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41ª Mostra de São Paulo parte 3: candidatos ao Oscar

A Sombra da Árvore (Undir trénu, 2017), de Hafsteinn Gunnar Sigurðsson

 Candidato islandês a uma vaga no Oscar do ano que vem, esse filme mistura o drama com o humor de maneira eficiente tendo como fio condutor uma família suburbana. Primeiro conhecemos o filho, Atli (Steinþór Hróar Steinþórsson), que precisa voltar a morar com os pais depois que sua esposa descobre que ele ainda guarda (e se masturba assistindo) filmes pornográficos feitos com uma namorada anterior. Comportando-se como vítima da situação, o rapaz persegue-a e tem comportamento violento.

Sua mãe, Inga (Edda Björgvinsdóttir), age de forma passivo-agressiva com o casal de vizinhos que pede para que apare a árvore de seu terreno, que faz sombra no quintal deles. Já o pai, Baldvin (Sigurður Sigurjónsson) é incapaz de se posicionar diante dos acontecimentos da vida e parece preferir fugir para o ensaio de seu coral a qualquer sinal de conflito.

A trilha sonora martela suspensa enquanto a trama flerta de forma cada vez mais intensa com o absurdo. Desde o começo somos apresentados às imperfeições dos protagonistas e a polidez das relações entabuladas no subúrbio vai aos poucos revelando as pequenas obsessões pessoais, as loucuras e frustrações, que explodem de forma catártica no terceiro ato.

Nota: 4 de 5 estrelas

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

Happy End (2017), de Michael Haneke

A imagem na vertical: Eve (Fantine Harduin), de 13 anos, filma cenas cotidianas por meio de seu celular, em um aplicativo similar ao Snapchat. Reclama do comportamento da mãe, tortura seu hamster de estimação. Câmeras de segurança em uma obra flagram o momento em que um muro de contenção desmorona. Fazendo uso de diversos planos longos, com câmera parada e muitas vezes distantes do que se desenrola, a ponto de o espectador sequer ouvir os diálogos, em Happy End, Haneke continua interessado na forma em que as pessoas interagem com o vídeo e nos seus múltiplos desdobramentos.

Os protagonistas aqui são uma família de classe média encabeçada por Anne Laurent (Isabelle Huppert). Conflitos, divergências e todo tipo de hipocrisia vêm à tona, mostrando as incoerências e a frieza que perpassam os relacionamentos. Nesse sentido o filme dialoga muito bem com Elle, de Paul Verhoeven. Mas o diálogo é mais complexo com as obras do próprio autor, como Caché e Amor. Com esse último, o filme cria um universo compartilhado, com o qual Haneke parece brincar. Além das tensões internas à família, existe uma de caráter racial que é abordada tangencialmente, como um breve comentário. A sensação é que muito do filme funciona dessa forma: breve, superficial. Mesmo os personagens principais são adicionados aos poucos, e próximo ao final não há tempo de desenvolvê-lo satisfatoriamente. As dinâmicas que entabulam são interessantes e o humor, essencial para a trama, é bastante ácido e afiado. Rir do desconcertante é inevitável, mas não há espaço para muito mais que isso.

Embora lide com a temática das tecnologias da comunicação, a crítica presente na obra é rasa: Haneke desloca o uso de tecnologias de captura e compartilhamento de imagens para o campo do que é negativado, como se elas criassem distanciamento entre as pessoas e as transformassem em voyeurs de um lado e animais de laboratório de outro, mas não parece entender os mecanismos de compartilhamento e a recompensa em forma de interação que obrigatoriamente se fariam presentes. Se Eve compartilha sua rotina, quem a assiste, quantos likes ganha e que comentários recebe? O compartilhamento pelo compartilhamento é vazio, existe a expectativa de um público, mas Haneke não parece se interessar por esses processos: na visão pessimista típica da década de 1990 que apresenta, filma-se para ninguém e o resultado fica no vácuo. Happy End não é dos seus melhores trabalhos, mas comenta diversos aspectos da sua filmografia de forma divertida e tem, provavelmente, o melhor uso de Chandelier, da Sia, no cinema.

Nota: 3 de 5 estrelas

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

Canção de Granito (Song of Granite, 2017), de Pat Collins

 Cinebiografia do cantor de músicas folclóricas Joe Heaney, o filme é o candidato indicado pela Irlanda ao Oscar 2018. Com uma bela fotografia em preto e branco registra diversos momentos da vida de seu protagonista, interpretado, também, por três atores diferentes, desde sua infância até a maturidade. Espelhada em sua trajetória, acaba sendo possível captar o papel que os judeus ocupam naquela sociedade tão tradicionalmente católica. A paisagem do campo também é apresentada como um elemento de força.

Joe tem contato com a música desde a infância e sua relação com ela é de quase devoção: quando canta, fecha seus olhos e praticamente entre em transe. O formato é experimental e além das recriações dramáticas, mescla o uso de filmagens documentais. Infelizmente, para além da criatividade artística ou da beleza visual, o filme não consegue engajar na sua trama, que intercala músicas muito parecidas umas com as outras com imagens quase paradas. A sensação pode ser de repetição constante.

Nota: 2 de 5 estrelas

Loveless (2017), de Andrey Zvyagintsev

 Vencedor do Prêmio do Júri em Cannes e candidato da Rússia a uma vaga para o Oscar de melhor filme estrangeiro, Loveless tem muito a dizer sobre as relações entre pessoas naquele país e a situação dele mesmo. Zhenya (Maryana Spivak) e Boris (Aleksey Rozin) estão se divorciando. Ela já tem um namorado mais velho e bem de vida, que mora em um apartamento grande e moderno; e ele arrumou uma namorada mais jovem, que está grávida e mora em um apartamento apertado com sua mãe. O apartamento deles mesmo, espaçoso, mas escuro e confuso como um labirinto, está à venda, para que possam dividir o dinheiro. As arquiteturas referenciam as relações. No meio disso tudo, quem sofre é o filho de ambos Alyosha (Matvey Novikov). O pai quer se livrar da responsabilidade e diz que ele tem que ficar com a mãe. Esta argumenta que ela quer seguir com sua vida tanto quanto ele. Ninguém quer ficar com o menino, que chora apavorado com as constantes brigas, escondido atrás da porta. Até que, sem amor, foge de casa.

A montagem paralela nos mostra que nesse meio tempo cada um dos pais estava com seus respectivos parceiros e ninguém se importou de cuidar do menino. A paisagem é nevada e na televisão anuncia ainda mais frio chegando. Daí em diante foca-se em encontrar a criança. A polícia diz que pouco pode fazer. Voluntários se oferecem. Alyosha tem um único amigo, que indica onde costumavam ir: se o lar do menino ruiu, o esconderijo deles é um conjunto de habitações abandonadas.

A mãe parece se importar mais com o conforto financeiro que adquire com o novo parceiro e com sua própria aparência. O pai, covarde, não consegue ficar só, e repete com a nova namorada os erros que já havia cometido antes. Utilizando um estilo frio, mas deslumbrante, Zvyagintsev revela os medos e egoísmos que pautam a estrutura falida da família tradicional que sustenta a economia. Boris não pode nem mesmo ser divorciado, senão perderia o emprego. Um colega de trabalho especula sobre o apocalipse, como que em um vislumbre das mudanças que irão acontecer.

Mas os pais não são de todo odiosos e também entrevemos suas fraquezas. Ela se faz presente especialmente próximo ao final, quando o destino dos dois é selado de maneira ambígua com um grito de dor, ficando a cargo do espectador decidir o que aconteceu.

Reestabelecida a rotina, mais uma criança cresce para ser negligenciada. E se as relações pessoais são decadentes, elas refletem as internacionais entabuladas pelo país. Na televisão, comenta-se sobre a crise na Ucrânia, a guerra, o mal comportamento do exército russo. Ao ar livre Zhenia encarna a própria Mãe Rússia, que literalmente corre sem sair do lugar. Loveless é um filme difícil de digerir, duro e pesado, mas extremamente poderoso.

Nota: 4 de 5 estrelas

O Motorista de Taxi (Taeksi Woonjunsa, 2017), de Hoon Jang

O candidato sul-coreano a uma vaga no Oscar de 2018 é baseado na história real do massacre de Gwangju, ocorrido em 1980 na cidade de mesmo nome. O levante lutava pela democracia, contra o ditador Chun Doo-hwan, mas a mídia local ocultava os acontecimentos, enquanto o exército reprimia violentamente os manifestantes. Peter (Thomas Kretschmann), um jornalista alemão, entre no país vindo do Japão, se passando por missionário, com a proposta de filmar o que aconteceu e levar essas imagens ao mundo. Para isso ele precisa de um motorista que o leve de Seul, a capital, até a outra cidade. A oferta em dinheiro é grande: o valor que Kim (Song Kang-ho), um motorista de taxi viúvo e com uma filha, deve de aluguel.

O repórter havia contratado um motorista de uma empresa particular, mas ouvindo a oferta, Kim ocupa a vaga, sem saber ainda qual seria o trabalho e suas consequências. Serve como contrapartida humorística ao peso da história: ele é tolo e despolitizado. Cai em um turbilhão de violências promovidas pelos militares e só assim se dá conta da escala do que está presenciando. Junto com ele, o espectador se inteira da realidade do que está acontecendo naquele momento. O Motorista de Taxi é muitas vezes melodramática, mas é simpático e envolvente.

Nota: 3,5 de 5 estrelas

The Square (2017), de Ruben Östlund

 O aguardado vencedor da Palma de Ouro em Cannes é outra obra provocativa do cineasta sueco Ruben Östlund. Dessa vez seu alvo é o mercado da arte, representado aqui por Christian (Claes Bang), um diretor de museu extremamente preocupado com sua imagem pessoal e com a relevância midiática de seu local de trabalho.

O primeiro ponto levantado pelo filme diz respeito ao que é a arte. Em determinado momento se pergunta: uma bolsa colocada em uma exposição é arte? Esse tipo de questionamento já é antigo e um tanto enfadonho: desde centenária Fonte de Duchamp já está mais do que debatida. Mas existe aqui um certo moralismo no posicionamento utilizado no filme a respeito da arte contemporânea, não entendida em seu processo, apenas em sua efemeridade. Ela é representada na obra Square (Quadrado), que dá nome ao filme. O Quadrado é espaço delimitado com mangueira de LED no chão no formato especificado. Seu interior, conceitual, é um espaço de cuidado e confiança, onde todos têm obrigações e direitos iguais.

Como a igualdade é um atributo que (teoricamente) não é polêmico, a equipe de marketing do museu tem dificuldade em criar uma campanha que possa engajar as pessoas. Segundo um criativo, se o espectador não for pego nos primeiros dois minutos de um vídeo, ele o abandona. Por isso resolvem fazer um vídeo publicitário polêmico, que viralize nas redes sociais. Ao contrário de Haneke, Östlund demonstra conhecer os preâmbulos da internet, como ele mesmo provou ao filmar um vídeo (que por acaso também viralizou) em que interpreta sua própria reação ao vivo ao não se indicado ao Oscar por Força Maior, mostrando a pretensa sinceridade que as pessoas querem ver. Aqui ele discute as diferenças entre arte e publicidade e até que ponto as pessoas estão dispostas a ir em se tratando de chamar atenção para seu produto.

Por fim existe uma discussão que diz respeito à empatia. Uma instalação do museu onde o protagonista trabalha traz a pergunta “você confia nas pessoas?” e cada um vota sim ou não. Em determinado momento é possível ver que o painel de votos tem cerca de dez vezes mais para o “sim”. Mas embora esse discurso do cuidado seja constantemente utilizado, ele é desmentido nas ações: ajudar uma pessoa pela adrenalina e ainda assim se ver traído nesse ato; ignorar os pedintes e moradores de rua; ter medo de outras pessoas apenas em virtude do lugar onde moram; desconfiar que quem se aproxima de você está querendo aplicar um golpe. Christian muito fala, mas erra um tanto quando se trata de se relacionar com outras pessoas. No final, é fácil argumentar sobre arte marcada pela confiança, quando esta permanece no campo do discurso.

Muito se falou como The Square questiona o limite da arte, e mesmo da arte performática e da própria liberdade de expressão. Mas embora esse seja um dos pontos centrais do filme, ele funciona melhor quando aborda as dinâmicas sociais de relacionamento. Com um humor ácido, pontuado pelo uso da música Ave Maria, que dialoga como o nome do protagonista do mesmo modo como suas ações criam antíteses com ele, a narrativa é mais eficiente em sua primeira metade, no sentido de deixar claro o que pretende dizer. O resultado é uma obra provocativa e instigante.

Nota: 4 de 5 estrelas

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