Tag Archives: Robert Redford

Conspiração e Poder (Truth, 2015)

James Vanderbilt é roteirista, conhecido pelos dois filmes do Espetacular Homem-Aranha e Zodíaco, de David Fincher. Conspiração e Poder é o primeiro filme que dirigiu (além de ter roteirizado, claro) e chama a atenção o elenco de peso que embarcou no projeto. O longa aborda o jornalismo televisivo, especificamente uma história real que ocorreu envolvendo a produção do programa 60 Minutos, um dos mais tradicionais da televisão estadounidense. Em 2004 a produtora Mary Mapes (Cate Blanchett) encontrou indícios de fraude envolvendo o então presidente George W. Bush e sua alocação no exército durante a Guerra do Vietnam. Em plena corrida para a reeleição, qualquer tipo de informação negativa sobre um candidato poderia ter grande peso sobre o resultado. Além de Mapes, a equipe da investigação era composta pelo âncora Dan Rather (Robert Redford), os jornalistas Lucy Scott (Elisabeth Moss) e Mike Smith (Topher Grace) e o Tenente Coronel Roger Charles (Dennis Quaid). O roteiro é adaptado diretamente do livro Truth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power, escrito pela própria Mapes.

Trata-se de uma história procedural, que mostra como funcionam as etapas investigativas de uma reportagem de grande porte e a dinâmica de relacionamentos entre os profissionais. Mapes confiou no fator humano durante as etapas de verificação das fontes e, com a pressão para fechar o conteúdo, deu por verdadeiro tudo que lhe foi apresentado. Um item essencial para credibilidade da história veio de fonte duvidosa e, em se tratando de informação que poderia encerrar a presidência de Bush, pressões políticas e econômicas que vinham anônimas de camadas superiores da hierarquia passaram a assombrar o trabalho da equipe.

A busca pela verdade é o mote da trama, mas a abordagem, até mesmo pela fonte do texto, é bastante tendenciosa. Nenhum problema: toda obra de arte é propaganda e escolhe um lado. Mas o ritmo irregular da narrativa não ajuda na imersão total. Além disso, os diálogos extremamente expositivos distraem e atrapalham em diversos momentos. Há um cena, por exemplo, em que Charles explica a Lucy como um telejornal replica o conteúdo do outro, fato que ela obviamente está ciente. Esse é apenas um exemplo entre muitos momentos em que os personagens explicam uns aos outros o que está acontecendo ou fazem perguntas deliberadas para levar a respostas que narram aos fatos, claramente tentando entregar essas informações ao espectador. Isso sem falar na tradicional cena de discurso grandioso, que também acontece.

Em um ano em que Spotlight, outro procedural de jornalismo, ganhou o Oscar de melhor filme, é difícil não comparar as duas películas. Nesse caso, Conspiração e Poder acaba funcionando como uma contra-prova às críticas de que, minimalista e elegante, Spotlight seria um filme sem direção. A qualidade da obra final lá comprova uma direção madura, em oposição à claudicante e insegura aqui. Não que Conspiração e Poder seja um filme ruim, mas ele se beneficia de uma história minimamente interessante e de atuações de peso. Cate Blanchett, mais uma vez, a despeito do roteiro que lhe é entregue, comprova a grande atriz que é.  3estrelas

truth

 

 

Share

O Grande Gatsby (The Great Gatsby/ 1974 e 2013)

Assistidos em 11 e 12/06/2013

THE GREAT GATSBY

Festança e riqueza!

Antes de mais nada devo dizer que não, eu não li o livro homônimo de F. Scott Fitzgerald antes de ver essas adaptações cinematográficas. Ano passado, quando comecei a ver notícias sobre o filme, me propus a ler, mas isso acabou ficando pelo caminho. Logo não comentarei a respeito da qualidade das adaptações entre as mídias, resumindo-me a falar da minha percepção à respeito das obras cinematográficas.

GREAT-GATSBY_400

Robert Redford e Mia Farrow, Gatsby e Daisy insossos

O Grande Gatsby de 1974 tem roteiro de Francis Ford Coppola e foi dirigido por Jack Clayton. Já a versão de 2013 foi co-roteirizada e dirigida por Baz Luhrmann. Para quem não está familiarizado com a história, trata-se de uma crítica à sociedade americana consumista da década de 20, em que grandes fortunas se criavam rapidamente (e que veio a ruir com a crise de 1929). O ano é 1922 e Jay Gatsby é um novo milionário que sempre organiza enormes festas luxuosas em sua mansão em frente ao mar, onde comparecem todos os ricaços da época. Todos se perguntam quem ele é e de onde veio sua fortuna. Nick Carraway é seu vizinho, tendo alugado uma casa simples ao lado da dele. Gatsby tem interesse no contato com Nick pois este é primo de Daisy, o seu grande amor que não via há cinco anos. Ela agora está casada com Tom Buchanan, um marido infiel, e mora do outro lado da baía. Luhrmann acrescenta à narrativa uma visão completamente desnecessária de Nick no futuro, em tratamento contra alcoolismo e depressão, falando dos acontecimentos para seu médico.

Como era de esperar, a versão de Luhrmann (que já havia nos entregado Romeu + Julieta e Moulin Rouge) é colorida e ruidosa, seguindo seu estilo. A primeira metade, onde os personagens são apresentados, bem como as festas, é vertiginosa. Como em seus filmes anteriores, ele utiliza de uma trilha sonora contemporânea, mas ao contrário de em Moulin Rouge, aqui ela não funciona. O primeiro tratava-se de um filme musical e além disso, sobre teatro (e teatral), então as liberdades tomadas não destoaram da ambientação dele; já nesse as músicas atrapalham na criação da época nas cenas.

the-great-gatsby-party

No filme de de 1974 as festa são tratadas de maneira realista, dos trajes, aos passos de dança à escala. Em 2013, tudo é excessivo também: da quantidade de pessoas nas festas, ao figurino, aos cenários gigantescos. Nesse caso, entendo que ajudaram no retrato dos exageros e torna as cenas visualmente interessante. Apesar disso o figurino extremamente anacrônico realmente prejudicou em certas horas, já que a maior parte dos trajes, especialmente femininos, são peças de passarela contemporâneas, muitas com silhuetas muito distantes da época retratada. Em ambos, o fato de a história se passar ao longo do verão, o uso de tons pastel predomina. O terno rosa de Leonardo DiCaprio rouba a cena: lindo e bem cortado. Interessante como hoje em dia o conservadorismo domina o guarda-roupa masculino e dificilmente alguém teria coragem de vestir algo assim.

Apartamento de Myrtle

Apartamento de Myrtle

O 3D é muito bonito e em várias cenas percebemos o cuidado do diretor em utilizá-lo corretamente, como quando vemos janelas de um prédio se destacando de sua fachada ou o próprio texto do narrador, Nick, voando na tela. Os cenários são ricos em detalhes, mas destaco um dos menores: o apartamento kitsch alugado por Tom para sua amante, Myrtle: todo colorido em tons de vermelho, casando com a o vestido de babados dela (e suas bijuterias de plástico). A cor viria se repetir depois no quarto de hotel ao fim do filme, mas dessa vez com uma carga bem mais dramática e opressiva.

Quarto do hotel

Quarto do hotel

Leonardo DiCaprio é um Gatsby caloroso e simpático, de uma forma que Robert Redford não consegue ser. Redford parece estar atuando no automático, enquanto DiCaprio encarna um personagem fácil de defender. Sobre Daisy, a versão de Mia Farrow também é problemática: parece tolinha, com a cabeça sempre nas nuvens, enquanto a de Carrey Mulligan funciona melhor, num misto de fragilidade e doçura, que, embora sejam características de sua interpretação por vezes monotônica, prestaram-se muito bem ao papel. O Tom Buchanan de 2013 é fantástico, graças à interpretação de Joel Edgerton. Já a Myrtle, amante de Tom, é melhor desenvolvida no filme anterior.

A Daisy de Carey Mulligan

A Daisy de Carey Mulligan

A segunda metade do filme de Luhrmann desacelera e torna-se mais tenso. Com menos interferência das músicas, flui melhor. Não tenho certeza, mas tenho a impressão que o desfecho do filme contém uma leve homenagem a Crepúsculo dos Deuses.

Em resumo, sobre os filmes, a história em si parece ter bastante potencial (e é certo que agora lerei o livro). Ao final temos uma versão raquítica e desinteressante e uma excessivamente barulhenta. Entre as duas, fico com a mais recente, já que, problemas à parte, em nenhum momento enfada o espectador; muito pelo contrário: nos deixa sem fôlego e imersos em sua linguagem. Oferece interessantes poemas visuais, boas interpretações, imagens bonitas, emocionantes e instigantes que ficam martelando na mente e um conjunto que permanece em nossa memória muito depois de o filme terminar. Mesmo com tantos erros, Baz Luhrmann chegou bem perto do acerto.

Obs: Se você quiser ler minha análise sobre o figurino do filme, acesse o link.

gatsby-poster1

THE-GREAT-GATSBY-Poster

Share