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Os Melhores Filmes de 2013

Ao fazer essa lista percebi como vi poucos filmes desse ano! Tive dificuldades em elaborá-la, mas não por precisar deixar muitos de fora, como na lista dos 25 melhores filmes que vi esse ano e não são de 2013, e sim por ter visto tão poucos filmes bons desse período. Percebi que deixei passar o ano quase sem coisas boas. Poucos dos citados eu realmente amei. Para fins de elaboração, considerei a data de lançamento do filme no Brasil, por isso alguns filmes são, na verdade, de 2012. A lista em si pode não ser muito satisfatória, mas em partes deve-se ao fato de que só chegam a Manaus filmes do circuito comercialíssimo. Para ler as críticas completas, é só clicar no link correspondente ao filme.

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Indomável Sonhadora

Direção: Benh Zeitlin

Bela fábula carregada com doçura pela protagonista Quvenzhané Wallis.

 

 

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Amor (Amour/ 2012)

Direção: Michael Haneke

Um retrato cruel e pungente do amor.

 

 

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O Som ao Redor (2012)

Direção: Kleber Mendonça

Uma bela colcha de retalhos composta por pessoas, medos, barulhos e cotidiano.

 

 

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Além da Escuridão – Star Trek (Star Trek Into Darkness/ 2013)

Direção: J J Abrams

Divertido, emocionante, funciona para quem não acompanhava a série clássica, mas é cheio de agradinhos para quem acompanhava.

 

 

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Anna Karenina (2012)

Direção: Joe Wright

Pode não ser a melhor adaptação ou o melhor elenco, mas a direção de arte é um deleite para os olhos.

 

 

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Círculo de Fogo (Pacific Rim/2013)

Direção: Guillermo del Toro

Pipocão com monstros e robôs gigantes, que peca em não desenvolver os humanos, mas compensa na direção eficiente dos demais elementos.

 

 

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Behind the Candelabra (2013)

Direção: Steven Soderbergh

Biografia do pianista Liberace, repleta de figurinos camp e com um ritmo delicioso.

 

 

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Gravidade (Gravity/ 2013)

Direção: Alfonso Cuarón

Estava na hora do grande público perceber o grande diretor que Cuarón é. E ele fez isso com essa grande obra.

 

 

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Antes da Meia Noite (Before Midnight/ 2013)

Direção: Richard Linklater

Foi como rever dois amigos que estão mais cínicos em relação à vida…

 

 

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Upstream Color (2013)

Direção: Shane Carruth

Um sopro de frescor e ideias novas no gênero ficção científica.

 

 

Menções honrosas:

Frances Ha (2013) – Direção: Noah Baumbach

Rush (2013) – Direção: Ron Howard

The Conjuring (2013) – Direção: James Wan

Os Suspeitos (2013) – Direção: Denis Villeneuve

Prêmio Guilty Pleasure/Miss Simpatia: Jennifer Lawrence, com dois filmes:

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O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook/ 2012) e

 

 

 

 

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Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire/ 2013)

 

 

 

 

Bônus- Piores de 2013:

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Se Beber, Não Case! Parte III (The Hangover Part III/ 2013)

 

 

 

 

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Meu Malvado Favorito 2 (Despicable Me 2/ 2013)

 

 

 

 

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É o Fim (This is the End/ 2013)

 

 

 

 

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Kick-Ass 2 (2013)

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Meninos Não Choram (Boys Don’t Cry/1999)

Assistido em 10/12/2013

Meninos Não Choram é um filme de difícil digestão. Assisti-o com mais de uma década de atraso e sem saber que se tratava de uma história real, o que foi um choque para mim quando rolaram os créditos finais. Na trama, Brandon Teena (Hilary Swank) tenta lidar com o fato de que seus documentos o registram como Teena Brandon: trata-se de um homem trans. A história já começa com ele cortando o cabelo bem curto, como um rito de passagem, um sinal de transformação. Tudo se passa em um interior dos Estados Unidos deprimente, decadente e sem perspectivas. A fotografia, que faz uso de filtro azulado, ajuda a criar um clima de frieza áspera ao inóspito local.

Para ser aceito como homem, Brandon faz qualquer coisa que os rapazes da região façam também, por mais estúpidas que sejam. Como a história se passa no começo da década de 1990, faz uso de discursos patologizantes para justificar sua própria existência. Não existiam muitas opções fora isso.

Quando começa a namorar com Lana Tisdel (Chloë Sevigny) é possível perceber que ambos estão negociando sua masculinidade. Lana visivelmente finge não perceber detalhes, como os seios que teimam em escapar das bandagens de Brandon. Não saber é melhor que saber e ter que lidar. A diretora, Kimberly Peirce, garantiu que as cenas de sexo não fossem nem exotizadas nem fetichizadas: tudo é muito natural.

Brandon vive no limite do temor e da coragem: o medo de ser descoberto sempre se faz presente, mas também a ousadia de viver sua identidade com plenitude. A falta de compreensão com a categoria trans como um todo permeia a trama. Quando é descoberto, Brandon grita que não é uma lésbica. Para ele é claro que é um homem, mas tal fato causa estranhamento, repulsa, dúvidas e ódio entre os demais, especialmente outros homens. Por isso não é de se estranhar que o tratamento que recebeu é o mesmo que é dado a lésbicas em sociedades misóginas. Até o fim, ele carrega a dor de não se encaixar, não pertencer, não ser compreendido.

O filme pode não ser fantástico como um todo, mas a atuação de Hillary Swank é realmente incrível, assim como a força da história.

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Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia/ 1962)

Assistido em 15/12/2013

Nesse sábado, dia 14 de dezembro, faleceu Peter O’Toole. Em sua homenagem resolvi tomar vergonha na cara e finalmente assisti o Lawrence da Arábia, em que faz o papel título e provavelmente é seu trabalho mais conhecido.  O clássico, com aproximadamente três horas e quarenta minutos de duração, passa voando.

Trata-se da história romanceada do tenente britânico T. E. Lawrence, que durante a primeira Guerra Mundial esteve entre os povos árabes (supostamente) para libertá-los dos turcos. No começo do filme sua imagem parece mais idealizada, quase como um messias que angaria seguidores, o homem branco que veio para salvar os árabes “bons-selvagens”. Com o passar da trama, seu papel na história passa a se tornar nebuloso, não ficando claro se as ações dele eram premeditadas para beneficiar árabes ou britânicos.

Lawrence nos é apresentado como um personagem que sabe lidar com seus medos e sua dor. Quando encontra pela primeira vez Sherif Ali (Omar Sharif), este lhe aparece como uma espécie de miragem: um beduíno inteiramente vestido de preto. Fala para Ali “nenhum de meus amigos é assassino”, o que não deixa de ser irônico, em se tratando de um militar servindo em uma guerra. Ainda tem a ousadia de dizer que os árabes portam-se como tolos, gananciosos, bárbaros e cruéis. Mas de certa forma o próprio filme desmente isso, mostrando que eles são honrados e a crueldade provem das tramas britânicas. Lawrence funciona como um “último dos moicanos”: encanta-se pelo povo do deserto, passa a viver entre eles e, de certa forma, admirá-los e aprender com eles.

Em certa cena, Lawrence (à esquerda) e Ali (à direita) discutem a viabilidade de uma ação frente a frente, com uma estaca fincada entre ambos, dividindo-os. Lawrence desloca-se para a direita e puxa Ali para junto de si, unindo-os no mesmo lado. Esse é apenas um exemplo do cuidado com que as tomadas são feitas, com enquadramentos precisos. E ao mesmo tempo também ilustra a jornada do protagonista: quando se deslocam, sempre parece ser da esquerda para a direita, em um grande fluxo através do deserto. A fotografia, em geral, é belíssima, mas as cenas feitas utilizando a técnica “noite americana” são, por vezes, tão escuras, que não se distinguem as ações. Já as diurnas são claras, sufocantes, transmitindo com precisão o calor desesperador no deserto. Além disso a trilha sonora é bonita e marcante, digna de um grande épico.

Quando Lawrence troca seu uniforme militar por trajes árabes, chama atenção a alvura de sua roupa em relação ao traje negro de Ali. Mas o traje branco não esconde nada: cada gota de sangue que ele derrama fica marcada no tecido. Ele brinca com a sombra projetada de sua capa e ao longo do filme volta a fazer isso outras vezes. Cada vez o traje é mais fino e transparente, assim como cada vez mais o herói se perde. Quando perguntado sobre o que fazia entre os árabes, responde ” Eu darei a eles sua liberdade”, com toda a arrogância de homem branco que acredita estar acima de toda a situação política local. Como um chefe tribal fala, ser árabe é mais difícil do que parece, pois nesse momento eles não se viam como uma identidade única, e sim como um conglomerado de tribos diversas que por vezes tinham rixas entre si, mas precisavam unir-se contra um inimigo em comum.

É impressionante que a trama inteira transcorre sem a presença de mulheres, com exceção de umas poucas que passam ao fundo, sem importância, fala ou destaque.

O desfecho da história é o retrato da desolação do líder só, destituído de poder e confiança por todos os lados.

A atuação de Peter O’Toole é realmente impressionante, mas confesso que Omar Sharif rouba a cena quando está presente.

Como obra, Lawrence da Arábia e inquestionavelmente um filme incrível.

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Behind the Candelabra (2013)

Assistido em 25/09/2013

Esse filme serviu para o diretor Steven Soderbergh se redimir do péssimo trabalho anterior, Terapia de Risco e ao mesmo tempo rir da cara dos estúdios. Biografia do espalhafatoso pianista Liberace, Soderbergh ofereceu-o a diversos estúdios, que recusaram-no.  Acabou sendo produzido diretamente para TV pelo canal HBO e mostrou-se um sucesso absoluto, com direito a muitos prêmios e 95% de aprovação no Rotten Tomatos.

A história é baseada no livro homônimo de Scott Thorson, namorado de Liberace por cinco anos e que no filme é interpretado por Matt Damon. Thorson era um rapaz órfão que vivia com um casal de fazendeiros em uma vida dentro do armário. O ano inicial é 1977 e em um bar gay ele conhece um homem que se torna seu amigo e o leva ao show de Liberace. Nos camarins eles se conhecem e a aproximação de Liberace é imediata. Pouco depois Scott está morando em uma de suas casas, trabalhando para ele e sendo seu companheiro. O que o filme jamais menciona é que o rapaz na época tinha apenas 16 anos. Michael Douglas está impressionante interpretando o músico e a química entre os dois em cena é incrível e parece fluir naturalmente.

A produção é extremamente cuidadosa: do interior do bar gay com seus pôsteres de homens semi-nus à grandiosidade da cenografia do show no palco, com pianos extravagantes e grandes candelabros sobre eles, passando pela decoração kitsch e exagerada da casa do artista, é impossível não se perder na quantidade de detalhes trabalhados e não se encantar com eles. O figurino é de cair o queixo. O cuidado com a composição das jóias, especialmente os anéis, impressiona. As roupas de apresentação são executadas de maneira impecável, fato que pode ser comprovado nos closes que são dados nos bordados perfeitos das jaquetas e nas capas imensas. Liberace sempre está “montado”. Mesmo em casa utiliza túnicas longas e bordadas e pantufas douradas (sem contar a peruca, utilizada até para dormir). É um personagem até para si mesmo. Sua homossexualidade não era assumida e mesmo grande parte do seu público a desconhecia. Católico devoto, ele sempre manteve alguma namorada ou mesmo noiva de fachada. Quando um jornal britânico alardeou sua orientação sexual, ele o processou por calúnia e ganhou.

Mesmo que a relação entre Liberace e Scott por vezes tome rumos estranhos, o filme jamais os julga. O pianista pediu ao namorado que fizesse uma plástica deixando seu queixo maior e suas maçãs do rosto mais proeminentes, de forma a ficar mais parecido com ele quando era jovem. Isso porque ele pretendia adotá-lo como filho, já que não havia nenhuma lei na época que garantisse os direitos do cônjuge à herança em caso de casais homossexuais. Para isso, o cirurgião plástico Jack Startz (Rob Lowe) é contratado. Apesar das excentricidades eles são retratados como um casal feliz e intenso, até o momento em que o relacionamento começa a afundar, motivado pelos ciúmes e, principalmente, o consumo exacerbado de drogas por parte de Scott. Startz lhe oferece um coquetel de medicamente para emagrecer que inclui anfetaminas e cocaína. Até hoje Scott luta contra a dependência.

Quando sua relação já está em declínio, a forma que Liberace se aproxima de seu namorado seguinte, na presença de Scott, que, sentado, comendo, debocha do que se passa, repete o que aconteceu quando Scott o conheceu e seu ex bebia e comia no mesmo recinto. Aparentemente Liberace vivia em um ciclo de namorados bem mais jovens que ele. Apesar disso, aparece como um senhor bastante solitário.

Juntamente com o figurino, Michael Douglas é sem dúvida o ponto alto do filme. Sua interpretação é incrível e nunca deixa o personagem ficar caricato (o que convenhamos, seria bastante fácil acontecer). O filme como um todo, entretém, enche os olhos e cativa. Belíssimo trabalho.

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Jobs (2013)

Assistido em 16/09/2013

Após sua morte, em 2011, Steve Jobs se consolidou como verdadeiro objeto de culto. Não por acaso essa cinebiografia foi feita tão rapidamente, aproveitando-se do momento para ganhar mais com bilheterias. (Lembrando que há ainda outro filme sobre Jobs em produção).

Acontece que a pressa pode ter prejudicado o resultado final. O filme conta com uma direção desleixada Joshua Michael Stern que, juntamente com o roteiro que peca pela falta de conexões entre os momentos da vida de Jobs apresentados, resulta em uma pincelada superficial na história do empresário. Outra falha grave do roteiro são os diálogos, verdadeiros discursos motivacionais que não soam nada naturais.

O começo da película já é bastante risível: os personagens com uma aura “hippie” se drogando em campos verdejantes, acabam por ficar ridículos. A escolha de Ashton Kutcher para o papel principal também constituiu um grande erro. O ator, pouco versátil (e talentoso), embora guarde grandes semelhanças físicas com o retratado e tenha aprendido a imitá-lo, não foi além disso: justamente uma simples imitação, sem a carga de dramaturgia necessária para realmente encarnar o personagem. Quando Jobs é mostrado andando de longe dentro das dependências da Apple, com as costas meio encurvadas e as mãos encrespadas, não dá pra deixar de notar certa semelhança com o Sr. Burns, do desenho animado Os Simpson. Percebe-se que o casting foi bastante cuidadoso na escolha dos atores pela aparência física. Nos créditos são mostradas fotos das pessoas retratadas na vida real lado a lado com os atores que os interpretaram e as semelhanças são grandes. Mas talvez devessem ter pensado mais no quesito atuação.

Embora o filme tente humanizar Jobs, mostrando seus defeitos, como a irascibilidade, a capacidade de enganar os próprios amigos e o fato de ter negado a paternidade de sua filha Lisa por anos, ele ainda cai no erro da idealização. Tal fato fica patente em uma cena que o personagem está em um salão com um grande retrato de Einstein na parede atrás dele, como que comparando “dois grandes gênios”. Ao mesmo tempo em que o trata como gênio, jamais estabelece qual o seu papel real dentro da Apple, chegando mesmo a dar a entender que ele inventava produtos.

No final das contas, o personagem que se destaca na trama é o amigo Steve Wozniak, interpretado carismaticamente por Josh Gad. Em determinado momento, Woz fala sobre a Apple: “do it for fun”. Não posso deixar, nesse momento, de comparar a figura de Jobs com Linus Torvalds, o simpático e discreto criador do sistema operacional Linux, que vive de forma tranquila e escreveu um livro sobre seu trabalho intitulado Só Por Prazer (Just for Fun). Mas na nossa sociedade atual, o “só por prazer” não é o suficiente. Talvez por isso Jobs seja alvo de tanta adoração.

Para mais informações a respeito da fundação da Apple e sua concorrência com a Microsoft, recomendo o filme feito para TV Piratas do Vale do Silício.

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