pelos uivos e das paredes batendo é quase palpável, apesar de se tratar de um filme mudo. A areia que se acumula nos cantos e se infiltra até mesmo na comida, a casa que nunca fica limpa, a dificuldade de cavar no terreno e depois de manter o que se quer enterrado: tudo é mostrado com maestria.  É um filme dramático e bonito e Lillian Gish, que já é uma atriz admirável, brilha praticamente sozinha em cena.

Obs: Antes de o filme começar, a própria Lillian Gish conta, em depoimento que o final se trata de uma imposição do estúdio. Dessa forma, abstraí desse detalhe para minha avaliação.

5estrelas

 

 

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Figurino: Três Homens em Conflito – construção de arquétipos

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 07/05/2014.

 

Três Homens em Conflito (The Good, The Bad and The Ugly) é o terceiro filme da Trilogia dos Dólares, dirigida por Sergio Leone, que também inclui Por um Punhado de Dólares e Por uns Dólares a Mais, todos protagonizados pelo chamado Homem Sem Nome. Como muitos filmes do gênero western, este explora largamente o uso de arquétipos muito bem definidos e o figurino de Carlo Simi busca destacá-los.
No inóspito oeste americano, a paisagem árida e pouco receptiva serve de alegoria para o que se passa na mente dos protagonistas. O ser humano colocado contra o meio ambiente na verdade reflete o ser humano contra ele mesmo. Os longos silêncios, pontuados pela bela trilha sonora de Ennio Morricone, demonstram que suas ações pouco necessitam de palavras.
Dessa forma, somos apresentados primeiramente a Angel Eyes (o “mal” do título original, interpretado por Lee Van Cleef), que de forma bastante significativa utiliza um chapéu preto e uma jaqueta encerada suja, além de uma espécie de echarpe branca.

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Já seu contraponto, apelidado de Blondie (o “bom”, interpretado por Clint Eastwood), aparece pela primeira vez de costas, utilizando um sobretudo claro e bastante limpo, em contrate com os demais homens da cena. Além disso o chapéu branco e a echarpe preta o colocam claramente em oposição ao outro.

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Trata-se de homens não só sem nome, mas sem passado e sem uma história que lhes sustentem as ações que transcorrem em tela, que aparecem motivadas pela recompensa mais imediata: o dinheiro.
A ética de Tuco (o “feio”, interpretado por Eli Wallach) oscila conforma sua conveniência. Ele aparece ao ser capturado por Blondie, no que depois se revelou ser um esquema para dividir o prêmio que estava sendo oferecido por ele. Veste colete de lã e camisa suja. Posteriormente trocará esta roupa por um poncho esfarrapado e uma camisa em mau estado. Sempre se apresenta de maneira desconjuntada, ao contrário dos outros dois protagonistas, que, se não limpos, pelo menos vestem trajes bem cortados.

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É interessante notar que em meio a tanta devastação, encontra-se certa vaidade expressa nas escolhas das vestimentas dos personagens. A estampa da camisa de Blondie é um exemplo, parecendo quase extravagante nesse contexto em que há pouca diversidade de cores nos trajes, de maneira que textura é essencial para criar variação visual.

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Chapéus com borlas em franja de certos pistoleiros e mesmo esporas bem polidas (e sugestivamente enquadradas) podem-se somar à lista.

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A partir de meados da trama, Blondie passa a vestir um colete de pele de carneiro, sobre o qual posteriormente acrescenta um sobretudo simples. Ao se deparar com um rapaz morrendo, ferido na Guerra da Secessão, o cobre com o casaco para trazer um pouco de calor aos seus últimos minutos. Blondie reflete que nunca viu homens tão desperdiçados como na guerra. Chama a atenção esse comentário, vindo do código de honra de um pistoleiro e caçador de recompensas. Ele esboça um movimento para pegar o casaco de volta, mas opta por deixá-lo com o rapaz. Esse momento é uma clara demonstração de empatia e até mesmo bondade por parte dele, embora bondade nesse lugar seja relativizada. Ele jamais pode ser visto como um mocinho convencional, mas ao abrir mão de uma peça de sua roupa, demonstra ainda ser capaz de se comover.

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Os três personagens voltam a se encontrar ao final: Tuco portando trajes rasgados, dignos de sua ética dúbia, enquanto Angel Eyes e Blondie estão novamente limpos, mas com uma diferença: este último agora passa a usar um poncho, que acaba por remeter diretamente às roupas usadas pelo Homem Sem Nome nos outros dois filmes da trilogia e compor a aparência mais icônica do personagem.

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Três Homens em Conflito é um clássico do western e, como a maior parte dos filmes do gênero, tece sua trama em torno de elementos específicos que se repetem. Embora a moralidade dos personagens possa ser questionada, não é raro ver mocinhos e vilões serem identificados de forma simples e direta através da cor de seus chapéus. Aqui não se foge a essa diretriz, mas vemos certas alterações e desenvolvimentos, especialmente de Blondie. Leone gosta de closes e por isso detalhes das vestimentas são sempre trazidos para perto do espectador. Apesar de não ter uma grande variedade de roupas apresentadas, trata-se de um filme com estética icônica e trajes competentes na construção dos arquétipos que os vestem.

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O Cavaleiro Solitário (The Lone Ranger/2013)

Assistido em 30/07/2013

Sei que devemos manter a mente aberta às possibilidades e livre de ideias pre-concebidas ao assistir um filme, mas com esse não consegui: fui assistir esperando o pior. E isso foi bom para mim.

Gore Verbinski, o diretor, já havia deixado claro seu interesse pelo gênero western nos seus Piratas do Caribe e especialmente em Rango. Essa era para ser a história de origem do herói Cavaleiro Solitário, contada dentro do gênero. A figura mascarada é John Reid (Armie Hammer), um ranger do Texas recém chegado da cidade grande, que sobrevive a uma emboscada onde seu irmão morre e descobre um esquema para avançar as estradas de ferro e incriminar a população indígena. Ele recebe a improvável ajuda de Tonto (Johnny Depp), um índio da etnia Comanche que passa a ser seu sidekick. Acontece que como o ajudante tem um cachê maior que o herói, sua presença em cena acaba sendo mais explorada. Acredito que boa parte dos cinéfilos já está farta da mesmice dos trabalhos feitos por Johnny Depp, fortemente apoiados em maquiagem exagerada e trejeitos. Aqui eles continuam e adiciona-se a lista o problemático red face  (quando um ator não-indígena interpreta um personagem que o é. Para ler um pouco mais sobre isso clique aqui).  O Tonto de Depp tem todos os estereótipos racistas possíveis, acrescidos de excentricidades bizarras: fala errado e pomposo, tenta se comunicar com a natureza de formas estranhas, leva um corvo morto em sua cabeça, que “alimenta” esporadicamente com farelo. Por outro lado, ele é o verdadeiro cérebro da dupla, já que Reid é um ingênuo incorrigível. Além disso, os demais indígenas do filme parecem ser interpretados por pessoas pertencentes aos primeiros povos e não são mostrados como excêntricos. Na verdade um Chefe explica que Tonto sofreu um grande trauma na infância, que deixou sua mente quebrada, o que explicaria seu comportamento.

Uma distração desnecessária em meio a trama é a cafetina Red, interpretada por Helena Bonham Carter. Seu papel é pequeno (e mesmo assim nos materiais de divulgação é dado a entender que é uma das protagonistas) e sua presença é distrativa. A atriz, assim como Depp, parece estar presa sempre ao mesmo tipo de papel.

Polêmicas à parte, o filme flui bem, embora pudesse facilmente perder uma meia hora de sua duração. Talvez por ter esperado pouco ou quase nada dele, me peguei imersa e me divertindo com a história. Ela peca em não saber se quer ser drama ou comédia (o que novamente o torna desconfortável na forma como aborda o genocídio de índios para o avanço da ferrovia), mas os protagonistas têm suficiente carisma para transformá-lo em uma boa sessão da tarde. A abertura, com um menino vestido de Cavaleiro Solitário em um parque de diversões, décadas após os acontecimentos, garante a aura de magia e de legado que o herói transmite. A mensagem, “nunca tire a máscara”, é interessante por lembrar que para fazer coisas justas às vezes é necessário agir fora da lei. E fora isso, os elementos dos “bangue-bangues” juvenis, com suas cavalgadas, perseguições, corridas no tetos de trens e “hi-yo, Silver” estão todos lá.

O Cavaleiro Solitário não é um ótimo filme, mas mesmo cheio de problemas entretém, diverte e deixa patente o empenho da equipe que o produziu.  Pena que com o fracasso de bilheteria dificilmente terá uma continuação.

Lone-Ranger

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