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Figurino: A Lenda

Publicado originalmente na coluna Vestindo o Filme em 06/11/2015.

O que é Luz sem Escuridão?

Ridley Scott é sempre lembrado pelos seus dois grandes filmes: Alien, o Oitavo Passageiro (1979) e Blade Runner, o Caçador de Androides (1982). Mas na esteira desses veio um filme muito menos lembrado: A Lenda (1985). Trata-se de um filme de fantasia feito em uma época em que o gênero reapareceu com força e, como outros filmes do diretor, possui diversas versões, incluindo a sua própria. A história se constrói através de arquétipos ligeiramente distorcidos, com metáforas míticas e em um mundo em que nada é preto e branco, embora possa parecer na aparência. Há um grande cuidado com a direção de arte e o figurino de  , bem como a maquiagem, indicada ao Oscar, se destacam.
A princesa Lili (Mia Sara) encarna a inocência, mas uma inocência constantemente pronta a desafiar. Seu vestido nunca chega a ser completamente branco, ressaltando isso: off-white e creme compõem suas cores no começo da história. As mangas longas e partidas, a saia reta e a amarração frontal são detalhes que o levam para uma versão fantasiosa do que seria a nossa Idade Média. Seus cetins contrastam com os trajes de algodão utilizados pelos aldeões que visita. Na casa de uma delas, tem uma visão do relógio cuco congelando com a Dona Morte para fora, numa previsão dos acontecimentos que se seguiriam.

Seu amigo Jack (Tom Cruise) é um ser da floresta, vestido com trapos verdes e rasgados. Embora a inocência de Lili é sempre reafirmada, ela instiga os sentimentos dele, desafiando-o a beijá-la, como numa brincadeira de provocação. Essa mesma brincadeira é utilizada para que Jack faça algo que sabe ser errado e mesmo proibido: levá-la para ver as criaturas mais sagradas, um casal de unicórnios que habita a floresta.

Lili desafia Jack a encontrar seu anel, adornado com um sol e uma lua, para que possa casar-se com ela. Os dois elementos são a oposição entre o dia e a noite, mas se completam, como a princesa e o garoto da floresta, mas também como a Luz e a Escuridão, como o próprio Senhor da Escuridão (Tim Curry) afirma.

Em paralelo, o Senhor da Escuridão envia seus goblins para matar os unicórnios. Lili e Jack mal sabiam que o seu contato com os animais míticos facilitou o trabalho daqueles, que conseguem acertar um dardo envenenado no unicórnio macho. Um goblin fala a respeito do unicórnio sobrevivente que este é “apenas uma fêmea, sem poder”. Mas o Senhor da Escuridão responde que ela possui o poder da criação. A partir daí o mundo cai em um grande inverno de tristeza. Nesse momento o filme funciona como uma parábola da perda da inocência. Isso já fica patente na relação entre Lili e Jack. Quando se aproxima dos unicórnios, Jack, encantado pela beleza de Lili, arranca dois lírios (lily, em inglês) que estão em sua frente, flor constantemente utilizada para simbolizar pureza e castidade. Paralelos podem ser traçado entre Adão e Eva e a expulsão do paraíso, após Eva incentivar Adão a comer do fruto da Árvore do Conhecimento; e Lili incentivando Jack a levá-la aos unicórnios e a posterior desolação desse mundo.

Lili vaga pela neve cheia de culpa e acaba por chegar ao palácio do Senhor da Escuridão, com seu vestido em frangalhos, como se muito tempo tivesse se passado.

Lili não agiu guiada pela maldade: foi a curiosidade que a levou a fazer o que fez. Sua predominante inocência atrai o vilão. Mas para conquistá-la efetivamente, precisa que ela se aproxime dele em intensões e por isso a seduz através do desejo. “Tente-a, ganhe-a, faça-a um de nós”, diz uma voz. O desejo é manifestado na Cobiça pelos objetos de seu salão, cheios de riqueza, mas culmina na Luxúria, através dança sedutora com a mulher de sombras, que a atrai e acaba por transformá-la em uma rainha vestida em ricos tecidos negros, com uma gola de dimensões exageradas, para efeito dramático e com um profundo decote até a cintura e meias arrastão. A maquiagem é escura e pesada. A maior exposição do corpo da personagem, como que manifestando a sua sexualidade, marca sua passagem para a Escuridão. O próprio Senhor da Escuridão apresenta-se com peito nu e uma longa capa.


Talvez por Lili encarnar essa inocência dual, o foco do filme tantas vezes se volte para seus olhos.

Além de Lili, o filme não poupa a outra personagem feminina que tem papel ativo na trama. Blix, a fada que auxilia Jack juntamente com os elfos, é retratada de forma a acentuar o mundo de cinzas que compõe o filme. Envolta em gazes da cor da sua pele finas como o tecido de suas asas, com seus cabelos finos eriçados, sua aparência evoca uma fragilidade que é oposta ao seu verdadeiro caráter. Ela não é estritamente boa e por causa de seu egoísmo tenta enganar o herói, iludindo-o com visões de seus desejos, para satisfazer os dela. A maneira como sua explosão de raiva é retratada com labaredas de fogo ao fundo é no mínimo sugestiva. De toda forma, por mais que a personagem demonstre suas vontades e seu egoísmo, ela é capaz de pensar em um contexto maior e abrir mão de tudo pelo bem de terceiros.

Ao final do filme, Jack literalmente aparece com uma armadura dourada, uma cota em escamas, pronto para salvar Lili, mas com as pernas desnudas como a criatura da floresta que sempre será. Mas Lili demostra ter controle sobre seus desejos e ser capaz de se posicionar contra o Senhor da Escuridão. Ela é quem salva o unicórnio, o que restaura a ordem do mundo.

É possível que a temática aparentemente infantil tenha prejudicado a recepção desse filme na época em que foi lançado. Mas de qualquer forma pode-se dizer que tecnicamente sua execução é muito boa: as maquiagens, bem como os efeitos práticos e os cenários são muito bonitos. Charles Knode, que já havia trabalhado com Ridley Scott em Blade Runner (que já foi comentado aqui), criou um figurino conciso, com poucas trocas de roupa, mas que se encaixa perfeitamente com o clima necessário para a história. A Lenda pode não ser um dos filmes consagrados de Ridley Scott, mas ainda assim é capaz de encantar.

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Cinderela (Cinderella, 2015)

Na onda dos remakes e reimaginações de contos de fadas (como Malévola), Cinderela, versão live action da famoso conto de Perraut, se mostra mais tradicional em sua abordagem, mas isso não necessariamente é ruim. Dirigido por Kenneth Branagh, a história é praticamente idêntica àquela que os próprios Estúdios Disney, responsáveis pelo filme, produziram em animação em 1950. A jovem protagonista, aqui chamada de Ella (Lily James) perde a mãe ainda muito cedo. O pai se casa novamente e além da Madrasta (Cate Blanchett), ela ganha duas irmãs, Drisella (Sophie McShera) e Anastasia (Holliday Granger). Com a morte do pai e perda da renda da família, Ella passa a servir as demais.

O mote do filme, repetido talvez de forma excessiva, é “tenha coragem e seja gentil”. A frase foi dita à personagem principal por sua mãe antes morrer. Seguindo essa ideia, Ella continua vivendo na casa que pertenceu aos seus pais, a despeito do tratamento recebido, uma vez que o local lhe traz boas lembranças. Jamais é vingativa com suas irmãs e madrasta, o que pode ser visto por muitos como uma fraqueza, mas na verdade é maneira da personagem se mostrar resiliente.

É importante, especialmente para as meninas, que as histórias infantis tenham protagonista aventureiras como Anna e Elsa, em Frozen e Rapunzel, em Enrolados; ou guerreiras como Mérida, em Valente e Mulan, no filme homônimo. Isso mostra opções de realidade que eram vetadas a elas até pouco tempo e comportamentos que geralmente são deixadas de lado na sua criação. Mas por outro lado não há nada de errado com atributos tradicionalmente tidos como femininos, como a bondade. Pelo contrário, precisamos parar de negativar elementos que são entendidos como femininos em nossa sociedade. No final se cai em um discurso machista novamente, em que só as personagens que têm características que a sociedade entende como masculinas são valorizadas e o que é tido como feminino é hostilizado. As crianças, de todos os gêneros, deveriam ter as duas opções, a doçura e a valentia, como modelos de comportamento. Afinal, a coragem pode de manifestar de formas diferentes na realidade das pessoas.

Dito isso, o filme funciona bem enquanto desligamos as críticas sociais (o quê? ela é tratada como serva, mas ganha servos para ir ao baile? O palácio tem toda essa riqueza, mas e o resto da população?). Elas realmente não vêm ao caso nesse contexto da história e, ignorando esse fator, ela funciona bem.

Se por um lado Cate Blanchett rouba a cena como a Madrasta, por outro Richard Madden, que interpreta Kit, o príncipe, parece feito de plástico com a aparência que lhe deram. Os cabelos alisados e os dentes excessivamente brancos são artificiais demais. Apesar disso a produção do filme é caprichada, com cenários e figurinos deslumbrantes e bom uso de CGI (embora às vezes um pouco exagerado).

O romance entre Ella e Kit é crível e bastante inocente e a sequência do baile seguida pela sua transformação de volta ao normal ao badalar da meia noite é muito boa. Com seu vestido azul cheio de camadas, que se move de forma suave e bonita, Cinderela se destaca em meio aos demais convidados do baile. A riqueza de detalhes na composição dos figurantes funciona ao realçar ainda mais a sua presença. Mas a beleza não é seu atributo mais valorizado. Sua irmã Anastasia, por exemplo, é considerada mais bonita. O que a diferencia é justamente o fato de tentar se apegar aos ditames da mãe e ter coragem para enfrentar seu cotidiano e gentileza ao lidar com aqueles que estão ao seu redor.

O conto de fadas mais popular e mais adaptado de todos é refeito, aqui, de forma bastante bonita. Não há nada de novo, mas nem sempre há algo de errado com a velha mágica.

4estrelas

 

 

Para ler uma análise detalhada do figurino do filme, acesse aqui.

cinderella

 

 

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Livro: Deuses Americanos, de Neil Gaiman

Tenho por Neil Gaiman um grande apreço, já que Sandman é uma das obras literárias mais fantásticas que já tive o prazer de ler, e trata-se “apenas” de quadrinhos. Nunca havia lido nenhum de seus romances, mas tinha uma certa expectativa, pois muitas pessoas os recomendavam e gosto do clima dos filmes adaptados de seus livros (Stardust- O Mistério da Estrela e Coraline). Foi assim que resolvi ler Deuses Americanos, um de seus livros mais famosos. Optei pela edição de décimo aniversário, no idioma original e devo dizer que fiquei bastante decepcionada.

O protagonista é Shadow, um homem que sai da cadeia apenas para descobrir que sua esposa faleceu e que está sozinho no mundo. Wednesday, um senhor mais velho, oferece-lhe a chance de trabalhar para ele como motorista, segurança e faz tudo. Acontece que como o nome já indica, Wednesday é Odin, o deus maior da mitologia nórdica. Shadow aceita tal fato prontamente. O mundo está em conflito: os deuses antigos procuram por espaço e tentam se manter adorados, pois dependem da crença em sua existência para continuarem vivendo. Novos deuses estão surgindo e tomando seu lugar: deuses de mídia, de dinheiro, de internet.

Aí fica uma pergunta: o que Gaiman pretende com essa premissa? Deveríamos ter pena dos deuses do passado? E veja que eu ele não tem coragem suficiente para colocar Yahveh ou seu filho-carpinteiro entre as demais divindades míticas. Por outro lado, o que ele apresenta como o contraponto moderno a essas formas de religiosidade não funciona dessa forma. Não há rituais, nem sacrifícios, nem preces à internet, à mídia e ao dinheiro. Talvez haja uma dependência em alguns momentos a alguns deles, mas isso também ocorre em relação a outros itens do nosso cotidiano e nem por isso eles são literalmente endeusados.

A trama do livro é bastante diluída. Várias vezes ao ser perguntada em que parte eu estava, tive dificuldade de especificar, pois a maior parte do tempo quase nada estava acontecendo na história. Mas o pior não é isso, é a total ausência de caracterização e desenvolvimento dos personagens. Todos eles são calados, sérios, pragmáticos, levemente misantropos e sem nada que os diferenciem psicologicamente. Saber fazer truques de mágica com moedas não é criação de personalidade na escrita. Por isso, quando eventualmente um ou outro morrem, não há o que sentir a respeito, visto que não os conhecemos ao longo das 560 páginas do livro. É muito texto para pouca definição. Em Sandman, Gaiman também lida com entidades mitológicas, mas elas são personalizadas, individualizadas e você passa, ao longo da trama, a entendê-las.

A escrita de Gaiman é rebuscada e bonita. Os contos que abrem capítulos, que relatam a chegada de diversos deuses às terras americanas, são interessantes. Um ou dois são verdadeiramente lindos. Mas em geral, eles não se conectam com o restante da narrativa e parecem tornar a leitura mais lenta.

Dizem que o livro será adaptado para um série de televisão. Pode ser que isso beneficie a história, pois uma boa adaptação pode adicionar camadas de personalidade a esses personagens tão bidimensionais e aproveitar-se da premissa, que é realmente boa. Deuses Americano mostrou-se um livro excessivamente prolixo para o pouco retorno emocional que promove.

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Malévola (Maleficent/ 2014)

Dando sequência a tendência de recontar contos de fadas conhecidos, desta vez é a própria Disney que o faz, utilizando como base sua animação A Bela Adormecida, de 1959, para então relatá-la sob o ponto de vista de Malévola, a vilã daquela versão. A animação, embora visualmente bastante bonita, com cenários e fundos modernos e uma bela trilha sonora, tem uma história que datou (se é que já não era datada ao ser lançada): princesa Aurora foi amaldiçoada por Malévola e morreria aos 16 anos. Foi presenteada por fadas-madrinha com o dom da beleza e do canto (quem precisa de outra coisa, não é mesmo?) e criada por três delas na floresta. As fadas tentam se adaptar a papéis tradicionalmente tidos como femininos (limpar, cozinhar e costurar) sem auxílio de mágica, mas com resultados duvidosos. Aurora pouco faz ou fala no filme, mas a tal beleza e canto são o suficiente para Príncipe Phillip querer salvá-la. E sobre Malévola, nada a seu respeito é contado, de forma que faltam motivações para toda a ação.

Na versão de 2014 Malévola começa como uma criança em um reino encantado com criaturas estranhas, fadas e ninguém para governar. Com cabelos soltos, chifres e longas asas plumadas, é uma criatura mágica que não parece ser ameaçadora. Desenvolve uma amizade com Stefan, uma criança humana que aos poucos se afasta, passando cada vez mais tempo com os seus companheiros de espécie. Já crescidos, Stefan (Sharlto Copley) reaproxima-se dela, aproveitando-se de sua amizade. Em um sono induzido por uma droga escondida em uma bebida, Malévola (Angelina Jolie) repousa seu corpo no chão e ao acordar percebe que suas belas asas haviam sido roubadas. Essa é uma das cenas de maior impacto no filme: Jolie imprime dor sem tamanho nos gritos de sua personagem e é possível sentir a agonia em seu corpo torturado quando levanta-se e busca apoio. Nunca esperei encontrar em um filme da Disney um retrato tão aberto de violência sexual em uma metáfora tão pouco oculta. É interessante que o conto original de Bela Adormecida termina quando esta acorda com o parto de bebês gêmeos, após ter sido estuprada por um príncipe. Nada de beijo de amor verdadeiro. Malévola não é, aqui, a vilã má e forte apenas por ser: seus atos se constroem sobre sua própria história de fragilidade. Quando fala “há mal nesse mundo” pode-se entender que não referencia ao amargor em seu coração, mas ao homem que roubou uma parte de si. Nada mais compreensível do que, após ter seu corpo violado por um humano em quem confiava, querer infligir dor a ele. E esse momento chega com a festa de batizado de princesa Aurora. O diálogo que se segue é idêntico ao da animação, com uma exceção: Malévola ordena que Stefan peça perdão, e com isso ela mesma altera a maldição, que não mais acarretaria no sono da morte, mas sim em um que seria despertado por um beijo de amor verdadeiro. Esse lampejo de esperanças para os pais é falso, visto que ela mesma frisa em certa hora que “não existe amor verdadeiro”. É uma questão importante para alguém que teve o amor traído.

O Rei Stefan parte da exuberância dos azuis e dourados para o traje negro de quem vive em eterna paranoia, pensando na proteção da filha. Já Malévola vai da criatura livre, descalça, pertencente a natureza, com longos cabelos soltos e vestidos fluidos marrons até uma vestida de negro, contida, que oculta seus cabelos em turbante com a aparência dura como carapaça e que ostenta claros sinais de perigo, como garras, dentes e pele de cobra em seus acessórios.

Sua trajetória se marca na mudança das estações: primavera na infância, verão na juventude, outono após ser violentada (perceba como ela escurece tudo ao seu redor) e por fim, inverno, quando Aurora já é uma jovem, alimentando animais na floresta, a quem sempre está a observar. (Ao fim do filme o calor faz-se novamente presente.)

Para fugir da maldição, Aurora (Elle Fanning) é criada na floresta por suas três fadas-madrinhas, Flora (Lesley Manville), Fauna (Juno Temple) e Primavera (Imelda Staunton). Alguma agência lhe é conferida: ela explora o entorno por conta própria e até mesmo decide partir para morar em outro lugar, mas está longe de ser o foco da trama. Elle Fanning é adorável como sempre e o papel não lhe exige muito mais do que isso. As duas protagonistas se encontram e ao contrário do que poderia se esperar (e do que Malévola esperava) Aurora não teme. A figura que surge das sombras para revelar-se a ela tem a mesma silhueta da personagem da animação.

Se a busca por lidar com o que lhe aconteceu através da vingança parece justificada no filme, é um pouco decepcionante que a redenção de Malévola venha de um suposto instinto maternal: ao proclamá-la livre e dona de suas ações, a Disney parece voltar atrás ao mostrar que maternidade e bondade estão intrinsecamente conectadas e que esse papel tradicional (socialmente delegado às mulheres) a salvaria. Isso é ainda mais preocupante quando a narração fala sobre sua infância como “a época em que tinha coração puro”. Ao ter sua confiança traída e seu corpo invadido, deixou de ter coração puro? A dicotomia clichê entre “santa e puta”, a primeira expressa na maternidade benevolente e a segunda na sua reação após os atos de Stefan, macula um pouco a própria mensagem do filme.

Ainda assim é poderoso novamente ver um filme voltado para crianças em que as mulheres não necessariamente precisam de homem ao seu lado para terem seu final feliz. Pode-se dizer que o desfecho é parecido demais com o da recente animação Frozen, mas ainda assim os dois configuram uma exceção tal em meio a tantos filmes infantis que é cedo demais para levantar a questão da previsibilidade. A pequena aparição de príncipe Phillip (Brenton Thwaites) serve para reforçar o quão estúpido é desejar que duas pessoas tão jovens e que mal se conhecem amem-se verdadeiramente.

Esse é o primeiro filme dirigido por Robert Stromberg, que antes trabalhava no departamento de arte, sendo responsável pelo de design de produção de filmes como Alice no País das Maravilhas e Oz: Mágico e Poderoso (este último com grande semelhança em termos estéticos com Malévola). Houve, em seu trabalho, uma certa indulgência com uso de CGI, que mostra-se excessiva no reino de Malévola e mesmo nas criaturas que lá habitam.

Angelina Jolie está impecável, parecendo que nasceu para o papel. Mesmo com as próteses que alteram as formas de seu rosto, nunca esteve tão bela. Outro destaque é o simpático corvo Diaval, interpretado por Sam Riley, que funciona bem como sidekick, seja em sua forma humana ou animal.

Apesar de vários pequenos problemas, Malévola é bom entretenimento, traz uma roupagem modernizada para uma história datada e levanta questões de gênero interessantes, embora algumas dessas talvez passem batidas para as crianças. A personagem-título é fascinante. Talvez tenha faltado alguma coragem para a Disney em adotar uma protagonista puramente má, que opta pela vilania apenas para ver o caos que daí vem. Por outro lado, como acontece com o filme de 1959, seria difícil entender a falta de motivação da personagem e nutrir empatia por ela. A construção que vemos é crível e humana, sendo ao mesmo tempo forte e vulnerável. Como um todo, o filme me surpreendeu positivamente.

 

Para ler a minha análise do figurino do filme, acesse aqui.

maleficent

 

 

 

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Noé (Noah, 2014)

O antropólogo alemão Franz Boas afirmou que o mito tem origem histórica e se baseia no cotidiano do próprio povo que o criou. Por outro lado, defendeu que ele pode se espalhar através de difusão para outros povos que tenham proximidade geográfica. Ainda assim, seria possível encontrar relatos similares entre povos sem contatos anteriores, mesmo que sem uma causa primária semelhante ou uma significação semelhante. Grande parte dos povos da antiguidade buscavam se fixar nas proximidades de rios, porque facilitava a obtenção de água e alimento. Assim, eventualmente, uma cheia periódica poderia ser maior do que as normais, levando a busca por uma explicação que geraria diversos mitos de dilúvios. Um deles é o mito judaico, também presente na crença cristã. O fato desta história ter significado religioso para grande parte da população ocidental é provavelmente o maior ponto gerador de falta de compreensão relacionado ao filme Noé, dirigido por Darren Aronofsky.

Primeiramente é preciso ressaltar que o filme não é uma adaptação direta da história bíblica, mas sim de uma reimaginação feita para quadrinhos pelo próprio Aronofsky. De qualquer forma é preocupante a falta de entendimento do que significa a palavra “adaptação”, ou, pior, a falta de entendimento seletiva, visto que adaptações de outras mitologias raramente geram controvérsias quando ocorrem alterações em relação à fonte.

noah graphic novel

Dito isto, Noé é sim um bom filme. Falho, certamente, mas forte e interessante. O personagem-título, interpretado por Russel Crowe, da décima geração após Adão, acredita estar recebendo em sonhos mensagens do Criador (chamado desta forma ao longo de todo o filme). A humanidade estava destruindo a criação e a solução para isso seria removê-la da Terra através de um Dilúvio e  então recomeçar. O mundo se divide entre os descentes de Caim, liderados por  Tubal-cain (Ray Winstone), e os de Seth, terceiro filho Adão e Eva. A família de Noé seria a última dessa linhagem. Ele seria o escolhido para executar essas ordens e construir uma grande arca para abrigar sete pares de cada animal puro e dois pares de cada animal impuro, de maneira a repovoar o planeta. Uma das diferenças entre os descendentes de Seth e os de Caim é que os segundo alimentam-se de carne, por acreditar que esta lhe dá força, enquanto os primeiros apenas se alimentam de ervas e frutas. Embora tenha visto muitas reclamações a respeito desse retrato, ele seria biblicamente apurado na interpretação literal, visto o ser humano foi criado (em uma visão bastante antropocêntrica) para reinar (cuidar e proteger) sobre os animais e só receberia autorização para se alimentar deles após o dilúvio, quando grande parte da vegetação morreu submersa. Por isso a ordem de levar sete pares dos animais puros, que são os animais “kosher”, aqueles aptos a serem ingeridos na tradição judaica.

Matusalém (Anthony Hopkins), avó de Noé, aparece aqui como uma espécie de conselheiro da família. Quando Noé está em dúvida sobre como prosseguir, consulta-o e este o entrega uma bebida que afirma ser um chá, bastante escuro. Impossível não pensar, neste momento, nas religiões baseadas na ayahuasca, em que o chá é bebido e a pessoa passa a ter mirações (visões), sendo que uma cobra brilhante é presente em diversos relatos, tendo especial significação entre os povos indígenas que fazem uso ritual. Não é de se estranhar, visto que o filme parece tomar uma vertente bastante gnóstica do mito, cheia de dualismos místicos. Noé novamente adormece para então ver uma serpente cintilante, aquela do Jardim do Éden e então receber a confirmação das ações a serem tomadas. A serpente vem, depois, a ter importância simbólica, quando seu couro é utilizado para simbolizar a liderança da humanidade através dos primogênitos, enrolado ao braço com um tefilin da tradição judaica.

Repetidamente flashes de imagens da maçã, da serpente e de Caim matando Abel, acompanhadas de um ruído agudo, se inserem em meio à narrativa. Ao mesmo tempo mostram um passado da humanidade que parece nos destinar ao erro e um momento em que a estética de Aronofsky se faz fortemente presente, pois esse tipo de corte rápido, quase publicitário, costuma aparecer em seus filmes. Aliás, em se tratando de autoralidade, não é difícil de perceber a mão do diretor atuando por trás da produção, apesar de se tratar de um filme de estúdio. Outra sequência, também belíssima, é aquela em que Noé conversa com sua esposa Naameh (Jennifer Connelly) e vemos apenas seus perfis negros contra um céu colorido de entardecer. Além dessas, destaco também o relato dos sete dias da criação, em que este fala “no princípio não havia nada” e à partir daí vemos os animais evoluírem em tomadas que parecem animações em quadro a quadro, até a criação dos humanos, seres etéreos e iluminados que viviam no Éden. (Essa é, novamente, uma visão gnóstica, em que somos criados na luz e adquirimos carne e peso material apenas após a expulsão).

Para sua empreitada, Noé conta com o auxílio de gigantes de pedra, que na verdade são os anjos caídos, que não receberam perdão do Criador por querer ajudar os humanos após a expulsão do Éden. Embora cause estranhamento, gigante filhos de anjos caídos e humanas são mencionados na Gênesis da Bíblia. Aqui eles auxiliam no desmatamento da floresta enviada pelo Criador para fornecer madeira à construção da arca e no próprio feitio. Seu visual é bastante interessante, parecendo mover-se, com desconforto, de uma forma que se assemelha ao stop motion de Ray Harryhausen. Aos poucos os animais vão migrando e chegando até o grande barco. Em muita cenas a computação gráfica deixa a desejar e a aparência deles não é crível.

Além de Noé e Naameh, a família é composta por Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll), além de Ila (Emma Watson), jovem que encontraram com um ferimento no abdômen quando criança, adotaram e tornou-se companheira de Sem. Em virtude de seu ferimento, acreditava-se que Ila seria estéril. Por sua vez, Cam, mostrava-se preocupado com a falta de uma esposa para ele, o que acarretou graves desentendimentos entre ele e o pai. Antes de começar as cheias, Matusalém abençoa Ila e reverte sua aparente infertilidade. Já durante o dilúvio, quando lhe é relatado o acontecimento, Noé se enfurece, pois passara a acreditar que estava nos planos divinos que a humanidade fosse extinta para que o restante da criação pudesse viver sem perturbação. Assim, seus filhos seriam os últimos homens da terra. Em um momento bastante inspirado na história de Abraão, Noé pega uma faca para matar as crianças que nasceram de Ila. Mas ao contrário da história que inspirou esse momento, este não é um teste de fé ditado pelo próprio Criador: trata-se de um momento de soberba extrema em que, considerando-se o enviado, passa a criar possíveis interpretações para as mensagens que afirma ter recebido em sonho. É o poder do auto-convencimento e o senso de importância se manifestando.

Dessa forma, pode-se dizer que o filme tenha três vilões: a humanidade que destruiu as demais formas de vida e destrói a si mesma em lutas violentas pela sobrevivência; o Criador, que não possui misericórdia e ordena matanças de inocentes por achar que algo deu errado em sua própria criação; e por fim, o escolhido, um homem tão falho quanto aqueles que condenou à morte, à imagem e semelhança de seu Criador.

O filme não se poupa de retratar a “Vergonha de Noé”, trecho do mito que já apareceu em diversas obras de arte ao longo da história e que explica a divisão da humanidade em tribos diversas após o dilúvio.

A Bebedeira de Noé (1508-1812), afresco de Michelangelo

A Bebedeira de Noé (1508-1812), afresco de Michelangelo

Embora tenha sido pungente a forma como Naameh pediu desculpas a Ila ao informar que havia tido duas meninas, não deixa de ser significativo o discurso ao final de que essas duas serão as responsáveis por recomeçar a humanidade. É revigorante ver que a culpabilização das mulheres, tão fortemente marcada na mitologia judaico-cristã, aqui é contrabalançada pela esperança em relação ao futuro colocada em duas inocentes meninas. O arco-íris ao final marca as pazes feitas entre Criador e criaturas.

Um grande erro do filme é, especialmente do meio para o fim, perder-se em certas cenas excessivamente melodramáticas. As cenas de luta corpo a corpo também mostram-se bastante desnecessárias no contexto geral. Mas, fora isso e o fato de ter um CGI nem sempre competente, trata-se de uma narrativa forte e intensa, recheada de belas cenas e atuações competentes. Não está nem perto de ser a maior realização de Aronofsky, mas ainda é uma obra passível de apreciação. Noah-poster

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