Tag Archives: Michael Kaplan

Três anos de “Vestindo o Filme”

Mais um ano se passou e minha coluna no Cinema em Cena aniversaria hoje. Em 8 de julho de 2013 foi ao ar sua primeira edição, em que escrevi sobre O Grande Gatsby. Tive uma redução de ritmo considerável dessa vez: no primeiro ano foram vinte e cinco textos comentando quarenta e um filmes; no segundo dezoito e trinta e dois, respectivamente. Dessa vez foram treze artigos que abordaram trinta e duas obras. O espaçamento foi maior, mas pelo menos incluí mais filmes em cada um. Todo ano eu escolho os dez que mais gostei de escrever: não necessariamente os melhores, mas os que mais me diverti ou me interessei. Com o número reduzido, dessa vez vou escolher cinco, todos com links para o texto na íntegra. Vamos a eles:

Herói

Hero 2002

Nada como um uso espetacular de cores para auxiliar a narrativa. Esse filme de Yimou Zhang com figurino de Emi Wada é puro deleite para os olhos.

Garota Exemplar

Gone Girl

Figurinos de época geralmente são mais vistosos e chamam mais atenção, mas na sutileza e na minúcia de um bom figurino contemporâneo se esconde muita coisa. Trish Summerville é uma figurinista ainda com poucos filmes no currículo, mas que tem se mostrado consistente. Sua colaboração com David Fincher é uma prova da qualidade do seu trabalho.

Personagens femininas e seus figurinos em filmes de ação

Furiosa Mad Max

Nós sabemos que a representação feminina em filmes é problemática em geral, mas o que dizer das roupas pouco práticas utilizadas em filmes de ação ou aventura?

Juventude Transviada

09

Roupas que marcaram época e gerações e uma direção de arte impecável em um filme clássico que eternizou James Dean como ícone que é.

Carol

Carol.2015.1080p.BluRay.x264-GECKOS.mkv_000625424

“Elegante” é o adjetivo que melhor descreve o último filme de Todd Haynes. Sandy Powell, figurinista veterana, criou para ele peças bonitas e que casam com a estética do conjunto. Como não se apaixonar por Carol (ou Therese)?

Para ler os demais textos sobre figurino no blog, acesse aqui.

Share

Personagens Femininas e Seus Figurinos em Filmes de Ação

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Esse espaço sempre foi utilizado para discutir figurinos no cinema, oras partindo para interpretações subjetivos, oras pensando em termos de contexto histórico ou social. Invariavelmente escapam análises que vão para além do figurino e se estendem para a direção de arte como um todo, mas também para temas relacionados à representação, especialmente em se tratando de gênero. Dessa vez a proposta desse texto vai ser um pouco diferente: ao invés de focar em um filme, vou levantar alguns pontos a respeito dos figurinos utilizados por personagens femininas em filmes que envolvem ação e aventura, especialmente a falta de praticidade e de conforto proporcionada por eles. O foco é o cinema, mas como muitas vezes as mídias dialogam entre si, quadrinhos, videogame e televisão serão citados também.

Star Wars: Episódio VII- O Despertar da Força não estreou ainda, mas muitas pessoas já o esperam ansiosamente. Há poucos dias, na página de facebook do Star Wars, um fã da série deixou um comentário a respeito de uma nova personagem, Capitã Phasma, também chamada de Chrome Trooper, cuja imagem já havia sido divulgada. Ele afirmou o que pode ser traduzido como: “Não quero ser sexista, mas é realmente difícil para mim dizer que essa é uma armadura feminina”. O “não quero ser sexista, mas…” já era sintomático, mas a equipe de social media da página respondeu de forma clara: “É uma armadura. Em uma mulher. Ela não precisa parecer feminina”.

01

Imagem do comentário deixado na página do Star Wars e resposta da mesma.

 

Capitã Phasma, em foto divulgada pela revista Vanity Fair.

Capitã Phasma, em foto divulgada pela revista Vanity Fair.

O figurino de Star Wars é desenhado por Michael Kaplan, que começou sua carreira em Blade Runner (cujo figurino já foi analisado aqui) e essa personagem em particular tem o visual claramente inspirado nas roupas de stormtroopers dos outros filmes da franquia. Mas mesmo que não fosse o caso, a questão aqui é a sua proteção. Independente do gênero, essa é (ou deveria ser) a função de uma armadura. Uma armadura tradicional, feita para uma narrativa que se passa em um contexto medieval, de ficção científica ou de fantasia, vai ter, basicamente, as mesmas características. As placas principais vão cobrir cada parte das pernas e braços, um elmo ou capacete para a cabeça e uma grande placa peitoral para o tronco. As juntas sempre são o ponto fraco em se tratando da segurança, pois não podem ser rígidas, para preservar a mobilidade.

Mas o mais importante é: quem veste a armadura não está nu por baixo. Aparentemente, pela expectativa de certa parte do público, esse fato pode parecer inacreditável, mas a verdade é que seios no peitoral não fazem sentido, uma vez que a placa não está em contato direto com o corpo, seguindo suas formas. Uma mulher ou homem não só utilizarão pelo menos um tipo de camisa por baixo da armadura, como também algum material acolchoado, para evitar o impacto, de maneira que suas formas se perdem dentro da proteção. Mas, mais que isso, o ideal é que as laterais do peitoral tenham uma angulação maior que o peito da pessoa, para que lanças, flechas e outras armas arremessadas sobre ele deslizem sobre a superfície. Uma placa que tivesse o formato de seios faria sua portadora correr o risco de fraturar o esterno, pois a depressão entre eles funcionaria como uma cunha sob o impacto de um golpe.

Com seus impressionantes 1,91m de altura, a atriz Gwendoline Christie, que interpreta a Capitã Phasma, também encarna Brienne de Tarth, na série de televisão Game of Thrones. Lá a figurinista Michele Clapton também providenciou a ela uma armadura funcional e adequada às atividades da personagem. Percebe-se que a peça tem uma linha central no peitoral, marcando a inclinação para as laterais que ajuda na proteção.

03

Existem bons exemplos de mulheres vestindo armaduras funcionais no cinema. A rainha Elizabeth I da Inglaterra, interpretada por Cate Blanchett com figurino de Alexandra Byrne no filme Elizabeth: A Era de Ouro, de 2007 é uma delas. A Branca de Neve de Kristen Stewart em Branca de Neve e o Caçador, de 2012 é outra. Nesse caso o figurino fica por conta de Colleen Atwood, que também foi responsável por O Silêncio dos Inocentes, cuja análise pode ser lida aqui. Ambas as personagens contam com proteções nos ombros e usam cotas de malha. A rainha veste uma peça decorada e talvez a cintura marcada não seja uma boa decisão, mas o peitoral tem um formato adequado. Branca de Neve ainda conta com calças de couro, bem como o braço de segurar o escudo no mesmo material.

04

Entre os lançamentos dessa última temporada do verão americano, Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros também gerou muitos comentários a respeito de sua protagonista, Claire (Bryce Dallas Howard). Ela é retratada como uma pessoa rígida, focada no trabalho de administradora do parque e incapaz de se conectar com os sobrinhos que a estão visitando. Essas características são externadas pelo figurino impecavelmente claro, acompanhado de sapatos de salto alto beges, que destoam das roupas de lazer dos visitantes e das práticas dos demais trabalhadores dos bastidores do funcionamento. A personagem passa por todas as desventuras retratadas no filme sem jamais remover os fatídicos sapatos dos pés.

05

A ideia parece ser de mostrar que ela é capaz de tudo: administrar o parque, correr na mata e atrair um tiranossauro sem jamais tirar o salto, como se isso fosse empoderador. Não que se deva cobrar realismo em um filme repleto de dinossauros vivos, mas exigir resistência sobre-humana de uma personagem (que, como tal, foi escrita e idealizada dessa maneira por alguém) reflete apenas os padrões irreais com que as mulheres são retratadas no cinema. E isso é válido mesmo que a ideia tenha partido da atriz, afinal, esse é o meio em que ela está envolvida. Uma pessoa que tenha passado pela experiência de andar sobre um salto sabe que é humanamente impossível correr como Claire corre e por tanto tempo. O contraste com a Doutora Ellie Sattler (Laura Dern) não poderia ser maior. A paleobotânica foi representada à vontade com sua roupa adequada ao trabalho de campo no primeiro Jurassic Park, de 1993.

06

Não é à toa que, em Tudo Por uma Esmeralda, de 1984, dirigido por Robert Zemeckis, o aventureiro John T. Colton (Michael Douglas) quebra o salto dos sapatos de Joan Wilder (Kathleen Turner), quando ambos estão na selva.

gif esmeralda

Quando uma personagem é construída para ser uma profissional que tem que lidar com ação cotidianamente, isso tem que ser levado em conta. Por isso a construção de Ilsa Faust, interpretada por Rebecca Ferguson no novo Missão Impossível- Nação Secreta funciona quase como uma resposta a Claire. Espiã experiente, em determinado momento da trama Ilsa se veste com vestido longo e fluido, que não impede seus movimentos, além de sandálias de salto alto. O conjunto é necessário como disfarce, uma vez que ela está em uma ópera, o que pede traje de gala. Ainda assim, quando ela precisa fugir ao lado de Ethan Hunt (Tom Cruise), prontamente pede que ele retire seus calçados, pois sabe que eles não são ideais. Essa sequência pode ser vista no vídeo abaixo. No restante do filme a espiã sempre utiliza botas sem salto, adequadas para corrida.

07

Há pouco tempo foi revelada a aparência da nova Mulher Maravilha (Gal Gadot), que vai participar do filme Batman vs Superman: A Origem da Justiça, previsto para o ano que vem; e de Liga da Justiça e do filme solo Mulher Maravilha, ambos previstos para 2017. O figurino é desenhado por Michael Wilkinson, que também já trabalhou em Noé e Trapaça, cujos figurinos podem ser conferidos aqui e aqui.

08

Em primeiro lugar a bota possui um salto bastante alto, disfarçado como anabela. Também é possível perceber que o corpete da personagem é feito de um material rígido, como uma carapaça. Ora, detentora de super-força garantida pela deusa Deméter e multiplicada por dez vezes pelo seu bracelete de Atlas, a heroína não tem necessidade de uma roupa com armadura. Se fosse o caso, uma com o contorno dos seios, como essa, seria mais perigosa do que segura, conforme já explicado. Além disse ela necessitaria proteger braços e pernas também.

Como não precisa desse tipo de proteção, poderia se pensar em algum tipo de roupa mais prática para a movimentação. Os saltos definitivamente não se encaixam nesse quesito. É possível que sua hot pant tradicional também não seja a melhor opção e talvez calças confeccionadas em tecido com boa elasticidade o fossem. Foi assim que ela foi vestida no seriado de 2011 Wonder Woman, nunca lançado, quando foi interpretada por Adrianne Palicki.

09

Mesmo assim, ambas contam com outro ponto de desconforto: o corpete tomara-que-caia. Novamente, qualquer pessoa que já teve a experiência de usar essa peça de vestuário sabe que ela não é a ideal para correr e pular e provavelmente a personagem levaria a mão mecanicamente ao decote, puxando-o para cima de tempos em tempos.

Ainda que o tomara-que-caia faça parte do visual clássico da personagem, em se tratando de uma adaptação de cinema, tudo é possível. Os uniformes dos heróis nos quadrinhos foram originalmente inspirados pelas roupas de artistas circenses, mas cada um passou por diversos modelos e formas ao longo dos anos e a pessoa responsável pelo figurino tem liberdade para tomar decisões a respeito do resultado final que almeja. Tanto é que que as cores escuras dessa versão cinematográfica, nesse caso, em nada correspondem ao azul e vermelho abertos comumente associados à heroína. E de toda forma, em sua última encarnação nos quadrinhos ela já aparece com calças e uma blusa fechada, que jamais teimariam em cair.

10

Mesmo a Supergirl (Melissa Benoist), da série homônima que deve estrear esse ano, mantem o uniforme tradicional, mas com botas sem salto, saia mais longa e camiseta simples, com punhos presos aos dedos, passando a ideia de que nenhum tecido atrapalha seus movimentos. As meias-calças provavelmente vão puxar um fio e desfiar na primeira atividade física, mas, no geral, é o tipo de roupa que não é imprópria à ação. O figurino, aqui, também é desenhado por Colleen Atwood.

11

As expectativas em termos de representação dos gêneros são bastante diferentes quando se leva em consideração o cinema de ação e aventura em geral. Tomemos um exemplo que talvez possa ser visto como extremo, mas que ilustra tal fato. Os dois personagens abaixo têm a mesma profissão, ainda que à primeira vista pareçam ter pouco em comum: ambos são arqueólogos.

12

Indiana Jones (Harrison Ford) teve seu visual, com chapéu e jaqueta de couro, estabelecida em Os Caçadores da Arca Perdida, de 1981, pela figurinista Deborah Nadoolman (que também trabalhou no clássico da sessão da tarde Um Príncipe em Nova York). Enquanto busca por suas relíquias entre as décadas de 1930 e 1950, o personagem tem as pernas resguardadas de qualquer eventual arranhão, enquanto a jaqueta protege seus braços e tronco.

Já Lara Croft (Angelina Jolie), personagem contemporânea adaptada dos videogames, apareceu em dois filmes: Lara Croft: Tomb Raider, de 2001 e Lara Croft: Tomb Raider – A Origem da Vida, de 2003. Em ambos ela foi vestida pela figurinista Lindy Hemming. O que mais chama atenção é que suas pernas estão completamente desprotegidas para qualquer tipo de impacto que possa receber. Novamente optou-se por manter a aparência que ela possuía nos jogos, ignorando que uma nova mídia permitiria a alteração desta. Vale notar que em 2013 a personagem passou por uma remodelação, deixando seu físico mais realista e trocando os shorts por calças.

13

Muitas vezes figurinistas, diretores e demais responsáveis pela aparência de personagens femininas em filmes que envolvem cenas de ação e aventura as colocam em um papel fetichizado, desnecessário para o desenvolvimento da trama e especialmente das próprias personagens. Outras vezes esse pode até não ser o caso, mas o retrato é preguiçoso e parece não levar em conta o ambiente em que elas estão inseridas e suas ações. As roupas de qualquer personagem, independente de gênero, deveriam ser pensadas de maneira a refletir as atividades que ele precisa desempenhar em cena. Personagens como Sarah Connor (Linda Hamilton)  e Ripley (Sigourney Weaver) sempre são lembradas quando os gêneros de seus filmes são citados e vestem uma roupa prática  e um macacão de uniforme, respetivamente.

14

Ainda esse ano Imperatriz Furiosa, interpretada por Charlize Theron, roubou a cena em Mad Max: Estrada da Fúria, vestindo figurino de Jenny Beavan. A personagem fácil e rapidamente se transformou em um novo ícone feminista, tudo isso com uma roupa que não só não a objetifica, como faz todo sentido estética e conceitualmente no cenário distópico proposto pelo filme. Pelo menos metade do público consumidor de cinema é composto por mulheres, mas a quantidade de pessoas não deveria importar quando o que está em jogo é a construção de personagens. Todos os grupos deveriam ter direito de verem na tela constructos que façam sentido e não sejam meras caricaturas, fabricadas para o olhar de um público específico. Sim, trata-se de ficção e muitas vezes em mundos fantásticos, mas ainda assim, a representação de personagens femininas importa, e muita. Com um pouco mais de empatia por parte dos responsáveis é possível fazer filmes melhores.

?????????????????????????????

 

Share

Figurino: Blade Runner- O Caçador de Androides

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 02/07/2014.

 

“All those moments will be lost in time… like tears in rain…”

 

Em 1982 estreou o terceiro longa dirigido por Ridley Scott: a ficção científica futurista Blade Runner, o Caçador de Androides, baseada no livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (também lançado no Brasil como O Caçador de Androides), de Philip K. Dick. O filme é visualmente marcante e a estética do futuro que ali se passa é criada sobre referências do passado. Os figurinistas Michael Kaplan e Charles Knode usaram como inspiração o período entre o final da década de 1930 e meados da década de 1940, bem como o film noir. Este gênero influencia todo o conjunto, da trama centrada em um protagonista moralmente ambíguo e uma femme fatale, aos constantes jogos de luz, sombra e fumaça que compõem as cenas.
A Los Angeles de 2019 é uma cidade de constante penumbra, uma Macondo de chuva sem fim. É abrigado dessa chuva, sentado sob uma marquise, que vemos Deckard (Harrison Ford) pela primeira vez. O protagonista, caçador de androides a contragosto, veste camisa cinza, calça marrom e um longo sobretudo que o acompanhará por todo o filme. A falta de cores faz com que o efeito não seja nem de combinação nem de descombinação. Deckard apenas veste as roupas, porque elas não têm importância alguma.

01

De Humphrey Bogart a Dick Tracy, o uso de sobretudo é recorrente entre os personagens de film noir ou que a ele remetem. O de Deckard é remodelado, com a lapela sempre erguida, confeccionada em tecido rígido com textura listrada.

Humphrey Bogart In A Trenchcoat

Troca poucas vezes de roupa, mantendo sempre a mesma calça. Em certo momento utiliza um blazer de tweed. As camisas mudam: certa hora veste uma com estampa pontilhada com gravata xadrez; em outra é uma bicolor verde e roxa. Mas as cores são sempre muito escuras, pouco reveladoras.

03

Sua aparência desleixada contrasta com a de Gaff (Edward James Olmos), que não só sempre aparece impecavelmente trajado, como com um certo exotismo, explorando combinações de estampas diferentes e fazendo uso de chapéu e bengala para incrementar sua aparência.

04

Aqueles positivamente identificados como replicantes, androides escravos, recebem um tratamento desumano. Seus corpos não pertencem a eles e servem apenas ao propósito dos humanos. Não sabemos nada sobre a sociedade desse contexto, só sabemos que aos replicantes é vetado desejar por si e para si mesmos. Mas alguns deles fugiram e devem ser caçados. Zhora (Joanna Cassidy), por exemplo, disfarça-se de dançarina exótica, na companhia de uma cobra artificial como ela mesma. Seu corpo nu é coberto de cristais. Após a apresentação, veste apenas botas de cano longo, um conjunto de calcinha e sutiã, redesenhados para garantir um visual futurista, e sobre eles uma capa transparente.

05

Deckard persegue-a implacavelmente pela cidade e o que vemos é ela rodeada por manequins, figuras antropomórficas sem vida como os androides, e uma mistura das transparências do vidro que se quebra e de sua capa. A sequência é quase onírica. Seu corpo no chão em meio a esse cenário não é humano e tudo é feito para nos lembrar disso, mas o sangue, ironicamente, nos passa a ideia oposta.

06

Pris (Daryl Hannah) era ainda menos dona de sua própria corporalidade, já que foi criada como “modelo para prazer básico”, ou seja, para fins sexuais. Da primeira vez em que a vemos, sai do meia da névoa vestindo o que se espera para sua função: botas, meias finas com ligas, traje preto com transparências, coleira e um casaco de estampa de tigre, tudo influenciado pela estética punk. É com essa roupa, aliada ao seu ar ingênuo, que conquista a confiança de Sebastian.

07

Perto do fim, pinta seus olhos dramaticamente de negro, sobre pele maquiada de branco, disfarçando-se entre bonecos criados por ele. Ao contrário do que ocorreu com Zhora, a presença desses elementos serve para ressaltar sua superioridade enquanto modelo. Sua falsa humanidade se destaca em meio ao entorno. A perfeição é que revela sua natureza, como que gerando um “vale da estranheza”.

08

Mulher, com agência e autonomia na medida em que havia se libertado dos humanos, foi caçada e morta por Deckard assim como Zhora. E também o foi seminua, vestindo apenas um colant cor pele, e tendo seu corpo explorado visualmente em cena. O sangue novamente destaca a humanidade contrastante nesse futuro desumano. Quem sente sua morte e sofre é Roy (Rutger Hauer), marcando o rosto com esse sangue derramado.

09

Rachael (Sean Young), como Pris, aparece pela primeira vez saindo do ocultamento; mas nesse caso é das sombras, emergindo para a luz. Nesse momento desconhece sua natureza replicante e por isso, ao contrário das outras duas, aceita a vida que recebeu e sua função de secretária. A saia lápis e blazer estruturado, bem como seu penteado são versões estilizadas do que era usado pelas mulheres em film noir. Os ombros aqui são ainda mais acentuados, criando uma silhueta de ampulheta extremada. Os detalhes em couro na gola brilham, assim, como seus lábios, no lusco-fusco que entra pelos rasgos que servem de janela no edifício.

10

A inspiração parece vir dos vestidos que Joan Crowford e Katharine Hepburn utilizavam, desenhados pelo figurinista Adrian de maneira a acentuar seus ombros.

Acima Joan Crowford e abaixo Katherine Hepburn em trajes com ênfase nos ombros criados por Adrian

Acima Joan Crowford e abaixo Katherine Hepburn em trajes com ênfase nos ombros criados por Adrian

Ombros e golas realçados vão se repetir por seu figurino, que inclui outro conjunto similar ao anterior, mas em tons de cinza e um casaco de pele com lapela extravagantemente proporcionada, que aparece em duas versões (preto e cinza). Esses trajes indicam uma mudança na cor predominante que ela usa conforme envolve-se com Deckard e também a alta posição que ocupa, passando-se por humana.

12

Deste último conjunto, retira o casaco em um momento de vulnerabilidade, em que também solta os cabelos, mostrando-se livre de seus escudos. É então que Deckard cria uma dinâmica de submissão, em que em nenhum momento a personagem parece à vontade. Ainda assim, é com ela que ele terá o mais próximo de um final feliz que o filme oferece. Rachael nunca chega a expressar seus desejos sem que seja inquirida e assim, ao contrário das replicantes que ousaram querer, sua existência é poupada.

13

 

Por fim, temos Roy, um replicante construído para fins militares, mas que se tornou o líder do grupo foragido. Ele surge vestindo uma camiseta cinza e um casaco preto com gola estruturada, ambos simples e funcionais. Deve estar sempre pronto para lutar.

14

Roy sente dor ao encontrar Pris e, enlutado, despe-se para procurar Deckard, permanecendo apenas com os sapatos e uma bermuda. Uma estratégia comumente utilizada para desumanizar pessoas é filmar partes de seu corpo sem um rosto que lhes confira personalidade. Na cena em que confronta Deckard é isto que acontece: vemos seu corpo enquadrado na chuva, mas sua cabeça fica fora da tela. Por estar sem cabeça, não é humano; sem roupas, despiu-se da pretensa civilidade. Isso tudo na sequência em que demonstra poeticamente ter ambas mais do que todos.

15

A chuva que lava a cidade, as luzes que sempre se infiltram em raios nos ambientes soturnos, as roupas escuras e com cortes específicos, a trilha sonora certeira de Vangelis, a grandiosidade da cidade (com lindas pinturas matte de Matthew Yuricich), a fria beleza com que os corpos mortos são exibidos: tudo parece compor um clima melancólico e trágico em Blade Runner. No contexto do filme, tudo que é, pode não ser; e tudo que parece, não é. Em um jogo de espelhos com nossas próprias vidas, coletam-se momentos que um dia se esvairão. Assim vivemos todos, assim dizemos todos. Não há saída para esses personagens e se há, não parece ser por muito tempo. Tanto Michael Kaplan quanto Charles Knode são figurinistas talentosos, que aqui, juntos, ajudaram a criar esse universo que funciona de forma perfeitamente crível. Os aspectos artísticos do filme são inegavelmente belos. A arte, ao contrário da matéria orgânica, sobrevive à passagem do tempo.

Share

Figurino: Além da Escuridão – Star Trek: Brincando com as cores primárias

star-trek-jj-abrams-reboot

Uniforme novo da Frota Estelar, com as camisas nas três cores características. É possível perceber a estampa criando textura no tecido.

Uma das mais legais que a imagem em HD nos proporcionou foi a possibilidade de ver com detalhe as texturas, especialmente dos cenários e figurinos. Subitamente aquele filme do passado que você achava que tinha um cenário fantástico, passou a ter um que parecia feito de isopor. Mas por outro lado, daí pra frente o cuidado com os detalhes aumentou muito. Lembro a primeira vez que uma amiga comprou uma televisão com imagem em HD e me chamou para ver. Ela havia alugado o primeiro filme do Piratas do Caribe e meu queixo caiu: eu conseguia ver as tramas dos tecidos, as linhas, os bordados, os detalhes em metal, tudo! Um mundo novo de delícias para gente como eu, que se importa com esses detalhes.

Uniforme clássico, com camisas em três cores, calças capri e botinas para os homens, e vestido para os mulheres.

Uniforme clássico, com camisas em três cores, calças capri e botinas para os homens, e vestido para os mulheres.

Dito isso, obrigada alta definição e parabéns Michael Kaplan, figurinista de Além da Escuridão, novo filme da franquia Star Trek, bem como de filmes como Blade Runner, Flashdance, Seven, Clube da Luta, entre outros. Graças aos dois foi possível perceber que as camisetas dos uniformes dos personagens agora têm uma estampa com o símbolo da frota estelar, criando uma textura de escama no tecido. O único personagem que reparei que não usa essa estampa é o Almirante Marcus, cuja camiseta possui losangos entrelaçados estampados. Infelizmente não consegui achar nenhuma imagem para ilustrar. Esse é o tipo de detalhe que mostra o cuidado do trabalho do profissional de figurino e que muitas vezes passa despercebido. O uniforme da tripulação, bastante parecido com o da série  original, passou a usar calças compridas ao invés de capri, mas seguem com as camisas tradicionais nas cores vermelho, azul e amarelo,em tons um pouco mais fechados. Anteriormente as cores eram mais abertas, conforme a moda da época. O significado delas mantém-se o  mesmo: camisas vermelhas para quem trabalha na área técnica e engenharia, azuis para ciências e amarelas para comando. Por baixo, como pode-se ver pela gola, todos usam um tipo de camiseta em tom grafite. O fato recorrente de os personagens com camisas vermelhas morrerem continua valendo. Se uma morte é necessária para a trama e há um personagem secundário com uma camisa dessa cor, será ele a morrer.

006

Uniformes novos.

O uniforme feminino na série original era composto por um micro-vestido. A inglesa Mary Quant havia inventado a minissaia em 1964 e esta se popularizou rapidamente. Quando a série estreou, em 1966, a peça já estava suficientemente assimilada e os realizadores ousaram ao encurtá-la ainda mais. Em várias cenas é possível ver que as atrizes utilizam shorts por baixo, pois o comprimento era deveras pouco prático à mobilidade. Já agora vemos que Uhura (Zoe Saldana), por exemplo usa uma saia em um comprimento mais confortável, ainda com a silhueta em A, acompanhada de botas, aproximando ao anos 60.

Uniforme feminino da série original: comprimento desconfortável.

Uniforme feminino da série original: comprimento desconfortável.

Uhura com uniforme atual.

Uhura com uniforme atual.

Nesse filme também há muitas cenas que exigem o uso de um conjunto de calça e casaco, ao invés do uniforme tradicional. Percebe-se que para manter a identidade visual dos cargos ocupados, Michael Kaplan optou por fazê-los em um tom de cinza escuro e com um recorte forrado com um material transparente, permitindo ver o tecido da camisa do personagem por baixo, para que possa-se identificar a função do tripulante. Esse é um um cuidado bastante interessante.

Jaqueta com recorte, permitindo identificar cor da camisa e consequentemente função do tripulante.

Jaqueta com recorte, permitindo identificar cor da camisa e consequentemente função do tripulante.

Segundo ele, em entrevista para o site Clothes on Film, a roupa que o vilão John Harrison (Benedict Cumberbatch) usa não é uma homenagem ao clássico vilão Khan, e sim a Deckard, de Blade Runner, com seu sobretudo e visual de filme noir.

Acostumado já a trabalhar com ficção científica, Michael Kaplan conseguiu equilibrar-se entre a contemporaneidade dos novos uniformes propostos e a familiaridade dos uniformes da série original, produzindo um figurino bastante eficiente e que acredito que será marcante no contexto da franquia.

Figurino utilizado por Bendict Cumberbatch: sobretudo de inspiração noir.

Figurino utilizado por Bendict Cumberbatch: sobretudo de inspiração noir.

Share