Interlúdio (Notorious/ 1946)

Assistido em 22/11/2013

Esse romance dirigido por Hitchcock emula elementos de filme noir (temos os jogos de luz e sombra, a mulher sedutora, a desesperança, entre outros) sem jamais se entregar totalmente ao gênero. Alicia (Ingrid Bergman), tem seu pai julgado por colaboração com a Alemanha nazista. Após o julgamento a vemos beber em uma festa, em que uma silhueta em negro a observa. Trata-se de Devlin (Cary Grant), um agente a paisana responsável por convencê-la a ajudar os Estados Unidos. Sua missão: ir ao Rio de Janeiro e seduzir Sebastian (Claude Rains), um amigo de seu pai que costumava ser apaixonado por ela e obter informações sobre os trabalhos dos alemães. Devlin a acompanha e a proximidade o faz apaixonar-se, amando-a e odiando-a pelo que tem que fazer e pelo que já fez no passado. O título, original, “notorious”, diz respeito a vida amorosa da personagem, sabidamente movimentada.

A estadia no Brasil traz alguns fatos curiosos para nós: a trilha sonora que por vezes parece um sambinha, o garçom que pergunta “quer alguma coisa” em um português inseguro, as placas “Calçados Pinto” e “Rádio Brasil” e, claro, a marcante “fechadura Única”. Por outro lado as pessoas são chamadas de “señor” e señora” e a casa de Sebastian mais parece uma Villa.

Hitchcock tem pleno domínio da técnica em seu filme, que tem belos enquadramentos. Experimenta com a imagem de cabeça para baixo em certa cena em que Alicia acorda de ressaca. Também vemos reflexos dos cavalos numa corrida projetados nos binóculos de quem assiste. Além disso, como a duração dos beijos eram limitadas pelo código Hays, ludibriou a censura com uma cena memorávele em que Bergman e Grant mantém um diálogo sem descolarem os rostos, beijando-se a pequenos intervalos, para não configurar um beijo só.

O uso de cores é bastante interessante: Alicia veste-se de branco quando visita Sebastian pela primeira vez, mostrando sua inocência em relação a tudo que está acontecendo. Depois de casada passa a usar vestidos pretos. Quando anda pela casa, longas sombras são projetadas e quanto mais próximo do fim, mais escuro fica o entorno. No noir de Hitchcock a claridade é mais perigosa que as sombras.

A mãe de Sebastian (Leopoldine Konstantin) tem uma relação estranha de dominação e amor patológico pelo filho. A calma com que discute detalhes sobre o assassinato da nora impressiona. Tratam-se de belíssimas atuações, bem como composições de personagens.

O romance de Hitchcock não é exatamente caloroso: assim como o diretor, é técnico. A ironia da trama é que Alicia ama Devlin verdadeiramente, mesmo com ele a desprezando, tendo batido nela e se odiando por ama-la. Já Sebastian a trata bem, a coloca em um pedestal e se esforça para ser o melhor marido possível. O amor faz escolhas ilógicas. Pobre Sebastian, teve um ótimo desfecho subentendido. E o filme em si é uma grande (e bela) obra.

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A Montanha dos 7 Abutres (Ace in the Hole/1951)

Assistido em 05/06/2013

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Mais um filme do diretor-roteirista-produtor Billy Wilder, que mostra que consegue fazer filmes de entretenimento tão bons quanto a variedade de seus gêneros. Dessa vez trata-se de um melodrama noir protagonizado pelo repórter Chuck Tatum (Kirk Douglas), um homem que vivia nas grandes cidades e conseguiu estragar várias chances de bons trabalhos em sequência. Chegando ao Novo México, oferece seus serviços a um dono de jornal local, por valores módicos. Na redação, pendurado à parede, um quadrinho com a frase “tell the truth” (conte a verdade) bordada. Quando Chuck sai para fazer a cobertura de um evento em uma cidadela próxima, descobre que um trabalhador, Leo Minosa, ficou preso num deslizamento dentro de um mina e percebe que isso poderia render uma boa reportagem de capa. Mas Chuck consegue atrair tanta atenção ao caso, que, com a passagem do tempo, o que menos importa é o resgate. Um verdadeiro circo é armado em torno dos acontecimentos, que rendem manchetes e também grande clientela para o bar da esposa de Leo, Lorraine. Kirk Douglas (e como seu filho é parecido com ele!) está muito bem no papel de jornalista inescrupuloso. Seu comportamento violento em relação a Lorraine é indesculpável sob o olhar de hoje, mas apesar disso o filme parece endossá-lo, tratando-a como mulher fatal e ingrata. A mídia, vista como ave de rapina, sedenta por manchetes e disposta a tudo por isso, é retratada de maneira bastante atual.

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Alphaville (Alphaville, une étrange aventure de Lemmy Caution/ 1965)

Assistido em 30/05/2013

Time is like a circle which is endlessly described. The declining arc is the past. The inclining arc is the future.

(Alpha 60)

Ainda estou intrigada com esse filme. Não sei se devo entendê-lo como uma sátira, como um filme sério ou um misto dos dois. No mundo distópico retratado pelo filme, Alphaville é um local governado por Alpha 60, um computador-vilão no melhor estilo Hal-9000 Todas as emoções foram abolidas e mesmo algumas palavras começam a ser esquecidas. Conforme definido no filme, os pessoas vivem em uma tecnocracia, como cupins ou formigas. O herói (ou anti-herói) do filme, Lemmy Caution, é um americano que parece achar possível resolver tudo com tiros. Ele deve convencer o Professor von Braum, criador de Alpha 60 e conhecido anteriormente como Leonard Nosferatu, a desativar o computador. No meio do processo, conhece sua filha, Natacha von Braum (Anna Karina).

Embora seja um ficção científica por temática, o filme é rodado completamente na Paris da época, utilizando edifícios e automóveis contemporâneos, sem apelar para um visual futurista. A estética por vezes parece experimental, com o uso contante de letreiros de neon, especialmente marcando fórmulas físicas e até de filmagens com as cores em negativo. A mistura de algumas cenas com poesia geram um resultado bastante bonito. Por outro lado, por vezes o filme parece zombar do cinema de gênero, especialmente o americano. Os clichês do cinema noir, com o homem misterioso de sobretudo sempre com armas em mão, a mulher sedutora, os jogos de sombras, parecem frisar isso.  A voz de Alpha 60 é tão incômoda que não pode ter sido algo sem propósito. Provavelmente precisarei assisti-lo novamente um dia para captar melhor sua essência, embora poética e esteticamente já tenha sido uma experiência interessante.

Obs: Como universo distópico que é, com pessoas padronizadas e sem sentimentos, é irônico que esse nome tenha sido escolhido para certo empreendimento imobiliário aqui no Brasil.

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Scarface – A Vergonha de uma Nação (Scarface/ 1932)

Assistido em 15/02/2013


(Obs: para o curso The Language of Hollywood: Storytelling, Sound, and Color; da Wesleyan University, disponível em coursera.org)
Aqui sim começamos a falar de um filme com som muito bem executado! Com um visual bonito, boas atuações e um som bem editado, com os ruídos de ambiente e tudo que tem direito, acho que pode ser dito que é uma das obras-primas dos filmes de gângster. Relata a ascensão e queda de Tony, um jovem ítalo-americano que se envolve com a máfia. A violência do filme, embora seja bem fraca comparada com a dos filmes atuais, impressiona. Não é a toa que depois dele, a censura aumentou, impossibilitando outros filmes no estilo. E mesmo assim o filme consegue ter umas pitadas de humor, com os personagens secundários. Gostei muito.

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Gilda (1946)

Assistido em 30/01/2013


Nunca houve uma mulher como Gilda. Esse é o slogan do filme noir homônimo e é totalmente compreensível. Apesar de ter uma trama que envolve cassinos e cartéis na Argentina (embora os protagonistas sejam americanos), o que realmente importa na história é ela. Interpretada com intenso magnetismo por Rita Hayworth, a sensualidade da personagem é impressionante.
A história começa com o dono de cassino Ballin Mundson, que conhece o trapaceiro profissional Johnny Farrell e o convida para trabalhar com ele. Johnny se torna gerente do cassino e homem de confiança de Ballin. Há uma certa carga de homoerotismo entre os dois homens, fato que já gerou muitos debates e levou os responsáveis a falarem que na época eles não perceberam que essa imagem estava sendo criada. Nesse momento do filme eles fazem um brinde “aos três” (Ballin, Johnny e a bengala de Ballin que esconde uma arma) e falam sobre como mulheres não são confiáveis.
Mas eis que Ballin viaja e ao retornar está casado com Gilda, que, coincidentemente, já havia sido um amor no passado de Johnny. À partir daí se configura um triângulo amoroso cheio de tensão entre todas as partes. Gilda é uma mulher livre, que já se apaixonou e se machucou e resolveu viver a vida sem amarras. Ela dança com quem quer, sai com quer, faz o que quer, desde que lhe dê prazer. Johnny tenta lidar com isso, escondendo tudo de Baillin para que ele não se magoe. Em determinada cena ela pede ajuda ao marido para fechar seu vestido e fala “Nunca consigo fechar um zíper  Talvez isso signifique alguma coisa, o que você acha?”. Aliás, todos os diálogos são afiadíssimos e cheios de subtextos necessários devido à censura da época.
O filme ainda conta com a icônica cena em que Gilda canta a música Put the Blame on Mame (que se tornou enorme sucesso nos EUA) enquanto insinua um striptease, tirando… uma luva! Só Gilda/ Rita mesmo… Apesar disso tudo o final da história tenta atenuar todos os acontecimentos, de maneira a “consertar” a personagem para o que seria o padrão da época. Uma pena, mas não anula o efeito geral do filme.
Sobre o figurino , percebe-se que quase todos os trajes utilizados por Rita em tela possuem algum tipo de drapeado ou laço na região da barriga. Em algumas cenas de corpo inteiro ela está se ocultando, ora segurando um casaco contra o corpo, ora um violão. Ao procurar o motivo, as fontes divergem: alguns dizem que Rita estava grávida à época da filmagem e outros que ela havia recém dado à luz à sua primeira filha e ainda não tinha voltado à forma anterior. De qualquer forma, todas as roupas são belíssimas.
Rita Hayworth se estabeleceu como uma das mais importantes pin ups na época da segunda guerra. Um cartão postal com uma foto sua, ajoalhada na cama, de camisola, foi o segundo mais vendido naquele período, com 5 milhões de cópias. Mas para chegar ao sucesso, ela precisou se dobrar às decisões dos estúdios. Rita, nascida Margarita Carmen Cansino, tinha pai espanhol e dançarino. Desde pequena ela apendeu a dançar e se apresentava nos palcos. Aos 15 anos foi descoberta pela Fox e contratada, Mas o sucesso nunca vinha, pois era sempre colocada em papéis estereotipados. A Fox deixou o contrato expirar e ela foi para a Columbia Pictures. Eles mudaram seu nome, fizeram procedimentos que envolviam queimar o folículos capilares para mudar a linha do cabelo e aumentar sua testa, e por fim, tingiram seus cabelos negros de ruivo, deixando-a menos “latina”. Ou seja, não é de hoje que as atrizes precisam se dobrar a padrões estéticos, especialmente racistas, para sobreviver ao mercado. Após essa dolorosa transformação, amplamente divulgada na época, nasceu Rita Hayworth.

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