Enquanto Somos Jovens (While We’re Young, 2014)

“He’s not evil, he’s just… young”.

Não sou nenhuma especialista em mumblecore, movimento de onde saiu Noah Baumbach, diretor de Enquanto Somos Jovens. Mas mesmo sem ter muito referencial sobre esse contexto, o pouco que vi, gostei. Antes desse filme só havia assistido a Frances Ha, um filme com o qual me identifiquei muito. E aqui novamente ele consegue facilmente  criar empatia entre expectador e personagens, graças a construção bastante humana destes.

Dessa vez os protagonistas são quatro: Josh (Ben Stiller) e Cornelia (Naomi Watts) um casal de quarentões; e Jamie (Adam Driver) e Darby (amanda Seyfried), jovens de vinte e poucos anos. O contraste é preciso. Os primeiros vivem em um mundo pacato, em que seus amigos já tem filhos e suas vidas não passam mais por grandes mudanças. Já os outros vivem uma vida repleta de atividades intensas e novidades. Para a geração mais velha, a tecnologia é algo que foi aos poucos entrando em sua vida e dela faz parte. A geração mais nova, que se tornou adulta após a crise de 2008 nos Estados Unidos, tem apego pelo retrô, como a máquina de escrever, o vinil e as roupas de brechó, bem como por uma atitude de faça-você-mesmo que se impregna até mesmo no mobiliário ou na vida profissional (Darby, por exemplo, faz sorvetes artesanais). Novamente, é difícil não comparar a vivência deles com o que é mostrado no seriado Girls, escrito e estrelado por Lena Dunha para a HBO.

(Abro um parênteses para dizer que, enquanto “trintona”, é difícil também não pensar no que tenho em comum com ambos os lados. Se por uma lado amigos casam, têm filhos, e carreiras estabelecidas, certas atitudes inconsequentes dos mais jovens já me cansam e a tecnologia se infiltrou em minha vida e me fez ter pouco apego às coisas físicas – filmes e músicas são digitais e livros, embora os tenha, prefiro comprar eletrônicos, em virtude do espaço-; por outro o fazer com as próprias mãos -roupas e outras costuras, objetos de decoração e até móveis, com ajuda de mais gente- tem apelo para mim. Voltando…)

Para os mais velhos, esse estilo de vida desapegado, em que tudo pode virar outra coisa e as mentes estão abertas para outras experiências, pode ser muito sedutor. Mas o fato é que toda geração estranha aquela mais velha que a sua, mas também repreende a mais jovem. É por isso que Josh se sente julgado por seu sogro, que assim como ele, é documentarista. O ponto forte do filme está justamente aí: quando ele explora os conflitos geracionais e dificuldade de cada um em entender o que outro pensa e sente.

Dessa forma, a trama se perde quando tenta personalizar determinados hábitos, para então vilaniza-los. O que até então se apresentava como diferença de idade, passa a ser diferença de caráter. Além disso, uma sequência que envolve uma festa com consumo de ayahusca parece desconectada do resto da narrativa, pois apela para um humor barato, beirando o escatológico e não traz grandes revelações a respeito dos envolvidos.

Mas, como um todo, o filme funciona: é divertido e leve. Talvez não seja, como Frances Ha, um retrato tão pungente de um período da história e das vidas de pessoas comuns, mas ainda assim é construído com sensibilidade na medida certa.

3,5estrelas

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O Impossível (Lo Imposible/ 2012)

Assistido em 11/02/2013

Adiei esse momento ao máximo, pois confesso que fiquei com uma certa preguiça de escrever sobre esse filme. Na verdade a preguiça já começou antes de assisti-lo: adiei ao máximo por estar com o pé atrás. Explico-me: a narrativa é baseada na história real de uma família espanhola (pai, mãe e três meninos) que estava na época de Natal em 2004 na Tailândia, quando esta foi atingida pelo tsunami que devastou a região, matando 240 mil pessoas em 14 países. Para a adaptação cinematográfica, embora a produção seja espanhola, optou-se por atores britânicos e um “aloiramento” de todos os protagonistas. Isso me incomodou de antemão. Além do mais acho interessante o fato de em uma tragédia em que milhares de pessoas morreram dessa forma, a empatia precisa ser criada sob o ponto de vista do turista europeu, e não do habitante local que realmente teve sua vida afetada (isso para quem sobreviveu). Não é que a tal família não tenha passado por maus bocados, mas nem se compara com os demais.

Enfim, superada essa preguiça inicial, fui ao filme. Confesso que achei a cena do tsunami, que acontece logo ao início do filme, impressionante. À partir daí passamos a acompanhar Maria, a mãe, juntamente com Lucas, seu filho mais velho, a procura do seu marido Henry e seus dois filhos mais novos, Simon e Thomas. Ao ficar submersa após a chegada da onda, seu corpo bateu contra muitos objetos e ela sofreu ferimentos graves. Naomi Watts recebeu uma indicação para o prêmio de Melhor Atriz no Oscar pelo papel, mas sinceramente não me pareceu tão bem assim. Tudo bem que as filmagens parecem ter sido fisicamente exaustivas, mas em termos emocionais tudo no filme (e não só ela) me parecem ao mesmo tempo rasos e artificiais.
O diretor, Juan Antonio Bayona, vindo do cena de terror, conseguiu usar as imagens de maneira eficiente para mostrar a dor de forma perturbadora. Mas, talvez pelo seu passado, não soube dosar o açúcar. O melodrama saiu de controle do meio para o fim, de forma que eu já estava impaciente e revirando os olhos. E ao final todos as minhas impressões preconceituosas se mostraram verdadeiras. Nada do sofrimento dos habitantes é mostrado. Só o que importa são os pobres turistas europeus.

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