Estante da Sala

Diário de uma filmografia: Julia Roberts

Dia dos Namorados chegando e com ele uma jovem tradição do Feito por Elas: um episódio sobre comédias românticas. Majoritariamente brancas e heteronormativas, o gênero tem uma infinidade de filmes repetitivos e pouco inspirados. Ainda assim tem exemplares deliciosos, que vão das comédias malucas da Hollywood clássica ao texto afiado de Nora Ephron. Em 2017 começamos com a própria Nora Ephron e a ela se seguiu a Nancy Meyers no ano seguinte, ambas roteiristas e diretoras estabelecidas no gênero. Em 2019 resolvemos falar sobre uma atriz: Sandra Bullock, uma das queridinhas dos romances da década de 1990. E veio a

Retrato de uma Jovem em Chamas

Mitos eurídiceque foi ao infernomorreu por amore morreu duas vezes(quantas vezes uma pessoapode morrer?quantas vezesna mesma vida?)as cenasperdidas do passadomitologia pessoalda época que foi inverno(aqui dentro)o espelho nada dizse quebra e fogediante do espectadorcacos Em sua filmografia, a cineasta francesa Céline Sciamma é afeita às questões de gênero, de performatividade, de corpo e de sexualidade. Nesse, que é seu primeiro drama histórico, não foge desses temas, explorando-os, mais uma vez, em um recorte de grande intimidade. Héloïse (Adèle Haenel) é uma jovem que será oferecida em casamento para um nobre italiano. Sua irmã mais velha, que morreu em circunstâncias que

[43ª Mostra de São Paulo] Alice Junior (2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade. “corpos que você não imagina, mulheres com pau homens com vagina” Esse poderia ser um filme adolescente como outro qualquer: Alice (Anne Celestino) é uma adolescente secundarista que mora sozinha com o pai, Jean Genet (Emmanuel Rosset) em Recife. Recebe dele a informação de que eles terão que se mudar para uma pequena cidade com 50 mil habitantes encravada no interior do Rio Grande do Sul, em virtude do trabalho dele. Ela, que nunca beijou

Rafiki (2018)

Romeu e Julieta: duas pessoas jovens de famílias com rivalidades políticas se apaixonam e querem ficar juntas. Essa é a premissa de Rafiki, filme queniano dirigido por Wanuri Kahiu. As protagonistas são Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva), ambas filhas de dois homens candidatos nas eleições locais e moradoras do mesmo conjunto habitacional. Ziki vê Kena no bar com os amigos ou andando de skate pela rua e Kena vê Ziki treinando coreografias na rua com as amigas. Elas se aproximam, criam laços e se apaixonam. Como muitos romances focados em personagens LGBT, isso não acontece sem turbulências. No

[8º Olhar de Cinema] A Portuguesa

Esta crítica faz parte da cobertura do 8ª Olhar de Cinema- Festival Internacional de Curitiba, que ocorre entre 5 e 13 de junho na cidade.  O cinema de Rita Azevedo Gomes é marcado pelo apuro estético e cuidado na composição. Em A Portuguesa não é diferente. A história da jovem portuguesa que se casa com o lorde Von Ketten e se muda para o norte da Itália é pano de fundo para a cineasta criar cenas de enorme beleza plástica. A Portuguesa é uma mulher que não encontra lugar na castelo em ruínas de seu marido sem recursos. Eles tiveram

Tatuagem (2013)

Essa crítica foi escrita em outubro de 2017 para um módulo que ministrei do curso A Crítica de Cinema por Dentro, realizado no SESC. Depois da abertura ruidosa em que vemos um mestre de cerimônias apresentando o grupo de teatro Chão de Estrelas, o silêncio. Fininha (Jesuita Barbosa), um dos protagonistas, aparece visualmente aprisionado entre as grades das camas de ferro do quartel onde serve, sentado enquanto seus colegas ainda dormem. A dualidade entre o caos e a ordem será uma constante em Tatuagem, que é bonito nas diversas facetas que a palavra pode expressar ao ser aplicada a um

42ª Mostra de São Paulo- Maya

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 18 e 31 de outubro na cidade.  A cineasta Mia Hansen-Løve afirmou em uma entrevista, em 2016, que “eu nunca fiz um filme que fosse literalmente sobre minha vida“. Claro, literalmente seria perceptível demais e talvez, mesmo, pouco interessante para ela mesma. Mas é fato que toma emprestado de acontecimento de sua vida e de seus familiares para compor suas obras. Eden (2014) é inspirado pelas experiências de seu irmão como DJ. O Que Está Por Vir (L’avenir, 2016) reflete o divórcio de