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Elle (2016)

Paul Verhoeven retorna com Elle, um filme polêmico e aclamado, adaptado do romance Oh…, de Philippe Djian. O auteur provocateur se propõe a criar um suspense com pitadas uma comédia de humor ácido que retrata o suposto jogo de gato e rato entre uma mulher, Michèle (Isabelle Huppert) e seu perseguidor. Michèle é uma poderosa CEO de uma empresa de jogos e se apresenta como uma pessoa forte, dura e distante, o que é comprovado pelas falas de seu ex-marido Richard (Charles Berling). A primeira cena que o espectador testemunha é uma em que essa mulher, até então desconhecida, é jogada no chão, tem seu vestido rasgado e é estuprada por um homem mascarado. A violência e o realismo são brutais. Verhoeven não romanceia o estupro: ele o retrata como o horror que é, de maneira convincente. A personagem não reage com medidas protetivas ou com trauma: ela segue sua vida como se nada tivesse acontecido, contando friamente o ocorrido apenas para os íntimos. Assim o diretor tenta realçar a caracterização de sua força escrevendo-a como alguém que não tem respostas emocionais fortes nem diante das maiores crueldades. À partir daí ela se mostra obcecada pelo seu agressor e pela tarefa de descobrir sua real identidade.

O fato é que apesar dos truques narrativos, colocando personagens suspeitos em torno da protagonista, essa identidade é muito clara desde o começo: a forma gentil com que o vizinho Patrick (Laurent Lafitte) se relaciona com ela o diferencia de maneira suspeita do contexto misógino que a rodeia. Logo percebemos que mesmo seus funcionários mais solícitos guardam mágoas a respeito de sua liderança.

O diretor brinca com elementos utilizados à exaustão em filmes do gênero: a personagem se arma, compra spray de pimenta, mas não deixa de morar na enorme casa que ocupa sozinha, fazendo-nos questionar a clareza de suas decisões. É claro que isso é intencional e visa causar incômodo. Repetidamente ela se coloca em posição de perigo e repetidamente é estuprada em cena, sempre numa tentativa de violentar visualmente o espectador. O problema é que existe um retrato fetichizado do interesse dela pelo próprio estuprador, como se previsse suas ações e mesmo assim estivesse disposta a aceitar o que vem em seguida. O contato entre vítima e abusador é proposta, como já dito, dentro de uma dinâmica de gato e rato, mas quem é gato e quem é rato nesse contexto? O autor parece implicar que é a mulher perseguida quem persegue seu algoz e que ele é praticamente compelido a violenta-la novamente. É como se houvesse uma espécie de consentimento não-verbal por parte dela, e que ele justamente não pode ser verbalizado porque acabaria com a ambiguidade da violência da relação que ela parece buscar. É uma lógica vil quando pensada em paralelo à realidade das mulheres que passam por essa situação. E ela é reforçada pelo desejo pouco oculto que Michèle manifesta por Patrick, mesmo sabendo que ele é casado. As identidades se embaralham, porque ela trata o vizinho e o estuprador como duas entidades diferenciadas, brincando com a duplicidade da vida social versus o que o verniz de polidez pode esconder. E nesse ponto o filme ganha com a atuação de Isabelle Huppert, que faz maravilhas apesar da inconsistência de sua personagem.

O tema do verniz social é bastante explorado no filme e rende alguns momentos em que o que é intencionado como humor realmente funciona, especialmente no que tange às relações familiares. Mas no geral o filme erra no tom. Verhoeven pretende criar uma protagonista que desafie o que se espera de uma vítima de violência, mas não parece ele mesmo entender os laços e contatos que propõem, nem dar profundidade a ela. É difícil não questionar qual é o seu entendimento sobre o conceito de força, já que ele mesmo, em entrevista, afirmou que a criou com tal característica, mas que a atitude de deixar seu marido quando este lhe desferiu um tapa é extrema. Se para o próprio autor colocar-se a salvo e sair de uma situação de violência é algo fora do normal, como esperar que ele consiga processar as reações dos personagens no contexto do estupro? Michèle coordena a criação de um jogo de videogame do conteúdo misógino e não vincula o mundo fictício com a realidade ao seu redor, em que é constantemente atacada em um emprego que é, em sua maioria, ocupado por homens. Essa é a forma do autor tentar criticar a relação entre retratos ficcionais da violência e vivências reais, mas o discurso fílmico é tão mal elaborado que parece justificar o que a personagem sofre. Ao criar uma protagonista inatingível, reduz qualquer tipo de reflexão que possa vir dos atos que o filme retrata. E pior: parece acreditar que criou uma crítica pungente ao colocar essa mulher em posição fetichizada e fetichizante ao mesmo tempo, ao passo em que justifica o subtexto misógino da narrativa e tratando com escárnio a violência real pela qual passamos cotidianamente. A acidez, a ironia e a crítica foram utilizados de uma maneira que não casou com a temática do filme. Verhoeven mirou em Haneke, mas o resultado é irregular e questionável.

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Robocop – O Policial do Futuro (Robocop/1987)

Assistido em 05/07/2013

Quem me acompanha desde a época dos informais tuitadas sobre filmes sabe que eu tenho um problema grave na minha formação cinéfila: todo filme que era considerado ter algum conteúdo violento era vetado na minha infância. Por isso uma geração de filmes hoje clássicos passou batida para mim, já que violência era a palavra chave na década de 80. Recuperar isso é um trabalho lento, mas já venci os três Mad Max, um Highlander (e não verei mais nenhum, ruim demais), três Máquina Mortífera e três Duro de Matar (acho que esse também não vou ver mais nenhum para não estragar). Se não me engano, agora só falta Exterminador do Futuro, para fechar os clássicos.

Bom, dito isso, finalmente assisti Robocop, filme que por tanto tempo desprezei achando ser mais um no gênero de ação descerebrada. Bom, não é exatamente o conteúdo mais rico, mas é realmente interessante.

Enredo que todos já conhecem: em um futuro distópico, com a sociedade corroída pela criminalidade e a polícia tendo financiamento privado da empresa OCP, Murphy (Peter Weller) é um policial que vai atrás de uma quadrilha junto com sua parceira Lewis (Nancy Allen). Sozinhos e sem reforço por perto, acabam emboscados e Murphy é cruelmente assassinado. Um dos executivos da OCP possui um projeto para criar um policial invencível, que não precisa descansar nem se alimentar, vivendo na luta contra o crime. Murphy é utilizado para testar a tecnologia: seu cérebro ainda apresentava atividade e sua cabeça foi colocada em um novo corpo bio-mecânico. Foi reprogramado, mas apesar disso, lembranças de sua vida anterior continuam vindo a tona.

É notável como o filme reflete a paranoia que inundava a sociedade americana daquela década em relação à violência urbana nas grande cidades. Os índices haviam escalonado ao máximo e as previsões eram mesmo apocalípticas. Nessa situação soluções que beiram o fascismo emergem com a desculpa de solucionar problemas. O diretor, Paul Verhoeven ainda acrescenta a esse caldeirão a crítica à mídia institucionalizada (também presente em seu Tropas Estelares), pois as emissoras de televisão transmitem apenas programas humorísticos estilo Zorra Total e telejornais que mais omitem do que informam (familiar, não?). A violência retratada não é gratuita e impressiona muito, mesmo pros padrões atuais.

O design do corpo do robocop é muito bom. Hoje em dia o visual desse tipo de tecnologia sempre vai em duas direções: o aço-escovado-liso-geladeira ou o branco-apple. Aqui temos um peça que não só parece como tem que ser funcional (afinal, o ator tinha que vesti-la) com detalhes que conferem realismo e fazem parecer que são realmente peças que têm funções específicas. Quando Murphy tinha seu capacete e deixa a mostra sua cabeça no corpo de robocop, os efeitos especiais são especialmente bons.

A crítica mais interessante que podemos tirar do filme é que Murphy foi duplamente assassinado: primeiro pela criminalidade e depois pelo sistema que a alimenta. Antes de ter assistido ao filme acreditava que José Padilha havia sido chamado para dirigir a regravação que está sendo produzida por conta da violência e pirotecnia de seu Tropa de Elite. Agora percebo que provavelmente foi por conta de Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro, já que é fácil traçar paralelos entre ambos os filmes.

No final das contas fico feliz de poder ter apreciado Robocop pela primeira vez agora, com mais maturidade.

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