Figurino: A Lenda

Publicado originalmente na coluna Vestindo o Filme em 06/11/2015.

O que é Luz sem Escuridão?

Ridley Scott é sempre lembrado pelos seus dois grandes filmes: Alien, o Oitavo Passageiro (1979) e Blade Runner, o Caçador de Androides (1982). Mas na esteira desses veio um filme muito menos lembrado: A Lenda (1985). Trata-se de um filme de fantasia feito em uma época em que o gênero reapareceu com força e, como outros filmes do diretor, possui diversas versões, incluindo a sua própria. A história se constrói através de arquétipos ligeiramente distorcidos, com metáforas míticas e em um mundo em que nada é preto e branco, embora possa parecer na aparência. Há um grande cuidado com a direção de arte e o figurino de  , bem como a maquiagem, indicada ao Oscar, se destacam.
A princesa Lili (Mia Sara) encarna a inocência, mas uma inocência constantemente pronta a desafiar. Seu vestido nunca chega a ser completamente branco, ressaltando isso: off-white e creme compõem suas cores no começo da história. As mangas longas e partidas, a saia reta e a amarração frontal são detalhes que o levam para uma versão fantasiosa do que seria a nossa Idade Média. Seus cetins contrastam com os trajes de algodão utilizados pelos aldeões que visita. Na casa de uma delas, tem uma visão do relógio cuco congelando com a Dona Morte para fora, numa previsão dos acontecimentos que se seguiriam.

Seu amigo Jack (Tom Cruise) é um ser da floresta, vestido com trapos verdes e rasgados. Embora a inocência de Lili é sempre reafirmada, ela instiga os sentimentos dele, desafiando-o a beijá-la, como numa brincadeira de provocação. Essa mesma brincadeira é utilizada para que Jack faça algo que sabe ser errado e mesmo proibido: levá-la para ver as criaturas mais sagradas, um casal de unicórnios que habita a floresta.

Lili desafia Jack a encontrar seu anel, adornado com um sol e uma lua, para que possa casar-se com ela. Os dois elementos são a oposição entre o dia e a noite, mas se completam, como a princesa e o garoto da floresta, mas também como a Luz e a Escuridão, como o próprio Senhor da Escuridão (Tim Curry) afirma.

Em paralelo, o Senhor da Escuridão envia seus goblins para matar os unicórnios. Lili e Jack mal sabiam que o seu contato com os animais míticos facilitou o trabalho daqueles, que conseguem acertar um dardo envenenado no unicórnio macho. Um goblin fala a respeito do unicórnio sobrevivente que este é “apenas uma fêmea, sem poder”. Mas o Senhor da Escuridão responde que ela possui o poder da criação. A partir daí o mundo cai em um grande inverno de tristeza. Nesse momento o filme funciona como uma parábola da perda da inocência. Isso já fica patente na relação entre Lili e Jack. Quando se aproxima dos unicórnios, Jack, encantado pela beleza de Lili, arranca dois lírios (lily, em inglês) que estão em sua frente, flor constantemente utilizada para simbolizar pureza e castidade. Paralelos podem ser traçado entre Adão e Eva e a expulsão do paraíso, após Eva incentivar Adão a comer do fruto da Árvore do Conhecimento; e Lili incentivando Jack a levá-la aos unicórnios e a posterior desolação desse mundo.

Lili vaga pela neve cheia de culpa e acaba por chegar ao palácio do Senhor da Escuridão, com seu vestido em frangalhos, como se muito tempo tivesse se passado.

Lili não agiu guiada pela maldade: foi a curiosidade que a levou a fazer o que fez. Sua predominante inocência atrai o vilão. Mas para conquistá-la efetivamente, precisa que ela se aproxime dele em intensões e por isso a seduz através do desejo. “Tente-a, ganhe-a, faça-a um de nós”, diz uma voz. O desejo é manifestado na Cobiça pelos objetos de seu salão, cheios de riqueza, mas culmina na Luxúria, através dança sedutora com a mulher de sombras, que a atrai e acaba por transformá-la em uma rainha vestida em ricos tecidos negros, com uma gola de dimensões exageradas, para efeito dramático e com um profundo decote até a cintura e meias arrastão. A maquiagem é escura e pesada. A maior exposição do corpo da personagem, como que manifestando a sua sexualidade, marca sua passagem para a Escuridão. O próprio Senhor da Escuridão apresenta-se com peito nu e uma longa capa.


Talvez por Lili encarnar essa inocência dual, o foco do filme tantas vezes se volte para seus olhos.

Além de Lili, o filme não poupa a outra personagem feminina que tem papel ativo na trama. Blix, a fada que auxilia Jack juntamente com os elfos, é retratada de forma a acentuar o mundo de cinzas que compõe o filme. Envolta em gazes da cor da sua pele finas como o tecido de suas asas, com seus cabelos finos eriçados, sua aparência evoca uma fragilidade que é oposta ao seu verdadeiro caráter. Ela não é estritamente boa e por causa de seu egoísmo tenta enganar o herói, iludindo-o com visões de seus desejos, para satisfazer os dela. A maneira como sua explosão de raiva é retratada com labaredas de fogo ao fundo é no mínimo sugestiva. De toda forma, por mais que a personagem demonstre suas vontades e seu egoísmo, ela é capaz de pensar em um contexto maior e abrir mão de tudo pelo bem de terceiros.

Ao final do filme, Jack literalmente aparece com uma armadura dourada, uma cota em escamas, pronto para salvar Lili, mas com as pernas desnudas como a criatura da floresta que sempre será. Mas Lili demostra ter controle sobre seus desejos e ser capaz de se posicionar contra o Senhor da Escuridão. Ela é quem salva o unicórnio, o que restaura a ordem do mundo.

É possível que a temática aparentemente infantil tenha prejudicado a recepção desse filme na época em que foi lançado. Mas de qualquer forma pode-se dizer que tecnicamente sua execução é muito boa: as maquiagens, bem como os efeitos práticos e os cenários são muito bonitos. Charles Knode, que já havia trabalhado com Ridley Scott em Blade Runner (que já foi comentado aqui), criou um figurino conciso, com poucas trocas de roupa, mas que se encaixa perfeitamente com o clima necessário para a história. A Lenda pode não ser um dos filmes consagrados de Ridley Scott, mas ainda assim é capaz de encantar.

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