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A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, 2017)

Como já diria a canção, um conto tão antigo quanto o próprio tempo: apesar de improvável dois jovens se apaixonam. Em mais uma recriação com atores de uma de suas animações clássicas, a Disney traz ao público novamente A Bela e Fera, dessa vez dirigido por Bill Condon. O pontapé inicial da trama já é conhecida do público: uma feiticeira disfarçada de idosa oferece uma rosa em troca de abrigo a um príncipe em seu castelo. Ele, repudiando a aparência da mulher, expulsa-a e é punido com sua transformação em uma besta de aparência feroz, para que aprenda que a beleza é encontrada internamente. O feitiço só é quebrado se alguém se apaixonar por ele antes que a última pétala da rosa caia.

O primeiro número musical, utilizando uma canção original da animação, já puxa o espectador para dentro da história. Intenso, melódico, colorido e bonito de ver, nele somos apresentados à aldeia de Bela (Emma Watson), e ao seu hábito de leitura, estranhado por muitos. Com quase quarenta minutos de duração a mais, o filme dá conta de explicar detalhes pouco explorados ou ignorados na animação. Um deles é o fato de que a escola da cidade só aceita meninos, o que significa que provavelmente as demais moças são analfabetas. Bela canta que não quer saber dessa vida provinciana, julgando quem a rodeia, mas não parece se dar conta que para a maior parte deles essa não é uma escolha, é o que há. Além disso, sustenta-se aqui uma oposição ultrapassada entre vaidade e intelectualidade: Bela considera-se diferente das outras garotas porque ela lê. Apenas três outras jovens aparecem com destaque, sempre refestelando-se em trajes e maquiagens ridículas. A personagem é construída para nos vender a ideia de que ela é especial por não ter interesse nessas banalidades (ainda que sempre impecavelmente vestida e maquiada, apenas não mostrada no processo de obtenção de sua boa aparência).

Mas se o estereótipo do “eu não sou como as outras garotas” poderia ter sido deixado de lado, pelo menos a mal-fadada síndrome de Estocolmo pela qual a personagem passa em tantas versões aqui foi atenuada. Bela tem muito mais autonomia e expressa constantemente suas opiniões e, por outro lado, a Fera (Dan Stevens, de Downton Abbey) é muito menos odiosa. Há até mesmo uma tentativa de justificar seu comportamento com um passado triste descortinado em flashback. Não é muito convincente, mas o fato é que, após a grosseria inicial, ele é mais aberto ao diálogo e ambos têm na literatura um interesse em comum. Dessa forma, o romance se parece mais justificado.

Se o rosto de CGI da Fera nem sempre convence, por outro lado tanto a aparência quanto a interpretação dos objetos da casa são maravilhosos. e assim reencontramos Lumière (Ewan McGregor, inspiradíssimo), Cogsworth (Ian McKellen), Mrs. Potts (Emma Thompson), Madame Garderobe (Audra McDonald), Maestro Cadenza (Stanley Tucci) e Plumette (Gugu Mbatha-Raw), trazendo magia à história. Em meio a um elenco estelar, Luke Evans rouba a cena com seu Gaston canastrão, auto-confiante e involuntariamente engraçado. Infelizmente o personagem demonstra maldade maior nessa versão, provavelmente para amenizar a percepção que temos da Fera. Já o LeFou de Josh Gad é engraçado e não tem papas na língua, sendo sua participação ampliada. É uma pena que, propagandeado como o primeiro personagem abertamente LGBT da Disney, na verdade seja estereotipado, mantido no armário, sem direito a uma história própria e tendo os vislumbres de sua sexualidade utilizados como fonte de humor. Impressiona que isso possa ser considerada um avanço em se tratando de um filme infantil do estúdio. Mas como vilão e ajudante, ambos funcionam muito bem e tem boas sequências e diálogos juntos.

Mas para além de alguns problemas de atualização de roteiro, o que mais encanta no filme é seu visual. Além da direção de arte que esbanja cores, destaca-se o figurino de Jacqueline Durran. As roupas de Bela, especificamente, são trabalhadas majoritariamente em azul, branco e vermelho, sempre com uma cor contrastando em pequenos elementos com a outra. Destacam-se primeiro três conjuntos: um simples com avental que usa em casa, um com corpete bordado de flores e detalhes azuis já no palácio da Fera e depois um traje vermelho e capa da mesma cor, quando passeia no jardim. Os tons de azul a ligam à própria Fera, pois essa é a cor de seu traje. Por fim, há um belíssimo vestido amarelo com apliques de flores, que remete ao original da animação. O vestido do baile final também é coberto com detalhes florais. Todas esses elementos da flora remetem tematicamente à própria rosa da maldição.

Com uma estética apurada, um elenco competente, músicas vigorosas e roupas bonitas, A Bela e a Fera é visualmente impressionante, encanta, enche os olhos e diverte. Nem tudo são acertos, mas com uma narrativa repaginada, tornando a Fera mais humana e a Bela mais plena em agência, o filme consegue se traduzir de maneira mais adequada às audiências contemporâneas.

 

 

 

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Figurino: Jogos Vorazes: A Esperança- Final

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Aviso: este texto contém revelações de detalhes da trama.

Há jogos muito piores para jogar”.

Chegou aos cinemas Jogos Vorazes: A Esperança- O Final, último filme da franquia distópica baseada nos livros de Suzanne Collins, protagonizada pela personagem Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence). A direção novamente fica a cargo de Francis Lawrence e o figurino é da dupla Kurt & Bart, que trabalhou no filme anterior, além de Segredos de Sangue, que já foi analisado aqui no blog e pode ser conferido aqui.
Durante os três primeiros filmes, Katniss se mostrou uma personagem tridimensional, movida pela empatia e capaz de fazer o possível para ajudar os demais. De quando se voluntariou como tributo no lugar da irmã, Primrose (Willow Shields) até quando se tornou porta voz da campanha midiática do Distrito 13 contra a Capital de Panem, tudo que fez foi pensando naqueles ao seu redor que sofriam, mas não necessariamente com profundidade política.
A política, justamente, sempre teve um papel central na franquia. Muitos elementos do figurino da série remetem às décadas de 1930 e 1940, como o memorável vestido azul de Katniss no Dia da Colheita em Jogos Vorazes, bem como as roupas dos demais moradores dos distritos. Isso acontece para relacionar o poder autocrático de Snow (Donald Sutherland) com o totalitarismo fascista na Europa desse período.

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Por outro lado, no Distrito 13, que se rebela contra a capital, a população veste macacões cinza. Katniss continua não abotoando o seu até em cima, indicando que não se encaixa completamente nos padrões impostos pelas lideranças revolucionárias. Embora todos se vistam de cinza, as roupas não são exatamente as mesmas e a Presidente Alma Coin (Julianne Moore) se destaca com seus ternos bem cortados em tecidos estruturados. Como já foi mencionado na análise do filme anterior, Jogos Vorazes: A Esperança- Parte 1, todos são iguais, mas uns são mais iguais que os outros e ela encarna a revolução traída.

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Além da política, a própria mídia é outro ponto importante do filme. Nos três anteriores tece-se uma crítica a ela e à forma como se utiliza a criação e a projeção de uma imagem pessoal. Mas isso não é feito de maneira simplista: todos os lados fazem-se valer dessa arma valiosa. Isso é demonstrado especialmente através do papel dos organizadores, como Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman). Em Jogos Vorazes: Em Chamas Snow sabe que vestir Katniss de noiva para leva-la ao programa de Caesar Flickerman (Stanley Tucci) é uma forma de desviar a atenção do fato de a personagem tê-lo desafiado ao vivo nos 74os Jogos Vorazes para o suposto romance entre ela e Peeta (Josh Hutcherson), despolitizando sua presença televisiva. “Faça-o pagar por isso”, disse Johanna Mason (Jena Malone).

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Já Cinna (Lenny Kravitz) entendia que era importante criar empatia com a plateia, usando esses elementos midiáticos a seu favor e vinculando Katniss ao slogan “Garota em Chamas” através das suas roupas. Ele sabe que a plateia vai ama-la ao ver seu vestido pegando fogo. Da mesma forma, ele mesmo criou mensagem revolucionária através da roupa, vestindo Katniss como Tordo na apresentação televisiva dos 75os Jogos Vorazes. Por isso, se por um lado a mídia e a moda trabalham para criar o Pão e Circo que distrai a população da Capital (e não por acaso o país se chama Panem, de “panem et circenses”, em latim), por outro elas não se resumem a isso e podem ser apropriadas pelas causas.

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No terceiro filme Katniss recebe do 13º Distrito um traje de guerra funcional com armadura, mas praticamente só a utilizou em vídeos promocionais. Katniss caçava e sobrevivia à fome no 12º Distrito. Também sobreviveu a duas versões de arenas nos Jogos. Mas, de certa forma sua imagem foi cooptada pelo 13º Distrito, tornando-a um símbolo dela mesma, a sobrevivente que desafiou Snow, de maneira a servir como inspiração para o demais se unirem à revolução. Por mais que tenha agido com espontaneidade diante das câmeras de Créssida (Natalie Dormer) e discursado com sinceridade, é somente nesse quarto filme que ela o utiliza a roupa de guerra por necessidade, ao desobedecer às ordens de Coin e tomar novamente as rédeas de suas ações.
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O uso de cores no filme é bastante interessante. No terceiro ato, por exemplo, uma criança de vestido amarelo chama atenção para a ação que vai levar à morte centenas de pessoas, incluindo Primrose. A criança, seu vestido e as mortes conectam-se à última cena do filme. Depois desse ocorrido, Katniss passa a vestir-se de preto, em luto permanente até pouco antes do desfecho.

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Além disso, desde a imagens de divulgação o vermelho tem recebido destaque, marcando a revolução em andamento. Mas ele também marca o conflito e não por acaso Caesar Flickerman utiliza a cor em sua aparição na televisão, já que trabalha como um porta-voz dos interesses da Capital. Por outro lado, o próprio presidente Snow veste-se de vermelho em seu derradeiro diálogo, em que revela que a presidente Coin é mais parecida com ele do que ela supunha. Rodeados de rosas brancas que lhe são características, ele afirma que “Nada exprime perfeição como o branco”. Curiosamente branco é uma cor que quase não se manifesta nos figurinos desse quarto filme.

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Mas a cor que merece destaque maior é o cinza. Em minha análise do filme anterior, escrevi que a neutralidade da cor servia para marcar a falta de expressão de individualidade dos moradores do Distrito 13, quebrada eventualmente por detalhes criados por determinados personagens. Isso continua válido: a população da Capital tem liberdade de expressar-se através da moda que utiliza, enquanto os dissidentes apresentam-se literalmente uniformizados.
Mas o cinza aqui manifesta-se para além da uniformização. Ele funciona como motivo ou tema, comentando a ambiguidade política do cenário que se descortina ao final. Se Coin apresenta-se de cinza, também o fazem os políticos que apoiam Snow, ainda que com detalhes vermelhos. A própria população da Capital aparece menos colorida dessa vez. Mesmo Effie, que lutou para manter seu estilo no filme anterior agora veste um traje ainda extravagante, mas já lavado de cores, cinza. Para quem acompanhou os acontecimentos pelos bastidores, há a percepção de que por trás de toda a fachada, pouca diferença há entre um lado e outro.

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A Comandante Paylor (Patina Miller), do Distrito 8, eleita presidente, apresenta-se como uma mistura desses elementos: suas roupas são cinzas, mas estruturadas de forma geométrica, quase como que um origami, fugindo da funcionalidade dos demais revolucionários. E sob sua jaqueta, usa um tecido de estampa colorida, que de certa forma serve para liga-la a Capital, auxiliando sua aceitação através dessa expressão de individualidade.

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Conforme já ficou estabelecido, em todos os filmes da franquia Jogos Vorazes brincou-se com o figurino como uma maneira de usar a moda e a imagem pessoal para manipular o espectador dentro e fora do filme, especialmente através da imagem que Katniss projetou. Isso era feito não sem certa ironia, já que a imagem era utilizada também para criticar essa manipulação. Nesse filme isso não acontece mais. Mesmo, Tigris, a estilista, não é explorada nesse sentido.
Quando retorna à Vila dos Vitoriosos do 12º Distrito, Katniss volta para sua antiga jaqueta de couro. Ela não precisa mais ser nenhum personagem. Não precisa ser garota em chamas ou tordo. Não precisa mais usar os vestidos de que não gostava nem as fantasias de uma imagem vendida. Isso até a cena final, no futuro, em que ela é apresentada com um vestido amarelo com uma estampa do que parecem ser prímulas (Primrose, em inglês). A roupa é usada para conectá-la ao passado, para deixar claro que ela sempre estará marcada pelo luto e pela dor da perda e da guerra. A paisagem idílica, contrastando com o cinza da Capital e o vazio desolado de sua casa, acolhe Karniss, Peeta e seus dois filhos. Mas nesse último momento, Kurt & Bart parecem ter esquecido as camadas de subtexto presentes no contexto da obra e a vestem, sem nenhuma ironia, com o tipo de roupa que ela até então detestou. Isso para tentar criar uma imagem de final feliz convencional que se desconecta da jornada de Katniss. Parece uma derrota para uma personagem tão forte se apresentar assim, privada de seu papel de líder e, por fim, domesticada, presa a um vestido que representa o que há de mais tradicional em termos de papel de gênero.

Claro que colocado no contexto maior da produção dos filmes, essa imagem faz sentido. Conforme comentado na análise do figurino de Jogos Vorazes: Em Chamas, nós, espectadores, nos comportamos como o povo da Capital: queremos o entretenimento que a franquia nos fornece. Hollywood é a Capital: fornecendo diversão, coisas bonitas para que possamos olhar e personagens para os quais possamos torcer. Mas a revolução não pode ir longe demais porque se Hollywood é a Capital, ela não quer ser derrubada. A mídia é usada para oprimir nos livros de Collins, mas é o espetáculo visual que consumimos nos filmes. E esse entretenimento, no final das contas, não pode questionar o que está à mesa. Assim, ignorando o próprio trabalho feito com o figurino e a imagem dos personagens até então, Katniss é traída pela Lionsgate da mesma forma que a revolução de que foi símbolo na história original.

Jogos Vorazes: A Esperança- O Final não é um filme ruim e faz parte uma franquia de filmes voltados para o público juvenil que se destaca em um mar de mesmices justamente por abordar temas mais complexos e cheios de camadas do que o triângulo amoroso da média. Mas parece que muitas das sutilezas dos três primeiros filmes foram esquecidos nesse terceiro, que, por isso, tem um desfecho aquém das suas possibilidades e que não faz jus ao bom desenvolvimento de seus personagens até então.
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Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire/ 2013)

Assistido em 15/11/2013

Post sem spoilers!

Jogos Vorazes: Em Chamas, segundo filme da franquia, teve quase o dobro do orçamento do primeiro: de 78 milhões de dólares passou para 140 milhões. Desses, 10 milhões foram o cachê de Jennifer Lawrence, pois nesse meio tempo ganhou fama e tornou-se oscarizada. Um belo salto em relação aos 500 mil que recebeu no anterior. Mas mesmo assim, a verba extra é perceptível em todas os momentos na produção.

O filme começa alguns meses depois do fim dos Jogos Vorazes. Katniss (Jennifer Lawrence) e Peeta (Josh Hutcherson) moram em casas contíguas na vila dos vencedores, onde também reside Haymitch (Woody Harrelson). Após encarnarem os amantes trágicos diante de toda a nação e saírem ambos vitorioso, agora eles mal sem falam. Ela voltou às caçadas com Gale (Liam Hemsworth) e tem visíveis sintomas de stress pós-traumático. Ninguém sabe exatamente o que está acontecendo, mas têm a percepção de que algo está mudando por conta da última edição do jogos. As consequências de seus atos são ponto central da trama. Para Katniss isso fica patente quando o Presidente Snow (Donald Sutherland) aparece em sua casa e a avisa que a turnê dos vitoriosos logo se iniciará e que nos distritos muitos não acreditam na história de amor entre ela e Peeta, vendo, sim, um desafio ao poder da Capital. Ameaçando a vida de sua mãe (Paula Malcomson)  e de Prim (Willow Shields), a sua irmã, além da de Gale, Snow quer ter certeza de que ela se esforçará para representar satisfatoriamente a sua relação com Peeta, para não causar mais levantes na turnê dos vitorioso que virá. Apenas lá Katniss e Peeta começam a ter noção da dimensão do que vem acontecendo.

Com um novo gamemaker, Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman), a 75ª edição será um Massacre Quartenário, jogo que acontece a cada vinte e cinco anos com regras diferentes. O presidente está decidido a enfraquecer a figura dos tributos vencedores. Assim Plutarch sugere que relembrem que o motivo dos jogos existirem é para mostrar aos distritos o que ocorre com quem se rebela contra a Capital. Os contornos políticos da distopia fortalecem-se.

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Katniss está fragilizada nesse ponto da história. Ela se tornou o símbolo de uma revolução sem ter querido ou percebido. Aqui ela, com o auxílio de Cinna (Lenny Krevitz), liteiralmente encarna o mockinjay. O que ela queria era sobreviver com sua família, mas se viu mergulhar em uma trama complexa que não sabe como lidar. Jennifer Lawrence encarna esse momento da personagem com precisão. Embora eu não tenha concordado com a escalação da atriz para o papel (por trata-se de um embranquecimento da personagem em relação ao livro), não há como negar seu talento.

Gale e Effie Trinket (Elizabeth Banks) tem suas participações ampliadas nesse filme. Ela tem até mesmo o nome mencionado algumas vezes, fato que não ocorreu no primeiro filme. Essa presença é bastante positiva, pois ela nos representa nesse contexto. Ela é o povo da Capital, sedento por coisas bonitas e entretenimento, assim como, ironicamente, a plateia que o assiste. Se ela não tem noção da dimensão política dos acontecimentos, não é por mal: embora alienada, tem bom coração.

Entre os novos personagens, uma surpresa positiva foi o de Finnick Odair (Sam Claflin). Ao ver as fotos do ator na escalação do elenco, não achei ele combinasse com o personagem, mas sua atuação me desmentiu. Além disso, uma cena do livro envolvendo outra personagem nova, Johanna (Jena Malone), que havia comentado no dia anterior que tinha certeza que seria cortada em virtude da classificação etária do filme, não só foi executada, como melhorada.

Aliás, em termos de adaptação, o filme como um todo se saiu muito bem. O livro Em Chamas é fortemente prejudicado por ser o meio da série, além de ter uma parte de trama repetida do primeiro livro.  Para o filme, houve a percepção de que essa parte não funcionaria e houve uma redução considerável, embora não pudesse ser extirpada da trama. (Ainda assim citaria esse como o maior ponto fraco da película). Todas as alterações feitas serviram para melhorar a história e, por vezes, dar mais impacto às ações dos personagens. Levando-se em conta que, como já mencionei, o aumento de recursos transparece na tela, o segundo filme parece melhor que o primeiro, mesmo sendo apenas um elo de ligação.

Sobre os aspectos técnicos, tudo mudou de escala. Os espaços da Capital estão mais grandiosos. A computação gráfica melhorou bastante, embora o fogo ainda não seja realista. Os figurinos estão ainda mais vistosos. Novamente, paguei minha língua. A figurinista do primeiro filme, Judianna Makovsky (de A Princesinha), foi substituída nesse por Trish Summerville (que já havia feito Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, onde abusou de uma estética exagerada que caricaturou a personagem Lisbeth). Aqui ela novamente cometeu excessos, mas que casaram com o contexto da Capital. A fotografia está muito melhor, sem o uso de câmeras tremidas.

wedding dress katniss

O final do filme deixa claro que muito mais está por vir. Embora tenha escrito para jovens, Suzanne Collins não diluiu os conceitos que norteiam sua trama. A Esperança, o terceiro e mais forte dos livros, será dividido em dois filmes e se o nível da produção permanecer o mesmo, tudo indica que será algo memorável em termos de produto para o público infanto-juvenil (e, porque não, adulto). Em Chamas provou que o aumento da escala da produção apenas beneficiou-a. A verba extra não se perdeu em efeitos especiais vazios, mas possibilitou a execução aprimorada das ideias e a ampliação do senso de urgência e do suspense, pois algo se agita abaixo aparente calmaria.

Quem só queria ler meu comentário sobre o filme, pode encerrar por aqui. Agora vou relatar a experiência antropológica que foi assistir a ele no dia de estreia. O cinema que geralmente frequento abriu uma sala dublada e uma legendada. Dirigi-me sozinha até ele no início da tarde. Todas as sessões dessas salas já estavam esgotadas, mas havia sido aberta uma terceira sala, legendada. Consegui ingresso para o segundo horário, 15:20. Passei nas Americanas para comprar um salgadinho e percebi que o shopping estava lotado de grupinhos de pré-adolescentes e adolescentes. Faltando meia hora para a sessão segui para a sala. Para minha surpresa, era muito pequena: provavelmente a menor sala de cinema que já frequentei na vida. Quando entrei a maioria dos lugares já estavam ocupados e muitos estavam reservados com bolsas e pipocas. Sentei-me próxima ao corredor, no alto, e agucei os ouvidos. À minha esquerda um grupos composto por duas meninas e um menino, com aproximadamente catorze anos, relatavam o segundo livro inteiro! Fiquei com pena de quem assiste o filme sem ler os livros. À minha direita, do outro lado do corredor, um grupelho de cinco meninos com em torno de 10 anos faziam algazarra. Atrás de mim, algumas adolescentes e uma criança muito pequena, que mau sabia pronunciar palavras ainda. Em algum ponto da sala um bebê chorava. (Porque as pessoas levam bebês para sessões que sabem que serão tumultuadas?). Uma das meninas do meu lado tecia comentários apaixonados a respeito de Peeta. A segunda negou veementemente cada frase dela. Alegou que preferia Gale, porque foi o único que lutou pela revolução. Segundo ela, Katniss lutou pela Prim, Peeta, (mais ou menos) lutou pela Katniss e Gale foi o único que lutou por todos. “Você não lembra no primeiro filme, que no começo ele já sugere pra Katniss?”. A primeira, a contragosto, concordou com os argumentos, mas diz ainda preferir Peeta. Os trailers começaram mas foram interrompidos por problema na projeção, que estava sem foco e com som estourado. Alguém no fundo grita “liga pra Net!” e a sala toda cai na gargalhada. Eu já estava meio tensa, pensando que ia me incomodar horrores com essa plateia. Acontece que, assim como eu, a maior parte era composta por fãs. Fãs um tanto mais efusivos e sem controle do que essa quase balzaca que vos escreve, claro, mas fãs. Irritei-me e soltei palavrões quando a menina ao meu lado ATENDEU o celular não uma, mas três vezes! Sua mãe estava a sua procura, aparentemente. Além disso a criança pequena atrás de mim simplesmente não sabia o que estava acontecendo. A cada meia dúzia de cenas ela perguntava “ela morreu? ele morreu?”. Mas no final estava mais engraçado que irritante. O grupo de meninos chamou Ceasar de gay algumas vezes. Fora isso, foi até muito interessante, quase como uma experiência além do filme. É claro que beijos despertaram risinhos. Mas em dois momentos importantes em que eu me contraía com um sentimento de “fuck yeah” na cadeira, o pessoalzinho menos reprimido aplaudiu fervorosamente, o que contribuiu com o clima da cena. Em outros dois momentos, pelo menos metade do cinema ergueu os braços e até mesmo alguém talentoso atrás de mim fez o assovio do mockinjay. Perguntaram-me se eu achava que esse público entendia que não era só uma aventura ou um triângulo amoroso, se percebiam o aspecto político, ainda que leve, na obra. Pelo que ouvi ao meu redor, os mais novos estão alheios e estão lá pela diversão, mas a política certamente faz parte das discussões entre os mais velhos. Geralmente eu sou chata, muito chata, em relação ao comportamento das pessoas no cinema. Quero ver meu filme com silêncio total em torno de mim. Mas nesse caso, em que os próprios livros (e a Jennifer Lawrence) me transformam em fangirl adolescente, em minha opinião, essa experiência coletiva foi extremamente válida, porque é um filme que desperta essa empolgação. É uma geração sortuda (essa e a anterior com Harry Potter), pois a minha não teve nenhum produto cultural para gerar esse tipo de paixão.

Para ler minha análise do figurino de Jogos Vorazes: Em Chamas, acesse aqui.

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