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Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2016)

Dirigido por Theodore Melfi, Estrelas Além do Tempo é uma adaptação do livro Hidden Figures, de Margot Lee Shetterly, que trata da trajetória real de três mulheres negras que trabalharam na NASA durante a corrida espacial, na década de 1960, em plena Guerra Fria. Nesse período as mulheres tinham trabalhos restritos na agência: dividiam-se entre as secretárias e as computadoras, que realizavam os cálculo antes da chegada dos grandes equipamentos da IBM. As protagonistas do filme são a matemática Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), a programadora Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e a engenheira Mary Jackson (Janelle Monáe). Esses cargos não são necessariamente aqueles com os quais começam o filme: são aqueles que as vemos trabalhando para alcançar e com os quais se destacaram profissionalmente.

Como cinema, trata-se de uma narrativa tradicional, até mesmo conservadora, que contrasta com a ousadia de suas sujeitas. Como mensagem política, já se torna importante pelo fato de ser uma rara obra inteiramente protagonizada por mulheres negras, ainda que dirigida por um homem. Mas é como retrato de uma época, um lugar e uma conjuntura de fatores relacionais que intensificavam posicionamentos em uma sociedade já hierarquizada, que se torna um filme necessário.

É preciso entender o papel das protagonistas dentro de um olhar interseccional. A trama se passa um local de trabalho que não dava abertura às mulheres, como se explicita na cena em que Katherine é avisada que mulheres não podem participar das reuniões em que as decisões são tomadas, mesmo que essas afetem seu trabalho posterior. Mas, ao mesmo tempo, também é uma sociedade com segregação racial legalmente vigente. Dessa forma, como mulheres negras, passam por situações que não necessariamente afetam as demais mulheres, brancas, ainda que essas também estejam em posições subalternas aos homens do local. Isso é explicitado por Vivian Mitchell (Kirsten Dunst), que não demonstra empatia com as especificidades da vivência de suas colegas. Nem todas as mulheres da época estavam na mesma luta e nem todas estavam cientes ou, se estavam, apoiavam as das demais. Por esse motivo, também é destacada a importância de aliados: pessoas que apoiem a causa e façam o possível para ajudar, sem tirar o protagonismo de quem luta, apenas fazendo uso de seu local de privilégio, como Al Harrison (Kevin Costner).

E em se tratando de luta, Katherine, Dorothy e Mary são mulheres ativas, não reativas, que individualmente se engajaram mostrando que o seu trabalho poderia ter papel político, ainda que isso não necessariamente fosse perceptível em um primeiro momento. Ocupar as áreas de STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), tradicionalmente fechadas a presença feminina, exige passar por diversos obstáculos. Por isso é uma delícia assistir a história se desenrolar e torcer por elas.

A empatia que a trama causa vem não só do roteiro, como também do trabalho impecável do elenco. As três nos engajam em seus dramas específicos, mas Janelle Monae, a novata dentre as atrizes, é uma grata surpresa, imprimindo atitude à sua personagem e roubando as cenas em que aparece. Mas é a trajetória de Katherine que acaba se tornando a mais interessante de assistir.

O figurino é outro aspecto técnico que se destaca, uma vez que cada uma é apresentada com roupas de estilo próprio, explicitando suas diferenças, e as cores em tons de joias as destacam em diversas cenas em que aparecem rodeadas por uma massa de gente, todos homens usando camisa branca e gravata preta.

Estrelas Além do Tempo pode não ser um filme inovador, mas é importante que a história que ele retrata seja conhecida pelo grande público. É feel good e é isso que importa: torcer e ficar com um grande sorriso ao seu final, além de feliz por saber que essas heroínas existiram, estiveram lá e abriram as portas para tantas outras mulheres que vieram depois delas.

 

Melancolia (Melancholia/ 2011)

Assistido em: 19/01/2013
Adiei a ideia de assistir esse filme por algum tempo, confesso. É fato que o desgraçado é bom! Só os 10 primeiros minutos já são uma obra de arte! As cenas em ultra câmera lenta, com situações de pesadelo ditam o clima do filme que se segue. É lindo e aterrorizante a noiva tentando andar enquanto as raízes das árvores seguram seus passos.

Eu poderia aqui falar sobre o que se trata a história e descrever as personagens que habitam esse universo, mas acho que seria infrutífero no entendimento. Dividido em 2 partes, uma para cada uma das irmãs protagonistas, Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg), o filme começa com a festa de casamento da primeira. A segunda parte é dedicada a vida familiar da segunda, a visita da irmã e à aproximação do planeta Melancolia (que confere o título ao filme), que está passando perto da Terra. Depressão, amor, expectativa, frustração, aceitação e medo permeiam a história. Kirsten Dunst tem seu melhor papel desde… Claudia de Entrevista com o Vampiro! E a cena da abertura em que ela está vestida de noiva e deitada na água de um riacho, como Ofélia, a trágica noiva enlouquecida de Hamlet, com estética semelhante ao quadro de Millais, é bonita demais. Valeu a pena perder um pouco o pé atrás.

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