Tag Archives: Robert Stromberg

Figurino: Malévola

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 18/06/2014.

 

Seguindo a tendência dos últimos anos de filmes adaptados de contos de fadas, dia 29 de maio estreou no Brasil Malévola, que traz a história de Bela Adormecida contada através do olhar de sua vilã de mesmo nome. O diretor, Robert Stromberg, é um novato que anteriormente havia trabalhado com efeitos especiais e direção de arte; esta última em Oz: Mágico e Poderoso, com o qual o filme guarda certas semelhanças estilísticas. Sua (in)experiência transparece no resultado final, que possui um visual bastante coeso, mas uma direção claudicante. O figurino que Anna B. Sheppard criou para a protagonista não só remete a animação da Disney de 1959, como aprofunda a narrativa, criando um arco de desenvolvimento da personagem.
No começo da história, Malévola, ainda criança, é uma criatura mágica, que nutre profundo respeito pelo ambiente seu redor. Suas roupas são fluidas e tingidas em tons naturais de marrom e verde. Seus cabelos longos são mantidos soltos em torno de seus chifres. Corre e voa descalça e livre por Moors, sendo ela mesma um elemento da natureza.

01

Já crescida, defendendo as terras da presença humana, Malévola (Angelina Jolie) continua fazendo uso de modelagem fluida em tons esverdeados, com toques de amarelo. As formas são tradicionalmente femininas e os tecidos com aparência natural. Os cabelos seguem soltos e os pés descalços, mostrando a ligação que possui com a natureza. Sobre os ombros, utiliza um adereço composto por penas. Sua capa é tingida em degradê, mais escura próxima ao solo, e com bordas amarelas que serão referenciadas adiante.

02

Stefan (Sharlto Copley), o seu amigo de infância humano, volta a se aproximar após alguns anos de ausência, mas com a intenção de matá-la para herdar o trono. Fazendo uso de uma bebida para adormecê-la, não tem coragem de executar seu intento, mas arranca-lhe as belas asas, em uma metáfora bastante clara de um estupro. A agonia da personagem ao acordar fica patente em cada movimento, como se todos os seus músculos se contraíssem em dor lancinante. Confiara e fora traída. As ações que se seguem são motivadas pelo ódio que tal ato vil despertou nela e têm reflexo na sua forma de vestir.
Aqui o filme deixa claro a marcação do tempo em estações. Se sua infância fora um verão de belezas naturais, agora Malévola escurece tudo ao seu redor trazendo outono à tela. Seus trajes também escurecem. No batizado de Aurora, a filha de Stefan, aparece para amaldiçoar a criança, buscando vingança.
A roupa que utiliza tem como clara referência aquela que a personagem usa na mesma cena no desenho animado. Retiram-se os lampejos de roxo para manter o negro total. As golas duplas e pontiagudas também aparecem.

Malévola da animação dos estúdios Disney, de 1959.

Malévola da animação dos estúdios Disney, de 1959.

O vestido agora não é mais solto e sim estruturado e arquitetural, com tecido de textura marcante e longa calda com detalhes em couro. Seus cabelos são contidos em um turbante apertado, com aparência de carapaça. Tudo marca a dureza da personagem neste momento.

MALEFICENT

O rei Stefan até então havia se vestido em tons frios: azul, cinza e prata, acompanhados de dourado. Após a maldição, consumido pelo medo, passa, também, a usar o preto como cor predominante e decai em aparência.

MALEFICENT

Já Malévola continua portando vestes negras, com acréscimo de elementos animalescos. Um de seus vestidos possui uma gola armada e plissada, com textura semelhante a penas e um pequeno crânio metálico adornando o decote.

06

Usa uma capa de veludo com degradê contrário ao anterior, escuro na parte superior e claro próximo ao solo, frisando sua completa ruptura com aquele passado. Sobre os ombros desta, um adereço composto por penas e garras, com uma espinha dorsal que desce-lhe pelas costas. Em outra cena sua gola é composta por mandíbulas de algum animal. Texturas de pele também se fazem presentes nos detalhes. Mesmo seu turbante agora passa a ser composto por esse material, conferindo-lhe uma aparência viperina.

Embaixo: estudos de texturas de peles de animais para adereços e adorno para ombros com gola e espinha dorsal.

Embaixo: estudos de texturas de peles de animais para adereços e adorno para ombros com gola e espinha dorsal.

Nesse meio tempo Aurora (Elle Fanning) cresce na floresta sob o olhar cuidadoso de suas três fadas-madrinhas, Flora, Fauna e Primavera. Em sua versão pequena, estas tem vestidos compostos por pétalas de flores, mas seus estilos e identidades cromáticas se traduzem em trajes adequados para sua versão humanizada, embora exuberantes demais para que pudessem passar como verdadeiras camponesas.

08

O mesmo ocorre com a princesa. Veste silhuetas retas e recatadas, mas com tecidos encorpados e ricos. As cores, em tons pastel, remetem àquelas utilizadas por suas madrinhas, que lhe servem de referência até então.

MALEFICENT

Seus são trajes inspirados nas pinturas de Ofélia de John William Waterhouse e nos vestidos usados no final no período medieval.

À esquerda: Ophelia (1894), de John William Waterhouse; à direita: croqui de traje de Aurora.

À esquerda: Ophelia (1894), de John William Waterhouse; à direita: croqui de traje de Aurora.

Com seu crescimento chega o inverno. Malévola novamente faz uso de elementos de origem animal, ao vestir uma capa com bordas e golas de pele e com grande volume para efeito dramático.

MALEFICENT

Já a capa de Aurora apresenta um tom escuro de verde e bordas amarelas, remetendo à jovem Malévola, e ligando-a ao seu passado.

12

Não é à toa que quando esta tenta desfazer a maldição que havia lançado, utiliza um traje nos mesmos tons amarelos. Ao falhar, retorna às cores escuras, que usará mesmo ao final do filme, quando a primavera marca a coroação de Aurora. Essa parece uma decisão incoerente em relação à narrativa feita através de suas roupas até então.

MALEFICENT

De qualquer forma o filme já é incoerente ao criar uma personagem livre e dona de si, que após sofrer violência terrível e ter seu corpo brutalizado, comete erros e tem sua redenção justamente na afirmação de um papel tradicionalmente tido como feminino, que é a maternidade. Dessa forma, a sexualidade que lhe é forçada (através da metáfora de violência), é contrabalançada pela santidade desse papel de mãe, em uma das dicotomias mais baratas de que se pode fazer uso para uma personagem feminina.
Apesar dos problemas de estrutura e mesmo de narrativa, a Malévola do filme é uma personagem construída de forma interessante e, desconsiderando-se as sequências finais, Anna B. Sheppard criou para ela, bem como para os demais personagens, figurinos ricos que ilustram de maneira clara sua jornada. O resultado final é um filme com elementos bonitos, que prendem o olhar em seus detalhes.

 

Para ler meus comentários sobre o filme como um todo, acesse aqui.

 

Share

Malévola (Maleficent/ 2014)

Dando sequência a tendência de recontar contos de fadas conhecidos, desta vez é a própria Disney que o faz, utilizando como base sua animação A Bela Adormecida, de 1959, para então relatá-la sob o ponto de vista de Malévola, a vilã daquela versão. A animação, embora visualmente bastante bonita, com cenários e fundos modernos e uma bela trilha sonora, tem uma história que datou (se é que já não era datada ao ser lançada): princesa Aurora foi amaldiçoada por Malévola e morreria aos 16 anos. Foi presenteada por fadas-madrinha com o dom da beleza e do canto (quem precisa de outra coisa, não é mesmo?) e criada por três delas na floresta. As fadas tentam se adaptar a papéis tradicionalmente tidos como femininos (limpar, cozinhar e costurar) sem auxílio de mágica, mas com resultados duvidosos. Aurora pouco faz ou fala no filme, mas a tal beleza e canto são o suficiente para Príncipe Phillip querer salvá-la. E sobre Malévola, nada a seu respeito é contado, de forma que faltam motivações para toda a ação.

Na versão de 2014 Malévola começa como uma criança em um reino encantado com criaturas estranhas, fadas e ninguém para governar. Com cabelos soltos, chifres e longas asas plumadas, é uma criatura mágica que não parece ser ameaçadora. Desenvolve uma amizade com Stefan, uma criança humana que aos poucos se afasta, passando cada vez mais tempo com os seus companheiros de espécie. Já crescidos, Stefan (Sharlto Copley) reaproxima-se dela, aproveitando-se de sua amizade. Em um sono induzido por uma droga escondida em uma bebida, Malévola (Angelina Jolie) repousa seu corpo no chão e ao acordar percebe que suas belas asas haviam sido roubadas. Essa é uma das cenas de maior impacto no filme: Jolie imprime dor sem tamanho nos gritos de sua personagem e é possível sentir a agonia em seu corpo torturado quando levanta-se e busca apoio. Nunca esperei encontrar em um filme da Disney um retrato tão aberto de violência sexual em uma metáfora tão pouco oculta. É interessante que o conto original de Bela Adormecida termina quando esta acorda com o parto de bebês gêmeos, após ter sido estuprada por um príncipe. Nada de beijo de amor verdadeiro. Malévola não é, aqui, a vilã má e forte apenas por ser: seus atos se constroem sobre sua própria história de fragilidade. Quando fala “há mal nesse mundo” pode-se entender que não referencia ao amargor em seu coração, mas ao homem que roubou uma parte de si. Nada mais compreensível do que, após ter seu corpo violado por um humano em quem confiava, querer infligir dor a ele. E esse momento chega com a festa de batizado de princesa Aurora. O diálogo que se segue é idêntico ao da animação, com uma exceção: Malévola ordena que Stefan peça perdão, e com isso ela mesma altera a maldição, que não mais acarretaria no sono da morte, mas sim em um que seria despertado por um beijo de amor verdadeiro. Esse lampejo de esperanças para os pais é falso, visto que ela mesma frisa em certa hora que “não existe amor verdadeiro”. É uma questão importante para alguém que teve o amor traído.

O Rei Stefan parte da exuberância dos azuis e dourados para o traje negro de quem vive em eterna paranoia, pensando na proteção da filha. Já Malévola vai da criatura livre, descalça, pertencente a natureza, com longos cabelos soltos e vestidos fluidos marrons até uma vestida de negro, contida, que oculta seus cabelos em turbante com a aparência dura como carapaça e que ostenta claros sinais de perigo, como garras, dentes e pele de cobra em seus acessórios.

Sua trajetória se marca na mudança das estações: primavera na infância, verão na juventude, outono após ser violentada (perceba como ela escurece tudo ao seu redor) e por fim, inverno, quando Aurora já é uma jovem, alimentando animais na floresta, a quem sempre está a observar. (Ao fim do filme o calor faz-se novamente presente.)

Para fugir da maldição, Aurora (Elle Fanning) é criada na floresta por suas três fadas-madrinhas, Flora (Lesley Manville), Fauna (Juno Temple) e Primavera (Imelda Staunton). Alguma agência lhe é conferida: ela explora o entorno por conta própria e até mesmo decide partir para morar em outro lugar, mas está longe de ser o foco da trama. Elle Fanning é adorável como sempre e o papel não lhe exige muito mais do que isso. As duas protagonistas se encontram e ao contrário do que poderia se esperar (e do que Malévola esperava) Aurora não teme. A figura que surge das sombras para revelar-se a ela tem a mesma silhueta da personagem da animação.

Se a busca por lidar com o que lhe aconteceu através da vingança parece justificada no filme, é um pouco decepcionante que a redenção de Malévola venha de um suposto instinto maternal: ao proclamá-la livre e dona de suas ações, a Disney parece voltar atrás ao mostrar que maternidade e bondade estão intrinsecamente conectadas e que esse papel tradicional (socialmente delegado às mulheres) a salvaria. Isso é ainda mais preocupante quando a narração fala sobre sua infância como “a época em que tinha coração puro”. Ao ter sua confiança traída e seu corpo invadido, deixou de ter coração puro? A dicotomia clichê entre “santa e puta”, a primeira expressa na maternidade benevolente e a segunda na sua reação após os atos de Stefan, macula um pouco a própria mensagem do filme.

Ainda assim é poderoso novamente ver um filme voltado para crianças em que as mulheres não necessariamente precisam de homem ao seu lado para terem seu final feliz. Pode-se dizer que o desfecho é parecido demais com o da recente animação Frozen, mas ainda assim os dois configuram uma exceção tal em meio a tantos filmes infantis que é cedo demais para levantar a questão da previsibilidade. A pequena aparição de príncipe Phillip (Brenton Thwaites) serve para reforçar o quão estúpido é desejar que duas pessoas tão jovens e que mal se conhecem amem-se verdadeiramente.

Esse é o primeiro filme dirigido por Robert Stromberg, que antes trabalhava no departamento de arte, sendo responsável pelo de design de produção de filmes como Alice no País das Maravilhas e Oz: Mágico e Poderoso (este último com grande semelhança em termos estéticos com Malévola). Houve, em seu trabalho, uma certa indulgência com uso de CGI, que mostra-se excessiva no reino de Malévola e mesmo nas criaturas que lá habitam.

Angelina Jolie está impecável, parecendo que nasceu para o papel. Mesmo com as próteses que alteram as formas de seu rosto, nunca esteve tão bela. Outro destaque é o simpático corvo Diaval, interpretado por Sam Riley, que funciona bem como sidekick, seja em sua forma humana ou animal.

Apesar de vários pequenos problemas, Malévola é bom entretenimento, traz uma roupagem modernizada para uma história datada e levanta questões de gênero interessantes, embora algumas dessas talvez passem batidas para as crianças. A personagem-título é fascinante. Talvez tenha faltado alguma coragem para a Disney em adotar uma protagonista puramente má, que opta pela vilania apenas para ver o caos que daí vem. Por outro lado, como acontece com o filme de 1959, seria difícil entender a falta de motivação da personagem e nutrir empatia por ela. A construção que vemos é crível e humana, sendo ao mesmo tempo forte e vulnerável. Como um todo, o filme me surpreendeu positivamente.

 

Para ler a minha análise do figurino do filme, acesse aqui.

maleficent

 

 

 

Share