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Figurino: Cinderela

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 10/04/2015.

“Tenha coragem e seja gentil.”

O mais popular de todos os contos de fadas já foi adaptado para o cinema diversas vezes, mas a animação da Disney Cinderela, de 1950 continua sendo a mais famosa. Agora o próprio estúdio recriou o conto de Perrault em uma versão live action de mesmo título. Ao contrário de outras adaptações recentes, que construíram mundos mais sombrios, como Malévola, esta manteve a atmosfera infantil e mágica. Dirigido por Kenneth Branagh, o filme conta com figurino da veterana Sandy Powell, que trabalhou com Scorsese em seus últimos seis filmes e foi premiada com o Oscar em três ocasiões: Shakespeare Apaixonado, em 1999; O Aviador, em 2005 e A Jovem Rainha Victoria, em 2011.
Todos já conhecem a história: a jovem protagonista, chamada Ella (Lily James) perde a mãe ainda quando criança e seu pai, um mercador constantemente em viagem, volta a casar. Além de sua Madrasta (Cate Blanchett), juntam-se a sua casa duas irmãs, Drisella (Sophie McShera) e Anastasia (Holliday Grainger). Após a morte de seu pai em terras distantes, Ella, agora apelidada de Cinderela, é maltratada pela Madrasta e pelas irmãs e passa a servi-las como única empregada da casa, uma vez que sua situação financeira piora.
Ella utiliza um vestido simples, azul claro com flores rosas quase imperceptíveis. Tanto a estrutura do tronco em corpete quanto o franzido em forma de V na parte frontal ajudam a criar a impressão de uma cintura mais fina. Nos pés, ela calça uma sapatilha também azul, mas que se desgasta e encarde com o passar do tempo. Esse traje, juntamente com outros do filme, vai mostrar que a fantasia se passa em um período não determinado da história, que faz uso de elementos da moda europeia do século XIX, sem necessariamente fixar-se nessa época e mesclando-os com outros de diferentes épocas.
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A Madrasta é uma mulher intrigante. Seus trajes são uma mistura de épocas: são construídos como se fossem uma versão de 1940 de roupas de 1840. É fácil perceber que ao invés de ter corpetes, possui cintura marcada por cintos, combros estruturadas de maneira ampla e o busto em forma mais cônica, como ditava a moda da década citada do século XX. Diversas vezes sua saia é justa e reta, como uma saia lápis, com outra maior por fora para conferir o volume necessário para passar a ideia de pertencer ao século XIX. Essa imagem é complementada pelos cabelos penteados com curvas e pelos chapéus com abas muito largas.

Traje de luto e, à direita, croqui de Sandy Powell.

Traje de luto e, à direita, croqui de Sandy Powell.

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Vestido de baile e seu croqui correspondente.

Marlene Dietrich e Joan Crowford são citadas como inspiração para a criação das peças. A elegância da Madrasta é completada pelo uso de cores frias em tons de pedras preciosas, como esmeralda e safira, geralmente com preto como complemento. Como acontece frequentemente, a vilã utiliza as roupas mais interessantes.
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As irmãs Drisella e Anastasia funcionam como alívio cômico. Mesmo sendo belas, são gananciosas e competitivas. Suas roupas são sempre iguais, mesmo que uma tente superar a outra. A primeira sempre se veste em amarelo e a segunda, em rosa. Dessa forma as duas também contrastam com o constante azul de Ella. Além disso, a moda que seguem (ou criam) é absurda, beirando o ridículo.
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As irmãs e o croqui do traje idealizado pela figurinista.

As irmãs e o croqui do traje idealizado pela figurinista.

Kit (Richard Madden), o príncipe, veste roupas com inspiração militar, como jaquetas adornadas acompanhadas de calças justas de montaria, geralmente brancas e botas. Azul claro é a cor que mais usa, embora combinada com outras, como o branco, já citado, o dourado e o verde. Sua paleta é bastante clara em comparação ao que era vigente na moda masculina de 1840, como se pegasse emprestado elementos do século XVIII, quando os homens das cortes europeias vestiam-se de forma mais elaborada e colorida.
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A Fada Madrinha (Helena Bonham Carter) marca a presença da magia no filme. Primeiramente aparece como uma idosa pedinte, em um traje com textura e tons orgânicos, que remetem a uma árvore. Depois, já transformada, vestindo algo “mais confortável”, em suas palavras, utiliza um vestido que se estrutura como se fosse do século XVIII, com corpete curto e saia com anquinhas amplas nas laterais, além de gola rendada. O conjunto é iridescente e furta-cor e Sandy Powell afirma que pequenas lâmpadas de LED foram utilizadas sob as camadas de tecido para ampliar o efeito. As pequenas asas nas costas foram pedidas pela atriz.
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Quando chega o grande dia do baile, Ella usa um vestido rosa que havia pertencido à sua mãe. Mas, para evitar que ela vá ao evento, a Madrasta o rasga.
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A Fada Madrinha cria um vestido novo, dessa vez em cor azul. Os ombros largos, adornados com pequenas borboletas, contrastam com a cintura marcada pelo corpete que, oposta à saia volumosa, cria uma silhueta extrema em ampulheta. A saia é composta por uma crinolina (uma espécie de estrutura em forma de gaiola) leve, que sustenta a base. Sobre ela, a anágua, adornada com muitos babados na barra, para que possam ser vistos quando Ella caminha. Por fim, doze camadas de tecido finas, que vão do branco ao azul, passando pelo lilás e que juntas compõem a cor única da saia. Embora com toda essa estrutura e complexidade, o vestido parece leve e move-se de maneira bonita.
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Croqui do vestido de baile de Ella.

Legenda da imagem: Croqui do vestido de baile de Ella.
A cor azul contrasta com as demais convidadas do baile: a riqueza e variedade dos tecidos utilizados nas figurantes é grande, mas eles apenas emolduram a presença de Ella.
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Quanto ao sapatinho de cristal, ele foi desenhado por Sandy Powell e confeccionado pela Swarovski. Cópias extras foram feitas em outros materiais para determinadas cenas. Lily James jamais o calçou, pois são impossíveis de utilizar. O que é visto em seus pés é uma versão em CGI que cobriu uma réplica em couro no mesmo formato. Vale notar que Ella menciona diversas vezes como o sapato é confortável, mas tanto o material, como o formato e especialmente o tamanho do salto, que deixa os pés quase na vertical, passam a impressão oposta.
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Destaque para os animais que foram transformados em lacaios para Ella. Suas librés remetem às suas próprias espécies: casaca longa com calda verde para os lagartos e traje branco com meiões em laranja para o ganso.
O final feliz se traduz em matrimônio e o vestido de casamento de Cinderela é confeccionado em cor clara, com silhueta simples e diversas flores bordadas, de forma a lembrar que ela é uma rainha-camponesa e ligada à natureza ao seu redor.
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Cinderela é um filme infantil que adapta o conto de fadas da forma romantizada que os estúdios Disney costumam fazer. Seguindo essa lógica, o figurino de Sandy Powell é estilizado, mistura elementos de diversos períodos históricos e faz uso de certos exageros para ressaltar a magia presente na trama. O visual é bonito e trabalha alinhado com a direção de arte bastante adequada à atmosfera pretendida.

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Cinderela (Cinderella, 2015)

Na onda dos remakes e reimaginações de contos de fadas (como Malévola), Cinderela, versão live action da famoso conto de Perraut, se mostra mais tradicional em sua abordagem, mas isso não necessariamente é ruim. Dirigido por Kenneth Branagh, a história é praticamente idêntica àquela que os próprios Estúdios Disney, responsáveis pelo filme, produziram em animação em 1950. A jovem protagonista, aqui chamada de Ella (Lily James) perde a mãe ainda muito cedo. O pai se casa novamente e além da Madrasta (Cate Blanchett), ela ganha duas irmãs, Drisella (Sophie McShera) e Anastasia (Holliday Granger). Com a morte do pai e perda da renda da família, Ella passa a servir as demais.

O mote do filme, repetido talvez de forma excessiva, é “tenha coragem e seja gentil”. A frase foi dita à personagem principal por sua mãe antes morrer. Seguindo essa ideia, Ella continua vivendo na casa que pertenceu aos seus pais, a despeito do tratamento recebido, uma vez que o local lhe traz boas lembranças. Jamais é vingativa com suas irmãs e madrasta, o que pode ser visto por muitos como uma fraqueza, mas na verdade é maneira da personagem se mostrar resiliente.

É importante, especialmente para as meninas, que as histórias infantis tenham protagonista aventureiras como Anna e Elsa, em Frozen e Rapunzel, em Enrolados; ou guerreiras como Mérida, em Valente e Mulan, no filme homônimo. Isso mostra opções de realidade que eram vetadas a elas até pouco tempo e comportamentos que geralmente são deixadas de lado na sua criação. Mas por outro lado não há nada de errado com atributos tradicionalmente tidos como femininos, como a bondade. Pelo contrário, precisamos parar de negativar elementos que são entendidos como femininos em nossa sociedade. No final se cai em um discurso machista novamente, em que só as personagens que têm características que a sociedade entende como masculinas são valorizadas e o que é tido como feminino é hostilizado. As crianças, de todos os gêneros, deveriam ter as duas opções, a doçura e a valentia, como modelos de comportamento. Afinal, a coragem pode de manifestar de formas diferentes na realidade das pessoas.

Dito isso, o filme funciona bem enquanto desligamos as críticas sociais (o quê? ela é tratada como serva, mas ganha servos para ir ao baile? O palácio tem toda essa riqueza, mas e o resto da população?). Elas realmente não vêm ao caso nesse contexto da história e, ignorando esse fator, ela funciona bem.

Se por um lado Cate Blanchett rouba a cena como a Madrasta, por outro Richard Madden, que interpreta Kit, o príncipe, parece feito de plástico com a aparência que lhe deram. Os cabelos alisados e os dentes excessivamente brancos são artificiais demais. Apesar disso a produção do filme é caprichada, com cenários e figurinos deslumbrantes e bom uso de CGI (embora às vezes um pouco exagerado).

O romance entre Ella e Kit é crível e bastante inocente e a sequência do baile seguida pela sua transformação de volta ao normal ao badalar da meia noite é muito boa. Com seu vestido azul cheio de camadas, que se move de forma suave e bonita, Cinderela se destaca em meio aos demais convidados do baile. A riqueza de detalhes na composição dos figurantes funciona ao realçar ainda mais a sua presença. Mas a beleza não é seu atributo mais valorizado. Sua irmã Anastasia, por exemplo, é considerada mais bonita. O que a diferencia é justamente o fato de tentar se apegar aos ditames da mãe e ter coragem para enfrentar seu cotidiano e gentileza ao lidar com aqueles que estão ao seu redor.

O conto de fadas mais popular e mais adaptado de todos é refeito, aqui, de forma bastante bonita. Não há nada de novo, mas nem sempre há algo de errado com a velha mágica.

4estrelas

 

 

Para ler uma análise detalhada do figurino do filme, acesse aqui.

cinderella

 

 

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