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Figurino: Jogos Vorazes- Em Chamas: moda e ambiguidade na Capital

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 20/11/2013.

Chegou às telonas Jogos Vorazes: Em Chamas, segundo filme adaptado da série de livros distópico-futuristas de Suzanne Collins. Entre o primeiro e este, muitas mudanças ocorreram: o orçamento quase dobrou, de 78 para 140 milhões de dólares (o que transparece no resultado final); trocou-se o diretor (de Gary Ross para Francis Lawrence) e com ele parte da equipe técnica, incluindo a figurinista, que era Judianna Makovsky (de A Princesinha) e passou a ser Trish Summerville, nome em ascensão após Millenium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres.

Summerville possui um método de trabalho que é pouco apreciado por outros figurinistas: busca parcerias com estilistas e coordena seus trabalhos. Geralmente quando isso ocorre, o nome do estilista sobressai-se ao do figurinista (como Miuccia Prada em O Grande Gatsby) ou há polêmicas em relação à autoria (como ocorreu em O Cisne Negro). (links para ambas as colunas) Ela orquestra os envolvidos e suas estéticas de uma maneira que o que sobressai ao final ainda é sua visão e o que fica gravado é o seu nome. Sabe se beneficiar como ninguém dessa prática mercadológica de explorar o mundo da moda no cinema. Em Jogos Vorazes: Em Chamas, aproveitou o universo criado por Makovsky e avançou, ampliando a escala.
Nos distritos, predominam materiais naturais, como linho, algodão e couro, em cores esmaecidas e tons de cinza e bege. A modelagem continua remetendo às décadas de 1930 e 1940, em uma clara alusão aos regimes totalitaristas que dominavam a Europa nesse período. A vida ali não é fácil e as roupas devem ser práticas, visando as atividades cotidianas.
O uniforme dos guardas pacificadores passou por pequenas alterações. Mantém-se a alvura (que contrasta com as roupas dos habitantes dos distritos), mas a bota passa a ser também branca e acrescenta-se uma placa peitoral e uma nas costas com textura de esqueleto, além de joelheiras, aumentando a organicidade do conjunto.

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Enquanto está em casa, Katniss (Jennifer Lawrence) continua usando a jaqueta de couro do primeiro filme, mas sobre ela é acrescentada uma espécie de cachecol-colete, executado pela designer de tricô Maria Dora. A peça tem um formato interessante, deixando clara a influência da Capital, ao mesmo tempo em que é confeccionada em lã (fibra natural, do distrito), e tem aparência de feita em casa.

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Ao longo da Turnê dos Vitoriosos Katniss utiliza outras peças de lã, bem como outras roupas que seguem o mesmo conceito: minimalistas, como as do distrito, mas com detalhes que despertem o interesse, remetendo à Capital. Seu estilo de se vestir amadureceu. Afinal, após ter vencido a 74ª edição dos Jogos Vorazes, ela não só não é mais a mesma garota do ano anterior, como passa a ser uma pessoa pública, de interesse coletivo e apelo televisivo.

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Um exemplo é o macacão azul-marinho com cinto marrom utilizado no dia do sorteio: ele quase parece uma roupa de trabalho, mas o corte ajustado confere-lhe elegância e demonstra haver design por trás de sua criação.
Peeta (Josh Hutcherson) também começa a usar roupas mais maduras: Summeville o veste em camadas e utiliza muitas jaquetas de maneira a destacar seu porte físico. Seu terno de casamento, feito pelo estilista coreano Juunj, tem corte estruturado, arquitetural: a lapela fendida gera tridimensionalidade à roupa. O toque futurista é acentuado pelo colarinho da camisa, seus punhos e o lenço, substituídos por versões metálicas.

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Para a festa antes dos jogos, o vestido preto com detalhes vermelhos de Katniss aproveita de forma pouco sutil seu apelido de “garota em chamas”.

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O mesmo ocorre com o vestido de casamento, utilizado na transmissão televisiva. Volumoso e com muitas camadas, ele possui uma trama metálica próxima ao ombro em forma de chama, ao mesmo tempo em que tem adornos feitos com penas, lembrando o papel de Katniss como o tordo, símbolo da revolução que ocorre nos distritos. O traje foi desenhado e confeccionado por Tex Saverio, estilista indonésio. Quando Katniss rodopia, o vestido é consumido pelas chamas, transformando-se em outro, negro e com asas. Dessa forma o papel duplo (e dúbio) da personagem é frisado: o povo da Capital a vê como entretenimento: a garota em chamas da televisão; mas sob o espetáculo, esconde-se o símbolo da esperança e da revolução nos distritos.

Croqui do vestido de casamento por Tex Saverio

Croqui do vestido de casamento por Tex Saverio

Entre os novos personagens, dois se destacam. Finnick Odair (Sam Claflin) e Johanna Manson (Jenna Malone). Finnick é do Distrito 4, responsável pela pesca, e por isso, para sua apresentação, usa uma saia de tricô dourado, para lembrar uma rede de pesca, acompanhada de um cinto e, como acessório, um colar de conchas. Já Johanna, do distrito 7, responsável pela produção de lenha e madeira, veste um longo vestido marrom, com lascas de tronco de árvore subindo pelo seu pescoço, criando uma aparência de desconforto.

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A personagem com guarda-roupa mais variado e interessante não poderia ser outra: Effie Trinket. No primeiro filme da série, Joadianna Makovsky teve como inspiração para a moda da capital a obra da estilista Elsa Schiaparelli, marcada pelo surrealismo. Agora, Summerville tem uma inspiração mais próxima de nossos tempos: a marca Alexander McQueen, conhecida pelos excessos em sua estética e que atualmente tem suas coleções criadas por Sarah Burton.

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A inspiração é patente no vestido de casamento de Katniss, mas literal no vestuário de Effie: Seus vestidos são todos retirados de coleções recentes da marca. Não deixa de ser uma escolha interessante, porque o povo da capital vive para o espetáculo e isso coloca a alta-costura como símbolo dessa futilidade.

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Ao mesmo tempo, Effie representa nós mesmos, a plateia sedenta por entretenimento e coisas bonitas aos olhos, por vezes sem perceber as implicações políticas disso. Para Effie, a primavera já chegou (por isso as borboletas monarcas em seu vestido) e não parece se dar conta de que o povo fora da Capital vive um longo inverno de fome, opressão e medo.

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Ao fazer uso de roupas de grife para compor o figurino, e levando-se em conta a temática do filme, Trish Summerville fez uma crítica (talvez inconsciente) às próprias indústrias da moda e do entretenimento. Demonstra talento ao unir trabalhos tão diversos e manter a unidade da proposta visual. Jogos Vorazes: Em Chamas evoluiu muito os conceitos utilizados no primeiro filme e apresenta-se como um produto melhor acabado. E nós, como o povo da Capital, o assistimos, sedentos por ver o desfile de belos trajes utilizados em cena, enquanto em algum lugar dos distritos, faz-se a revolução.

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Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire/ 2013)

Assistido em 15/11/2013

Post sem spoilers!

Jogos Vorazes: Em Chamas, segundo filme da franquia, teve quase o dobro do orçamento do primeiro: de 78 milhões de dólares passou para 140 milhões. Desses, 10 milhões foram o cachê de Jennifer Lawrence, pois nesse meio tempo ganhou fama e tornou-se oscarizada. Um belo salto em relação aos 500 mil que recebeu no anterior. Mas mesmo assim, a verba extra é perceptível em todas os momentos na produção.

O filme começa alguns meses depois do fim dos Jogos Vorazes. Katniss (Jennifer Lawrence) e Peeta (Josh Hutcherson) moram em casas contíguas na vila dos vencedores, onde também reside Haymitch (Woody Harrelson). Após encarnarem os amantes trágicos diante de toda a nação e saírem ambos vitorioso, agora eles mal sem falam. Ela voltou às caçadas com Gale (Liam Hemsworth) e tem visíveis sintomas de stress pós-traumático. Ninguém sabe exatamente o que está acontecendo, mas têm a percepção de que algo está mudando por conta da última edição do jogos. As consequências de seus atos são ponto central da trama. Para Katniss isso fica patente quando o Presidente Snow (Donald Sutherland) aparece em sua casa e a avisa que a turnê dos vitoriosos logo se iniciará e que nos distritos muitos não acreditam na história de amor entre ela e Peeta, vendo, sim, um desafio ao poder da Capital. Ameaçando a vida de sua mãe (Paula Malcomson)  e de Prim (Willow Shields), a sua irmã, além da de Gale, Snow quer ter certeza de que ela se esforçará para representar satisfatoriamente a sua relação com Peeta, para não causar mais levantes na turnê dos vitorioso que virá. Apenas lá Katniss e Peeta começam a ter noção da dimensão do que vem acontecendo.

Com um novo gamemaker, Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman), a 75ª edição será um Massacre Quartenário, jogo que acontece a cada vinte e cinco anos com regras diferentes. O presidente está decidido a enfraquecer a figura dos tributos vencedores. Assim Plutarch sugere que relembrem que o motivo dos jogos existirem é para mostrar aos distritos o que ocorre com quem se rebela contra a Capital. Os contornos políticos da distopia fortalecem-se.

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Katniss está fragilizada nesse ponto da história. Ela se tornou o símbolo de uma revolução sem ter querido ou percebido. Aqui ela, com o auxílio de Cinna (Lenny Krevitz), liteiralmente encarna o mockinjay. O que ela queria era sobreviver com sua família, mas se viu mergulhar em uma trama complexa que não sabe como lidar. Jennifer Lawrence encarna esse momento da personagem com precisão. Embora eu não tenha concordado com a escalação da atriz para o papel (por trata-se de um embranquecimento da personagem em relação ao livro), não há como negar seu talento.

Gale e Effie Trinket (Elizabeth Banks) tem suas participações ampliadas nesse filme. Ela tem até mesmo o nome mencionado algumas vezes, fato que não ocorreu no primeiro filme. Essa presença é bastante positiva, pois ela nos representa nesse contexto. Ela é o povo da Capital, sedento por coisas bonitas e entretenimento, assim como, ironicamente, a plateia que o assiste. Se ela não tem noção da dimensão política dos acontecimentos, não é por mal: embora alienada, tem bom coração.

Entre os novos personagens, uma surpresa positiva foi o de Finnick Odair (Sam Claflin). Ao ver as fotos do ator na escalação do elenco, não achei ele combinasse com o personagem, mas sua atuação me desmentiu. Além disso, uma cena do livro envolvendo outra personagem nova, Johanna (Jena Malone), que havia comentado no dia anterior que tinha certeza que seria cortada em virtude da classificação etária do filme, não só foi executada, como melhorada.

Aliás, em termos de adaptação, o filme como um todo se saiu muito bem. O livro Em Chamas é fortemente prejudicado por ser o meio da série, além de ter uma parte de trama repetida do primeiro livro.  Para o filme, houve a percepção de que essa parte não funcionaria e houve uma redução considerável, embora não pudesse ser extirpada da trama. (Ainda assim citaria esse como o maior ponto fraco da película). Todas as alterações feitas serviram para melhorar a história e, por vezes, dar mais impacto às ações dos personagens. Levando-se em conta que, como já mencionei, o aumento de recursos transparece na tela, o segundo filme parece melhor que o primeiro, mesmo sendo apenas um elo de ligação.

Sobre os aspectos técnicos, tudo mudou de escala. Os espaços da Capital estão mais grandiosos. A computação gráfica melhorou bastante, embora o fogo ainda não seja realista. Os figurinos estão ainda mais vistosos. Novamente, paguei minha língua. A figurinista do primeiro filme, Judianna Makovsky (de A Princesinha), foi substituída nesse por Trish Summerville (que já havia feito Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, onde abusou de uma estética exagerada que caricaturou a personagem Lisbeth). Aqui ela novamente cometeu excessos, mas que casaram com o contexto da Capital. A fotografia está muito melhor, sem o uso de câmeras tremidas.

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O final do filme deixa claro que muito mais está por vir. Embora tenha escrito para jovens, Suzanne Collins não diluiu os conceitos que norteiam sua trama. A Esperança, o terceiro e mais forte dos livros, será dividido em dois filmes e se o nível da produção permanecer o mesmo, tudo indica que será algo memorável em termos de produto para o público infanto-juvenil (e, porque não, adulto). Em Chamas provou que o aumento da escala da produção apenas beneficiou-a. A verba extra não se perdeu em efeitos especiais vazios, mas possibilitou a execução aprimorada das ideias e a ampliação do senso de urgência e do suspense, pois algo se agita abaixo aparente calmaria.

Quem só queria ler meu comentário sobre o filme, pode encerrar por aqui. Agora vou relatar a experiência antropológica que foi assistir a ele no dia de estreia. O cinema que geralmente frequento abriu uma sala dublada e uma legendada. Dirigi-me sozinha até ele no início da tarde. Todas as sessões dessas salas já estavam esgotadas, mas havia sido aberta uma terceira sala, legendada. Consegui ingresso para o segundo horário, 15:20. Passei nas Americanas para comprar um salgadinho e percebi que o shopping estava lotado de grupinhos de pré-adolescentes e adolescentes. Faltando meia hora para a sessão segui para a sala. Para minha surpresa, era muito pequena: provavelmente a menor sala de cinema que já frequentei na vida. Quando entrei a maioria dos lugares já estavam ocupados e muitos estavam reservados com bolsas e pipocas. Sentei-me próxima ao corredor, no alto, e agucei os ouvidos. À minha esquerda um grupos composto por duas meninas e um menino, com aproximadamente catorze anos, relatavam o segundo livro inteiro! Fiquei com pena de quem assiste o filme sem ler os livros. À minha direita, do outro lado do corredor, um grupelho de cinco meninos com em torno de 10 anos faziam algazarra. Atrás de mim, algumas adolescentes e uma criança muito pequena, que mau sabia pronunciar palavras ainda. Em algum ponto da sala um bebê chorava. (Porque as pessoas levam bebês para sessões que sabem que serão tumultuadas?). Uma das meninas do meu lado tecia comentários apaixonados a respeito de Peeta. A segunda negou veementemente cada frase dela. Alegou que preferia Gale, porque foi o único que lutou pela revolução. Segundo ela, Katniss lutou pela Prim, Peeta, (mais ou menos) lutou pela Katniss e Gale foi o único que lutou por todos. “Você não lembra no primeiro filme, que no começo ele já sugere pra Katniss?”. A primeira, a contragosto, concordou com os argumentos, mas diz ainda preferir Peeta. Os trailers começaram mas foram interrompidos por problema na projeção, que estava sem foco e com som estourado. Alguém no fundo grita “liga pra Net!” e a sala toda cai na gargalhada. Eu já estava meio tensa, pensando que ia me incomodar horrores com essa plateia. Acontece que, assim como eu, a maior parte era composta por fãs. Fãs um tanto mais efusivos e sem controle do que essa quase balzaca que vos escreve, claro, mas fãs. Irritei-me e soltei palavrões quando a menina ao meu lado ATENDEU o celular não uma, mas três vezes! Sua mãe estava a sua procura, aparentemente. Além disso a criança pequena atrás de mim simplesmente não sabia o que estava acontecendo. A cada meia dúzia de cenas ela perguntava “ela morreu? ele morreu?”. Mas no final estava mais engraçado que irritante. O grupo de meninos chamou Ceasar de gay algumas vezes. Fora isso, foi até muito interessante, quase como uma experiência além do filme. É claro que beijos despertaram risinhos. Mas em dois momentos importantes em que eu me contraía com um sentimento de “fuck yeah” na cadeira, o pessoalzinho menos reprimido aplaudiu fervorosamente, o que contribuiu com o clima da cena. Em outros dois momentos, pelo menos metade do cinema ergueu os braços e até mesmo alguém talentoso atrás de mim fez o assovio do mockinjay. Perguntaram-me se eu achava que esse público entendia que não era só uma aventura ou um triângulo amoroso, se percebiam o aspecto político, ainda que leve, na obra. Pelo que ouvi ao meu redor, os mais novos estão alheios e estão lá pela diversão, mas a política certamente faz parte das discussões entre os mais velhos. Geralmente eu sou chata, muito chata, em relação ao comportamento das pessoas no cinema. Quero ver meu filme com silêncio total em torno de mim. Mas nesse caso, em que os próprios livros (e a Jennifer Lawrence) me transformam em fangirl adolescente, em minha opinião, essa experiência coletiva foi extremamente válida, porque é um filme que desperta essa empolgação. É uma geração sortuda (essa e a anterior com Harry Potter), pois a minha não teve nenhum produto cultural para gerar esse tipo de paixão.

Para ler minha análise do figurino de Jogos Vorazes: Em Chamas, acesse aqui.

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Dicas Netflix Dezembro

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Esse mês não entraram muitos filmes interessantes no catálogo da Netflix, mas sempre tem alguns que podemos destacar. Todos os listados já tem link diretamente para o site. Vamos às dicas!

Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973)

O Casamento do Meu Melhor Amigo (My Best Friend’s Wedding, 1997)

Caminhos Perigosos é o segundo longa de Scorsese e já mostra traços do que viria a ser o corpo de trabalho do diretor.

Caminhos Perigosos é o segundo longa de Scorsese e já mostra traços do que viria a ser o corpo de trabalho do diretor.

Hannibal (2001): escrevi sobre o filme aqui.

Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Cathing Fire, 2013):  Escrevi sobre o filme aqui.

Jogos Vorazes: Em Chamas é o primeiro filme da série distópica estrelada por Jennifer Lawrence

Entre os filmes que já estavam no catálogo, sempre tentando manter a diversidade de gêneros, separei esses:

Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, 2006)

O Escafandro e a Borboleta (Le scaphandre et le papillon, 2007)

Star Trek (2009)

Além da Escuridão: Star Trek (Star Trek Into Darkness, 2013): escrevi sobre o filme aqui.

O Escafandro e a Borboleta é baseado na história real de Jean-Dominique Bauby, que após um derrame passou a se comunicar apenas com os olhos.

O Escafandro e a Borboleta é baseado na história real de Jean-Dominique Bauby, que após um derrame passou a se comunicar apenas com os olhos.

Drive (2011)

Onde os Fracos Não Tem Vez (No Country for Old Man, 2011)

Jane Eyre (2011)

Rango (2011)

Jane Eyre, adaptado do do romance gótico de Charlotte Brontë, dirigido por Cary Fukunaga (True Detective, Beasts of No Nation) e estrelado por Mia Wasikowska e Michael Fassbender.

Jane Eyre, adaptado do do romance gótico de Charlotte Brontë, dirigido por Cary Fukunaga (True Detective, Beasts of No Nation) e estrelado por Mia Wasikowska e Michael Fassbender.

Além desses filmes ficam as indicações de duas séries:

The Crown (2016)

Gilmore Girls: A Year in the Life (2016)

The Crown, série original da Netflix escrita por Peter Morgan (A Rainha, Frost/Nixon) que aborda os primeiros anos de reinado de Elizabeth II do Reino Unido, com uma direção de arte primorosa.

The Crown, série original da Netflix escrita por Peter Morgan (A Rainha, Frost/Nixon) que aborda os primeiros anos de reinado de Elizabeth II do Reino Unido, com uma direção de arte primorosa.

Bons filmes e até o mês que vem!

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Figurino: Jogos Vorazes: A Esperança- Final

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Aviso: este texto contém revelações de detalhes da trama.

Há jogos muito piores para jogar”.

Chegou aos cinemas Jogos Vorazes: A Esperança- O Final, último filme da franquia distópica baseada nos livros de Suzanne Collins, protagonizada pela personagem Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence). A direção novamente fica a cargo de Francis Lawrence e o figurino é da dupla Kurt & Bart, que trabalhou no filme anterior, além de Segredos de Sangue, que já foi analisado aqui no blog e pode ser conferido aqui.
Durante os três primeiros filmes, Katniss se mostrou uma personagem tridimensional, movida pela empatia e capaz de fazer o possível para ajudar os demais. De quando se voluntariou como tributo no lugar da irmã, Primrose (Willow Shields) até quando se tornou porta voz da campanha midiática do Distrito 13 contra a Capital de Panem, tudo que fez foi pensando naqueles ao seu redor que sofriam, mas não necessariamente com profundidade política.
A política, justamente, sempre teve um papel central na franquia. Muitos elementos do figurino da série remetem às décadas de 1930 e 1940, como o memorável vestido azul de Katniss no Dia da Colheita em Jogos Vorazes, bem como as roupas dos demais moradores dos distritos. Isso acontece para relacionar o poder autocrático de Snow (Donald Sutherland) com o totalitarismo fascista na Europa desse período.

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Por outro lado, no Distrito 13, que se rebela contra a capital, a população veste macacões cinza. Katniss continua não abotoando o seu até em cima, indicando que não se encaixa completamente nos padrões impostos pelas lideranças revolucionárias. Embora todos se vistam de cinza, as roupas não são exatamente as mesmas e a Presidente Alma Coin (Julianne Moore) se destaca com seus ternos bem cortados em tecidos estruturados. Como já foi mencionado na análise do filme anterior, Jogos Vorazes: A Esperança- Parte 1, todos são iguais, mas uns são mais iguais que os outros e ela encarna a revolução traída.

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Além da política, a própria mídia é outro ponto importante do filme. Nos três anteriores tece-se uma crítica a ela e à forma como se utiliza a criação e a projeção de uma imagem pessoal. Mas isso não é feito de maneira simplista: todos os lados fazem-se valer dessa arma valiosa. Isso é demonstrado especialmente através do papel dos organizadores, como Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman). Em Jogos Vorazes: Em Chamas Snow sabe que vestir Katniss de noiva para leva-la ao programa de Caesar Flickerman (Stanley Tucci) é uma forma de desviar a atenção do fato de a personagem tê-lo desafiado ao vivo nos 74os Jogos Vorazes para o suposto romance entre ela e Peeta (Josh Hutcherson), despolitizando sua presença televisiva. “Faça-o pagar por isso”, disse Johanna Mason (Jena Malone).

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Já Cinna (Lenny Kravitz) entendia que era importante criar empatia com a plateia, usando esses elementos midiáticos a seu favor e vinculando Katniss ao slogan “Garota em Chamas” através das suas roupas. Ele sabe que a plateia vai ama-la ao ver seu vestido pegando fogo. Da mesma forma, ele mesmo criou mensagem revolucionária através da roupa, vestindo Katniss como Tordo na apresentação televisiva dos 75os Jogos Vorazes. Por isso, se por um lado a mídia e a moda trabalham para criar o Pão e Circo que distrai a população da Capital (e não por acaso o país se chama Panem, de “panem et circenses”, em latim), por outro elas não se resumem a isso e podem ser apropriadas pelas causas.

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No terceiro filme Katniss recebe do 13º Distrito um traje de guerra funcional com armadura, mas praticamente só a utilizou em vídeos promocionais. Katniss caçava e sobrevivia à fome no 12º Distrito. Também sobreviveu a duas versões de arenas nos Jogos. Mas, de certa forma sua imagem foi cooptada pelo 13º Distrito, tornando-a um símbolo dela mesma, a sobrevivente que desafiou Snow, de maneira a servir como inspiração para o demais se unirem à revolução. Por mais que tenha agido com espontaneidade diante das câmeras de Créssida (Natalie Dormer) e discursado com sinceridade, é somente nesse quarto filme que ela o utiliza a roupa de guerra por necessidade, ao desobedecer às ordens de Coin e tomar novamente as rédeas de suas ações.
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O uso de cores no filme é bastante interessante. No terceiro ato, por exemplo, uma criança de vestido amarelo chama atenção para a ação que vai levar à morte centenas de pessoas, incluindo Primrose. A criança, seu vestido e as mortes conectam-se à última cena do filme. Depois desse ocorrido, Katniss passa a vestir-se de preto, em luto permanente até pouco antes do desfecho.

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Além disso, desde a imagens de divulgação o vermelho tem recebido destaque, marcando a revolução em andamento. Mas ele também marca o conflito e não por acaso Caesar Flickerman utiliza a cor em sua aparição na televisão, já que trabalha como um porta-voz dos interesses da Capital. Por outro lado, o próprio presidente Snow veste-se de vermelho em seu derradeiro diálogo, em que revela que a presidente Coin é mais parecida com ele do que ela supunha. Rodeados de rosas brancas que lhe são características, ele afirma que “Nada exprime perfeição como o branco”. Curiosamente branco é uma cor que quase não se manifesta nos figurinos desse quarto filme.

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Mas a cor que merece destaque maior é o cinza. Em minha análise do filme anterior, escrevi que a neutralidade da cor servia para marcar a falta de expressão de individualidade dos moradores do Distrito 13, quebrada eventualmente por detalhes criados por determinados personagens. Isso continua válido: a população da Capital tem liberdade de expressar-se através da moda que utiliza, enquanto os dissidentes apresentam-se literalmente uniformizados.
Mas o cinza aqui manifesta-se para além da uniformização. Ele funciona como motivo ou tema, comentando a ambiguidade política do cenário que se descortina ao final. Se Coin apresenta-se de cinza, também o fazem os políticos que apoiam Snow, ainda que com detalhes vermelhos. A própria população da Capital aparece menos colorida dessa vez. Mesmo Effie, que lutou para manter seu estilo no filme anterior agora veste um traje ainda extravagante, mas já lavado de cores, cinza. Para quem acompanhou os acontecimentos pelos bastidores, há a percepção de que por trás de toda a fachada, pouca diferença há entre um lado e outro.

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A Comandante Paylor (Patina Miller), do Distrito 8, eleita presidente, apresenta-se como uma mistura desses elementos: suas roupas são cinzas, mas estruturadas de forma geométrica, quase como que um origami, fugindo da funcionalidade dos demais revolucionários. E sob sua jaqueta, usa um tecido de estampa colorida, que de certa forma serve para liga-la a Capital, auxiliando sua aceitação através dessa expressão de individualidade.

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Conforme já ficou estabelecido, em todos os filmes da franquia Jogos Vorazes brincou-se com o figurino como uma maneira de usar a moda e a imagem pessoal para manipular o espectador dentro e fora do filme, especialmente através da imagem que Katniss projetou. Isso era feito não sem certa ironia, já que a imagem era utilizada também para criticar essa manipulação. Nesse filme isso não acontece mais. Mesmo, Tigris, a estilista, não é explorada nesse sentido.
Quando retorna à Vila dos Vitoriosos do 12º Distrito, Katniss volta para sua antiga jaqueta de couro. Ela não precisa mais ser nenhum personagem. Não precisa ser garota em chamas ou tordo. Não precisa mais usar os vestidos de que não gostava nem as fantasias de uma imagem vendida. Isso até a cena final, no futuro, em que ela é apresentada com um vestido amarelo com uma estampa do que parecem ser prímulas (Primrose, em inglês). A roupa é usada para conectá-la ao passado, para deixar claro que ela sempre estará marcada pelo luto e pela dor da perda e da guerra. A paisagem idílica, contrastando com o cinza da Capital e o vazio desolado de sua casa, acolhe Karniss, Peeta e seus dois filhos. Mas nesse último momento, Kurt & Bart parecem ter esquecido as camadas de subtexto presentes no contexto da obra e a vestem, sem nenhuma ironia, com o tipo de roupa que ela até então detestou. Isso para tentar criar uma imagem de final feliz convencional que se desconecta da jornada de Katniss. Parece uma derrota para uma personagem tão forte se apresentar assim, privada de seu papel de líder e, por fim, domesticada, presa a um vestido que representa o que há de mais tradicional em termos de papel de gênero.

Claro que colocado no contexto maior da produção dos filmes, essa imagem faz sentido. Conforme comentado na análise do figurino de Jogos Vorazes: Em Chamas, nós, espectadores, nos comportamos como o povo da Capital: queremos o entretenimento que a franquia nos fornece. Hollywood é a Capital: fornecendo diversão, coisas bonitas para que possamos olhar e personagens para os quais possamos torcer. Mas a revolução não pode ir longe demais porque se Hollywood é a Capital, ela não quer ser derrubada. A mídia é usada para oprimir nos livros de Collins, mas é o espetáculo visual que consumimos nos filmes. E esse entretenimento, no final das contas, não pode questionar o que está à mesa. Assim, ignorando o próprio trabalho feito com o figurino e a imagem dos personagens até então, Katniss é traída pela Lionsgate da mesma forma que a revolução de que foi símbolo na história original.

Jogos Vorazes: A Esperança- O Final não é um filme ruim e faz parte uma franquia de filmes voltados para o público juvenil que se destaca em um mar de mesmices justamente por abordar temas mais complexos e cheios de camadas do que o triângulo amoroso da média. Mas parece que muitas das sutilezas dos três primeiros filmes foram esquecidos nesse terceiro, que, por isso, tem um desfecho aquém das suas possibilidades e que não faz jus ao bom desenvolvimento de seus personagens até então.
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Figurino: Garota Exemplar

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Aviso: esse texto contém revelações de detalhes da trama do filme.

“Sim, eu te amei e então tudo que fizemos foi nos ressentir, controlar um ao outro. Nós nos causamos dor. ”

“Isso é casamento. ”

Garota Exemplar é um filme fascinante e manipulativo, que brinca com as expectativas de quem o assiste. Dirigido por David Fincher, seu roteiro foi adaptado por Gillian Flynn do livro homônimo escrito por ela mesma. O figurino é de Trish Summerville, relativamente novata na indústria e que antes desse filme trabalhou em Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, também com Fincher, e Jogos Vorazes: Em Chamas. (Para ler a análise do figurino deste último, acesse aqui). Embora com poucos filmes creditados em seu currículo, Summerville mostra segurança em seus trabalhos. O cuidado que teve para com a narrativa de Garota Exemplar é uma prova. Figurinos confeccionados para filmes de época ou mesmo de fantasia são facilmente elogiados, uma vez que geralmente tem maior apelo visual para o público. Muitas vezes a beleza de um figurino contemporâneo pode passar despercebida, justamente por ser mais sutil. Neste filme, cada detalhe ajuda a contar a história.

Acompanhamos a história sob o ponto de vista de Amy (Rosamund Pike), que, em seu diário, relata sua vida com Nick (Ben Affleck). Eles se conhecem de uma maneira que parece saída de uma comédia romântica, com direito a diálogos afiados e literalmente uma nuvem de açúcar os envolvendo. Amy veste uma camiseta listrada branca e preta, saia, botas de cano alto e sobretudo preto. Ela é uma típica nova-iorquina urbana, que dá preferência a roupas escuras e bem cortadas. Seguindo esse padrão, no dia em que Nick a pediu em casamento, usava um vestido preto e no aniversário de 2 anos de casamento, um floral preto e branco.

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Tudo ia bem na vida do casal, até Amy perceber que Nick não se esforçava como deveria. Desempregado, não tinha ambição nem objetivos, mas mantinha um padrão de consumo bastante elevado. O ápice da decepção veio com a necessidade de se mudar para o interior, para ficar mais perto da família dele. Trabalhando em casa e sem amigos, ela troca suas roupas modernas por calças, camisetas e pulôveres confortáveis. Amy deixa de ser quem ela realmente desejava ser. É assim, vestida inteiramente de preto que ela relata a primeira agressão de Nick e o medo constante decorrente dela.

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É no aniversário de cinco anos de casamento que Amy desaparece. Nick se torna o principal suspeito. Durante a manhã, ele sai de casa vestindo uma camiseta azul e uma camisa azul claro por cima. Dois dias depois ele ainda está com a mesma roupa, já amarrotada. Ao longo dos anos as roupas dele pouco vão mudar. Sua paleta é composta de azuis e cinzas, às vezes com estampas xadrez e suas roupas são camisetas, camisas de botão, moletons e calças jeans. Lembrando que o relato é sob o ponto de vista de Amy, ele é apresentado como um homem mediano, que não ousa, não a surpreende nem desafia. É um homem comum, apesar de tudo.

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Os pais de Amy aparecem para ajudar na busca da filha. Eles são apresentados como pessoas rígidas, que acham que ela jamais era boa o suficiente. Ainda quando ela era criança, criaram a personagem de livros infantis Amazing Amy como uma versão melhorada dela. Por serem entendidos por Amy como essas pessoas insípidas e incapazes de ter laços reais com ela, eles sempre aparecem vestidos em tons de bege.

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Amy, que como é revelado, fugiu de casa, ganha peso e começa a vestir roupas desleixadas, largas e sem muito apelo estético, para passar despercebida por onde vai.

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Ao ser roubada, precisa recorrer à ajuda de seu ex-namorado Desi (Neil Patrick Harris). Ele é passivo-agressivo e controlador e por isso escolhe as roupas que ela usa e a cor e o corte de seu cabelo. Não deixa de ser irônico, após seu discurso sobre a cool girl, que se adapta aos homens ao seu redor, já que de certa forma ela fez isso, mas por sobrevivência.

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Acompanhando pela televisão as notícias e investigações a respeito de seu suposto sequestro, Amy descobre em Nick o homem que aspirava que ele fosse quando casaram. Por isso ela resolve voltar e transformar esse retorno em um verdadeiro espetáculo midiático.

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Em um primeiro momento ela vende uma imagem de fragilidade, além de uma feminilidade tradicional, com tecidos fluidos e rendas.

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Ao final, quando revela a Nick sua gravidez, ela volta a assumir o controle da situação, a despeito da violência dele, e por isso retoma sua versão nova-iorquina, com um vestido em preto e branco, com corte reto e poucos detalhes. Dessa forma ela demonstra novamente quem é de verdade.

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O trabalho de Trish Summerville é impressionante: embora minimalista, casa com perfeição com a narrativa proposta por David Fincher. Até mesmo o fato de todos os personagens principais se vestirem em tons frios ou neutros dialoga com a total ausência de tons quentes no filme. Mesmo o filtro amarelo, que é intercalado ao branco-azulado na fotografia, não é cálido. Em um filme em que a construção dos personagens e nossa percepção a respeito deles é essencial para comprarmos as justificativas de suas ações e entendermos as negociações e reviravoltas, as roupas, mesmo que pouco percebidas, são de extrema importância.

“No que você está pensando? Como está se sentindo? O que fizemos um ao outro? O que faremos?”

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