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Livro: Imagem-Violência

O cinema dos anos 90 é o da crueldade irônica

Jean-Claude Bernardet

O livro Imagem-Violência: etnografia de um cinema provocador é fruto da dissertação defendida pela antropóloga Rose Satiko Gitirana Hikiji em 1999. Após uma introdução escrita por Massimo Canevacci (autor do livro Sincrétika, que listei entre os melhores que li ano passado), a autora apresenta o contexto de seu trabalho, que foi a primeira pesquisa em antropologia visual defendida na Universidade de São Paulo. Nesse contexto, a área estava começando a se estabelecer e a USP contava e ainda conta com um Grupo de Antropologia Visual e um Laboratório de Imagem e Som em Antropologia.

A obra é dividida em três capítulos. O primeiro é chamado Antropologia e Cinema e aborda a relação entre antropologia e cinema através do conceito de mímesis, o processo de assimilação dialógico dos elementos. Neste capítulo há uma breve explanação sobre a relação de identificação do espectador com as imagens a ele apresentadas, além de uma reflexão a respeito do cinema como objeto de estudo em geral, das primeiras análises fílmicas até a etnografia experimental.

O segundo capítulo, intitulado Cinema, Sociedade, Contemporaneidade, já aborda o cinema e as imagens enquanto campo de estudo antropológico e como se processa o “estar lá” quando esse “lá” está em uma tela. É necessário pensar a obra de arte para além da estética, como algo criado em um contexto cultural específico. As mudanças na forma como o consumo de filmes é feito, assim como de fluxos no mercado internacional, também são abordadas.

O terceiro e último capítulo, Etnografias Fílmicas, Violência, Linguagem e Significado é uma grande reflexão sobre o cinema que discutia e criava provocações utilizando imagens de grande violência na década de 90, oscilando entre o cômico e o aterrorizante. São analisados os filmes Cães de Aluguel Pulp Fiction – Tempos de Violência, de Quentin Tarantino; A Estrada Perdida, de David LynchAssassinos por Natureza, de Oliver Stone; Fargo, dos irmãos Coen; Funny Games, de Michael Haneke, além de outros utilizados para pontuar determinados tópicos. A reflexividade a o voyeurismo são pontos importantes, bem como a catarse e o riso. A autora não se propões a explorar o efeito da violência no expectador enquanto agente social, mas sim o fato de que se criam essas imagens como forma de pensar sobre a vida social e o contexto de transgressão que isso gera, comunicando verdadeiros discursos sobre “valores, categorias e contradições” (HIKIJI, 2012, p. 69).

Imagem-Violência  é um livro rico para quem tem interesse em estudar cinema dentro de uma perspectiva acadêmica, não apenas, mas especialmente dentro do campo da Antropologia Visual, da Imagem ou do Cinema. Ao mesmo tempo, defende com facilidade o cinema enquanto campo de estudo, ainda tão pouco explorado. Certamente é uma leitura enriquecedora.

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Duna (1984)

Continuo firme e forte com minha “educação cinematográfica”, assistindo aos filmes dos anos 80 que, quando era criança, não assisti por preconceito ou preguiça. A bola da vez foi Duna, dirigido por David Lynch. O visual do filme é realmente impressionante. Cenários muito bem feitos, figurinos competentes e engenhocas retrô, com uma estética steampunk (dá pra chamar de steampunk sem ser punk?). Tudo remete ao visual da virada do século XIX para o século XX. Mas os efeitos especiais são muito ruins, mesmo pra época (Star Wars foi feito 5 anos antes e Blade Runner , 2 anos). As naves voando chegam a ser constrangedoras.

A história é o velho clichê do “escolhido” (Kwisatz Haderach, tente falar rápido), que vem libertar um povo cumprindo uma profecia. Há muitas referências religiosas, especialmente ao islamismo. Fica visível na trama que se trata de uma adaptação de um livro, porque a história é entrecortada, parecendo saltar de capítulo em capítulo, e preenchida por narrações em off pra representar os pensamentos dos personagens.

As atuações não são memoráveis. Na verdade Lady Jessica só faltou colocar a mão na testa e jogar a cabeça pra trás, num esgar de expressionismo dos anos 20. Ficam minhas palmas para Glenn Close, que recusou o papel por não querer  interpretar “a mulher que está sempre correndo e caindo atrás dos homens”. Não há nenhuma personagem feminina forte no filme, apenas interesses românticos.

Ao pesquisar imagens para esse post, percebi que há pouquíssimas disponíveis que mostrem  com detalhes as roupas e cenários. Mas dá para dizer que na corte no imperador, tanto a princesa Irulan (que começa narrando a história e depois some) quanto a “madre superiora” usam trajes inspirados nos século XVII, com corpetes longilíneos e anquinhas largas.

Lady Jessica usava versões modernizadas de vestidos entre 1890 e 1910, com silhuetas mais modest

a, longilíneas, saias ajustadas e pouca ou nenhuma anquinha.

Os trajes tanto do imperador como do Duque Leto e seu filho Paul, no inicio do filme, são casacas comuns, com inspiração militar, praticamente sem toques de modernidade. Dá para imaginar Dom Pedro II usando a roupa do Duque Leto sem maiores problemas. Infelizmente não achei imagens para ilustra

r.

Os ajudantes do bichinho da boca engraçada, quando este vai falar com o imperador dentro de um aquário, vestem um “roupão de edredom” revestido com algum tipo de tecido brilhoso. É visível que o mesmo torna o andar extremamente difícil, já que é justo até embaixo e sem fendas. Eles andam com passos de gueixa.

Por fim, tem o Sting. Isso, aquele que nos anos 80 gostava da Amazônia. E lá está ele de sunga de asinhas. Sem mais.

Nunca li nenhum dos livros, mas dá para entender porque Duna tem tantos fãs no meio da ficção científica. Trata-se de uma história complexa (quase ininteligível no filme) e um universo amplo.  O visual do filme me parece, de uma maneira geral, bastante adeqüado para o período, com exceção dos efeitos especiais. Ouso dizer que achei os figurinos muito mais ousados que de Star Wars, por exemplo. A estética, principalmente dos gadgets, parece influenciar até os dias atuais, mas não  com a mesma força de outros filmes do mesmo período. Fora isso, solidarizo com David Lynch e compreendo porque ele considera o filme o maior fracasso da sua carreira e se recusa a falar sobre ele ou projetos relacionados.

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