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Figurino: X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 04/06/2014.

 

Quando o primeiro filme da franquia X-Men foi lançado em 2000, tornou-se sucesso imediato e foi um dos principais responsáveis por deixar “heróis de quadrinhos” em voga e, consequentemente, pelas produções de filmes com esta temática subsequentes. A trama focada nos protagonistas mutantes cria empatia facilmente, pois claramente traça paralelos entre estes e outras minorias perseguidas em nossas próprias sociedades, com Xavier e Magneto como lideranças com posturas opostas em relação a como lidar com essa opressão.
O diretor Bryan Singer, responsável pelos dois primeiros filmes, precisava tirar das plateias a visão exagerada e ridícula dos filmes do Batman de Joel Schumacher da década de 90. Para isso, optou pelo uso de um estilo contido.
Partindo dessa proposta de fugir de uma estética cartunesca, a figurinista Louise Mingenbach criou para X-Men: O Filme e X-Men 2 um conjunto que fugia das cores utilizadas pelos mutantes nos quadrinhos: os polêmicos uniformes pretos. Embora tenham sido fortemente criticados, eles devem ser entendidos como um produto de sua época, reação aos já citados filmes do Batman e influenciados pelos sucessos de Blade (também vindo dos quadrinhos) e Matrix.

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No terceiro filme, X-Men: O Confronto Final, o diretor passou a ser Brett Ratner e com isso a equipe também foi alterada. As figurinistas passaram a ser Lisa Tomczeszyn e Judianna Makovsky (de A Princesinha). Apesar disso, trabalharam em cima dos conceitos já utilizados nos outros filmes, alterando pouco os uniformes e mantendo uma identidade visual entre os três longas.

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Apenas em X-Men: Primeira Classe, dirigido por Matthew Vaughn, com figurino de Sammy Sheldon, é que o uniforme passou a referenciar o visual clássico dos mutantes nos quadrinhos, com uso marcado de amarelo. A história acontece em 1962, de forma que esse design pode ser usado como uma versão retrô, adequada ao período, da mesma forma que acontece no flashback no início de Watchmen.

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Por fim chegamos ao quinto filme da franquia, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, que estreou nos cinemas no último dia 22 de maio e novamente conta com direção de Bryan Singer e figurino de Louise Mingenbach. Dessa vez a trama se divide entre um futuro desolado, em que mutantes estão sendo caçados e eliminados; e um passado em 1973, para onde Wolverine retorna em seu próprio corpo de então para tentar impedir que isso futuro se concretize.
Nesse futuro, os uniformes voltam a ser pretos, mas dessa vez menos justos e mais utilitários, com calças largas e botinas, além de apliques no tronco que simulam o efeito de uma armadura, garantindo mobilidade, conforto e proteção na luta pela sobrevivência.

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Mesmo Xavier (Patrick Stewart), sempre impecável paletó, abre mão de seu estilo por esse mais seguro, visto que não faria sentido buscar a elegância com o mundo acabando ao seu redor.

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No passado, com a desativação do Instituto Xavier para Jovens Superdotados, os uniformes deixaram de ser utilizados e cada personagem se veste como indivíduo autônomo. A paleta de cores, bastante fiel ao período, é dominada por tons terrosos.
Mística (Jennifer Lawrence) segue em sua jornada de auto aceitação e busca por autonomia e já se mostra totalmente à vontade em sua própria pele, sem a necessidade de roupas ou disfarces que escondam sua verdadeira natureza, a não ser que seja necessário.

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Wolverine (Hugh Jackman) é quem mais abraça a década, fazendo uso de calças justas, cinto de couro com grande fivela do mesmo material (o que é interessante, visto que Magneto não pode manipulá-la), camisa de estampa chamativa e jaqueta de couro marrom. O estilo lhe cai como uma luva.

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Fera (Nicholas Hoult) encarna o bom menino, com um estilo bastante certinho: camisas de botão ou camisetas listradas e jaqueta de veludo cotelê. Suas roupas são menos ajustadas do que as dos demais homens, com exceção da jaqueta jeans, o que causa maior contraste quando muda sua forma.

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Xavier (James McAvoy), passa por uma fase em que perdeu tudo e está emocionalmente abalado. A sua trajetória pode ser percebida através de suas roupas. No começo, desesperançoso e dependente de um soro de cura e de álcool, veste-se de acordo com a extravagância do período, como uma versão atenuada de Wolverine. Também faz uso de camisa estampada (embora menos chamativa) e jaqueta de couro, mas em um marrom mais avermelhado. Com o desenrolar da história e a retomada de sua autoconfiança, volta a utilizar o paletó que lhe é característico.

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Já a Magneto (Michael Fassbender) o que não falta é autoconfiança. Acredita na superioridade dos mutantes e por isso utiliza seus poderes da forma que for preciso para acabar com a perseguição e a opressão deles. Seu cuidado com sua imagem fica patente nas roupas muito bem cortadas e sempre com um toque de design diferenciado. Isso é perceptível na assimetria marcada em suas roupas: a falta de lapela em um dos latos de seu sobretudo e a capa com barra cortada na diagonal. Ao mesmo tempo essa assimetria reflete a sua tendência para métodos que podem ser considerados pouco convencionais ou mesmo questionáveis: ele sempre vai agir de acordo com suas próprias ideias, mesmo ao se aliar com os demais.

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Acima, à esquerda, croqui do sobretudo de Magneto, por Louise Mingenbac. À direita ele sendo usado pelo personagem.

Um personagem que merece ser mencionado é o novato Mercúrio (Evan Peters), que teve uma ótima participação. O filho não declarado de Magneto veste-se predominantemente de preto. Como seu poder é a grande velocidade, faz sentido que o corte de suas roupas pareça futurista em relação à época, de maneira que sua jaqueta prateada (além de acessórios como fone de ouvido e boné) remetem muito mais à década de 1980 que à de 1870.

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Não apenas os figurinos como toda a direção de arte exercem muito bem a função de ambientar os expectadores nas diversas linhas temporais do filme (e isso fica particularmente marcado nas duas cenas em que Wolverine acorda, com as diferenças de decoração ao seu redor e foco nas luminárias e cortinas de cada época). X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, assim como o filme anterior, Primeira Classe, consegue não só ser um bom filme de heróis de quadrinhos, como um bom filme de época, com ambientações e construções de vestuários bastante críveis dentro daquilo que é a sua proposta.

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X Men: Dias de um Futuro Esquecido (X-Men: Days of Future Past/ 2014)

Quando li a série de quadrinhos na qual se baseia X Men: Dias de um Futuro Esquecido, me peguei coçando a cabeça, intrigada. A história era fraca e infantil, tendo pouco conteúdo bom que se salvasse. Pois bem, parabéns aos envolvidos na adaptação do roteiro, pois o que se vê é uma trama coesa, que descarta muito do material de origem, mas se reconstroi de forma a se conectar adequadamente com os três primeiros filmes da franquia. Aliás, combinação dos atores deles com os do último filme, Primeira Classe, são um dos pontos fortes, visto que há muito carisma no elenco e personagens saudosos que não víamos há algum tempo.

No futuro revemos Professor Xavier (Patrick Stewart) e Magneto (Ian McKellen), que se unem para, com ajuda de Tempestade (Halle Berry), Homem de Gelo (Shawn Ashmore), Bishop (Omar Sy), Kitty Pride (Ellen Page), Wolverine ( Hugh Jackman), entre outros, tentar mudar o destino dos mutantes, que foram quase totalmente dizimados. No ano de 1973 Mística (Jennifer Lawrence) matou Bolívar Trask (Peter Dinklage), dono de uma empresa que havia criado grandes robôs, chamados Sentinelas, para caçar mutantes. Acontece que tal ato, ao invés de acabar com a perseguição a eles, levou as lideranças políticas a intensificarem-na. A ideia da equipe no futuro é utilizar os poderes de Kitty Pride de forma a permitir que Wolverine volte ao passado para impedir os acontecimentos fatídicos e apagar essa linha do tempo, com ajuda versões mais novas de Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender). (Nos quadrinhos é a própria Kitty quem viaja no tempo, mas visto que o carcamano é o mais popular dos personagens na franquia cinematográfica, tal papel foi transferido a ele).

É interessante o contraponto que é feito entre o futuro e o passado. O primeiro é marcado pela desolação e já nos é apresentado com imagens que remetem ao regime nazista, o que ajudaria a justificar as motivações de Magneto em unir-se a Xavier, visto que ele é sobrevivente dos campos de concentração. O visual remete a outras distopias totalitaristas e os mutantes utilizam roupas que estilizam armaduras. Já o passado vem com uma paleta de cores bastante apropriada, contendo marrom, abóbora, vinho e verde-musgo, além de cenários e roupas adequadas ao período. Dessa forma o filme oscila entre o real e a fantasia, incorporando até mesmo elementos como a assassinato do presidente americano John Kennedy. O realismo já é indicado quando Wolverine desperta em 1973 e as duas primeiras coisas que avista são uma cortina em tons laranjas e uma lâmpada de lava; e posteriormente, ao acordar em outro momento, se depara com uma cortina em tons neutros uma lâmpada com holograma, deixando marcada, através da mudança de elementos recorrentes, a passagem de tempo.

O Xavier de McAvoy funciona como um mocinho falho, entregue a álcool e droga, quebrado por suas perdas e sem confiança nas suas capacidades. Magneto, em contraponto, é dominado pela autoconfiança e tem certeza de seus ideais. Assim temos o que considero um dos fatores que tornam os X Men os super-heróis mais interessantes: eles representam uma minoria social e os dois personagem são lideranças que simbolizam duas abordagens no ativismo: a luta legal, integrando-se pacificamente à sociedade ou através de desobediência civil; e por outro lado as táticas de enfrentamento através de guerrilha. A beleza está no fato de que se tratam de personagens tão bem desenvolvidos, que é fácil compreende-los e aceitar suas decisões como coerentes, ainda que nem sempre aprovando-as.

Com Jennifer Lawrence, Mística ganhou uma ambiguidade e uma fragilidade que não demonstrava antes. Trata-se da personagem mais interessante dos últimos dois filmes, pois trafega sob os dois pontos de vista, dividida entre duas ideologias e dois amores.

Magneto é um homem vaidoso e seu apreço por métodos menos ortodoxos fica patente na assimetria presente em diversos de seus trajes, que utiliza como que para demonstrar seus pensamentos não convencionais. Já Xavier e Wolverine entregam-se à moda setentista (o último mais que o primeiro), com camisas estampadas e jaquetas de couro (vinho para o primeiro e marrom para o segundo). Trask simboliza sua busca pelo poder em suas gravatas largas e com estampas marcantes, dignas de um homem de negócios de presença forte. Apenas Fera (Nicholas Hoult) fugiu da moda mainstream. 

As referências presentes no filme são significativas. O X dos mutantes aparece em diversos momentos, como em reflexos de luz, formato de móveis e gravadores de fita, o que confere mais peso ao fato de vermos o que parece esse formato repetido em uma viga que esmaga Xavier em certo momento, como se o próprio peso de suas escolhas estivesse ali representado. Em outro momento Capitão Kirk aparece em uma televisão, quase como uma piscadinha em relação aos recentes encontros entre Spock antigo e novo nos filmes recentes de Star Trek e os acontecimentos semelhantes deste filme.

Com momentos de humor, ação e drama bem balanceados, o filme é eficiente em fazer uso dos mutantes que aparecem e se houvesse algo a reclamar, seria justamente a ausência ou participação pequena de alguns, pois o elenco já era bastante extenso. (Vampira e Noturno, senti falta de vocês). X Men: Dias de um Futuro Esquecido demonstra que aos catorze anos de idade a franquia ainda tem fôlego para mais e o diretor Bryan Singer talentosamente permite, com o desfecho, diversas possibilidades de continuação.

Obs: Foi bastante divertida a participação de Mercúrio, o filho não declarado de Magneto.

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Figurino: Trapaça – Exagero e Exuberância em um Retrato de Época

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 12/02/2014.

Trapaça, novo filme do diretor David O. Russel, saiu na frente em número de indicações na temporada de premiações que estamos atravessando. O figurino de Michael Wilkinson merecidamente foi lembrado nas listas tanto do Oscar quando do Sindicato dos Figurinistas, sendo neste último na categoria Filme de Época. A história de passa em um 1978 de exageros e exuberância, com forte influência da discoteca, e as roupas ajudam a construir os personagens de maneira orgânica, jamais deixando-os caricatos, embora sempre a um passo disso. Aqui todos se vestem com liberdade e os trajes masculinos se apresentam tão interessantes quanto os femininos. O período é recriado através de roupas confeccionadas exclusivamente para o filme, aliadas ao uso de peças de grandes nomes da moda da época.

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Irving Rosenfeld (Christian Bale), conforme é frisado no próprio filme, é um homem confiante, confortável sendo quem é e com um senso de estilo bastante específico. Paletós coloridos, coletes, veludo, listras, xadrez, camisas e lenços ou gravatas com estampas contrastantes: seu guarda-roupa está longe de ser minimalista, mas tudo isso tem a ver com a grande autoestima que o golpista possui.

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Richie DiMaso (Bradley Cooper) não possui o mesmo senso de estilo. Ao começo da trama, quando se apresenta como um agente do FBI, veste-se de maneira simples, usando apenas blazer sem colete, com gravata mal arrumada e botão do colarinho aberto. Ao mergulhar cada vez mais no mundo das artimanhas políticas, passa a vestir-se de forma mais elaborada, acompanhando os que estão ao seu redor e espelhando as roupas de Irving, incorporando estampas cores e peças (colete, especificamente) ao seu vestir, fato ressaltado por este em certa cena do filme. Em determinados momentos, quando ambos estão alinhados para o golpe, a paleta de cores de seus figurinos dialogam, criando afinidade entre os personagens.

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A esquerda, Richie passa a se vestir de modo similar a Irving, nessa cena em tons de marrom, verde e laranja.

O prefeito Carmine Polito (Jeremy Renner) veste-se de maneira vistosa, com uma extravagância contida, adequada ao cargo. Possivelmente é o personagem mais honesto e suas roupas são em tons claros, como cinzas, beges e azuis pálidos, demonstrando sua franqueza e até credulidade. Sua aparência, com lapelas largas e gravatas chamativas, completada pelo cabelo com topete e costeletas, pode parecer exagerada, mas condiz com o período retratado.

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É interessante frisar que a década de 1970 trouxe grande liberdade ao vestir dos homens, com possibilidades de estampas e cores, abandonadas desde o fim da Revolução Francesa. Além disso a vaidade expandia-se para acessórios, como relógios, pulseiras, colares e anéis, todos fartamente utilizados pelos três personagens citados.
Rosalyn (Jennifer Lawrence) transita entre dois mundos. Em casa, deprimida e sem motivações, veste-se de forma desleixada, com vestidos largos, moletons ou mesmo permanecendo de robe. Já quando sai com seu marido, arruma-se ao máximo. Suas roupas não chegam a ser sofisticadas e o macacão com estampa de onça que utiliza na primeira noite fora de casa mostrada no filme é uma prova. Mas certamente ela se esforça para emular um certo refinamento, chegando perto com o vestido branco utilizado no cassino, desenhado por Wilkinson, que mesmo assim tem aparência barata.

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Ao centro, Rosalyn em roupa para ficar em casa. À direita vestida para sair.

A personagem mais complexa é Sydney Prosser (Amy Adams) e isso se reflete em seu vestuário. Em um rápido flashback a vemos chegando do interior para a cidade grande, utilizando roupas simples e sem grandes atrativos: uma saia com blusa e cardigã de tricô. Ao começar a trabalhar em uma grande revista, rapidamente ganha confiança e incorpora peças mais elegantes, passando da camiseta colada e cabelo preso em um rabo de cavalo à camisa branca de botão e cabelos soltos, penteados em ondas.

Vestidos de Rosalyn e Sydney que se destacam no filme e seus respectivos croquis.

Vestidos de Rosalyn e Sydney que se destacam no filme e seus respectivos croquis.

Quando conhece Irving, passa a utilizar predominantemente vestidos-envelope (caracterizados por tecido trespassado em diagonal no colo e amarrado na lateral) e decotes bastante fundos. Os primeiros foram inventados em 1974 pela estilista Diane von Furstenberg e são a marca registrada de sua grife. Esta e a marca Halston Heritage, que se popularizou na época com roupas de desenho fluido, cederam peças de seus acervos para a produção do filme. A falta de um sutiã ou alguma peça íntima que dê segurança ou sustentação aos decotes da personagem chama a atenção. Sua liberdade em cena demostra em um primeiro momento sua força e, posteriormente, sua fragilidade.

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A princípio Sydney aparece alinhada com Irving, tanto na vida pessoal quanto na execução dos golpes. Isso se reflete em suas roupas: desde o primeiro momento em que se conhecem, em uma festa na casa de um amigo dele, ambos de branco, suas roupas possuem paletas de cores relacionadas. O primeiro momento em que a roupa de um não chama visualmente a do outro é quando Richie aparece como suposto cliente. Em um traje turquesa de Diane von Furstenberg, ela difere completamente dos tons de cinza e bordô de Irving. Esse alinhamento volta a ocorrer no momento em que Richie já está incorporado aos seus planos e estão fazendo o primeiro contato com o prefeito. Mas dessa vez são os três que parecem combinar, com detalhes em tom de marrom e bege, embora Irving ainda se afaste ao usar o terno bordô.

Sydney se afastando cromaticamente de Irving e posteriormente reaproximando-se, como elo entre este e Richie.

Sydney se afastando cromaticamente de Irving e posteriormente reaproximando-se, como elo entre este e Richie.

Todos os personagens de Trapaça vestem-se para projetar a imagem do que querem ser através da roupa. Embora utilize-se roupas criadas na época retratada, percebe-se que elas foram escolhidas a dedo para realçar o exagero pretendido na visão de David O. Russel sobre o período. Michael Wilkinson amarrou com grande destreza esse mundo de grandiosidade teatral e riqueza.

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Trapaça (American Hustle/ 2013)

Assistido em: 10/02/2014.

Quase todo ano é aquela polêmica: David O. Russel dirige um filme, este recebe trocentas indicações ao Oscar e o mundo se divide entre os que concordam e os que não concordam. A bola da vez é Trapaça, filme sobre golpistas profissionais que se passa em 1978. Com narrações em off em que cada personagem explica como foi parar onde está, a trama começa com Christian Bale (que ganhou cerca de 20 quilos para o papel) interpretando Irving Rosenfeld, um homem que ganha dinheiro de comissão por empréstimos prometidos e nunca entregues. Em uma festa na casa de um amigo, conhece Sydney Prosser (Amy Adams), que torna-se sua parceira dentro e fora dos mundos dos golpes. O que nos é revelado pouco depois é que ele é casado com Rosalyn (Jennifer Lawrence), uma mãe solteira cujo filho adotou e que permanece a maior parte do tempo deprimida em casa. Certo dia Irving e Sydney são procurados por um potencial cliente, que revela-se um agente do FBI, Richie DiMaso (Bradley Cooper). Richie oferece a eles a chance de permanecerem livres se o ajudarem a aplicar um golpe em pelo menos cinco políticos corruptos ou mafiosos visando prendê-los em flagrante, entre eles o prefeito Carmine Polito (Jeremy Renner), que supostamente aceitaria propinas. Acontece que o sistema também é falho: composta por pessoas gananciosas e ambiciosas, a Lei pode ser pior que o político corrupto. E a boa intenção e até ingenuidade de Carmine é comovente.

design de produção da película é impecável: aqui temos um mundo altamente estilizado remetendo ao período, recheado de papéis de parede espalhafatosos, decorações de gosto duvidoso e, claro, figurinos (criados por Michael Wilkinson) exagerados, que , aliados aos penteados, colocam os personagens sempre a um passo do caricatural, mas jamais chegando lá. A trilha sonora também é bastante boa e contribui com o clima das cenas.

A primeira metade do filme é bastante divertida, nos posicionando diante desse leque tão variado de personalidades. Na segunda metade a história passa a ficar truncada. O excesso de detalhes e explicações, bem como a maneira como a ação se desenrola, aos tropeços, prejudicam o ritmo e tornam-no cansativo.

As atuações são um forte do filme. O destaque, sem dúvida, fica por conta de Amy Adams, que transita entre a auto-confiança e a fragilidade de sua personagem de forma linda. Muitos comentaram sobre a pouca idade de Lawrence para o seu papel, mas não concordo com isso: faz todo sentido que uma mulher jovem aceite um casamento praticamente sem amor, visando proteger seu filho. Bale e Renner também estão ótimos.

Trapaça está longe de ser um filme fantástico: trata-se de um mediano, com algumas interpretações competentes e um design de produção em que os envolvidos visivelmente se divertiram trabalhando (com ótimos resultados). Mas para melhor filme de 2013, passa longe.

Para ler uma análise mais detalhada do figurino desse filme, acesse aqui.

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Figurino: Jogos Vorazes- Em Chamas: moda e ambiguidade na Capital

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 20/11/2013.

Chegou às telonas Jogos Vorazes: Em Chamas, segundo filme adaptado da série de livros distópico-futuristas de Suzanne Collins. Entre o primeiro e este, muitas mudanças ocorreram: o orçamento quase dobrou, de 78 para 140 milhões de dólares (o que transparece no resultado final); trocou-se o diretor (de Gary Ross para Francis Lawrence) e com ele parte da equipe técnica, incluindo a figurinista, que era Judianna Makovsky (de A Princesinha) e passou a ser Trish Summerville, nome em ascensão após Millenium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres.

Summerville possui um método de trabalho que é pouco apreciado por outros figurinistas: busca parcerias com estilistas e coordena seus trabalhos. Geralmente quando isso ocorre, o nome do estilista sobressai-se ao do figurinista (como Miuccia Prada em O Grande Gatsby) ou há polêmicas em relação à autoria (como ocorreu em O Cisne Negro). (links para ambas as colunas) Ela orquestra os envolvidos e suas estéticas de uma maneira que o que sobressai ao final ainda é sua visão e o que fica gravado é o seu nome. Sabe se beneficiar como ninguém dessa prática mercadológica de explorar o mundo da moda no cinema. Em Jogos Vorazes: Em Chamas, aproveitou o universo criado por Makovsky e avançou, ampliando a escala.
Nos distritos, predominam materiais naturais, como linho, algodão e couro, em cores esmaecidas e tons de cinza e bege. A modelagem continua remetendo às décadas de 1930 e 1940, em uma clara alusão aos regimes totalitaristas que dominavam a Europa nesse período. A vida ali não é fácil e as roupas devem ser práticas, visando as atividades cotidianas.
O uniforme dos guardas pacificadores passou por pequenas alterações. Mantém-se a alvura (que contrasta com as roupas dos habitantes dos distritos), mas a bota passa a ser também branca e acrescenta-se uma placa peitoral e uma nas costas com textura de esqueleto, além de joelheiras, aumentando a organicidade do conjunto.

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Enquanto está em casa, Katniss (Jennifer Lawrence) continua usando a jaqueta de couro do primeiro filme, mas sobre ela é acrescentada uma espécie de cachecol-colete, executado pela designer de tricô Maria Dora. A peça tem um formato interessante, deixando clara a influência da Capital, ao mesmo tempo em que é confeccionada em lã (fibra natural, do distrito), e tem aparência de feita em casa.

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Ao longo da Turnê dos Vitoriosos Katniss utiliza outras peças de lã, bem como outras roupas que seguem o mesmo conceito: minimalistas, como as do distrito, mas com detalhes que despertem o interesse, remetendo à Capital. Seu estilo de se vestir amadureceu. Afinal, após ter vencido a 74ª edição dos Jogos Vorazes, ela não só não é mais a mesma garota do ano anterior, como passa a ser uma pessoa pública, de interesse coletivo e apelo televisivo.

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Um exemplo é o macacão azul-marinho com cinto marrom utilizado no dia do sorteio: ele quase parece uma roupa de trabalho, mas o corte ajustado confere-lhe elegância e demonstra haver design por trás de sua criação.
Peeta (Josh Hutcherson) também começa a usar roupas mais maduras: Summeville o veste em camadas e utiliza muitas jaquetas de maneira a destacar seu porte físico. Seu terno de casamento, feito pelo estilista coreano Juunj, tem corte estruturado, arquitetural: a lapela fendida gera tridimensionalidade à roupa. O toque futurista é acentuado pelo colarinho da camisa, seus punhos e o lenço, substituídos por versões metálicas.

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Para a festa antes dos jogos, o vestido preto com detalhes vermelhos de Katniss aproveita de forma pouco sutil seu apelido de “garota em chamas”.

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O mesmo ocorre com o vestido de casamento, utilizado na transmissão televisiva. Volumoso e com muitas camadas, ele possui uma trama metálica próxima ao ombro em forma de chama, ao mesmo tempo em que tem adornos feitos com penas, lembrando o papel de Katniss como o tordo, símbolo da revolução que ocorre nos distritos. O traje foi desenhado e confeccionado por Tex Saverio, estilista indonésio. Quando Katniss rodopia, o vestido é consumido pelas chamas, transformando-se em outro, negro e com asas. Dessa forma o papel duplo (e dúbio) da personagem é frisado: o povo da Capital a vê como entretenimento: a garota em chamas da televisão; mas sob o espetáculo, esconde-se o símbolo da esperança e da revolução nos distritos.

Croqui do vestido de casamento por Tex Saverio

Croqui do vestido de casamento por Tex Saverio

Entre os novos personagens, dois se destacam. Finnick Odair (Sam Claflin) e Johanna Manson (Jenna Malone). Finnick é do Distrito 4, responsável pela pesca, e por isso, para sua apresentação, usa uma saia de tricô dourado, para lembrar uma rede de pesca, acompanhada de um cinto e, como acessório, um colar de conchas. Já Johanna, do distrito 7, responsável pela produção de lenha e madeira, veste um longo vestido marrom, com lascas de tronco de árvore subindo pelo seu pescoço, criando uma aparência de desconforto.

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A personagem com guarda-roupa mais variado e interessante não poderia ser outra: Effie Trinket. No primeiro filme da série, Joadianna Makovsky teve como inspiração para a moda da capital a obra da estilista Elsa Schiaparelli, marcada pelo surrealismo. Agora, Summerville tem uma inspiração mais próxima de nossos tempos: a marca Alexander McQueen, conhecida pelos excessos em sua estética e que atualmente tem suas coleções criadas por Sarah Burton.

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A inspiração é patente no vestido de casamento de Katniss, mas literal no vestuário de Effie: Seus vestidos são todos retirados de coleções recentes da marca. Não deixa de ser uma escolha interessante, porque o povo da capital vive para o espetáculo e isso coloca a alta-costura como símbolo dessa futilidade.

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Ao mesmo tempo, Effie representa nós mesmos, a plateia sedenta por entretenimento e coisas bonitas aos olhos, por vezes sem perceber as implicações políticas disso. Para Effie, a primavera já chegou (por isso as borboletas monarcas em seu vestido) e não parece se dar conta de que o povo fora da Capital vive um longo inverno de fome, opressão e medo.

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Ao fazer uso de roupas de grife para compor o figurino, e levando-se em conta a temática do filme, Trish Summerville fez uma crítica (talvez inconsciente) às próprias indústrias da moda e do entretenimento. Demonstra talento ao unir trabalhos tão diversos e manter a unidade da proposta visual. Jogos Vorazes: Em Chamas evoluiu muito os conceitos utilizados no primeiro filme e apresenta-se como um produto melhor acabado. E nós, como o povo da Capital, o assistimos, sedentos por ver o desfile de belos trajes utilizados em cena, enquanto em algum lugar dos distritos, faz-se a revolução.

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