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Êxodo: Deuses e Reis (Exodus: Gods and Kings, 2014)

Eis um filme que não ofende nem encanta.

Dirigido por Ridley Scott, é bem produzido, com figurinos bonitos de Janty Yates (e deve ser muito divertido desenhar para esse local e período específicos) e a grandiosidade necessária para um “sandália e espadas” (embora os cenários de CGI às vezes deem a incômoda impressão de artificialidade e nada causa a sensação que a vista aérea de Roma em O Gladiador causou há 14 anos).

Christian Bale como Moisés não está mal e Joel Edgerton está muito bem como Ramsés, se desconsiderarmos completamente questões étnicas. Mas, em se tratando de seus personagens, é inexplicável porque Ramsés já nutre tanta antipatia por Moisés desde o começo, já que foram criados como irmãos. Isaac Andrews, o menino que interpreta o deus hebraico, é muito bom e o retrato da divindade como sendo cheia de vontades e autoritária é um dos pontos altos do filme. Representá-lo como uma criança é parece uma forma bastante adequada em se tratando do deus abraâmico.

Outro ponto interessante é a transformação de Moisés em um general, ao invés de pastor, que treina os hebreus para a guerrilha e abre o Mar Vermelho, ainda que simbolicamente, com uma espada ao invés de um cajado.

É difícil não comparar o filme a Noé, visto que são dois épicos bíblicos do mesmo ano com grandes diretores. Embora o Noé do filme se perca em alguns momentos virando um herói de ação genérico, é possível ver autoralidade na execução do conjunto, que não transparece em nenhum momento aqui. Também há mais coragem lá de encarar a narrativa como mítica, enquanto aqui há uma tentativa de manter plausibilidade e realismo, para casar com o suposto historicismo dos eventos. Com isso, as dez pragas aparecem uma em consequência da outra, apenas a final dependendo da suspensão de descrença. Mas talvez o caminho de abraçar a natureza mítica da narrativa trouxesse mais intensidade a ela. A abertura do Mar Vermelho, por exemplo, perdeu força com seu cientificismo. (Obs: Não faz sentido tentar transformar em uma narrativa histórica, uma vez que os construtores dos monumentos egípcios eram trabalhadores assalariados e não há registros históricos -não bíblicos- da presença de hebreus em grande quantidade no país).

No final das contas, Êxodo pega um mito que tem bastante força e o transforma é um história nada impactante, que termina sem deixar marcas no expectador. Os Dez Mandamentos já fez melhor. Mesmo O Príncipe no Egito fez muito melhor, inclusive na profundida das relações e sentimentos dos protagonistas.
Meh.

 

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Figurino: O Silêncio dos Inocentes e Hannibal

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 17/07/2014.

We begin by coveting what we see every day. Don’t you feel eyes moving over your body, Clarice?

 

Criado pelo escritor Thomas Harris, Hannibal Lecter apareceu em quatro livros, cinco filmes e uma série de televisão e é sem dúvida um personagem marcante na cultura popular. O filme O Silêncio dos Inocentes, de 1991, dirigido por Jonathan Demmes, marca a consagração do personagem, que protagoniza a trama ao lado da agente do FBI Clarice Starling. As interpretações marcantes de Anthony Hopkins e Jodie Foster são realçadas pela atmosfera soturna e pelos constantes closes em seus rostos. O figurino de Colleen Atwood (conhecida pelos seus trabalhos nos filmes do diretor Tim Burton) é contido e significativo.
Na primeira vez em que avistamos Clarice, ela está correndo em uma trilha na mata, vestindo um moletom cinza do FBI. Ao ser chamada para conversar com um superior, entra em um elevador cheio com colegas seus vestidos de vermelho, dando uma noção de perigo. A diferença de altura, a forma como ela é observada e o espaço diminuto ao seu redor ajudam a frisar essa noção. Sendo uma mulher em um ambiente predominantemente masculino, o tom de ameaça de cunho sexual em torno dela o tempo inteiro é um tema constante no filme.

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Sua posição vulnerável é mais uma vez destacada quando comparada aos homens por quem passa no corredor, todos trajando paletós em tons de cinzas, em contraste com seu moletom suado do exercício físico e seu rabo de cavalo, que lhe conferem ar infantil.

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Doutor Chilton, o responsável pelos presos com problemas mentais, não hesita em perguntar-lhe se teria a noite livre, pois a cidade pode ser divertida de noite, mesmo se tratando de uma visita profissional. Com cabelos volumosos e roupas vistosas, o psiquiatra demonstra ter grande autoconfiança.

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Clarice veste saia lápis, uma camiseta clara, blazer de tweed e carrega um casaco verde que usará ao longo de todo o filme. Como adorno, uma pequena corrente no pescoço. Através dessa roupa tenta projetar uma imagem de profissionalismo.

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No corredor das celas, que mais parece um calabouço, é ameaçada por três internos diferentes. Um deles chega ao extremo de lhe jogar esperma. Novamente o olhar dos homens ao seu redor é que lhe ameaça. Comportam-se com selvageria e contrastam com a figura em pé na cela arrumada, com uniforme impecavelmente ajeitado, que é Hannibal. Em meio aos outros loucos, ele é ameaçador por sua postura e aparência sã. A ameaça é sua mente e o uso que faz dela, não uma possível demonstração de animalidade.

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Com seu jogo de palavras, Hannibal consegue achar um ponto fraco em Clarice. Menciona sua bolsa cara e seus sapatos baratos, bem como sua infância e sua tentativa de deixar para trás a imagem de caipira e de pobreza. Provavelmente Clarice pensou que ninguém repararia em seus sapatos, especialmente porque, com saia e meia calça, está mais produzida do que o normal de seu cotidiano.

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Fora dessa situação, ela passa o filme inteiro com a mesma roupa: uma camisa polo bordô, sob uma jaqueta de tweed, o casaco verde e um cachecol cinza. Não usa estampas, nem formas marcantes, muito menos peças com cortes diferenciados. Seu estilo é formal e ao mesmo tempo prático. Talvez justamente para lidar com o mundo ao redor: um idoso acha que ela não conseguiria abrir uma porta de metal e pensa em chamar seu filho para ajudar; seu chefe a exclui de uma conversa com um delegado local e a deixa sob o olhar escrutinador de outros policiais; mesmo os cientistas que analisam os insetos a assediam. A hostilidade ou a condescendência estão por todo lado e por isso ela não chama atenção para si, apenas veste sua roupa como uma armadura.

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Ao ser transferido, o uniforme de Hannibal muda para o puro branco. Nessa sequência o vemos utilizando as duas máscaras icônicas que o impedem de morder seus captores, mas não impedem seu olhar frio dirigido diretamente para o espectador.

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Quem se importa com o vestuário aqui é Bufallo Bill (Ted Levine), o serial killer à solta. Pergunta a uma vítima antes de captura-la se seu manequim é 14, interessado em seu tamanho. Recorta seu vestido e confere a numeração na etiqueta. Ele mesmo é interessado em costura e aparece praticando a atividade nu, livre de qualquer elemento que o defina.

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Vaidoso, dança em frente ao espelho enquanto se maquia: usa um piercing com pingente no mamilo, um colar com um em forma de mulher e outro com pingente geométrico, além de uma manta estampada. Aprecia sua própria aparência. Se há algo a ser criticado no filme é justamente o retrato que se faz dele enquanto pessoa trans. Billy é primeiramente apresentado como uma, usando como comparação as próprias mariposas que utiliza em suas cenas de crime: seres que mudam de forma. Mas Clarice afirma que transexuais são pessoas passivas, ao que Hannibal responde que ele não é um transexual de verdade, apenas pensa que é, tratando-se de alguém que odeia a própria identidade e nunca foi aprovado nos testes psicológicos para uma cirurgia de redesignação sexual. Se o retrato da passividade é generalizante, bem como a ideia de que para ser trans é necessário passar por procedimentos cirúrgicos, mais errôneo ainda é negar o direito de auto identificação do personagem, ainda mais levando-se em conta que Hannibal é psiquiatra. Por outro lado jamais vemos ele próprio se identificando como trans: o que ele faz em cena é adornar seu corpo de forma que desafia os padrões tradicionais de gênero.

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De qualquer forma Bufallo Bill encaixa-se na temática de objetificação da mulher de forma bastante literal, tendo em vista que transforma os corpos de suas vítimas em objetos. Utiliza suas peles como tecido, para poder costurar para si um traje literalmente de mulher, para incorporar à sua feminilidade.
No filme seguinte, Hannibal, de 2001, dirigido por Ridley Scott, Anthony Hopkins volta a desempenhar o papel-título, mas Julianne Moore substitui Jodie Foster como Clarice. A figurinista passa a ser Janty Yates, que firmou parceria com o diretor em Gladiador e participou de quase todos seus filmes seguintes.
Yates reformulou o guarda-roupa de Clarice. Ao invés da formalidade do primeiro filme, aqui, já agente especial, ela aparece bastante casual. Faz uso de camisetas, camisas de botão, calças-cargo e jaquetas jeans.

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Na cena em que conhece Mason Verger (Gary Oldman), veste um terninho cinza com camiseta clara que remete àquele conjunto que usara quando conheceu Hannibal. Mas dessa vez, o corte é inadequado ao seu porte e o efeito geral é de desleixo.

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Nesse segundo filme, a força da personagem parece se perder em meio às tramas paralelas. O senso de constante ameaça apenas por ser mulher também não está mais lá. Mas na sequência em que é revelado seu envolvimento passado com Krendler (Ray Liotta), seu superior no FBI, e este a destrata, a conexão é destacada pelo uso de camisas similares para ambos: sociais de botão em tom amarelo claro.

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Hannibal, livre, pode finalmente expressar todo seu refinamento. Veste-se com ternos bem cortados (a maioria Gucci) e utiliza óculos escuros com armação verde, anel com pedra azul e chapéu panamá. Emana sofisticação e bom gosto, coisas que aprecia.

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Em certa cena os elementos da composição são ligados cromaticamente a ele: não só seu anel é azul, como sua camisa; bem como as flores das mesas e camisas de diferentes figurantes, destacando-o. Era o que o inspetor Pazzi (Giancarlo Giannini) necessitava para encontra-lo em meio à multidão e confirmar sua presença em Florença.

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Pazzi encontra com Hannibal pela primeira vez quando este está no meio de sua sala de estar, descalço, de pijama azul, refletindo o momento em que Clarice o viu pra primeira vez.

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O personagem só deixa de se vestir com elegância quando precisa se disfarçar: usa camiseta e uma camisa larga sobre ela, para ter a aparência de um americano comum.

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Os sapatos de Clarice são constantemente mostrados, como um lembrete de que passados tantos anos, ela continua usando calçados baratos, outra alusão ao filme anterior.

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Com forte publicidade indireta, a grife italiana Gucci volta a aparecer na revista que Hannibal deixa na casa de Clarice, com uma foto desta sobre o rosto da modelo.

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Não por acaso, quando a veste para o banquete final, coloca nela sandálias e um vestido da mesma grife. A marca aparece em destaque quando o sapato é mostrado pela primeira vez. O vestido, com fenda frontal, decote profundo e costas nuas, é muito mais ousado do que qualquer roupa que Clarice utilizaria em seu cotidiano.

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Com mais personagens e tramas que se misturam, Hannibal é um filme que não confere o destaque que Clarice merecia. O fato de o serial killer que dá nome ao filme estar à solta deixa-lhe mais espaço para expressar-se enquanto personagem, mas ao mesmo tempo tira-lhe parte do mistério, já que que o ato violento mostrado de forma escancarada é menos assustador do que a sensação de ameaça e de perigo eminente. Se considerarmos apenas O Silêncio dos Inocentes, Clarice é protagonista de sua própria história, mesmo vivendo em um mundo de homens ameaçadores, sejam eles serial killers, cientistas, médicos ou agentes do FBI. Apesar de suas inseguranças, é forte o suficiente para lidar com todos eles. Os figurinos criados para ela por ambas, Colleen Atwood e Janty Yates, são minimalistas de formas diferentes, mas o primeiro, com sua formalidade simples, parece se adequar mais ao que ela precisa para sobreviver ao meio que a rodeia. Não resta dúvidas de que O Silêncio dos Inocentes é uma obra cinematográfica que vence facilmente a barreira do tempo e do gênero em que se enquadra, mostrando-se um belo filme até hoje.

Well, Clarice – have the lambs stopped screaming?

Figurino: Blade Runner- O Caçador de Androides

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 02/07/2014.

 

“All those moments will be lost in time… like tears in rain…”

 

Em 1982 estreou o terceiro longa dirigido por Ridley Scott: a ficção científica futurista Blade Runner, o Caçador de Androides, baseada no livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (também lançado no Brasil como O Caçador de Androides), de Philip K. Dick. O filme é visualmente marcante e a estética do futuro que ali se passa é criada sobre referências do passado. Os figurinistas Michael Kaplan e Charles Knode usaram como inspiração o período entre o final da década de 1930 e meados da década de 1940, bem como o film noir. Este gênero influencia todo o conjunto, da trama centrada em um protagonista moralmente ambíguo e uma femme fatale, aos constantes jogos de luz, sombra e fumaça que compõem as cenas.
A Los Angeles de 2019 é uma cidade de constante penumbra, uma Macondo de chuva sem fim. É abrigado dessa chuva, sentado sob uma marquise, que vemos Deckard (Harrison Ford) pela primeira vez. O protagonista, caçador de androides a contragosto, veste camisa cinza, calça marrom e um longo sobretudo que o acompanhará por todo o filme. A falta de cores faz com que o efeito não seja nem de combinação nem de descombinação. Deckard apenas veste as roupas, porque elas não têm importância alguma.

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De Humphrey Bogart a Dick Tracy, o uso de sobretudo é recorrente entre os personagens de film noir ou que a ele remetem. O de Deckard é remodelado, com a lapela sempre erguida, confeccionada em tecido rígido com textura listrada.

Humphrey Bogart In A Trenchcoat

Troca poucas vezes de roupa, mantendo sempre a mesma calça. Em certo momento utiliza um blazer de tweed. As camisas mudam: certa hora veste uma com estampa pontilhada com gravata xadrez; em outra é uma bicolor verde e roxa. Mas as cores são sempre muito escuras, pouco reveladoras.

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Sua aparência desleixada contrasta com a de Gaff (Edward James Olmos), que não só sempre aparece impecavelmente trajado, como com um certo exotismo, explorando combinações de estampas diferentes e fazendo uso de chapéu e bengala para incrementar sua aparência.

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Aqueles positivamente identificados como replicantes, androides escravos, recebem um tratamento desumano. Seus corpos não pertencem a eles e servem apenas ao propósito dos humanos. Não sabemos nada sobre a sociedade desse contexto, só sabemos que aos replicantes é vetado desejar por si e para si mesmos. Mas alguns deles fugiram e devem ser caçados. Zhora (Joanna Cassidy), por exemplo, disfarça-se de dançarina exótica, na companhia de uma cobra artificial como ela mesma. Seu corpo nu é coberto de cristais. Após a apresentação, veste apenas botas de cano longo, um conjunto de calcinha e sutiã, redesenhados para garantir um visual futurista, e sobre eles uma capa transparente.

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Deckard persegue-a implacavelmente pela cidade e o que vemos é ela rodeada por manequins, figuras antropomórficas sem vida como os androides, e uma mistura das transparências do vidro que se quebra e de sua capa. A sequência é quase onírica. Seu corpo no chão em meio a esse cenário não é humano e tudo é feito para nos lembrar disso, mas o sangue, ironicamente, nos passa a ideia oposta.

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Pris (Daryl Hannah) era ainda menos dona de sua própria corporalidade, já que foi criada como “modelo para prazer básico”, ou seja, para fins sexuais. Da primeira vez em que a vemos, sai do meia da névoa vestindo o que se espera para sua função: botas, meias finas com ligas, traje preto com transparências, coleira e um casaco de estampa de tigre, tudo influenciado pela estética punk. É com essa roupa, aliada ao seu ar ingênuo, que conquista a confiança de Sebastian.

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Perto do fim, pinta seus olhos dramaticamente de negro, sobre pele maquiada de branco, disfarçando-se entre bonecos criados por ele. Ao contrário do que ocorreu com Zhora, a presença desses elementos serve para ressaltar sua superioridade enquanto modelo. Sua falsa humanidade se destaca em meio ao entorno. A perfeição é que revela sua natureza, como que gerando um “vale da estranheza”.

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Mulher, com agência e autonomia na medida em que havia se libertado dos humanos, foi caçada e morta por Deckard assim como Zhora. E também o foi seminua, vestindo apenas um colant cor pele, e tendo seu corpo explorado visualmente em cena. O sangue novamente destaca a humanidade contrastante nesse futuro desumano. Quem sente sua morte e sofre é Roy (Rutger Hauer), marcando o rosto com esse sangue derramado.

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Rachael (Sean Young), como Pris, aparece pela primeira vez saindo do ocultamento; mas nesse caso é das sombras, emergindo para a luz. Nesse momento desconhece sua natureza replicante e por isso, ao contrário das outras duas, aceita a vida que recebeu e sua função de secretária. A saia lápis e blazer estruturado, bem como seu penteado são versões estilizadas do que era usado pelas mulheres em film noir. Os ombros aqui são ainda mais acentuados, criando uma silhueta de ampulheta extremada. Os detalhes em couro na gola brilham, assim, como seus lábios, no lusco-fusco que entra pelos rasgos que servem de janela no edifício.

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A inspiração parece vir dos vestidos que Joan Crowford e Katharine Hepburn utilizavam, desenhados pelo figurinista Adrian de maneira a acentuar seus ombros.

Acima Joan Crowford e abaixo Katherine Hepburn em trajes com ênfase nos ombros criados por Adrian

Acima Joan Crowford e abaixo Katherine Hepburn em trajes com ênfase nos ombros criados por Adrian

Ombros e golas realçados vão se repetir por seu figurino, que inclui outro conjunto similar ao anterior, mas em tons de cinza e um casaco de pele com lapela extravagantemente proporcionada, que aparece em duas versões (preto e cinza). Esses trajes indicam uma mudança na cor predominante que ela usa conforme envolve-se com Deckard e também a alta posição que ocupa, passando-se por humana.

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Deste último conjunto, retira o casaco em um momento de vulnerabilidade, em que também solta os cabelos, mostrando-se livre de seus escudos. É então que Deckard cria uma dinâmica de submissão, em que em nenhum momento a personagem parece à vontade. Ainda assim, é com ela que ele terá o mais próximo de um final feliz que o filme oferece. Rachael nunca chega a expressar seus desejos sem que seja inquirida e assim, ao contrário das replicantes que ousaram querer, sua existência é poupada.

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Por fim, temos Roy, um replicante construído para fins militares, mas que se tornou o líder do grupo foragido. Ele surge vestindo uma camiseta cinza e um casaco preto com gola estruturada, ambos simples e funcionais. Deve estar sempre pronto para lutar.

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Roy sente dor ao encontrar Pris e, enlutado, despe-se para procurar Deckard, permanecendo apenas com os sapatos e uma bermuda. Uma estratégia comumente utilizada para desumanizar pessoas é filmar partes de seu corpo sem um rosto que lhes confira personalidade. Na cena em que confronta Deckard é isto que acontece: vemos seu corpo enquadrado na chuva, mas sua cabeça fica fora da tela. Por estar sem cabeça, não é humano; sem roupas, despiu-se da pretensa civilidade. Isso tudo na sequência em que demonstra poeticamente ter ambas mais do que todos.

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A chuva que lava a cidade, as luzes que sempre se infiltram em raios nos ambientes soturnos, as roupas escuras e com cortes específicos, a trilha sonora certeira de Vangelis, a grandiosidade da cidade (com lindas pinturas matte de Matthew Yuricich), a fria beleza com que os corpos mortos são exibidos: tudo parece compor um clima melancólico e trágico em Blade Runner. No contexto do filme, tudo que é, pode não ser; e tudo que parece, não é. Em um jogo de espelhos com nossas próprias vidas, coletam-se momentos que um dia se esvairão. Assim vivemos todos, assim dizemos todos. Não há saída para esses personagens e se há, não parece ser por muito tempo. Tanto Michael Kaplan quanto Charles Knode são figurinistas talentosos, que aqui, juntos, ajudaram a criar esse universo que funciona de forma perfeitamente crível. Os aspectos artísticos do filme são inegavelmente belos. A arte, ao contrário da matéria orgânica, sobrevive à passagem do tempo.

Alien, o Oitavo Passageiro (Alien/ 1979)

Assistido em 12/09/2013

Olá, meu nome é Isabel e essa foi a primeira vez na vida que assisti Alien. Eu sei, o filme já tem trinta e quatro anos, passou na TV aberta à exaustão e tudo mais. Mas não, nunca havia visto e fico feliz por isso. Se tivesse visto há dez ou quinze anos provavelmente o veria apenas como um suspense espacial, sem apreciar plenamente o trabalho do diretor, Ridley Scott.

Para começar, devo dizer que assisti a versão do diretor, então não tive a mesma experiência que quem assistiu ao filme em outras épocas. De qualquer forma achei o letreiro inicial, com o título do filme se formando à partir de linhas que vão aparecendo na tela, fantástico.

A trama acredito que todos conheçam. Sete humanos são a tripulação de uma nave espacial comercial cargueira e tem a companhia somente de um gato. Eles interceptam um sinal sonoro vindo de um planeta e tem a obrigação de verificar. Kane (John Hurt), o primeiro em comando, juntamente com a segunda em comando e com um terceiro tripulante realizam a tarefa. Eles encontram uma gigantesca nave alienígena com a tripulação morta e, em seu interior, ovos não identificados. Um ovo eclode o animal que gestava agarra-se ao rosto do humano. À bordo da nave terrestre, Ripley (Sigourney Weaver), a terceira no comando, não quer permitir que eles retornem, seguindo as regras de quarentena. Mas o cientista a bordo, Ash (Ian Holm), descumpre a tal regra e deixa todos entrarem, com a desculpa que o comandante estava no grupo. O animal permanece agarrado ao rosto do homem, até que desaparece. Acreditando que tudo havia se normalizado, voltam a suas atividades cotidianas, quando um alien rompe a barriga dele, matando-o e fugindo para na sequência crescer e perseguir os membros da tripulação, um a um.

Assim como em A Lenda, Ridley Scott orquestrou uma produção extremamente perfeccionista. As pinturas matte são impressionantes, especialmente a parte interna da nave alienígena.  A maneira de filmar, com a câmera na mão em muitas cenas, confere um realismo desesperador para essa situação de sobrevivência. A trilha sonora pontua nos momentos certos, mas também se ausenta com perfeição. O silêncio que domina tudo quando percebem que o primeiro alienígena não estava mais no rosto do homem atacado cumpre o papel de criar a tensão. Dessa forma você sabe que logo você levará um susto. Aliás, o suspense se constrói lenta e efetivamente. O confinamento na imensidão do espaço e o longo prazo previsto para chegar na Terra nos faz ter consciência do perigo eminente. Por isso a tagline “no espaço ninguém pode ouvir você gritar” é realmente apropriada. No meu caso, por ver o filme tanto anos depois do lançamento, já sabia quais membros da tripulação morreriam e quais sobreviveriam, mas ainda assim o medo por eles atingiu-me.

Há um punhado de anos eu tinha preconceito com esse filme: achava que era só um terror qualquer, como tantos outros. Mas um bom diretor pode transformar um filme de qualquer gênero em uma grande obra.

Obs: se o alien, que é um animal não-humano senciente, conta como um passageiro, o gato também deveria contar, tornando o alien, na verdade, o nono passageiro.

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Thelma & Louise (1991)

Assistido em: 17/04/2013

Dirigido por Ridley Scott, esse filme representa muita coisa boa. Já é difícil ter uma protagonista mulher em filmes de Hollywood e aqui nós temos duas! E são duas personagens fortes, cada uma ao seu jeito, e interessantes. Ele passa fácil no Bechdel Test, o que não e de se estranhar, já que a roteirista também é mulher, Callie Khouri. As protagonistas Thelma (Geena Davis) e Louise (Susan Sarandon), mostram o tempo inteiro a amizade e camaradagem entre elas e o próprio crescimento ao logo da jornada (pois trata-se de um road movie). As mudanças de Thelma, em especial, podem ser vistas pelo seu figurino: ela começa a viagem com um vestido branco com babados e termina com calça jeans e camiseta. Muitos acusam o filme de ser misândrico, mas como isso num mundo em uma personagem não pode delatar uma tentativa de estupro porque não acreditariam nela? E ainda assim há homens compreensivos no caminho, como o investigador Hal (Harvey Keitel) e o ex-namorado de Louise, Jimmy (Michael Madsen) (embora esse deixe escapar em seu comportamento a possibilidade de ter um passado de violência em relação a ela). Mesmo o péssimo marido de Thelma, Darryl (Christopher McDonald) é quase caricato, servindo de alívio cômico. E não dá pra reclamar da participação do ladrão J.D. (Brad Pitt). O que elas fazem com o caminhão do motorista que as assediou é quase uma catarse, uma maneira de vingar ficcionalmente o que todas passam no cotidiano (algo meu Bastardos Inglórios, diria). O final pode não ser o final feliz que muitos desejaram, mas é um final feliz que se pode ter. Que outra opção teriam, naquele mundo e contexto? Pelo menos ambas se libertaram de todas suas amarras antes do desfecho.