007: Operação Skyfall (Skyfall/2012)

Assistido em 30/11/2013

Sometimes the old ways are best.

Não sou fã da franquia 007. Apesar disso, já assisti filmes de quase todas as encarnações do espião, passando por todas as décadas, graças ao meu pai, que gostava muito do personagem. Sempre achei as tramas mirabolantes e não conseguia mergulhar nas histórias. Resolvi dar uma chance para Skyfall depois de ler tantos comentário positivos e também porque Sam Mendes (de Beleza Americana, Foi Apenas um Sonho, entre outros) na direção é no mínimo um contraste interessante.

O filme já começa com uma bela sequência de ação que dura em torno de doze minutos. Ao fim dela, já se está irremediavelmente preso à poltrona, com atenção total. Bond (Daniel Craig) apanha, se machuca, leva tiro, cai, mas ao final levanta-se ajeita as abotoaduras, num momento em que demonstra bem a transição desse 007 iniciante e durão para o agente charmoso e elegante do passado (que na verdade é futuro).

Lidando com a dor e tentando criar uma nova rotina para si, mergulha de cabeça no consumo de álcool, aparecendo sempre com olhos injetados. Como em diversos filmes da franquia, as paisagens internacionais fazem parte da trama. (Como esquecer a ridícula e marcante sequência no bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, em Foguete da Morte?). Aqui temos a Turquia retratada com orientalismo e um olhar exotizante e Hong Kong como um mundo noturno futurista banhado em neon. A sequencia em que Bond vai atrás de um atirador dentro de um prédio com fachadas e divisórias internas todas em vidro, com luzes dos letreiros refletidas nessas superfícies, é muito bonita.

A temática recorrente do filme é o embate entre o velho e o novo. Bond e M (Judi Dench) são constantemente lembrados que estão velhos para aquilo que fazem e que precisam abrir lugar para o novo. O mundo está mudando. Os inimigos são outros. (O subtítulo americano de Tropa de Elite 2 cabe bem ao filme: The Enemy Within). Toda aquela história de guerra fria presente na série ficou no passado. Mas Eve (Naomie Harris) nos lembra que às vezes o jeito antigo de fazer as coisas é o melhor.

Além disso, o passado de Bond o assombra. Skyfall do título é onde tudo começou. Bond é como uma espécie de Batman escocês, órfão, com uma grande mansão, fortuna e um empregado fiel. Mas ao invés de se entregar a vigilantismos fascistas, opta por servir ao governo (o que nubla a linha entre o certo e o errado e torna tudo mutável). Alguém fala “os órfãos são os melhores recrutas”. E são, pois nada mais têm a perder. Mas nesse sistema, toda peça é descartável, até mesmo ele. O personagem é humanizado, passa a ter sentimentos e dores. As teorias de que cada ator que interpretou James Bond seria uma pessoa diferente e que James Bond é um codinome, são desmentidas: Bond é um só e não se esconde atrás de nomes falsos, como confirma a lápide de seus pais, com mesmo sobrenome.

O vilão Silva (ou Tiago Rodriguez) (Javier Bardem) poderia ter sido um erro miserável. Os tons homoeróticos, o cabelo estranho, a latinidade: tudo poderia ter caído no clichê, como um Dr. No. Mas novamente o personagem é humanizado, provido de passado e motivações e, claro, interpretado com maestria por Bardem. Até mesmo a cena em que afaga a perna de Bond e fala “Sempre há uma primeira vez”, ao que o outro responde “o que o faz pensar que é minha primeira vez?” ajuda a desconstruir a mítica do machão sedutor que existe ao redor do espião.

O filme lida com perdas e ao final, perdemos uma personagem querida. Ela é substituída de maneira a deixar a história mai próxima temporalmente daquela que existia no passado. Mas também ganhamos outra: Moneypenny está de volta, trabalhando para M. É um agrado interessante para os antigos fãs da série.

Dizer que esse é o melhor filme do 007 que já vi não é exagero, mas também não significa muito para mim. Com tomadas belíssimas e um protagonista bem construído de uma forma que nunca vi na franquia, Operação Skyfall é um ótimo filme. Não posso dizer que me rendi ao herói, pois esse parece um desvio na curva da produção da série, mas como exemplar isolado, funciona muito bem.

Skyfall_

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Extermínio (28 Days Later/ 2002)

Assistido em 06/09/2013

Extermínio, como Os Doze Macacos, é um desses filmes em que a culpa de tudo é dos ativistas pelos direitos dos animais. Na sequência inicial vemos um grupo deles invadindo um laboratório para libertar os macacos utilizados em testes. Um cientista os flagra e pede para que não os libertem, pois foram infectados com um tipo extremo de raiva.  Os ativistas prosseguem em sua tarefa e são atacados pelos símios. Mas esse não é o foco do filme.  O protagonista é Jim (Cillian Murphy), um rapaz que sofreu um acidente e acorda 28 dias depois da contaminação em um hospital completamente vazio, apenas com a chave de sua porta. Ai sair, descobre que toda a cidade Londres está também vazia. Nesse meio tempo, o vírus da raiva se propagou e boa parte da população foi morta, enquanto outros estão correndo e matando, infectados pela raiva. Nem a ciência (na forma do hospital deserto) nem a religião (na primeira igreja que entra, o padre infectado o ataca) podem ajudá-lo. Em busca da sobrevivência (comida e abrigo) encontra o casal Mark e Selena e Frank e Hannah, que são pai e filha. Daí para frente a história segue de forma tensa, nos mostrando que mais temíveis que os infectados, são os demais humanos querendo sobreviver.

A primeira vez que assisti esse filme, peguei-o passando na TV e perdi a parte inicial do hospital. Sem o contexto dos acontecimentos, pensei se tratar de mais uma adaptação do conto Eu Sou a Lenda, em que um grupo de junta ao último homem. Estava errada, mas as tramas não deixam de ter sua semelhança, na maneira como os personagens sempre precisam procurar abrigo para a noite e alimentos. A parte inicial do hospital, na verdade, parece bastante com o começo de The Walking Dead. Percebam que em todas essas referências citadas os antagonistas tratam-se de zumbis (bem, vampiros em Eu Sou a Lenda, na verdade). Em Extermínio não são mortos vivos: são pessoa vivas em estado alterado pela doença. Mesmo assim, a humanidade delas está de tal forma perdida e a estrutura da história funciona tanto como uma de zumbis que é difícil não considerá-los como tal.  Acaba sendo um precursor no retorno do gênero ao cinema.

O diretor, Danny Boyle, acerta no tom um tanto quanto trash da trama. Ao mesmo tempo fiquei com a sensação de que o filme envelheceu um pouco mal. O último terço parece ter sido feito de forma atropelada. Talvez até pelo retorno dos zumbis às telas, achei o todo menos tenso e menos impactante do que havia sido anos atrás. Ainda assim é um bom filme, ainda mais se levado em conta o orçamento bastante enxuto.

28 days later

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