Estante da Sala

As Horas (The Hours, 2003)

[AVISO DE GATILHO: CONTEÚDO SENSÍVEL]Essa não é uma crítica. Transcrição da minha fala do Feito por Elas #114 As Horas publicada originalmente no Letterboxd. Eu localizei no meu diário quando vi As Horas no cinema, em 6 de março de 2003. O ingresso de estudante custava R$ 2,50 e eu anotei: “Muito poético. Demais o jeito que as 3 histórias paralelas se interligam subjetivamente. Meu candidato para melhor filme no Oscar”. Eu lembro de ter chorado desesperadamente. Eu não tinha lido nada da Virginia Woolf na época, mas a identificação foi enorme. Eu fui atrás de ler o livro As

Diário de uma filmografia: Julia Roberts

Dia dos Namorados chegando e com ele uma jovem tradição do Feito por Elas: um episódio sobre comédias românticas. Majoritariamente brancas e heteronormativas, o gênero tem uma infinidade de filmes repetitivos e pouco inspirados. Ainda assim tem exemplares deliciosos, que vão das comédias malucas da Hollywood clássica ao texto afiado de Nora Ephron. Em 2017 começamos com a própria Nora Ephron e a ela se seguiu a Nancy Meyers no ano seguinte, ambas roteiristas e diretoras estabelecidas no gênero. Em 2019 resolvemos falar sobre uma atriz: Sandra Bullock, uma das queridinhas dos romances da década de 1990. E veio a

Gigolô Americano e Teresa de Lauretis

Esse texto foi originalmente escrito em meu perfil no Letterboxd, mas resolvi trazê-lo para o blog. Em seu livro Alice Doesn’t: Feminism, Semiotics, Cinema, Teresa de Lauretis, em certo momento, discute a relação entre imagem e prazer (tomando emprestado de Laura Mulvey), mediada ou mediando a sexualidade, nos termos de Foucault. Afirma: Como resultado direto da formação histórica da sexualidade, a representação imagética do corpo, presente do prazer visual do cinema, é um ponto focal de qualquer processo de identificação, exercendo uma influência sobre o espectador comparável apenas à tensão da narratividade (p.82, tradução minha) Coloca, portanto, a presença do

Meio Irmão: o cinema, a política e a poética

Essa crítica foi publicada originalmente no dia 11 de novembro de 2018 no Dossiê do Juri Abraccine da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, do qual fiz parte. Entre cada sessão, os encontros fugazes acompanhados de breves palavras pesarosas que escapam pelos lábios. Na convergência de pessoas, olhares se cruzam e comentários misturam as obras vistas com os acontecimentos concomitantes. Entre o dia 18 e 31 de outubro ocorreu a 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O senso de normalidade da cinefilia é quebrado pelo mundo que chama do lado de fora do cinema. O processo eleitoral

Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa

diamonds are a girls best friend A letra da canção interpretada por Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell) na casa noturna onde trabalha contextualiza: “This is a man’s world”. É um mundo de homens, em que o parceiro de Renee Montoya (Rosie Perez) na polícia levou o crédito pelos seus feitos, em que a Caçadora (Mary Elizabeth Winstead) precisa vingar a morte de sua família por outros homens e em que Arlequina (Margot Robbie) é conhecida e protegida por ser namorada de Coringa e sem ele o jogo muda. O chefe de polícia é um homem, o magnata-vilão Roman Sionis/ Máscara Negra

Um Lindo Dia na Vizinhança

Talvez o maior obstáculo que Um Lindo Dia na Vizinhança precise superar no Brasil seja nosso enorme desconhecimento sobre o apresentador de programa infantil estadunidense Fred Rogers ou Mr. Rogers, figura central para o filme. Rogers ficou no ar quase ininterruptamente com Mister Rogers’ Neighborhood de 1968 a 2001, influenciando, portanto, gerações de crianças. Ele já havia sido objeto do documentário Won’t You Be My Neighbor? (2018), que ajuda a situar sua persona e seu impacto histórico e cultural para quem, como eu, não o conhecia anteriormente. Em Um Lindo Dia na Vizinhança, o recorte é outro: Mr. Rogers (Tom

Instinto (Instinct, 2019)

Estreia na direção da atriz holandesa Halina Reijn, Instinto conta com argumento dela mesma e roteiro de Esther Gerritsen. A trama aborda a psicóloga Nicoline (Carice van Houten), que recém começou a trabalhar em um hospital que trata da saúde mental de criminosos. Experiente no ramo, ela é apresentada como uma pessoa que treina outras para esse tipo de atividade, mas não tem intenção de se fixar em um emprego específico. O caso para o qual foi alocada é do agressor sexual em série Idris (Marwan Kenzari), que está prestes a receber autorização para passear sem acompanhamento devido ao seu