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Figurino: Quanto Mais Quente Melhor

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Bem, ninguém é perfeito!

Lançada em 1959 e dirigida por Billy Wilder, Quanto Mais Quente Melhor é considerada uma das melhores comédias de todos os tempos. A trama é bastante simples: na Chicago de 1929, Jerry (Jack Lemmon) e Joe (Tony Curtis), dois músicos com problemas financeiros, testemunham uma matança perpetrada pela máfia. Para fugir da queima de arquivo que viria a seguir, adotam os nomes “Daphne” e “Josephine” e juntam-se a uma banda composta só por mulheres. Lá eles conhecem a encantadora cantora Sugar (Marylin Monroe) e o grupo segue para uma série de apresentações na Flórida. A simplicidade do conceito ganha vida no talento e carisma do trio de atores principais e na direção precisa de Wilder. Os trajes presentes no filme, desenhados pelo figurinista veterano Orry-Kelly, renderam ao filme seu único Oscar, de figurino em preto e branco.

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Logo à primeira vista é possível perceber, através das roupas de Daphne e Josephine, suas personalidades dissonantes. A primeira, com casaco de oncinha (estampa que pode passar uma imagem provocativa e pouco convencional) e vestido com gola em babados delicados, é divertida, extrovertida e meiga. Já a segunda, ornada em peles e com a gola em zigue-zague (gerando um visual espinhoso), é ao mesmo tempo clássica, elegante e ácida. Esta elegância é complementada pelo biquinho sempre flutuando em seus lábios.

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A moda feminina da década de 1920 foi caraterizada pelo visual andrógino: os cabelos ficaram curtos e o corpo ideal era magro e sem curvas. Para realçar essa forma, os trajes se tornaram retos, com a cintura baixa, deslocada na altura do quadril de maneira a esconder as formas. O comprimento ainda era abaixo do joelho. Como acessórios, colares compridos, que ajudavam a ressaltar a silhueta longilínea, e o cloche, chapéu em formato de sino.

Ilustrações que retratam a moda da época.

Ilustrações que retratam a moda da época.

Saindo da neve de Chicago para a beira da praia, Geraldine e Daphne usam roupas claras que seguem essas características e que, portanto, ajudam a disfarçar seu porte físico. É interessante ver os detalhes das peças em fotos promocionais coloridas.

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Foto de divulgação do filme, que captura o figurino em cores.

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Já para as apresentações da banda, seus trajes são escuros, repletos de bordados e acompanhados por muitos acessórios, como as demais participantes da banda. Em certa cena é possível ver que a liga da meia de Daphne se posiciona logo acima de seu joelho, ao invés de no meio da coxa, devido à sua estatura elevada para padrões femininos.

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A primeira aparição de Sugar já é bombástica: seu vestido justo de cetim preto abraça seu corpo, delineando as curvas. A barra possui franjas, como uma tentativa de marcar o período retratado. Essa é uma constante de seu figurino: os trajes são justos, fugindo do tradicional, com pequenos detalhes como fios de contas e franjas. Um vestido similar ao que se utilizava no período não cairia bem nas formas voluptuosas de Marylin Monroe, já que essa moda não primava por elas. O contraste entre ela e as outras protagonistas é grande.

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Dois de seus trajes, quase idênticos, se destacam pela ousadia. Ambos possuem o colo confeccionado em uma espécie de tule, com aplicação de bordados estratégica sobre os seios. O de cor clara, tem o decote nas costas até a linha da cintura, mas o escuro vai ainda mais fundo, com um adorno arrematando o acabamento. O primeiro é mostrado em um número musical em que só o rosto de Sugar é iluminado, mas o segundo pode ser visto em detalhes. Embora o Código de Produção, que funcionava como uma espécie de censura, já estivesse em declínio na época, o uso desses trajes não deixa de ser uma escolha corajosa. De qualquer forma, a sensualidade deles é quebrada justamente pelo comportamento da personagem, sempre doce e inocente. A transparência pode ser lida como parte de sua vulnerabilidade.

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Joe utiliza a roupa como disfarce uma segunda vez: veste um conjunto com referências marítimas para passar-se por um dono de iate milionário e tentar seduzir Sugar.

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Daphne também tem seu pretendente: Osgood Fielding III (Joe E. Brown). Em sua primeira aparição, quando a vê pela primeira vez, ele veste um tipo de calça muito popular naquela época, chamada em inglês de “knickerbocker”, ou simplesmente “knickers” (sem tradução para o português). A modelagem era ampla e terminava de forma ajustada logo abaixo do joelho. Para contextualizar, é o mesmo modelo utilizado pelo personagem Tintim, cujo primeiro quadrinho foi lançado justamente em 1929.

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Tintim, famoso repórter dos quadrinhos criados por Hergé, cuja primeira história foi publicada em 1929.

Tintim, famoso repórter dos quadrinhos criados por Hergé, cuja primeira história foi publicada em 1929.

O chefe da máfia local de Chicago, que queria a morte dos dois protagonistas, é chamado de Spats (George Raft), polainas em inglês. O acessório, utilizado para cobrir os sapatos masculinos, é sua marca registrada e é sempre a primeira parte dele a aparecer em cena. Isso conota um comportamento às antigas, uma vez que seu uso já não era comum. Essa característica também fica patente em suas roupas. Enquanto seus capangas vestem paletós de lapelas largas, antecipando as formas amplas da moda masculina da década de 1930, os seus sempre possuem lapelas estreitas. Raft, que tem importante participação no Scarface de 1932 é utilizado como ponte para uma série de referências aos filmes de gângsteres de então. Dito isso, todos são retratados dentro do ideário clássico de mafioso, bem vestido e usando chapéu fedora.

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É graças fato de que vai retocar a maquiagem, parte de sua montagem e disfarce, que Daphne percebe que seus perseguidores estão no mesmo hotel, o que desencadeia as perseguições finais.

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Bem realizado enquanto retrato de época, desafiador e engraçado, Quanto Mais Quente Melhor é uma comédia deliciosa. Os figurinos são essenciais para a composição não só dos personagens, como de situações cômicas que integram a trama. E a cena final é, até hoje, uma das mais engraçadas da história do cinema.

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Spartacus (1960)

Assistido em 08/08/2013

Eis um belo e esquizofrênico épico! Grandioso em sua realização como só os épicos do período em que foi feito conseguem ser, tem cenários e figurinos impressionantes. As pinturas matte, apesar de bem executadas, não são tão bem feitas quanto outras da época. A história por vezes parece ter se criado entre o jogo de tensões entre o roteirista Dalton Trumbo, o diretor Stanley Kubrick e o produtor e protagonista Kirk Douglas. Apesar disso, o filme flui bem e tem um ritmo que mantém o expectador preso à trama, em suas mais três horas de duração.

Spartacus (Kirk Douglas) é um escravo trácio retirado da mineração para ser treinado como gladiador por Batiatus (Peter Ustinov). Lá ele conhece e se apaixona por Virinia (Jean Simmons), que viria a ser sua esposa. Acaba por liderar um levante que parte libertando escravos. Crassus (Laurance Olivier) é um senador romano que se encarrega de vencer o exército de libertos. Um de seus próprios escravos, o cantor Antoninus (Antony Curtis), fugiu com os demais. O grupo planeja atravessar um terço da Itália, libertando quem encontrar pelo caminho, para chegar a um porto e voltar para suas casas, para desagrado da tirana Roma.

Ao ver Ustimov em tela, tive uma estranha sensação de familiaridade e ao consultar sua filmografia percebi que isso deve ao fato de ele ter encarnado em vários filmes Hercule Poirot, o famoso detetive de Agatha Christie que protagonizou tantas histórias queridas de adolescência; além de ser o escravo Kaptah na adaptação cinematográfica de 1954 de O Egípcio, de Mika Waltari (um dos meus livros preferidos durante minha infância). Fora isso, tanto Kirk Douglas quanto Lawrence Olivier entregam boas atuações. E impressiona a beleza de Tony Curtis em cena.

Uma cena que foi deletada na época do lançamento e trazida de volta após a restauração da película em 1991 mostra Crassus comentando com Antoninus, enquanto este o banha,  sobre seu apreço por ambos ostras e lesmas e perguntando se o mesmo gostava de um ou de outro e se via problemas em quem gostasse. É espantosa a filmagem dela, dado o contexto da época. O tom do texto e a forma como os atores atuam, a torna ao mesmo tempo tensa e engraçada. Os momentos que retratam os escravos libertos descansando, comendo, dançando e brincando nos intervalos da marcha são muito bonitos. No terceiro ato, quando as tropas romanas se organizam para batalha, o balé dos agrupamentos mudando de posição é assombroso, assim como a quantidade de figurantes em cena.

Talvez esse não seja um filme autoral de Kubrick e percebe-se em tela o resultado das tensões de bastidores. Mas é um filme extremamente bem executado e vale a pena suas horas de duração.

Poster - Spartacus_04

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Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot/ 1959)

Assistido em 20/04/2013

Na época da Lei Seca nos EUA, dois músicos trabalham em Chicago tocando em estabelecimentos que servem bebidas alcoólicas ilegalmente. Sem querer eles presenciam um massacre perpetrado por gangues rivais em busca do cartel. Como testemunhas que são, suas cabeças estão à prêmio entre os mafiosos e eles resolvem fugir para a Florida, disfarçados, com uma banda. Acontece que as vagas de emprego eram em uma banda só para mulheres. Joe (Tony Curtis), o saxofonista, vira Josephine e Jerry (Jack Lemmon), o baixista, vira Daphne (porque ele “não gosta de Geraldine”). Ambos conhecem Sugar Cane (Marilyn Monroe) e fazem planos para se aproximar dela. Nunca vi Marilyn atuando tão bem e isso deve-se, sem dúvida, à persistência do diretor, Billy Wilder. Aliás, como sempre, ele está tecnicamente muito bem. O ponto fraco seria a sua “noite americana“, que não convence, mas também não incomoda. Destaque para a participação especial de George Raft como Spats Colombo, o mafioso mandante do massacre. Ao ver um jovem jogando uma moeda para cima, como seu personagem Rinaldo fazia no clássico Scarface, pergunta a ele “onde aprendeu esse truque barato?”. Joe E. Brown como o rico Osgood Fielding III também está ótimo. A história em si é cômica sem ser hilária. Muitas situações são realmente engraçadas e há um um pouco de romance, tratado com certa inocência por Marilyn Monroe. Jack Lemmon é engraçado só de olhar para o rosto dele. O diálogo final é memorável. É um filme realmente muito bom e passa voando!

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