Análise dos vencedores do prêmio do Sindicato dos Figurinistas

Estamos chegando ao fim da temporada de premiações e no dia 22 de fevereiro foram entregues os prêmios anuais do Sindicato dos Figurinistas dos Estados Unidos (Costume Design Guild Awards). Os votantes são figurinistas, assistentes de figurino e ilustradores, todos vinculados ao sindicato e são lembradas produções de cinema, televisão e publicidade. Seguem abaixo as categorias de cinema e seus indicados, com destaque para o vencedor e comentários a respeito de cada uma.

Excelência em Filme de Fantasia:
THE HOBBIT: THE DESOLATION OF SMAUG
O Hobbit: A Desolação de Smaug : Ann Maskrey, Richard Taylor, Bob Buck
Jogos Vorazes: Em Chamas: Trish Summerville 
Oz: Mágico e Poderoso: Gary Jones, Michael Kutsche
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Entre as categorias de Cinema, esta, sem dúvida, era a menos concorrida e salta aos olhos a total ausência de filmes de Ficção Científica, em um ano com tantos do gênero. É especialmente uma pena um filme como Além da Escuridão: Star Trek não ser lembrado.
Sobre O Hobbit: A Desolação de Smaug deve-se dizer que, assim como o filme anterior dessa nova trilogia baseada na obra de Tolkien, todo o design de produção impressiona menos do que a da trilogia Senhor dos Anéis. É visível o esforço que foi colocado no feitio de sapatos, cintos e na manipulação de lãs e metais, por exemplo, mas é difícil não ver isso como a extensão de um trabalho começado há mais de uma década. Os figurinos estão suficientemente bem executados, mas não chamam a atenção de verdade.
Oz: Mágico e Poderoso tem um figurino bonito, mas que segue uma visão bastante simplista: bruxa boa veste roupa tradicional e clara e bruxa má veste roupa moderna ou sedutora em tons fortes ou escuros. Há alguns detalhes interessantes, como o vestido que passa a ideia de uma armadura, mas apesar de visualmente bonito, limita-se a isso.
O figurino de Jogos Vorazes: Em Chamas é claramente o que merecia vencer nessa categoria. Trish Summerville é um nome em rápida ascensão na indústria e mostrou talento ao herdar um universo já criado e conseguir ampliá-lo e melhorá-lo em todos os aspectos. Usou de parcerias com estilistas sem jamais perder sua visão do todo e deleitou os expectadores dessa distopia em que a moda é um espetáculo utilizado para distrair os incautos da política que ocorre nos bastidores. O conjunto é bonito e ao mesmo tempo cumpre seu papel, sendo coerente com o legado do primeiro filme da quadrilogia.

Excelência em Filme Contemporâneo:
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Blue Jasmine: Suzy Benzinger
Ela: Casey Storm
Nebraska: Wendy Chuck
Philomena: Consolata Boyle
A Vida Secreta de Walter Mitty: Sarah Edwards
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Filmes contemporâneos são sempre os mais difíceis de avaliar, porque sua força geralmente reside em sutilezas. Senti falta na lista dos indicados de Segredos de Sangue, que possui um figurino que parece ter sido feito de maneira sempre consciente de sua própria artificialidade, contribuindo para o ar gótico do filme e sua estética extremamente específica e contida.
É de se estranhar que Ela esteja nessa lista: não se trata de um filme contemporâneo e sim uma ficção científica que se passa em um futuro não tão distante de nós. Seria coerente que estivesse na lista de Fantasia. Apesar disso deve ser mencionado, pois baseia-se em preceitos muito bons: ao invés de criar uma moda futurista desconectada de nossa realidade, abraça a ideia de que ela é cíclica e rouba elementos do passado, especialmente da década de 1930, para compô-la. As calças com cinturas extremamente altas se aliam à quase total falta de acessórios e às golas pequenas ou inexistentes para criar uma estética minimalista e crível.
Nebraska, Philomena e A Vida Secreta de Walter Mitty mostram o vestir de pessoas comuns que começam em situações cotidianas mas deslocam-se de sua zona de conforto. O primeiro possui uma composição de camadas (devido ao frio do lugar retratado) e, por tratar-se de um filme em preto e branco, há uma preocupação com a forma como as cores e as texturas (há muito xadrez, mas também outras estampas) são percebidas no resultado final. Philomena tem parte de sua história no passado, através de flashbacks; mas focando no período contemporâneo percebe-se o contraste entre a personagem-título e o jornalista que é seu companheiro de viagem: enquanto ele se veste com a elegância de quem frequenta os altos escalões da política, ela está bem representada como uma senhorinha suburbana e simplória, que prima o conforto em primeiro lugar. Já o último dos três, embora seja o filme mais fraco, tem um figurino competente, que nos coloca em uma realidade que pode se passar em qualquer espaço-temporal e nos mostra como o protagonista, Walter Mitty, evoluiu do homem que vestia roupas quase como um uniforme em uma vida monótona (vide sua jaqueta cinza de todo dia de trabalho) ao aventureiro que necessita de vestimentas específicas e até ousa utilizar vermelho, demonstrando sua recém-adquirida coragem de viver.
Blue Jasmine tem seu figurino trabalhado em torno de conceitos como decadência, desconexão e contraste. Jasmine, após se divorciar de seu marido, tem que abrir mão de sua vida de socialite e mudar-se para a casa da irmã com todos os pertences na bagagem. Ainda assim mantém peças caríssimas: suas roupas e acessórios são de marcas como Chanel. Oscar de la Renta, Hermès, Louis Vuitton, Birkin, entre outras. Vivendo em um mundo de emoções que desmoronam ao seu redor, com toques de Um Bonde Chamado Desejo, é nas roupas que se expressa a falta de ligação entre ela e as pessoas com que passa a conviver.
Conceitualmente Ela possui o figurino mais forte do grupo, mas levando-se em conta o seu deslocamento na categoria e a força do figurino de Blue Jasmine, é difícil questionar a escolha.

Excelência em Filme de Época:
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12 Anos de Escravidão: Patricia Norris
Trapaça: Michael Wilkinson
Clube de Compras Dallas: Kurt & Bart
O Grande Gatsby: Catherine Martin
Walt nos Bastidores de Mary Poppins: Daniel Orlandi
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Essa, geralmente, é a categoria mais concorrida e a que mais chama atenção do grande público. Vou me abster de comentar o último filme listado, pois não o assisti.
Como já mencionado na coluna a seu respeito, o figurino de Trapaça explora o período (final da década de 1970), através de exageros, ao mesmo tempo em que utiliza as cores para frisar certos momentos da narrativa.
Já o trabalho desenvolvido em Clube de Compra Dallas é a respeito de tempo e local. A localização da trama na cidade de Dallas, no Texas e na década de 1980 é importantíssima para a definição das roupas dos personagens. O protagonista, Ronald, é um cowboy diagnosticado com AIDS. Os figurinistas Kurt & Bart demonstraram cuidado ao alterar ligeiramente o ajuste do vestuário do personagem para frisar sua perda de peso, por exemplo. As roupas da travesti Rayon também se destacam. Aliás, a dupla, que foi responsável pelo marcante figurino de Segredos de Sangue, criará o dos dois últimos filmes da franquia Jogos Vorazes, substituindo Trish Summerville. São mais dois nomes em ascensão que merecem ser observados em seus trabalhos futuros.
O Grande Gatsby possui roupas que foram amplamente divulgadas. A parceira da figurinista Catherine Martin com a grife Prada fez com que os trajes utilizados em cena recebessem vasta cobertura na mídia especializada em moda. Em determinados sítios Miuccia Prada foi creditada pelo figurino, mostrando total desconhecimento a respeito do papel de um figurinista. Embora Martin tenha perdido controle sobre a forma como sua obra foi percebida após estar pronta, não posso deixar de dizer que ela é problemática em alguns aspectos já na concepção. O conjunto atende às necessidades do design de produção do filme (também executado por ela), ajudando a criar a ostentação e o desvario econômico que permeiam a trama; mas peca em não conseguir transmitir a época em que ela se passa. Precisão na representação de um período jamais é pré-requisito para um bom figurino de época, mas quando o contexto desse período (nesse caso, a década de 1920, antes da crise de 1929) é tão importante para a narrativa, é interessante haver pelo menos nuances que façam lembrar a moda utilizada, o que não acontece com as roupas das personagens principais, especialmente Daisy. Apesar disso, o conjunto funciona dentro da proposta anacrônica do filme.
Em 12 Anos de Escravidão transparece o volume de trabalho realizado pela veterana Patricia Norris, de oitenta e dois anos. O filme, que começa na década de 1850, avança mais de uma década após isso e tem um grande número de figurantes e, consequentemente, de roupas criadas especificamente para ele. No começo da trama a família do protagonista, Solomon Northup, é apresentada com trajes de classe média da moda corrente, que os posicionavam favoravelmente na sociedade, já que eram pessoas negras livres em plena época de escravidão. Ao ser capturado e vendido como escravo, Solomon é rodeado por outras pessoas nessa situação terrível e aí é que mais se destaca o cuidado com as roupas: cada um veste-se de modo singular, de maneira a não ser um grupo de pessoas uniformizadas para o trabalho. Tingimento e envelhecimento dos tecidos em algodão e linho criam cores e texturas diferenciadas, condizentes com cada período retratado da jornada do personagem e seus companheiros. Enquanto as pessoas escravizadas vestem trapos desgastados, proprietários rurais e suas famílias exibem as últimas modas. O trabalho de figurino ao mesmo tempo tem uma grande escala e é minimalista, sendo sempre coerente com a narrativa e o contexto histórico.

De todos os filmes lembrados na premiação do Sindicato dos Figurinistas, três receberam indicações ao Oscar: Trapaça, O Grande Gatsby e 12 Anos de Escravidão. A eles juntaram-se o longa chinês O Grande Mestre e o britânico The Invisible Woman. O vencedor naquele prêmio foi O Grande Gatsby.

Filmes para Televisão ou Minisséries:
American Horror Story: Coven – Lou Eyrich
Minha Vida com Liberace – Ellen Mirojnick
Bonnie & Clyde – Marilyn Vance
House of Versace – Claire Nadon
Phil Spector – Debra McGuire
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A respeito de Minha Vida com Liberace, não tivessem tantos estúdios se negado a produzi-lo, até ter sido adotado pelo canal de TV a cabo HBO, certamente figuraria entre os indicados das grandes premiações de cinema, pelo menos no que diz respeito ao figurino. Retratando a relação entre Liberace e seu namorado Scott do final da década de 1970 até a de 1980, o filme se aproveita do notório apreço do pianista pelo kitsch e mostra, compostos com grande esmero e cuidado com os detalhes, cenários condizentes e um figurino deliciosamente camp. É um verdadeiro deleite para os olhos.

Séries de Televisão Contemporâneas:
Breaking Bad – Jennifer Bryan
House of Cards – Tom Broecker
Nashville – Susie DeSanto
Scandal – Lyn Paolo
Saturday Night Live – Tom Broecker, Eric Justian

HOUSE OF CARDS

Dessa lista assisti apenas duas séries: House of Cards e Breaking Bad. Considero o figurino da segunda mais interessante, especialmente pelo uso de cores. House of Cards por vezes cai em clichês, especialmente em se tratando das roupas de Claire, que ao ser retratada como mulher forte, sempre veste vestidos secos e estruturados, como armaduras.

Séries de Televisão de Época/ Fantasia:

Boardwalk Empire – John Dunn, Lisa Padovani
The Borgias– Gabriella Pescucci
Downton Abbey – Caroline McCall
Game of Thrones – Michele Clapton
Mad Men – Janie Bryant

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Aqui acompanho as três últimas séries e é inegável a beleza do trabalho realizado no drama britânico. Ainda acho que a qualidade do trabalho e dos simbolismos criados por Jane Bryant em Mad Men é sem precedentes na televisão e também considero o esforço e a escala da obra de Game of Thrones algo impressionante, mas qualquer escolha seria justa.
E quais foram os seus figurinos preferidos do último ano?

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