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Personagens Femininas e Seus Figurinos em Filmes de Ação

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Esse espaço sempre foi utilizado para discutir figurinos no cinema, oras partindo para interpretações subjetivos, oras pensando em termos de contexto histórico ou social. Invariavelmente escapam análises que vão para além do figurino e se estendem para a direção de arte como um todo, mas também para temas relacionados à representação, especialmente em se tratando de gênero. Dessa vez a proposta desse texto vai ser um pouco diferente: ao invés de focar em um filme, vou levantar alguns pontos a respeito dos figurinos utilizados por personagens femininas em filmes que envolvem ação e aventura, especialmente a falta de praticidade e de conforto proporcionada por eles. O foco é o cinema, mas como muitas vezes as mídias dialogam entre si, quadrinhos, videogame e televisão serão citados também.

Star Wars: Episódio VII- O Despertar da Força não estreou ainda, mas muitas pessoas já o esperam ansiosamente. Há poucos dias, na página de facebook do Star Wars, um fã da série deixou um comentário a respeito de uma nova personagem, Capitã Phasma, também chamada de Chrome Trooper, cuja imagem já havia sido divulgada. Ele afirmou o que pode ser traduzido como: “Não quero ser sexista, mas é realmente difícil para mim dizer que essa é uma armadura feminina”. O “não quero ser sexista, mas…” já era sintomático, mas a equipe de social media da página respondeu de forma clara: “É uma armadura. Em uma mulher. Ela não precisa parecer feminina”.

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Imagem do comentário deixado na página do Star Wars e resposta da mesma.

 

Capitã Phasma, em foto divulgada pela revista Vanity Fair.

Capitã Phasma, em foto divulgada pela revista Vanity Fair.

O figurino de Star Wars é desenhado por Michael Kaplan, que começou sua carreira em Blade Runner (cujo figurino já foi analisado aqui) e essa personagem em particular tem o visual claramente inspirado nas roupas de stormtroopers dos outros filmes da franquia. Mas mesmo que não fosse o caso, a questão aqui é a sua proteção. Independente do gênero, essa é (ou deveria ser) a função de uma armadura. Uma armadura tradicional, feita para uma narrativa que se passa em um contexto medieval, de ficção científica ou de fantasia, vai ter, basicamente, as mesmas características. As placas principais vão cobrir cada parte das pernas e braços, um elmo ou capacete para a cabeça e uma grande placa peitoral para o tronco. As juntas sempre são o ponto fraco em se tratando da segurança, pois não podem ser rígidas, para preservar a mobilidade.

Mas o mais importante é: quem veste a armadura não está nu por baixo. Aparentemente, pela expectativa de certa parte do público, esse fato pode parecer inacreditável, mas a verdade é que seios no peitoral não fazem sentido, uma vez que a placa não está em contato direto com o corpo, seguindo suas formas. Uma mulher ou homem não só utilizarão pelo menos um tipo de camisa por baixo da armadura, como também algum material acolchoado, para evitar o impacto, de maneira que suas formas se perdem dentro da proteção. Mas, mais que isso, o ideal é que as laterais do peitoral tenham uma angulação maior que o peito da pessoa, para que lanças, flechas e outras armas arremessadas sobre ele deslizem sobre a superfície. Uma placa que tivesse o formato de seios faria sua portadora correr o risco de fraturar o esterno, pois a depressão entre eles funcionaria como uma cunha sob o impacto de um golpe.

Com seus impressionantes 1,91m de altura, a atriz Gwendoline Christie, que interpreta a Capitã Phasma, também encarna Brienne de Tarth, na série de televisão Game of Thrones. Lá a figurinista Michele Clapton também providenciou a ela uma armadura funcional e adequada às atividades da personagem. Percebe-se que a peça tem uma linha central no peitoral, marcando a inclinação para as laterais que ajuda na proteção.

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Existem bons exemplos de mulheres vestindo armaduras funcionais no cinema. A rainha Elizabeth I da Inglaterra, interpretada por Cate Blanchett com figurino de Alexandra Byrne no filme Elizabeth: A Era de Ouro, de 2007 é uma delas. A Branca de Neve de Kristen Stewart em Branca de Neve e o Caçador, de 2012 é outra. Nesse caso o figurino fica por conta de Colleen Atwood, que também foi responsável por O Silêncio dos Inocentes, cuja análise pode ser lida aqui. Ambas as personagens contam com proteções nos ombros e usam cotas de malha. A rainha veste uma peça decorada e talvez a cintura marcada não seja uma boa decisão, mas o peitoral tem um formato adequado. Branca de Neve ainda conta com calças de couro, bem como o braço de segurar o escudo no mesmo material.

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Entre os lançamentos dessa última temporada do verão americano, Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros também gerou muitos comentários a respeito de sua protagonista, Claire (Bryce Dallas Howard). Ela é retratada como uma pessoa rígida, focada no trabalho de administradora do parque e incapaz de se conectar com os sobrinhos que a estão visitando. Essas características são externadas pelo figurino impecavelmente claro, acompanhado de sapatos de salto alto beges, que destoam das roupas de lazer dos visitantes e das práticas dos demais trabalhadores dos bastidores do funcionamento. A personagem passa por todas as desventuras retratadas no filme sem jamais remover os fatídicos sapatos dos pés.

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A ideia parece ser de mostrar que ela é capaz de tudo: administrar o parque, correr na mata e atrair um tiranossauro sem jamais tirar o salto, como se isso fosse empoderador. Não que se deva cobrar realismo em um filme repleto de dinossauros vivos, mas exigir resistência sobre-humana de uma personagem (que, como tal, foi escrita e idealizada dessa maneira por alguém) reflete apenas os padrões irreais com que as mulheres são retratadas no cinema. E isso é válido mesmo que a ideia tenha partido da atriz, afinal, esse é o meio em que ela está envolvida. Uma pessoa que tenha passado pela experiência de andar sobre um salto sabe que é humanamente impossível correr como Claire corre e por tanto tempo. O contraste com a Doutora Ellie Sattler (Laura Dern) não poderia ser maior. A paleobotânica foi representada à vontade com sua roupa adequada ao trabalho de campo no primeiro Jurassic Park, de 1993.

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Não é à toa que, em Tudo Por uma Esmeralda, de 1984, dirigido por Robert Zemeckis, o aventureiro John T. Colton (Michael Douglas) quebra o salto dos sapatos de Joan Wilder (Kathleen Turner), quando ambos estão na selva.

gif esmeralda

Quando uma personagem é construída para ser uma profissional que tem que lidar com ação cotidianamente, isso tem que ser levado em conta. Por isso a construção de Ilsa Faust, interpretada por Rebecca Ferguson no novo Missão Impossível- Nação Secreta funciona quase como uma resposta a Claire. Espiã experiente, em determinado momento da trama Ilsa se veste com vestido longo e fluido, que não impede seus movimentos, além de sandálias de salto alto. O conjunto é necessário como disfarce, uma vez que ela está em uma ópera, o que pede traje de gala. Ainda assim, quando ela precisa fugir ao lado de Ethan Hunt (Tom Cruise), prontamente pede que ele retire seus calçados, pois sabe que eles não são ideais. Essa sequência pode ser vista no vídeo abaixo. No restante do filme a espiã sempre utiliza botas sem salto, adequadas para corrida.

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Há pouco tempo foi revelada a aparência da nova Mulher Maravilha (Gal Gadot), que vai participar do filme Batman vs Superman: A Origem da Justiça, previsto para o ano que vem; e de Liga da Justiça e do filme solo Mulher Maravilha, ambos previstos para 2017. O figurino é desenhado por Michael Wilkinson, que também já trabalhou em Noé e Trapaça, cujos figurinos podem ser conferidos aqui e aqui.

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Em primeiro lugar a bota possui um salto bastante alto, disfarçado como anabela. Também é possível perceber que o corpete da personagem é feito de um material rígido, como uma carapaça. Ora, detentora de super-força garantida pela deusa Deméter e multiplicada por dez vezes pelo seu bracelete de Atlas, a heroína não tem necessidade de uma roupa com armadura. Se fosse o caso, uma com o contorno dos seios, como essa, seria mais perigosa do que segura, conforme já explicado. Além disse ela necessitaria proteger braços e pernas também.

Como não precisa desse tipo de proteção, poderia se pensar em algum tipo de roupa mais prática para a movimentação. Os saltos definitivamente não se encaixam nesse quesito. É possível que sua hot pant tradicional também não seja a melhor opção e talvez calças confeccionadas em tecido com boa elasticidade o fossem. Foi assim que ela foi vestida no seriado de 2011 Wonder Woman, nunca lançado, quando foi interpretada por Adrianne Palicki.

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Mesmo assim, ambas contam com outro ponto de desconforto: o corpete tomara-que-caia. Novamente, qualquer pessoa que já teve a experiência de usar essa peça de vestuário sabe que ela não é a ideal para correr e pular e provavelmente a personagem levaria a mão mecanicamente ao decote, puxando-o para cima de tempos em tempos.

Ainda que o tomara-que-caia faça parte do visual clássico da personagem, em se tratando de uma adaptação de cinema, tudo é possível. Os uniformes dos heróis nos quadrinhos foram originalmente inspirados pelas roupas de artistas circenses, mas cada um passou por diversos modelos e formas ao longo dos anos e a pessoa responsável pelo figurino tem liberdade para tomar decisões a respeito do resultado final que almeja. Tanto é que que as cores escuras dessa versão cinematográfica, nesse caso, em nada correspondem ao azul e vermelho abertos comumente associados à heroína. E de toda forma, em sua última encarnação nos quadrinhos ela já aparece com calças e uma blusa fechada, que jamais teimariam em cair.

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Mesmo a Supergirl (Melissa Benoist), da série homônima que deve estrear esse ano, mantem o uniforme tradicional, mas com botas sem salto, saia mais longa e camiseta simples, com punhos presos aos dedos, passando a ideia de que nenhum tecido atrapalha seus movimentos. As meias-calças provavelmente vão puxar um fio e desfiar na primeira atividade física, mas, no geral, é o tipo de roupa que não é imprópria à ação. O figurino, aqui, também é desenhado por Colleen Atwood.

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As expectativas em termos de representação dos gêneros são bastante diferentes quando se leva em consideração o cinema de ação e aventura em geral. Tomemos um exemplo que talvez possa ser visto como extremo, mas que ilustra tal fato. Os dois personagens abaixo têm a mesma profissão, ainda que à primeira vista pareçam ter pouco em comum: ambos são arqueólogos.

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Indiana Jones (Harrison Ford) teve seu visual, com chapéu e jaqueta de couro, estabelecida em Os Caçadores da Arca Perdida, de 1981, pela figurinista Deborah Nadoolman (que também trabalhou no clássico da sessão da tarde Um Príncipe em Nova York). Enquanto busca por suas relíquias entre as décadas de 1930 e 1950, o personagem tem as pernas resguardadas de qualquer eventual arranhão, enquanto a jaqueta protege seus braços e tronco.

Já Lara Croft (Angelina Jolie), personagem contemporânea adaptada dos videogames, apareceu em dois filmes: Lara Croft: Tomb Raider, de 2001 e Lara Croft: Tomb Raider – A Origem da Vida, de 2003. Em ambos ela foi vestida pela figurinista Lindy Hemming. O que mais chama atenção é que suas pernas estão completamente desprotegidas para qualquer tipo de impacto que possa receber. Novamente optou-se por manter a aparência que ela possuía nos jogos, ignorando que uma nova mídia permitiria a alteração desta. Vale notar que em 2013 a personagem passou por uma remodelação, deixando seu físico mais realista e trocando os shorts por calças.

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Muitas vezes figurinistas, diretores e demais responsáveis pela aparência de personagens femininas em filmes que envolvem cenas de ação e aventura as colocam em um papel fetichizado, desnecessário para o desenvolvimento da trama e especialmente das próprias personagens. Outras vezes esse pode até não ser o caso, mas o retrato é preguiçoso e parece não levar em conta o ambiente em que elas estão inseridas e suas ações. As roupas de qualquer personagem, independente de gênero, deveriam ser pensadas de maneira a refletir as atividades que ele precisa desempenhar em cena. Personagens como Sarah Connor (Linda Hamilton)  e Ripley (Sigourney Weaver) sempre são lembradas quando os gêneros de seus filmes são citados e vestem uma roupa prática  e um macacão de uniforme, respetivamente.

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Ainda esse ano Imperatriz Furiosa, interpretada por Charlize Theron, roubou a cena em Mad Max: Estrada da Fúria, vestindo figurino de Jenny Beavan. A personagem fácil e rapidamente se transformou em um novo ícone feminista, tudo isso com uma roupa que não só não a objetifica, como faz todo sentido estética e conceitualmente no cenário distópico proposto pelo filme. Pelo menos metade do público consumidor de cinema é composto por mulheres, mas a quantidade de pessoas não deveria importar quando o que está em jogo é a construção de personagens. Todos os grupos deveriam ter direito de verem na tela constructos que façam sentido e não sejam meras caricaturas, fabricadas para o olhar de um público específico. Sim, trata-se de ficção e muitas vezes em mundos fantásticos, mas ainda assim, a representação de personagens femininas importa, e muita. Com um pouco mais de empatia por parte dos responsáveis é possível fazer filmes melhores.

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Figurino: Malévola

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 18/06/2014.

 

Seguindo a tendência dos últimos anos de filmes adaptados de contos de fadas, dia 29 de maio estreou no Brasil Malévola, que traz a história de Bela Adormecida contada através do olhar de sua vilã de mesmo nome. O diretor, Robert Stromberg, é um novato que anteriormente havia trabalhado com efeitos especiais e direção de arte; esta última em Oz: Mágico e Poderoso, com o qual o filme guarda certas semelhanças estilísticas. Sua (in)experiência transparece no resultado final, que possui um visual bastante coeso, mas uma direção claudicante. O figurino que Anna B. Sheppard criou para a protagonista não só remete a animação da Disney de 1959, como aprofunda a narrativa, criando um arco de desenvolvimento da personagem.
No começo da história, Malévola, ainda criança, é uma criatura mágica, que nutre profundo respeito pelo ambiente seu redor. Suas roupas são fluidas e tingidas em tons naturais de marrom e verde. Seus cabelos longos são mantidos soltos em torno de seus chifres. Corre e voa descalça e livre por Moors, sendo ela mesma um elemento da natureza.

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Já crescida, defendendo as terras da presença humana, Malévola (Angelina Jolie) continua fazendo uso de modelagem fluida em tons esverdeados, com toques de amarelo. As formas são tradicionalmente femininas e os tecidos com aparência natural. Os cabelos seguem soltos e os pés descalços, mostrando a ligação que possui com a natureza. Sobre os ombros, utiliza um adereço composto por penas. Sua capa é tingida em degradê, mais escura próxima ao solo, e com bordas amarelas que serão referenciadas adiante.

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Stefan (Sharlto Copley), o seu amigo de infância humano, volta a se aproximar após alguns anos de ausência, mas com a intenção de matá-la para herdar o trono. Fazendo uso de uma bebida para adormecê-la, não tem coragem de executar seu intento, mas arranca-lhe as belas asas, em uma metáfora bastante clara de um estupro. A agonia da personagem ao acordar fica patente em cada movimento, como se todos os seus músculos se contraíssem em dor lancinante. Confiara e fora traída. As ações que se seguem são motivadas pelo ódio que tal ato vil despertou nela e têm reflexo na sua forma de vestir.
Aqui o filme deixa claro a marcação do tempo em estações. Se sua infância fora um verão de belezas naturais, agora Malévola escurece tudo ao seu redor trazendo outono à tela. Seus trajes também escurecem. No batizado de Aurora, a filha de Stefan, aparece para amaldiçoar a criança, buscando vingança.
A roupa que utiliza tem como clara referência aquela que a personagem usa na mesma cena no desenho animado. Retiram-se os lampejos de roxo para manter o negro total. As golas duplas e pontiagudas também aparecem.

Malévola da animação dos estúdios Disney, de 1959.

Malévola da animação dos estúdios Disney, de 1959.

O vestido agora não é mais solto e sim estruturado e arquitetural, com tecido de textura marcante e longa calda com detalhes em couro. Seus cabelos são contidos em um turbante apertado, com aparência de carapaça. Tudo marca a dureza da personagem neste momento.

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O rei Stefan até então havia se vestido em tons frios: azul, cinza e prata, acompanhados de dourado. Após a maldição, consumido pelo medo, passa, também, a usar o preto como cor predominante e decai em aparência.

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Já Malévola continua portando vestes negras, com acréscimo de elementos animalescos. Um de seus vestidos possui uma gola armada e plissada, com textura semelhante a penas e um pequeno crânio metálico adornando o decote.

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Usa uma capa de veludo com degradê contrário ao anterior, escuro na parte superior e claro próximo ao solo, frisando sua completa ruptura com aquele passado. Sobre os ombros desta, um adereço composto por penas e garras, com uma espinha dorsal que desce-lhe pelas costas. Em outra cena sua gola é composta por mandíbulas de algum animal. Texturas de pele também se fazem presentes nos detalhes. Mesmo seu turbante agora passa a ser composto por esse material, conferindo-lhe uma aparência viperina.

Embaixo: estudos de texturas de peles de animais para adereços e adorno para ombros com gola e espinha dorsal.

Embaixo: estudos de texturas de peles de animais para adereços e adorno para ombros com gola e espinha dorsal.

Nesse meio tempo Aurora (Elle Fanning) cresce na floresta sob o olhar cuidadoso de suas três fadas-madrinhas, Flora, Fauna e Primavera. Em sua versão pequena, estas tem vestidos compostos por pétalas de flores, mas seus estilos e identidades cromáticas se traduzem em trajes adequados para sua versão humanizada, embora exuberantes demais para que pudessem passar como verdadeiras camponesas.

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O mesmo ocorre com a princesa. Veste silhuetas retas e recatadas, mas com tecidos encorpados e ricos. As cores, em tons pastel, remetem àquelas utilizadas por suas madrinhas, que lhe servem de referência até então.

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Seus são trajes inspirados nas pinturas de Ofélia de John William Waterhouse e nos vestidos usados no final no período medieval.

À esquerda: Ophelia (1894), de John William Waterhouse; à direita: croqui de traje de Aurora.

À esquerda: Ophelia (1894), de John William Waterhouse; à direita: croqui de traje de Aurora.

Com seu crescimento chega o inverno. Malévola novamente faz uso de elementos de origem animal, ao vestir uma capa com bordas e golas de pele e com grande volume para efeito dramático.

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Já a capa de Aurora apresenta um tom escuro de verde e bordas amarelas, remetendo à jovem Malévola, e ligando-a ao seu passado.

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Não é à toa que quando esta tenta desfazer a maldição que havia lançado, utiliza um traje nos mesmos tons amarelos. Ao falhar, retorna às cores escuras, que usará mesmo ao final do filme, quando a primavera marca a coroação de Aurora. Essa parece uma decisão incoerente em relação à narrativa feita através de suas roupas até então.

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De qualquer forma o filme já é incoerente ao criar uma personagem livre e dona de si, que após sofrer violência terrível e ter seu corpo brutalizado, comete erros e tem sua redenção justamente na afirmação de um papel tradicionalmente tido como feminino, que é a maternidade. Dessa forma, a sexualidade que lhe é forçada (através da metáfora de violência), é contrabalançada pela santidade desse papel de mãe, em uma das dicotomias mais baratas de que se pode fazer uso para uma personagem feminina.
Apesar dos problemas de estrutura e mesmo de narrativa, a Malévola do filme é uma personagem construída de forma interessante e, desconsiderando-se as sequências finais, Anna B. Sheppard criou para ela, bem como para os demais personagens, figurinos ricos que ilustram de maneira clara sua jornada. O resultado final é um filme com elementos bonitos, que prendem o olhar em seus detalhes.

 

Para ler meus comentários sobre o filme como um todo, acesse aqui.

 

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Malévola (Maleficent/ 2014)

Dando sequência a tendência de recontar contos de fadas conhecidos, desta vez é a própria Disney que o faz, utilizando como base sua animação A Bela Adormecida, de 1959, para então relatá-la sob o ponto de vista de Malévola, a vilã daquela versão. A animação, embora visualmente bastante bonita, com cenários e fundos modernos e uma bela trilha sonora, tem uma história que datou (se é que já não era datada ao ser lançada): princesa Aurora foi amaldiçoada por Malévola e morreria aos 16 anos. Foi presenteada por fadas-madrinha com o dom da beleza e do canto (quem precisa de outra coisa, não é mesmo?) e criada por três delas na floresta. As fadas tentam se adaptar a papéis tradicionalmente tidos como femininos (limpar, cozinhar e costurar) sem auxílio de mágica, mas com resultados duvidosos. Aurora pouco faz ou fala no filme, mas a tal beleza e canto são o suficiente para Príncipe Phillip querer salvá-la. E sobre Malévola, nada a seu respeito é contado, de forma que faltam motivações para toda a ação.

Na versão de 2014 Malévola começa como uma criança em um reino encantado com criaturas estranhas, fadas e ninguém para governar. Com cabelos soltos, chifres e longas asas plumadas, é uma criatura mágica que não parece ser ameaçadora. Desenvolve uma amizade com Stefan, uma criança humana que aos poucos se afasta, passando cada vez mais tempo com os seus companheiros de espécie. Já crescidos, Stefan (Sharlto Copley) reaproxima-se dela, aproveitando-se de sua amizade. Em um sono induzido por uma droga escondida em uma bebida, Malévola (Angelina Jolie) repousa seu corpo no chão e ao acordar percebe que suas belas asas haviam sido roubadas. Essa é uma das cenas de maior impacto no filme: Jolie imprime dor sem tamanho nos gritos de sua personagem e é possível sentir a agonia em seu corpo torturado quando levanta-se e busca apoio. Nunca esperei encontrar em um filme da Disney um retrato tão aberto de violência sexual em uma metáfora tão pouco oculta. É interessante que o conto original de Bela Adormecida termina quando esta acorda com o parto de bebês gêmeos, após ter sido estuprada por um príncipe. Nada de beijo de amor verdadeiro. Malévola não é, aqui, a vilã má e forte apenas por ser: seus atos se constroem sobre sua própria história de fragilidade. Quando fala “há mal nesse mundo” pode-se entender que não referencia ao amargor em seu coração, mas ao homem que roubou uma parte de si. Nada mais compreensível do que, após ter seu corpo violado por um humano em quem confiava, querer infligir dor a ele. E esse momento chega com a festa de batizado de princesa Aurora. O diálogo que se segue é idêntico ao da animação, com uma exceção: Malévola ordena que Stefan peça perdão, e com isso ela mesma altera a maldição, que não mais acarretaria no sono da morte, mas sim em um que seria despertado por um beijo de amor verdadeiro. Esse lampejo de esperanças para os pais é falso, visto que ela mesma frisa em certa hora que “não existe amor verdadeiro”. É uma questão importante para alguém que teve o amor traído.

O Rei Stefan parte da exuberância dos azuis e dourados para o traje negro de quem vive em eterna paranoia, pensando na proteção da filha. Já Malévola vai da criatura livre, descalça, pertencente a natureza, com longos cabelos soltos e vestidos fluidos marrons até uma vestida de negro, contida, que oculta seus cabelos em turbante com a aparência dura como carapaça e que ostenta claros sinais de perigo, como garras, dentes e pele de cobra em seus acessórios.

Sua trajetória se marca na mudança das estações: primavera na infância, verão na juventude, outono após ser violentada (perceba como ela escurece tudo ao seu redor) e por fim, inverno, quando Aurora já é uma jovem, alimentando animais na floresta, a quem sempre está a observar. (Ao fim do filme o calor faz-se novamente presente.)

Para fugir da maldição, Aurora (Elle Fanning) é criada na floresta por suas três fadas-madrinhas, Flora (Lesley Manville), Fauna (Juno Temple) e Primavera (Imelda Staunton). Alguma agência lhe é conferida: ela explora o entorno por conta própria e até mesmo decide partir para morar em outro lugar, mas está longe de ser o foco da trama. Elle Fanning é adorável como sempre e o papel não lhe exige muito mais do que isso. As duas protagonistas se encontram e ao contrário do que poderia se esperar (e do que Malévola esperava) Aurora não teme. A figura que surge das sombras para revelar-se a ela tem a mesma silhueta da personagem da animação.

Se a busca por lidar com o que lhe aconteceu através da vingança parece justificada no filme, é um pouco decepcionante que a redenção de Malévola venha de um suposto instinto maternal: ao proclamá-la livre e dona de suas ações, a Disney parece voltar atrás ao mostrar que maternidade e bondade estão intrinsecamente conectadas e que esse papel tradicional (socialmente delegado às mulheres) a salvaria. Isso é ainda mais preocupante quando a narração fala sobre sua infância como “a época em que tinha coração puro”. Ao ter sua confiança traída e seu corpo invadido, deixou de ter coração puro? A dicotomia clichê entre “santa e puta”, a primeira expressa na maternidade benevolente e a segunda na sua reação após os atos de Stefan, macula um pouco a própria mensagem do filme.

Ainda assim é poderoso novamente ver um filme voltado para crianças em que as mulheres não necessariamente precisam de homem ao seu lado para terem seu final feliz. Pode-se dizer que o desfecho é parecido demais com o da recente animação Frozen, mas ainda assim os dois configuram uma exceção tal em meio a tantos filmes infantis que é cedo demais para levantar a questão da previsibilidade. A pequena aparição de príncipe Phillip (Brenton Thwaites) serve para reforçar o quão estúpido é desejar que duas pessoas tão jovens e que mal se conhecem amem-se verdadeiramente.

Esse é o primeiro filme dirigido por Robert Stromberg, que antes trabalhava no departamento de arte, sendo responsável pelo de design de produção de filmes como Alice no País das Maravilhas e Oz: Mágico e Poderoso (este último com grande semelhança em termos estéticos com Malévola). Houve, em seu trabalho, uma certa indulgência com uso de CGI, que mostra-se excessiva no reino de Malévola e mesmo nas criaturas que lá habitam.

Angelina Jolie está impecável, parecendo que nasceu para o papel. Mesmo com as próteses que alteram as formas de seu rosto, nunca esteve tão bela. Outro destaque é o simpático corvo Diaval, interpretado por Sam Riley, que funciona bem como sidekick, seja em sua forma humana ou animal.

Apesar de vários pequenos problemas, Malévola é bom entretenimento, traz uma roupagem modernizada para uma história datada e levanta questões de gênero interessantes, embora algumas dessas talvez passem batidas para as crianças. A personagem-título é fascinante. Talvez tenha faltado alguma coragem para a Disney em adotar uma protagonista puramente má, que opta pela vilania apenas para ver o caos que daí vem. Por outro lado, como acontece com o filme de 1959, seria difícil entender a falta de motivação da personagem e nutrir empatia por ela. A construção que vemos é crível e humana, sendo ao mesmo tempo forte e vulnerável. Como um todo, o filme me surpreendeu positivamente.

 

Para ler a minha análise do figurino do filme, acesse aqui.

maleficent

 

 

 

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