42ª Mostra de São Paulo- Rosas Selvagens

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 18 e 31 de outubro na cidade. 

A narrativa de Em Rosas Selvagens (Dzikie róze, 2017) se passa em uma cidade no interior da Polônia, em que uma mulher vive com seus dois filhos em uma casa em construção que nunca parece ficar pronta. Recentemente ela saiu de um longo período no hospital, que vai se explicando com a passagem de tempo no filme. Nesse meio tempo, seus filhos ficaram aos cuidados da avó (Halina Rasiakówna) e essa não parece ter paciência para lidar com as crianças. Por isso, sua filha, Marysia (Natalia Bartnik), fica brava com ela e diz que desejava que tivesse morrido no hospital, porque tem pais péssimos. Andrzej (Michal Zurawski), o pai, trabalha no exterior e passa meses longe de casa.

Não é por acaso que a protagonista se chama Ewa (Marta Nieradkiewicz), aquela que carrega a culpa do pecado original, de ter ousado ter curiosidade e questionar. Religião, pecado, vigilância sobre o corpo e a sua expressão de sexualidade e controle social do comportamento feminino são temas centrais a esse filme. A solidão e a dificuldade de cuidar das crianças sozinha a rodeiam. Nesse meio tempo ela começou a ter um relacionamento com um jovem de sua aldeia. As pessoas comentam e julgam. Ewa se dobra diante da tristeza. A direção de arte veste a personagem em roupas largas, que parecem estar consumindo-a, a magreza realçando sua fragilidade.

O pecado original é punido sendo passado para as próximas gerações. A diretora, que também roteirizou o filme, Anna Jadowska, deixa claro que não apenas as pessoas em torno de Ewa julgam-na, como essa observância sobre a moralidade de comportamento é passado de mãe para filha, quase como que uma maldição hereditária. “Sua mãe também era uma puta”, grita uma pessoa a ela. Vó discute com neta, que grita com mãe e parece que jamais se entenderão, sob os dedos acusatórios de terceiros.

A religião tem importante papel nesse controle social exercido sob a forma de vigia. Marysia vai fazer sua primeira comunhão, de maneira relutante, e todos parecem ignorar os desejos da criança. Ela diz que tem pecados terríveis e por isso Deus vai puni-la. A culpa que corrói desde cedo é usada para colocar as mulheres no lugar que lhes é esperado. Caso haja desobediências, como, ao que tudo indica, foi o caso de sua avó e é o caso de sua mãe, a pena escolhida pela sociedade virá. O padre local a humilha e assim ela está pronta para se tornar a pária da geração seguinte.

Ewa trabalha colhendo as rosas selvagens que dão nome ao filme. Essa parece ser a atividade econômica que movimenta boa parte das mulheres da cidade. E é nesse jardim do Édem pessoal que a diretora delineia o que parece ser uma punição por seus atos. A construção do desespero é contagiante e a tensão é dolorosa. Mas o sentido de punição é revertido. O final do filme nos apresenta Ewa decidida, plena de agência e senhora de suas escolhas, pronta para enfrentar o que for preciso para seguir sua vida.

Nota: 3,5 de 5 estrelas

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