Vidas Secas (1963)

Assistido em 25/08/2013

Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala. 

Arrastaram-se para lá, devagar, Sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeço, Fabiano sombrio, cambaio, aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.

Graciliano Ramos- Vidas Secas

Adaptado do livro homônimo de Graciliano Ramos e dirigido por Nelson Pereira dos Santos, Vidas Secas é um marco do Cinema Novo, com forte influência neorrealista. Sem uso de trilha sonora, retrata o sofrimento de uma família de retirantes no sertão de forma pungente. O pai é Fabiano, a mãe Sinha Vitória. Os dois meninos não tem nome, mas a cachorra se chama Baleia. A película já começa com o grande clarão do sol forte que queima e mata nesse contexto e a família caminhando para algum destino, como na abertura do livro. A adaptação, aliás, é extremamente fiel, captando as sensações e o imagético transmitidos na leitura.  Na ausência da música, os ruídos ajudam a construir a realidade. Mas são os longos silêncios que constroem a grandeza da obra. Quando o ser humano está o mais próximo do bicho, tendo como sua única preocupação a sobrevivência, todo e qualquer diálogo é supérfluo. Não só supérfluo, como difícil.

Quando iam pegando no sono, arrepiavam-se, tinham precisão de virar-se, chegavam-se à trempe e ouviam a conversa dos pais. Não era propriamente conversa, eram frases soltas, espaçadas, com repetições e incongruências. As vezes um interjeição gutural dava energia ao discurso ambíguo. Na verdade nenhum deles prestava atenção às palavras do outro: iam exibindo imagens que lhes vinham ao espírito, e as imagens sucediam-se, deformavam-se, não havia meio de domina-las. Como os recursos de expressão eram minguados, tentavam remediar a deficiência falando alto.

É interessante perceber como as palavras tem poder nesse contexto de comunicação precária. Um nome garante um lugar e uma significância. Em certo trecho do livro que não aparece no filme, os meninos se maravilham com todos os objetos bonitos que vêm na cidade.

Ocupavam-se em descobrir uma enorme quantidade de objetos. Comunicaram baixinho um ao outro as surpresas que os enchiam. Impossível imaginar tantas maravilhas juntas. O menino mais novo teve uma dúvida e apresentou-a timidamente ao irmão. Seria que aquilo tinha sido feito por gente? O menino mais velho hesitou, espiou as lojas, as toldas iluminadas, as moças bem vestidas. Encolheu os ombros. Talvez aquilo tivesse sido feito por gente. Nova dificuldade chegou-lhe ao espírito soprou-a no ouvido do irmão. Provavelmente aquelas coisas tinham nomes. O menino mais novo interrogou-o com os olhos. Sim, com certeza as preciosidades que se exibiam nos alteres da igreja e nas prateleiras das lojas tinham nomes.

As coisas tem nomes. As preciosidades tem nomes. Os meninos não tem. Os meninos não chegam sequer a ser gente. Quem é gente é a cachorra Baleia. Ela tem nome e é a personagem mais próxima da natureza humana na história. O filme o tempo todo mostra que o ser humano perdeu a noção de humanidade e fere os demais animais sem dó. Nada daquilo os afeta. É necessário sobreviver. E como bicho acoado, Fabiano tem medo de qualquer autoridade. E Sinha Vitória quer um dia ter uma cama de couro, porque então seriam que nem gente.

Após um inverno trabalhando em uma fazenda (para um patrão sempre disposto a roubar uns trocados do pagamento), com a volta do verão a jornada recomeça. A vida é um círculo vicioso: entre andadas e paradas ela se constrói no sonho de que um dia as coisas vão mudar e melhorar. Se não para si, para seus filhos. Um dia.

Nesse ano o livro Vidas Secas completa 75 anos e o filme, 50 anos. O primeiro trata-se de leitura obrigatória para quem gosta de boa literatura e o segundo é uma adaptação à sua altura. Para um debate maior a respeito do filme e seu diretor, ouça o Podcast VIDAS SECAS e os filmes de Nelson Pereira dos Santos, do Cinema em Cena.

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Isabel Wittmann

Catarinense, 33 anos, louca por bichos, feminista. Hoje mora em São Paulo, mas já passou uns anos no Amazonas. Crítica de cinema, doutoranda em Antropologia Social, podcaster e pesquisadora de gênero.