Figurino: O Bebê de Rosemary

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 18/12/2013.

Dirigido por Roman Polanski, O Bebê de Rosemary é um grande clássico do terror, que trabalha com nossas percepções do entorno dos personagens para criar o suspense adequado. O filme é de 1968 e se passa entre 1965 e 1966. A figurinista Anthea Sylbert captou perfeitamente o que acontecia no momento, bem como os subtextos religiosos, para compor a protagonista.
Como mencionado no meu texto sobre New Look, em meados da década de 1960 o New Look, caracterizado por cintura marcada e saia rodada, saiu de moda e foi substituído por uma silhueta trapezoidal, em A, cuja saia encurtou ao longo do período.

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Exemplos de vestidos utilizados entre 1966 e 1968.

Para acompanhar a mudança do corte da roupa feminina, houve também uma guinada no tipo de corpo considerado ideal para portá-la. Nas últimas décadas o padrão de beleza era constituído por mulheres curvilíneas, com formas “ampulheta”, caracterizadas por busto e quadris largos e cintura fina. Agora, com a modelagem novamente solta pela primeira vez desde a década de 1920, o padrão daquele período retorna: corpos mais magros e poucas curvas. Mas enquanto aquele período buscava uma moda andrógena (dentro de certos limites) este busca, além disso, uma imagem infantilizada da mulher. Ícone da época, a modelo Twiggy, dona de grandes olhos sempre realçados, tinha 16 anos quando foi alçada à fama em 1966 e exemplifica bem esta estética.

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Twiggy, a beleza idealizada daquele momento.

O casal de protagonistas é composto por Rosemary Woodhouse (Mia Farrow) e seu marido Guy (John Cassavetes). Ele é um ator sem muitos trabalhos conhecidos e ela é dona de casa, que aspira se tornar mãe em breve. A paleta de cores dela é baseada no amarelo, com azul e marrom pontuando eventualmente. Azul e marrom também são as cores predominantes das roupas dele. O casal é jovem e busca por uma moradia. Optam por um apartamento antigo em um imóvel que teve sua planta alterada. No dia em que vão conhecer o apartamento, na abertura do filme, Rosemary utiliza um vestido totalmente branco, com luvas, bolsa e sapatos combinando. A peça marca sua inocência e certa ingenuidade.

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Quando passam a primeira noite na nova casa, Rosemary usa um vestido amarelo com estampa floral branca, que utilizará novamente em outra ocasião. Como o filme abrange um longo período de tempo, é interessante notar como as roupas das personagens se repetem. Guy está caracteristicamente de azul.

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O amarelo se repetirá no guarda-roupa dela ao longo de todo o filme.

05 Ela vai decorar a casa e costurar itens, como almofadas e cortinas. Conforme o lar vai ficando pronto, percebe-se que amarelo também domina todos os ambientes. Rosemary é essencialmente uma mulher caseira e se sente segura nessa situação, portanto, trabalha para deixar a casa alinhada consigo mesma.

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A protagonista contrasta com Terri, a vizinha que conheceu na lavanderia e que falou sobre seu passado difícil e do envolvimento com drogas. Com vestido de mangas bufantes e duas chiquinhas, parece quase uma criança, se comparada com o cabelo volumoso, brincos grandes, maquiagem e as cores fortes das roupas da outra.

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Quando Terri é encontrada morta na calçada em frente ao prédio, após um suposto suicídio, conhecemos o casal de vizinhos Minnie (Ruth Gordon) e Roman Castevet (Sidney Blackmer). Eles parecem dois velhinhos excêntricos, com seus trajes com uma profusão de cores, padronagens e acessórios. O visual é tão espalhafatoso que os torna ridículos e, por consequência, igualmente ridículas qualquer suspeitas em relação a eles. Os inconvenientes e excessivamente simpáticos vizinhos passarão a fazer parte da rotina do jovem casal.

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Na primeira vez em que Minnie e Roman convidam Guy e Rosemary para jantar no seu apartamento, esta utiliza um vestido azul-marinho com estampa floral, e com punhos e larga gola brancos, novamente garantido-lhe uma aparência bastante infantil. Voltará a utilizá-lo na cena em que recebe a notícia de que está grávida. A ligação entre as duas cenas é importante, pois é nesse jantar que Guy faz um acordo com o outro casal a respeito da esperada gravidez.

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O único momento do filme em que Rosemary não utiliza os vestidos que lhe são característicos é na noite em que faz um jantar romântico para Guy, pensando na concepção do bebê, por ser seu dia fértil. Ela veste um conjunto composto por calças amplas e camisa com gola de laço. A cor vermelha tem várias interpretações: pode remeter ao perigo que ela passa no momento, à paixão, ou, numa visão dentro do contexto religioso, ao próprio diabo. Ela desmaia após comer a sobremesa presenteada por Minnie e tem visões estranhas em que é o centro de um ritual. Ao acordar nua com o corpo todo arranhado, ouve Guy se justificar, utilizando como desculpa estupro marital. 10

Depois dessa noite, Guy, que até então permanecia sem camisa na hora de dormir, passa a usar pijamas, como se ocultasse algo da esposa, ou evitasse o contato com ela.

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Com a gravidez avançando, Rosemary definha a olhos vistos, cada vez mais magra e sempre com dor. O novo corte de cabelo, embora moderno, realça sua aparência. Transparece a fragilidade de seu estado, em que todos diretamente ao seu redor se negam a acreditar que esteja mal em virtude da gravidez. É tratada como criança, com condescendência, pelo marido e observada de perto pela vizinha. O tempo inteiro tentam podar sua agência, embora ela tente manter alguma. Não é vista como dona de si, o que ajuda a aumentar a sensação de horror e de urgência em relação a sua situação.

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Após dar à luz, ao descobrir que seu bebê está vivo, ouvindo o choro que vem do apartamento ao lado, a protagonista usa uma camisola azul clara com detalhes em branco. Novamente há uma interpretação de fundo religioso, pois a personagem supostamente engravidou de uma entidade sobrenatural, em uma concepção que não seria natural, dando a luz a uma criança prometida, esperada e especial dentro do contexto, tal qual Virgem Maria para o cristianismo e sendo essas duas as cores geralmente usadas em sua representação. Há algo de angelical na forma em que observa seu bebê. Ao final Rosemary se depara com o absurdo de sua situação, em que só ela vê o grotesco e todos ao seu redor se comportam como se tudo transcorresse dentro da normalidade, quase como uma caricatura bizarra de realidade.

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O Bebê de Rosemary não só é uma obra fantástica, como também uma que só poderia ter sido feita no período de sua realização, pouco antes do fortalecimento das lutas feministas. A fragilidade da protagonista e a falta de apoio que tem daqueles ao seu redor, bem como o tratamento que lhe confere o marido dificilmente seriam entendidos ou mesmo aceitos posteriormente. O figurino de Anthea Sybert, interpretando a moda da época (que buscava a beleza em uma imagem feminina infantilizada), ressalta sobremaneira o desamparo e fragilidade da protagonista, além de abarcar o contexto religioso da trama. A confluência do período histórico com a moda através do figurino torna o filme icônico para a estética da década de 1960.

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O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby/ 1968)

Assistido em 19/10/2013

Um clássico do gênero “terror”, O Bebê de Rosemary é (extremamente bem) dirigido por Roman Polanski. A trama gira em torno da dona de casa Rosemary (Mia Farrow), que acabou de se mudar com o marido, Guy (John Cassavetes) para um enorme apartamento que pertencia a uma velhinha, onde pretendem ter um filho. Logo eles ficam amigos dos excessivamente simpáticos vizinhos do lado, o casal Minnie (Ruth Gordon) e Roman (Sidney Blackmer). Eles passam a frequentar a casa uns dos outros e estreitar relações, mas Rosemary não gosta do seu modo invasivo.

Certa noite, após um jantar romântico em que bebeu demais, Rosemary tem sonhos estranhos que envolvem um grande grupo de pessoas ao redor dela e sexo com uma criatura assustadora que seria o próprio diabo. Ao acordar e perceber suas costas arranhadas, comenta com o marido o ocorrido. Ele ri e disse que não queria perder a oportunidade só porque ela havia dormido. Sim, no filme ninguém vê problema algum no estupro marital.

Na verdade a forma como Rosemary é tratada ajuda a aumentar a sensação de horror e de urgência diante de sua situação: ninguém se importa com ela, ninguém acredita no que fala. Guy trata-a com condescendência e fala como se o interlocutor fosse uma criança. Sua agência é podada o tempo inteiro. A não ser em breves momentos, ela não é vista como adulta dona de si.

Após aquela noite, Rosemary engravida e conforme a gestação passa, vai ficando mais magra e abatida, além de ter dores.

O filme não nos mostra nada de gore nem de violento: o suspense se constrói na temor pela segurança da personagem principal, dado a sua fragilidade, e falta de apoio. Além disso há um grande ranço misógino, mas acredito que seja proposital, para acentuar o isolamento de Rosemary. Mia Farrow, tão pequena e magrinha dentro do apartamento antigo com cômodos enormes aumenta ainda mais essa sensação. A moda desse final dos anos sessenta, com roupas infantilizadas, como seu vestidinho amarelo e branco, também ajuda nesse sentido.

Ao final Rosemary se depara com o absurdo de sua situação, em que só ela vê o grotesco e todos ao seu redor se comportam como se tudo transcorresse dentro da normalidade, quase como uma caricatura bizarra de realidade. Polanski nos desperta o desejo de ver o bebê, jamais o saciando, pois sabe que fosse qual fosse a imagem que criasse, não chegaria aos pés do que nossa mente alcança.

Fantástica construção da jornada da protagonista em uma situação fora do comum (e do real), com uma ótima direção, O Bebê de Rosemary realmente merece o status que tem entre os filmes do gênero.

Para ler minha análise do figurino de O Bebê de Rosemary, acesse aqui.

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A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo/1985)

Assistido em 01/11/2013

“I just met a wonderful new man. He’s fictional but you can’t have everything.”

Essa charmosa comédia-romântica dirigida com Woody Allen flerta com a fantasia e ao mesmo tempo nos fixa à realidade. A história se passa durante a Grande Depressão nos Estados Unidos e a personagem principal é Cecília (Mia Farrow), que trabalha como garçonete. Seu marido está desempregado, mas não parece muito disposto à procurar emprego. Cecília é apaixonada por cinema, adora ver os filmes e sabe tudo sobre suas estrelas. Ao ser demitida do emprego, passa o dia assistindo a um filme em cartaz que havia gostado: A Rosa Púrpura do Cairo (um filme dentro do filme). Acontece que lá pelas tantas um dos personagens da película, o arqueólogo aventureiro Tom Baxter (Jeff Daniels), percebe que elá já está assistindo pela enésima vez e fala com ela. Encantado com sua presença, Baxter sai da telona.  Apaixonado por Cecilia, ele quer viver livre no mundo real, embora não saiba exatamente as implicações disso. Ela fica envolvida pelo romance, já que em casa está presa a um ciclo de pobreza e violência causado pelo marido abusivo e beberrão. É por isso também que trata o cinema como um escapismo. As ações de Baxter trazem graves consequências para os demais envolvidos, dos personagens da película aos produtores e o próprio ator, Gil Shepherd (Jeff Daniels), que viaja até a cidade de Cecilia para tentar resolver a questão e convencê-lo a voltar para a telona.

A narrativa quase fabulesca se constrói no desejo por um final feliz, como os dos filmes do cinema. O figurino, bastante simples, quase poderia pertencer a qualquer período, apenas com algumas marcações da época, como o chapéu de Cecilia e a largura da lapela do blazer de Shepherd. É interessante que fora do filme preto e branco do cinema, as roupas também não são coloridas: tudo é feito em tons de bege, para ressaltar a insipidez de nosso mundo.

Ao final Cecilia precisa decidir entre uma vida de cinema que seria real e uma vida real que se oferece como uma vida de cinema. Opta pela segunda e descobre que a realidade sempre será decepcionante. O final feliz só acontece na magia do cinema.

Em cerca de uma hora e vinte minutos, Woody Allen construiu uma pequena joia que ao mesmo tempo homenageia a sétima arte e nos deixa torcendo por sua personagem principal, mesmo cientes da irrealidade dos fatores envolvidos. Um incrível experiência de criação de expectativa e frustração que se exprime, afinal, em satisfação.

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O Grande Gatsby (The Great Gatsby/ 1974 e 2013)

Assistidos em 11 e 12/06/2013

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Festança e riqueza!

Antes de mais nada devo dizer que não, eu não li o livro homônimo de F. Scott Fitzgerald antes de ver essas adaptações cinematográficas. Ano passado, quando comecei a ver notícias sobre o filme, me propus a ler, mas isso acabou ficando pelo caminho. Logo não comentarei a respeito da qualidade das adaptações entre as mídias, resumindo-me a falar da minha percepção à respeito das obras cinematográficas.

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Robert Redford e Mia Farrow, Gatsby e Daisy insossos

O Grande Gatsby de 1974 tem roteiro de Francis Ford Coppola e foi dirigido por Jack Clayton. Já a versão de 2013 foi co-roteirizada e dirigida por Baz Luhrmann. Para quem não está familiarizado com a história, trata-se de uma crítica à sociedade americana consumista da década de 20, em que grandes fortunas se criavam rapidamente (e que veio a ruir com a crise de 1929). O ano é 1922 e Jay Gatsby é um novo milionário que sempre organiza enormes festas luxuosas em sua mansão em frente ao mar, onde comparecem todos os ricaços da época. Todos se perguntam quem ele é e de onde veio sua fortuna. Nick Carraway é seu vizinho, tendo alugado uma casa simples ao lado da dele. Gatsby tem interesse no contato com Nick pois este é primo de Daisy, o seu grande amor que não via há cinco anos. Ela agora está casada com Tom Buchanan, um marido infiel, e mora do outro lado da baía. Luhrmann acrescenta à narrativa uma visão completamente desnecessária de Nick no futuro, em tratamento contra alcoolismo e depressão, falando dos acontecimentos para seu médico.

Como era de esperar, a versão de Luhrmann (que já havia nos entregado Romeu + Julieta e Moulin Rouge) é colorida e ruidosa, seguindo seu estilo. A primeira metade, onde os personagens são apresentados, bem como as festas, é vertiginosa. Como em seus filmes anteriores, ele utiliza de uma trilha sonora contemporânea, mas ao contrário de em Moulin Rouge, aqui ela não funciona. O primeiro tratava-se de um filme musical e além disso, sobre teatro (e teatral), então as liberdades tomadas não destoaram da ambientação dele; já nesse as músicas atrapalham na criação da época nas cenas.

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No filme de de 1974 as festa são tratadas de maneira realista, dos trajes, aos passos de dança à escala. Em 2013, tudo é excessivo também: da quantidade de pessoas nas festas, ao figurino, aos cenários gigantescos. Nesse caso, entendo que ajudaram no retrato dos exageros e torna as cenas visualmente interessante. Apesar disso o figurino extremamente anacrônico realmente prejudicou em certas horas, já que a maior parte dos trajes, especialmente femininos, são peças de passarela contemporâneas, muitas com silhuetas muito distantes da época retratada. Em ambos, o fato de a história se passar ao longo do verão, o uso de tons pastel predomina. O terno rosa de Leonardo DiCaprio rouba a cena: lindo e bem cortado. Interessante como hoje em dia o conservadorismo domina o guarda-roupa masculino e dificilmente alguém teria coragem de vestir algo assim.

Apartamento de Myrtle
Apartamento de Myrtle

O 3D é muito bonito e em várias cenas percebemos o cuidado do diretor em utilizá-lo corretamente, como quando vemos janelas de um prédio se destacando de sua fachada ou o próprio texto do narrador, Nick, voando na tela. Os cenários são ricos em detalhes, mas destaco um dos menores: o apartamento kitsch alugado por Tom para sua amante, Myrtle: todo colorido em tons de vermelho, casando com a o vestido de babados dela (e suas bijuterias de plástico). A cor viria se repetir depois no quarto de hotel ao fim do filme, mas dessa vez com uma carga bem mais dramática e opressiva.

Quarto do hotel
Quarto do hotel

Leonardo DiCaprio é um Gatsby caloroso e simpático, de uma forma que Robert Redford não consegue ser. Redford parece estar atuando no automático, enquanto DiCaprio encarna um personagem fácil de defender. Sobre Daisy, a versão de Mia Farrow também é problemática: parece tolinha, com a cabeça sempre nas nuvens, enquanto a de Carrey Mulligan funciona melhor, num misto de fragilidade e doçura, que, embora sejam características de sua interpretação por vezes monotônica, prestaram-se muito bem ao papel. O Tom Buchanan de 2013 é fantástico, graças à interpretação de Joel Edgerton. Já a Myrtle, amante de Tom, é melhor desenvolvida no filme anterior.

A Daisy de Carey Mulligan
A Daisy de Carey Mulligan

A segunda metade do filme de Luhrmann desacelera e torna-se mais tenso. Com menos interferência das músicas, flui melhor. Não tenho certeza, mas tenho a impressão que o desfecho do filme contém uma leve homenagem a Crepúsculo dos Deuses.

Em resumo, sobre os filmes, a história em si parece ter bastante potencial (e é certo que agora lerei o livro). Ao final temos uma versão raquítica e desinteressante e uma excessivamente barulhenta. Entre as duas, fico com a mais recente, já que, problemas à parte, em nenhum momento enfada o espectador; muito pelo contrário: nos deixa sem fôlego e imersos em sua linguagem. Oferece interessantes poemas visuais, boas interpretações, imagens bonitas, emocionantes e instigantes que ficam martelando na mente e um conjunto que permanece em nossa memória muito depois de o filme terminar. Mesmo com tantos erros, Baz Luhrmann chegou bem perto do acerto.

Obs: Se você quiser ler minha análise sobre o figurino do filme, acesse o link.

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