O Duque de Burgundy (The Duke of Burgundy, 2015)

O Duque de Burgundy nos revela que em se tratando de relações humanas, o que vemos sempre pode nos enganar. Cynthia (Sidse Babett Knudsen) é uma entomologista que se dedica ao estudo de borboletas e mariposas. Evelyn (Chiara D’Anna) chega a sua casa e recebe a ordem de limpar a sala de estudos, o chão e até lavar as suas calcinhas. O que vemos parece ser uma relação abusiva entre patroa e empregada. Até que nos é revelado que Evelyn e Cynthia moram juntas e esse role playing  faz parte de seu cotidiano enquanto casal, repetindo-se dia após dia com poucas variações. Em se tratando de BDSM, a relação das duas envolve bondage leve e disciplina, mas principalmente dominação e submissão.

Mas a dinâmica dessa relação subverte nossas expectativas. A surpresa está em descobrir que é a submissa quem comanda as ações da dominadora e roteiriza seus dias, escolhendo as roupas, as falas e os comandos dela com antecedência. Isso deixa Cynthia desconfortável, porque nem sempre são práticas ou dinâmicas que a agradam.

A forma como o filme se desenrola fornece um subtexto interessante. Existe um grande foco na vida e na morte das borboletas. As fases de seu desenvolvimento podem ser entendidas como as fases do relacionamento. Cynthia afirma que há uma espécie que se enterra no solo para sair apenas quando houver calor. Evelyn deseja ser amarrada em um compartimento dentro da cama, como um casulo, para que Cynthia durma sobre ela. Nada a faria mais feliz.

Algumas cenas envolvem seminários a respeito de borboletas. A câmera passeia calmamente pelos rostos que estão impassíveis na plateia. As mulheres estão dispostas lado a lado, tão parecidas umas com as outras e sem expressão, como as borboletadas montadas em um quadro de coleção. É como se precisássemos classificar, estudar e examinar o que vemos. Mas há manequins misturados entre elas. Eles representam aquilo que engana os olhos a um primeiro olhar. Nem tudo é o que parece ser. Isso casa com as imagens se repetem constantemente, como um baú com detalhes entalhados em madeira e um copo decorado.

O universo diegético do filme é composto por uma sociedade com um recorte específico, onde só existem mulheres. Isso não é contextualizado, mas também não há necessidade. Se houvesse a presença de um homem, toda a dinâmica dos relacionamentos mudaria, acrescentando-se uma camada de relação de gênero e de poder que não convém a essa narrativa da maneira como ela foi composta.

O som possui um grande papel: não só a trilha sonora, que casa adequadamente com as cenas, mas os barulhos de insetos, utilizados de maneira a intensificar a sensação diante das cenas. A meticulosidade na maneira em que são usados é tamanha que eles são creditados com o hora dia e local onde foram capturados (e não pude deixar de me lembrar de Upstream Color). A fotografia também é linda e as cenas são enquadradas de maneira a flertar cada vez mais intensamente com o onírico e mesmo o surrealista.

Dirigido por Peter Strickland, o filme começa com um erotismo sutil e caminha lentamente para a melancolia. A relação entre Evelyn e Cinthia cresce, muda e sai do casulo. O Duque de Burgundy não se preocupa em explicar tudo, mas com grande sensibilidade nos apresenta uma relação de dominação e submissão que mescla a rotina e o constante movimento e que descortina o afeto das duas mulheres que o protagonizam, envolvendo tudo com elementos de extrema beleza.

4estrelas

 

The Duke of Burgundy poster

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