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Janelas: Mal do Século

Depois de um tempo sem usar, resolvi voltar ao “Janelas”, espaço criado para quando não vou escrever detalhadamente sobre um filme, mas quero destacar apenas alguns aspectos visuais. O escolhido para esse retorno foi Mal do Século (Safe, 1995), dirigido por Todd Haynes. A alienação de Carol, a personagem interpretada por Julianne Moore é destacada pelos espaços vazios em torno dela e pela distância mantida em relação aos outros personagens.

 

 

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Figurino: Jogos Vorazes: A Esperança- Final

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Aviso: este texto contém revelações de detalhes da trama.

Há jogos muito piores para jogar”.

Chegou aos cinemas Jogos Vorazes: A Esperança- O Final, último filme da franquia distópica baseada nos livros de Suzanne Collins, protagonizada pela personagem Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence). A direção novamente fica a cargo de Francis Lawrence e o figurino é da dupla Kurt & Bart, que trabalhou no filme anterior, além de Segredos de Sangue, que já foi analisado aqui no blog e pode ser conferido aqui.
Durante os três primeiros filmes, Katniss se mostrou uma personagem tridimensional, movida pela empatia e capaz de fazer o possível para ajudar os demais. De quando se voluntariou como tributo no lugar da irmã, Primrose (Willow Shields) até quando se tornou porta voz da campanha midiática do Distrito 13 contra a Capital de Panem, tudo que fez foi pensando naqueles ao seu redor que sofriam, mas não necessariamente com profundidade política.
A política, justamente, sempre teve um papel central na franquia. Muitos elementos do figurino da série remetem às décadas de 1930 e 1940, como o memorável vestido azul de Katniss no Dia da Colheita em Jogos Vorazes, bem como as roupas dos demais moradores dos distritos. Isso acontece para relacionar o poder autocrático de Snow (Donald Sutherland) com o totalitarismo fascista na Europa desse período.

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Por outro lado, no Distrito 13, que se rebela contra a capital, a população veste macacões cinza. Katniss continua não abotoando o seu até em cima, indicando que não se encaixa completamente nos padrões impostos pelas lideranças revolucionárias. Embora todos se vistam de cinza, as roupas não são exatamente as mesmas e a Presidente Alma Coin (Julianne Moore) se destaca com seus ternos bem cortados em tecidos estruturados. Como já foi mencionado na análise do filme anterior, Jogos Vorazes: A Esperança- Parte 1, todos são iguais, mas uns são mais iguais que os outros e ela encarna a revolução traída.

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Além da política, a própria mídia é outro ponto importante do filme. Nos três anteriores tece-se uma crítica a ela e à forma como se utiliza a criação e a projeção de uma imagem pessoal. Mas isso não é feito de maneira simplista: todos os lados fazem-se valer dessa arma valiosa. Isso é demonstrado especialmente através do papel dos organizadores, como Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman). Em Jogos Vorazes: Em Chamas Snow sabe que vestir Katniss de noiva para leva-la ao programa de Caesar Flickerman (Stanley Tucci) é uma forma de desviar a atenção do fato de a personagem tê-lo desafiado ao vivo nos 74os Jogos Vorazes para o suposto romance entre ela e Peeta (Josh Hutcherson), despolitizando sua presença televisiva. “Faça-o pagar por isso”, disse Johanna Mason (Jena Malone).

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Já Cinna (Lenny Kravitz) entendia que era importante criar empatia com a plateia, usando esses elementos midiáticos a seu favor e vinculando Katniss ao slogan “Garota em Chamas” através das suas roupas. Ele sabe que a plateia vai ama-la ao ver seu vestido pegando fogo. Da mesma forma, ele mesmo criou mensagem revolucionária através da roupa, vestindo Katniss como Tordo na apresentação televisiva dos 75os Jogos Vorazes. Por isso, se por um lado a mídia e a moda trabalham para criar o Pão e Circo que distrai a população da Capital (e não por acaso o país se chama Panem, de “panem et circenses”, em latim), por outro elas não se resumem a isso e podem ser apropriadas pelas causas.

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No terceiro filme Katniss recebe do 13º Distrito um traje de guerra funcional com armadura, mas praticamente só a utilizou em vídeos promocionais. Katniss caçava e sobrevivia à fome no 12º Distrito. Também sobreviveu a duas versões de arenas nos Jogos. Mas, de certa forma sua imagem foi cooptada pelo 13º Distrito, tornando-a um símbolo dela mesma, a sobrevivente que desafiou Snow, de maneira a servir como inspiração para o demais se unirem à revolução. Por mais que tenha agido com espontaneidade diante das câmeras de Créssida (Natalie Dormer) e discursado com sinceridade, é somente nesse quarto filme que ela o utiliza a roupa de guerra por necessidade, ao desobedecer às ordens de Coin e tomar novamente as rédeas de suas ações.
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O uso de cores no filme é bastante interessante. No terceiro ato, por exemplo, uma criança de vestido amarelo chama atenção para a ação que vai levar à morte centenas de pessoas, incluindo Primrose. A criança, seu vestido e as mortes conectam-se à última cena do filme. Depois desse ocorrido, Katniss passa a vestir-se de preto, em luto permanente até pouco antes do desfecho.

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Além disso, desde a imagens de divulgação o vermelho tem recebido destaque, marcando a revolução em andamento. Mas ele também marca o conflito e não por acaso Caesar Flickerman utiliza a cor em sua aparição na televisão, já que trabalha como um porta-voz dos interesses da Capital. Por outro lado, o próprio presidente Snow veste-se de vermelho em seu derradeiro diálogo, em que revela que a presidente Coin é mais parecida com ele do que ela supunha. Rodeados de rosas brancas que lhe são características, ele afirma que “Nada exprime perfeição como o branco”. Curiosamente branco é uma cor que quase não se manifesta nos figurinos desse quarto filme.

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Mas a cor que merece destaque maior é o cinza. Em minha análise do filme anterior, escrevi que a neutralidade da cor servia para marcar a falta de expressão de individualidade dos moradores do Distrito 13, quebrada eventualmente por detalhes criados por determinados personagens. Isso continua válido: a população da Capital tem liberdade de expressar-se através da moda que utiliza, enquanto os dissidentes apresentam-se literalmente uniformizados.
Mas o cinza aqui manifesta-se para além da uniformização. Ele funciona como motivo ou tema, comentando a ambiguidade política do cenário que se descortina ao final. Se Coin apresenta-se de cinza, também o fazem os políticos que apoiam Snow, ainda que com detalhes vermelhos. A própria população da Capital aparece menos colorida dessa vez. Mesmo Effie, que lutou para manter seu estilo no filme anterior agora veste um traje ainda extravagante, mas já lavado de cores, cinza. Para quem acompanhou os acontecimentos pelos bastidores, há a percepção de que por trás de toda a fachada, pouca diferença há entre um lado e outro.

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A Comandante Paylor (Patina Miller), do Distrito 8, eleita presidente, apresenta-se como uma mistura desses elementos: suas roupas são cinzas, mas estruturadas de forma geométrica, quase como que um origami, fugindo da funcionalidade dos demais revolucionários. E sob sua jaqueta, usa um tecido de estampa colorida, que de certa forma serve para liga-la a Capital, auxiliando sua aceitação através dessa expressão de individualidade.

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Conforme já ficou estabelecido, em todos os filmes da franquia Jogos Vorazes brincou-se com o figurino como uma maneira de usar a moda e a imagem pessoal para manipular o espectador dentro e fora do filme, especialmente através da imagem que Katniss projetou. Isso era feito não sem certa ironia, já que a imagem era utilizada também para criticar essa manipulação. Nesse filme isso não acontece mais. Mesmo, Tigris, a estilista, não é explorada nesse sentido.
Quando retorna à Vila dos Vitoriosos do 12º Distrito, Katniss volta para sua antiga jaqueta de couro. Ela não precisa mais ser nenhum personagem. Não precisa ser garota em chamas ou tordo. Não precisa mais usar os vestidos de que não gostava nem as fantasias de uma imagem vendida. Isso até a cena final, no futuro, em que ela é apresentada com um vestido amarelo com uma estampa do que parecem ser prímulas (Primrose, em inglês). A roupa é usada para conectá-la ao passado, para deixar claro que ela sempre estará marcada pelo luto e pela dor da perda e da guerra. A paisagem idílica, contrastando com o cinza da Capital e o vazio desolado de sua casa, acolhe Karniss, Peeta e seus dois filhos. Mas nesse último momento, Kurt & Bart parecem ter esquecido as camadas de subtexto presentes no contexto da obra e a vestem, sem nenhuma ironia, com o tipo de roupa que ela até então detestou. Isso para tentar criar uma imagem de final feliz convencional que se desconecta da jornada de Katniss. Parece uma derrota para uma personagem tão forte se apresentar assim, privada de seu papel de líder e, por fim, domesticada, presa a um vestido que representa o que há de mais tradicional em termos de papel de gênero.

Claro que colocado no contexto maior da produção dos filmes, essa imagem faz sentido. Conforme comentado na análise do figurino de Jogos Vorazes: Em Chamas, nós, espectadores, nos comportamos como o povo da Capital: queremos o entretenimento que a franquia nos fornece. Hollywood é a Capital: fornecendo diversão, coisas bonitas para que possamos olhar e personagens para os quais possamos torcer. Mas a revolução não pode ir longe demais porque se Hollywood é a Capital, ela não quer ser derrubada. A mídia é usada para oprimir nos livros de Collins, mas é o espetáculo visual que consumimos nos filmes. E esse entretenimento, no final das contas, não pode questionar o que está à mesa. Assim, ignorando o próprio trabalho feito com o figurino e a imagem dos personagens até então, Katniss é traída pela Lionsgate da mesma forma que a revolução de que foi símbolo na história original.

Jogos Vorazes: A Esperança- O Final não é um filme ruim e faz parte uma franquia de filmes voltados para o público juvenil que se destaca em um mar de mesmices justamente por abordar temas mais complexos e cheios de camadas do que o triângulo amoroso da média. Mas parece que muitas das sutilezas dos três primeiros filmes foram esquecidos nesse terceiro, que, por isso, tem um desfecho aquém das suas possibilidades e que não faz jus ao bom desenvolvimento de seus personagens até então.
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Figurino: Jogos Vorazes: A Esperança- Parte 1

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 26/11/2014.

Em novembro chegou aos cinemas Jogos Vorazes: A Esperança- Parte 1, terceiro filme baseado nos livros de temática distópica de Suzanne Collins. Dirigido por Francis Lawrence, como o anterior, ele estabelece a sua franquia entre os grandes e bons produtos hollywoodianos, uma vez que aprofunda temas pesados e contemporâneos de forma raramente feita em narrativas supostamente juvenis.

Mais uma vez houve troca de figurinista: se no ano passado a responsável foi Trish Summerville (leia aqui a análise do figurino de Jogos Vorazes: Em Chamas), que orquestrou uma composição certeira dos exageros da Capital, dessa vez temos o trabalho minimalista da dupla Kurt & Bart, que recentemente trabalharam em Clube de Compras Dallas e Segredos de Sangue (leia a análise do último aqui), já aqui analisado. Apesar disso, o estilo do figurino apresentado seguiu as linhas deixadas anteriormente e alguns elementos, como os uniformes dos guardas pacificadores e as roupas simples de algodão em tons de cinza e bege utilizadas na maior parte dos Distritos, não foram alterados.

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Dessa vez a moda extravagante sai de cena e entram em seu lugar roupas mais simples e funcionais. A história recomeça pouco depois do fim dos Jogos Vorazes anteriores. Katniss (Jennifer Lawrence), resgatada pelos rebeldes do 13º Distrito, aceita seu papel como Tordo, símbolo da revolução contra a Capital. E no contexto da trama, ela não se faz apenas com armas em punho, mas também através de propaganda. Cinna, antes de morrer, havia deixado prontos croquis de roupas feitas para que ela tenha a imagem adequada de liderança. O traje de combate preto, que permite movimentos amplos, possui reforços nas canelas e nos braços e uma placa peitoral assimétrica, todos na mesma cor. Os ombros recebem tratamento em forma de escamas e nas costas, além das flechas, asas, lembrando seu papel. Cinna obviamente era estilista e não um designer de vestuário de guerra. Além disso, não é esperado que Katniss entre em combate real. Apenas isso explica o formato da placa peitoral, com a curvatura de seios delineada. Embora seja comum tal uso em figurinos, na prática isso só torna a armadura menos segura, pois armas pontiagudas deslizariam e seriam guiadas para o centro do tórax, tornando mais fácil acertar o coração.

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Além da roupa de combate, Katniss veste calças de cintura alta e camisas com bolsos, ambos cinzas. Os trajes são o uniforme de todos os moradores do Distrito 13 e remetem àqueles utilitários usados pelas mulheres americanas trabalhando na 2ª Guerra Mundial. O período é constantemente referenciado através dos figurinos na franquia em virtude da relação que pode ser feita entre o governo de Presidente Snow (Donald Sutherland) e os regimes fascistas de então.

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Mulheres trabalhando na 2ª Guerra Mundial

Mulheres trabalhando na 2ª Guerra Mundial

A cor neutra é proposital, para criar a impressão de falta de individualidade entre os habitantes do Distrito. Essa aparente uniformidade é quebrada por pequenos detalhes: Katniss, por exemplo, nunca vai abotoar todos os botões de sua camisa. Isso demonstra que embora esteja participando dos planos, há um leve desconforto que não a permite se encaixar plenamente.

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Com o uniforme se coloca a questão do bem estar coletivo versus a expressão da individualidade. Effie Trinket (Elizabeth Banks), acostumada que está com a moda exagerada da Capital e a possibilidade que ela lhe dava de sempre se apresentar de forma diferente, não pode aceitar usar um uniforme. As pessoas têm o hábito de se expressarem através das roupas que vestem e mesmo a negação de qualquer forma diferenciada é um posicionamento. Com essa tela em branco em mãos, ela adapta as roupas, transformando-as em outras peças e incrementando com os acessórios que conseguiu manter. Na ausência de suas tradicionais perucas coloridas, usa lenços em amarrações diferentes na cabeça.

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Outro contraste com o padrão uniforme do Distrito 13 são os dissidentes fugidos para se juntar à revolução por causa de Katniss. A diretora Cressida (Natalie Dormer) se destaca, pois suas tatuagens a diferenciam visualmente daqueles que se criaram no distrito.

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Por outro lado, a elite política, representada pela Presidente Coin (Juliane Moore) e seu propagandista Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman), apesar de em um primeiro olhar parecer utilizar o mesmo traje dos outros, na verdade não o faz. O colarinho é fechado e o tecido é um pouco mais grosso, garantindo aparência mais estruturada. A camisa de Coin fica por fora da calça, assemelhando-se mais a um paletó. É possível perceber nas cenas em que discursa, que ela tem ombreiras. Sua imagem é mais polida que a dos demais moradores do Distrito: a imagem confiável de uma líder política. Todos são iguais, mas uns são mais iguais que os outros.

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Se Katniss se torna garota propaganda da revolução em curso, Peeta (Josh Hutcherson) é utilizado pela Capital com a função de dissuadir as pessoas a fazerem parte do levante. Ele participa do programa de televisão de Caesar Flickerman (Stanley Tucci) e em sua aparição apresenta o mesmo estilo que anteriormente utilizava quando em turnê: paletó e acessórioss todos em branco, com formas estruturadas e arquiteturais. Parece que está tudo certo, com exceção de um detalhe: o adorno pontiagudo em sua lapela, que espeta levemente sua garganta enquanto fala. É a pista que o figurino dá para a situação desconfortável em que o personagem foi colocado, como porta-voz de Presidente Snow.

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Na aparição subsequente suas roupas se tornam escuras e mantém um adorno pontiagudo na lapela. Na última, seu blazer é recoberto de rosas e ele segura uma na mão. A flor é o símbolo de Snow e, junto com a mudança no estilo e na cor de sua roupa, além de sua aparência doente, externam o fato de que ele está sendo controlado pelo presidente. Esse traje final é rebuscado de uma forma que o aproxima de Caesar, que, afinal, é um apresentador chapa-branca. Vale lembrar que o próprio presidente não se veste dessa forma e sim de maneira minimalista, com formas simples e apenas a rosa na lapela como adorno. O rebuscamento passa uma imagem frívola que não condiz com aquela desejada por um bom governante.

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Os filmes da franquia Jogos Vorazes sempre contaram com bons figurinistas e uma boa cobertura midiática em relação aos trajes exibidos. O trabalho no primeiro ficou por conta da veterana Judianna Makovsky e no segundo, de Trish Summerville. Esta é um ás da publicidade e os trajes que seriam exibidos na película foram amplamente divulgados antes de sua estreia. Mesmo tendo uma carreira sólida e esse ser um trabalho em uma franquia já plenamente estabelecida, é curioso perceber o quão pouco foi comentado ou divulgado sobre o figurino desenvolvido por Kurt &Bart. Apesar disso, a qualidade do que é exposto continua elevada e a continuidade estética entre os filmes permaneceu. Se nesse jogo de guerra a imagem dos participantes é essencial para a criação de empatia, nada como um bom figurino para ajudar a projetá-la e o de A Esperança- Parte 1 é funcional, tem elementos visuais interessantes, cria pontos pistas importantes na narrativa e faz jus aos seus antecessores.

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Figurino: O Silêncio dos Inocentes e Hannibal

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 17/07/2014.

We begin by coveting what we see every day. Don’t you feel eyes moving over your body, Clarice?

 

Criado pelo escritor Thomas Harris, Hannibal Lecter apareceu em quatro livros, cinco filmes e uma série de televisão e é sem dúvida um personagem marcante na cultura popular. O filme O Silêncio dos Inocentes, de 1991, dirigido por Jonathan Demmes, marca a consagração do personagem, que protagoniza a trama ao lado da agente do FBI Clarice Starling. As interpretações marcantes de Anthony Hopkins e Jodie Foster são realçadas pela atmosfera soturna e pelos constantes closes em seus rostos. O figurino de Colleen Atwood (conhecida pelos seus trabalhos nos filmes do diretor Tim Burton) é contido e significativo.
Na primeira vez em que avistamos Clarice, ela está correndo em uma trilha na mata, vestindo um moletom cinza do FBI. Ao ser chamada para conversar com um superior, entra em um elevador cheio com colegas seus vestidos de vermelho, dando uma noção de perigo. A diferença de altura, a forma como ela é observada e o espaço diminuto ao seu redor ajudam a frisar essa noção. Sendo uma mulher em um ambiente predominantemente masculino, o tom de ameaça de cunho sexual em torno dela o tempo inteiro é um tema constante no filme.

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Sua posição vulnerável é mais uma vez destacada quando comparada aos homens por quem passa no corredor, todos trajando paletós em tons de cinzas, em contraste com seu moletom suado do exercício físico e seu rabo de cavalo, que lhe conferem ar infantil.

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Doutor Chilton, o responsável pelos presos com problemas mentais, não hesita em perguntar-lhe se teria a noite livre, pois a cidade pode ser divertida de noite, mesmo se tratando de uma visita profissional. Com cabelos volumosos e roupas vistosas, o psiquiatra demonstra ter grande autoconfiança.

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Clarice veste saia lápis, uma camiseta clara, blazer de tweed e carrega um casaco verde que usará ao longo de todo o filme. Como adorno, uma pequena corrente no pescoço. Através dessa roupa tenta projetar uma imagem de profissionalismo.

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No corredor das celas, que mais parece um calabouço, é ameaçada por três internos diferentes. Um deles chega ao extremo de lhe jogar esperma. Novamente o olhar dos homens ao seu redor é que lhe ameaça. Comportam-se com selvageria e contrastam com a figura em pé na cela arrumada, com uniforme impecavelmente ajeitado, que é Hannibal. Em meio aos outros loucos, ele é ameaçador por sua postura e aparência sã. A ameaça é sua mente e o uso que faz dela, não uma possível demonstração de animalidade.

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Com seu jogo de palavras, Hannibal consegue achar um ponto fraco em Clarice. Menciona sua bolsa cara e seus sapatos baratos, bem como sua infância e sua tentativa de deixar para trás a imagem de caipira e de pobreza. Provavelmente Clarice pensou que ninguém repararia em seus sapatos, especialmente porque, com saia e meia calça, está mais produzida do que o normal de seu cotidiano.

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Fora dessa situação, ela passa o filme inteiro com a mesma roupa: uma camisa polo bordô, sob uma jaqueta de tweed, o casaco verde e um cachecol cinza. Não usa estampas, nem formas marcantes, muito menos peças com cortes diferenciados. Seu estilo é formal e ao mesmo tempo prático. Talvez justamente para lidar com o mundo ao redor: um idoso acha que ela não conseguiria abrir uma porta de metal e pensa em chamar seu filho para ajudar; seu chefe a exclui de uma conversa com um delegado local e a deixa sob o olhar escrutinador de outros policiais; mesmo os cientistas que analisam os insetos a assediam. A hostilidade ou a condescendência estão por todo lado e por isso ela não chama atenção para si, apenas veste sua roupa como uma armadura.

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Ao ser transferido, o uniforme de Hannibal muda para o puro branco. Nessa sequência o vemos utilizando as duas máscaras icônicas que o impedem de morder seus captores, mas não impedem seu olhar frio dirigido diretamente para o espectador.

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Quem se importa com o vestuário aqui é Bufallo Bill (Ted Levine), o serial killer à solta. Pergunta a uma vítima antes de captura-la se seu manequim é 14, interessado em seu tamanho. Recorta seu vestido e confere a numeração na etiqueta. Ele mesmo é interessado em costura e aparece praticando a atividade nu, livre de qualquer elemento que o defina.

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Vaidoso, dança em frente ao espelho enquanto se maquia: usa um piercing com pingente no mamilo, um colar com um em forma de mulher e outro com pingente geométrico, além de uma manta estampada. Aprecia sua própria aparência. Se há algo a ser criticado no filme é justamente o retrato que se faz dele enquanto pessoa trans. Billy é primeiramente apresentado como uma, usando como comparação as próprias mariposas que utiliza em suas cenas de crime: seres que mudam de forma. Mas Clarice afirma que transexuais são pessoas passivas, ao que Hannibal responde que ele não é um transexual de verdade, apenas pensa que é, tratando-se de alguém que odeia a própria identidade e nunca foi aprovado nos testes psicológicos para uma cirurgia de redesignação sexual. Se o retrato da passividade é generalizante, bem como a ideia de que para ser trans é necessário passar por procedimentos cirúrgicos, mais errôneo ainda é negar o direito de auto identificação do personagem, ainda mais levando-se em conta que Hannibal é psiquiatra. Por outro lado jamais vemos ele próprio se identificando como trans: o que ele faz em cena é adornar seu corpo de forma que desafia os padrões tradicionais de gênero.

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De qualquer forma Bufallo Bill encaixa-se na temática de objetificação da mulher de forma bastante literal, tendo em vista que transforma os corpos de suas vítimas em objetos. Utiliza suas peles como tecido, para poder costurar para si um traje literalmente de mulher, para incorporar à sua feminilidade.
No filme seguinte, Hannibal, de 2001, dirigido por Ridley Scott, Anthony Hopkins volta a desempenhar o papel-título, mas Julianne Moore substitui Jodie Foster como Clarice. A figurinista passa a ser Janty Yates, que firmou parceria com o diretor em Gladiador e participou de quase todos seus filmes seguintes.
Yates reformulou o guarda-roupa de Clarice. Ao invés da formalidade do primeiro filme, aqui, já agente especial, ela aparece bastante casual. Faz uso de camisetas, camisas de botão, calças-cargo e jaquetas jeans.

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Na cena em que conhece Mason Verger (Gary Oldman), veste um terninho cinza com camiseta clara que remete àquele conjunto que usara quando conheceu Hannibal. Mas dessa vez, o corte é inadequado ao seu porte e o efeito geral é de desleixo.

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Nesse segundo filme, a força da personagem parece se perder em meio às tramas paralelas. O senso de constante ameaça apenas por ser mulher também não está mais lá. Mas na sequência em que é revelado seu envolvimento passado com Krendler (Ray Liotta), seu superior no FBI, e este a destrata, a conexão é destacada pelo uso de camisas similares para ambos: sociais de botão em tom amarelo claro.

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Hannibal, livre, pode finalmente expressar todo seu refinamento. Veste-se com ternos bem cortados (a maioria Gucci) e utiliza óculos escuros com armação verde, anel com pedra azul e chapéu panamá. Emana sofisticação e bom gosto, coisas que aprecia.

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Em certa cena os elementos da composição são ligados cromaticamente a ele: não só seu anel é azul, como sua camisa; bem como as flores das mesas e camisas de diferentes figurantes, destacando-o. Era o que o inspetor Pazzi (Giancarlo Giannini) necessitava para encontra-lo em meio à multidão e confirmar sua presença em Florença.

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Pazzi encontra com Hannibal pela primeira vez quando este está no meio de sua sala de estar, descalço, de pijama azul, refletindo o momento em que Clarice o viu pra primeira vez.

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O personagem só deixa de se vestir com elegância quando precisa se disfarçar: usa camiseta e uma camisa larga sobre ela, para ter a aparência de um americano comum.

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Os sapatos de Clarice são constantemente mostrados, como um lembrete de que passados tantos anos, ela continua usando calçados baratos, outra alusão ao filme anterior.

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Com forte publicidade indireta, a grife italiana Gucci volta a aparecer na revista que Hannibal deixa na casa de Clarice, com uma foto desta sobre o rosto da modelo.

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Não por acaso, quando a veste para o banquete final, coloca nela sandálias e um vestido da mesma grife. A marca aparece em destaque quando o sapato é mostrado pela primeira vez. O vestido, com fenda frontal, decote profundo e costas nuas, é muito mais ousado do que qualquer roupa que Clarice utilizaria em seu cotidiano.

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Com mais personagens e tramas que se misturam, Hannibal é um filme que não confere o destaque que Clarice merecia. O fato de o serial killer que dá nome ao filme estar à solta deixa-lhe mais espaço para expressar-se enquanto personagem, mas ao mesmo tempo tira-lhe parte do mistério, já que que o ato violento mostrado de forma escancarada é menos assustador do que a sensação de ameaça e de perigo eminente. Se considerarmos apenas O Silêncio dos Inocentes, Clarice é protagonista de sua própria história, mesmo vivendo em um mundo de homens ameaçadores, sejam eles serial killers, cientistas, médicos ou agentes do FBI. Apesar de suas inseguranças, é forte o suficiente para lidar com todos eles. Os figurinos criados para ela por ambas, Colleen Atwood e Janty Yates, são minimalistas de formas diferentes, mas o primeiro, com sua formalidade simples, parece se adequar mais ao que ela precisa para sobreviver ao meio que a rodeia. Não resta dúvidas de que O Silêncio dos Inocentes é uma obra cinematográfica que vence facilmente a barreira do tempo e do gênero em que se enquadra, mostrando-se um belo filme até hoje.

Well, Clarice – have the lambs stopped screaming?

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Carrie, a Estranha (Carrie/ 2013)

Assistido em: 26/12/2013.

Essa já é a quarta encarnação do livro de Stephen King que eu assisto (levando em conta A Maldição de Carrie, que tinha basicamente a mesma trama), e a segunda que eu vejo no cinema. Dessa vez a direção ficou por conta de  Kimberly Peirce.

Essa versão de 2013 peca por não ter grandes momento dramáticos: nada na apresentação surpreende. A história é conhecida por todos: Carrie (Chloë Grace Moretz) é uma jovem de 18 anos que está concluindo o ensino médio e tem poderes telecinéticos. Ela é isolada dos demais no colégio e tem uma mãe (Julianne Moore) que é fanática religiosa e repressora. Carrie acaba sendo convidada para o baile de formatura e o que parecia um sonho virando realidade torna-se um pesadelo de humilhações. Dessa vez o compartilhamento de imagens por redes sociais é acrescentado, mas posteriormente é  pouco explorado.

Em relação às versões anteriores, pode-se dizer que  a questão do bullying se faz mais presente, por tratar-se de um tema cada vez mais em voga. A personagem também está em sua versão mais humanizada e frágil. Em parte isso se deve à pouca idade da atriz que a interpreta, Chloë Grace Moretz, que em nenhum momento convence que tem 18 anos (sendo ela mesma mais jovem que isso). As atuações não são o ponto forte do filme e Julianne Moore também aparece desgrenhada e caricata, incapaz de transmitir realismo a sua personagem. Um exceção é a Sra. Desjardin, interpretada Judy Greer, que o faz de uma forma bastante humana, mesmo com uma personagem tão pouco desenvolvida.

O terço final do filme explora as possibilidades permitidas pelos efeitos visuais atuais e a violência fica exagerada em alguns momentos, mas não há tensão alguma na forma como a ação se desenrola.

Pode-se argumentar que esse é um remake  desnecessário, que nada acrescenta em relação ao clássico de 1976 dirigido por Brian de Palma, por exemplo. Apesar disso acredito que versões da história pipocarão periodicamente, pelo simples fato de que ela tem um grande apelo com o público adolescente, que se identifica com os problemas na dinâmica intra-escolar. E falo isso por experiência própria: por pior que tenha sido, eu fui uma adolescente que assistiu A Maldição de Carrie no cinema, que adorei as roupas que a protagonista e sua melhor amiga usavam, e que gostei do efeito de tatuagem crescendo no rosto da protagonista. Talvez isso tenha faltado nesse filme: um visual mais interessante. Os adultos podem assistir e torcer o nariz, mas acredito que muitos adolescentes devem ter gostado, especialmente se não tem contato com o material original ou a primeira gravação.

carrie

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