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Melhores filmes de 2017

Primeiramente devo dizer que falhei miseravelmente em fazer uma lista de melhores esse ano. Primeiro porque minha repescagem de dezembro foi pro espaço, mais por preguiça do que por qualquer outra razão: quando acabei meus compromissos principais, estava tão cansada que não quis fazer nada remotamente parecido com trabalho. Depois, eu tive um punhadinho de filmes que amei, mais um tanto que eu gostei bem. Só que esses segundo são muitos e não os destaco o suficiente para fazer questão de incluí-los ou retirá-los. Enfim, em meio a essa bagunça, já tive entre 23 e 32 filmes listados (quando geralmente são apenas 20). Optei por deixar desse jeito mesmo. Digamos que talvez eu tenha um top 5 e aí uma lista de menções honrosas com um apanhado de alguns filmes do Oscar, outros mais instigantes, uns feel good bacanas e uns divertidos que talvez sejam esquecíveis. Não estou bem certa nem da ordem em que os filmes estão dispostos (e sinceramente não vou me incomodar com isso). Fecho o ano 263 filmes assistidos (o menor número nos últimos cinco anos) dos quais 106 são lançamentos (o maior número da vida, talvez?). Levei em conta tanto filmes que passaram no cinema quanto os que chegaram diretamente em homevideo e VoD. Colo junto como os escolhidos a avaliação que dei quando assisti, de zero até cinco estrelas. Filmes sobre os quais escrevi ou gravei podcast a respeito tem link para o texto no título. Para ver a lista com todos os filmes lançados esse que eu vi, clique aqui. Para ver essa lista no Letterboxd, acesse aqui.

A Criada (The Handmaiden, 2016)

Direção: Chan-Wook Park

★★★★★

Grave (Raw, 2016)

Direção: Julia Ducournau

★★★★★

Era o Hotel Cambridge (2017)

Direção: Eliane Caffé

★★★★½

A Qualquer Custo (Hell or High Water, 2016)

Direção: David Mackenzie

★★★★½

Paterson (2016)

Direção: Jim Jarmusch

★★★★½

Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017)

Direção: Patty Jenkins

★★★★½

Mãe! (Mother!, 2017)

Direção: Darren Aronofsky

★★★★

As Duas Irenes (2017)

Direção: Fabio Meira

★★★★

A Cidade Onde Envelheço (2016)

Direção: Marília Rocha

★★★★

Mulheres Divinas (The Divine Order, 2017)

Direção: Petra Volpe

★★★★

Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas (Professor Marston and the Wonder Women, 2017)

Direção: Angela Robinson

★★★★

Loving (2016)

Direção: Jeff Nichols

★★★★

Z: A Cidade Perdida (Lost City of Z, 2017)

Direção: James Gray

★★★★

Colossal (2016)

Direção: Nacho Vigalondo

★★★★

O Ornitólogo (2016)

Direção: João Pedro Rodrigues

★★★★

Personal Shopper (2016)

Direção: Olivier Assayas

★★★★

Moonlight: Sob a luz do luar (Moonlight, 2016) 

Direção: Barry Jenkins

★★★★

La La Land: Cantando estações (La La Land, 2016)

Direção Damien Chazelle

★★★★

Corra! (Get Out, 2017)

Direção: Jordan Peele

★★★★

O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled, 2017)

Direção: Sofia Coppola

★★★★

Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2016)

Direção: Theodori Melfi

★★★★

Dunkirk (2017)

Direção: Christopher Nolan

★★★★½

A Guerra dos Sexos (Battle of the Sexes, 2017)

Direção: Valerie Faris, Jonathan Dayton

★★★★

Mulheres do Século 20 (20 Century Women, 2016)

Direção: Mike Mills

★★★★

Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake, 2016)

Direção: Ken Loach

★★★★

Sete Minutos Depois da Meia-Noite (A Monster Calls, 2016)

Direção: J.A. Bayona

★★★★

Okja (2017)

Direção: Bong Joon Ho

★★★★

 

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Figurino: Amantes Eternos- a invenção de um oriente exótico

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 08/05/2015.

Quem não sonhou a terra do Levante?
As noites do Oriente, o mar, as brisas,
Toda aquela sua natureza
Que amorosa suspira e encanta os olhos?
(Trecho do poema O Cônego Filipe, de Álvares de Azevedo)

A citação inicial dessa análise não vem por acaso. Poeta romântico, Álvares de Azevedo segue os preceitos da escola literária, entre eles a exaltação da natureza, a visão trágica do mundo e a idealização do assim chamado Oriente. Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton), os protagonistas de Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, 2013) são, cada um à sua maneira, românticos incorrigíveis. Dirigido por Jim Jarmusch, o filme conta com figurino de Bina Daigeler.
Adam e Eve, como os próprios nomes já indicam, são amantes há séculos, talvez mesmo desde o princípio dos tempos, e são opostos que se completam. Geograficamente isolados, ele mora em Detroit, nos Estados Unidos, e ela em Tânger, no Marrocos. As cidades não poderiam ser mais emblemáticas para a definição dos personagens: enquanto ela, otimista, é rodeada por cores e texturas de um Oriente ideal, ele, já desiludido com a humanidade, a quem chama de zumbis, mora em uma cidade-fantasma, fruto de uma política fracassada de industrialização.
Embora fale com desprezo sobre Byron e Shelley, dois dos mais influentes poetas do romantismo anglófono, Eve talvez seja a mais tradicionalmente romântica dos dois. Rodeada por seus livros, sua cama é adornada por tecidos vistosos. Em casa, veste túnicas e trajes bordados que remetem ao Orientalismo que marcou fortemente a literatura e as artes em geral no século 19. A pintura europeia desse estilo retratou vivências, roupas e arquiteturas de lugares distantes. As cores e os padrões de estampa se refletem no viver de Eve.

Um oriental de turbante, pintura sem data de Gabriel Morcillo.

Um oriental de turbante, pintura sem data de Gabriel Morcillo.

 

A grande odalisca (1814), quadro de Jean-Auguste-Dominique Ingres.

A grande odalisca (1814), quadro de Jean-Auguste-Dominique Ingres.

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Nessa época, o Oriente era tudo aquilo que era oposto aos padrões europeus: do norte da África ao Leste asiático, passando pela Ásia Menor. Tânger certamente se encaixa nesse critério. E se Oriente era um lugar imaginário, inventado e exotizado pelo olhar ocidental, não deixa de ser curioso que pelas ruas da cidade ninguém se veste como Eve: seu figurino faz parte da forma como enxerga o mundo, e não de como o mundo realmente é. Na rua, o que veste são roupas minimalistas, de cor clara, mas cobrindo a cabeça e o rosto com um bonito lenço decorado com arabescos, ainda ligando-a ao seu lugar.

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Adam, por sua vez, é um apaixonado por música e coleciona instrumentos antigos e raros. Pessimista e melancólico, se recorda de todos os artistas e pensadores do passado com quem conviveu e pragueja contra essa humanidade que conseguiu contaminar tudo, até mesmo sua água e seu sangue. Mas se o pessimismo é romântico, também está presente no rock gótico: há um quê de Robert Smith, da banda The Cure, em seu visual. Veste roupões surrados e puídos de tempos passados. Eve chega mesmo a avisá-lo que um deles tem mais de 200 anos. Sua casa é escura e cheia de objetos jogados pelos cantos: não há nenhuma preocupação com a beleza. Na rua, usa roupas também minimalistas. Todas são em tons escuros de marrom, vinho e preto.

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Ambos precisam de sangue e este está cada vez mais difícil de encontrar. Sua experiência prazerosa de beber pequenas doses, apenas o mínimo necessário, se reflete na expressão facial de entrega, como se um vício estivesse sendo saciado. Eve o consegue em uma sacola de farmácia e Adam se disfarça de médico para comprar em um hospital. O sangue é seu ópio: a droga consumida pelos escritores românticos e que era facilmente encontrada em estabelecimentos médicos.

Gravura intitulada O vendedor de ópio, de autor e data desconhecidos.

Gravura intitulada O vendedor de ópio, de autor e data desconhecidos.

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Quando Eve visita Adam em Detroit, passa a vestir seus roupões para ficar em casa e na rua, troca sua bata branca por outra em um tom de vinho, que vai utilizar até o final do filme. É como se ampliasse a relação com Adam externando o reencontro através da roupa. É nessa visita que fica clara sua grande apreciação pela vida e pela natureza, manifestada, também, em uma crítica a ele: “Essa auto-obsessão é um desperdício de vida. Poderia ser gasta salvando coisas, apreciando a natureza, cultivando bondade e amizade, e dançando. Você tem sido bastante sortudo no amor, porém, se posso assim dizer”.

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Um elemento externo aos dois, que traz mudança de ares na relação, é Ava (Mia Wasikowska), irmã de Eve. Com comportamento de uma adolescente inconsequente, ela zomba dos hábitos antigos do casal, como o gesto delicado com que Eve pede a Adam que retire suas luvas. Mas apesar disso ela mesma não se veste da maneira mais contemporânea possível. Seus trajes são de adolescente, mas de uma adolescência que ocorreu em algum ponto da década de 1960, com vestido de bolinha, estampa floral colorida, sapato de boneca, meia estampada. O efeito pode até parecer moderno aos nossos olhos, mas isso em virtude da constante reciclagem desses elementos na moda atual, não deixando de entregar a vivência passada da personagem.

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Sobre as diferenças entre o casal de protagonistas, Adam não é aberto a novas tecnologias: ainda conversa com Eve através de um telefone antigo e uma televisão de tubo, enquanto ela utiliza um smartphone. Ele usa uma mala antiga de couro e ela uma moderna de alumínio.

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A oposição entre a forma de encarar a vida dos dois aparece já no começo do filme, quando a câmera para em cada um e ambos estão enquadrados em uma inclinação de 45 graus, mas cada um para um lado oposto.

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Além disso, outros elementos visuais frisam suas diferenças, afirmadas na dicotomia entre o claro e o escuro de suas roupas. Elas são destacadas, também, em acessórios, como as luvas (que ele veste pretas e ela, brancas) e os pingentes que carregam: ele usa um colar com uma caveira branca (cor dela) e ela, por sua vez, usa a mesma caveira em preto (cor dele) presa em uma pulseira. Mesmo em uma partida de xadrez, Eve utiliza as peças brancas e Adam, as pretas.

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Apesar de tudo que foi citado, o que eles possuem é a imensa compreensão um do outro, manifestada através dos tempos em uma conexão sem limites, que fez com que se casassem diversas vezes e que faz com que, mesmo após algum tempo distantes, acabem por se reencontrar. A intimidade é expressa através não só dos diálogos, que demonstram um grande conhecimento mútuo, como de seus corpos, retratados como um contínuo que sempre busca o contato e o entrelaçamento.

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Se o universo é infinito, assim é a relação de Eve e Adam. Conversando sobre uma teoria de Einstein, ele menciona que “Quando você separa uma partícula entrelaçada e move ambas as partes para longe uma da outra, mesmo em extremos opostos do universo, se você altera ou afeta uma, a outra será identicamente alterada ou afetada”. E tal acontece com os dois. Por serem essas partículas universais é que o filme os retrata constantemente vistos de cima, girando, como as estrelas fazem nos créditos de abertura.

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Adam e Eve são vampiros, embora tal palavra jamais seja mencionada no filme. Mas mais que isso, são arquétipos de maneiras de enxergar o mundo: o preto e o branco; o pessimismo e o otimismo. São um yin e um yang que se entendem e se completam na eternidade dos tempos. São o casal primordial. A direção de arte do filme, bem como o figurino de Bina Daigeler, retrata de maneira competente o orientalismo que inspira Eve e a decadência que rodeia Adam. Adam e Eve superam qualquer divergência e se tornam unos, ainda que se mantendo individualidades, atravessando o tempo e o espaço como amantes eternos.

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Amantes Eternos (Only Lover Left Alive, 2013)

Amantes Eternos, de Jim Jarmusch, é um filme de ambientes e personagens, de uma simplicidade complexa e hipnótica. Eve (Tilda Swinton) e Adam (Tom Hiddleston) são dois amantes separados pelo espaço: ela mora em Tanger (Marrocos) e ele em Detroit. As sequências inicias já deixam claro a poética e beleza do filme: o universo gira e eles giram após beberem um pequeno cálice de sangue cada. A palavra “vampiro” jamais é mencionada no filme, mas sua natureza é logo deixada clara. Quando Eve sai de casa, vestindo um traje claro e com um véu cobrindo-lhe parcialmente os cabelos e o rosto, demonstra confiança em si e em seu estilo que só uma criatura centenária poderia ter. Eve é leitora voraz e dona de uma visão sobre a vida que pode-se dizer que seja preenchida de leveza. Já Adam é um melancólico desiludido, sempre vestido de preto, colecionando instrumentos musicais belos e raros. Como muitos casais, eles são opostos e em suas diferenças se amam e se completam. Já se casaram muitas vezes e eventualmente voltam a ficar juntos, comentando sobre as pessoas que conheceram em tempos passados.

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Tilda Swinton e Tom Hiddleston brilham em seus respectivos papéis e a química entre os dois personagens é patente. Apesar do contexto, o resultado é extremamente romântico. O elenco do filme é bastante enxuto, mas os coadjuvantes todos entregam belas atuações: John Hurt como o poeta Marlowe; Anton Yelchin como Ian, fornecedor de instrumentos musicais; Jeffrey Wright como o médico Dr. Watson e Mia Wasikowska como a irmã de Eve, Ava. Ava é um contraponto interessante para o relacionamento dos dois protagonistas. Não se estabelecesse há quanto tempo ela tornou-se vampira, mas seu comportamento é de adolescente inconsequente, irritando Adam e sendo protegida por Eve. Por mais antigos que eles possam ser (e isso nunca se estabelece de maneira certa no filme) são seres falhos e multifacetados.

Se eu vivesse centenas de anos também vestiria túnicas marroquinas e me cercaria de livros sem fim...

Se eu vivesse centenas de anos também vestiria túnicas marroquinas e me me cercaria de livros sem fim…

A trilha sonora cria um clima bastante adequado para as cenas e a direção de arte, bastante inspirada por elementos marroquinos, é linda. Cenários e figurinos transmitem uma beleza sem exageros, como que polida através da passagem do tempo.

O ritmo do filme é lento como deve ser. As imagens devem ser apreciadas com gosto e algumas pessoas podem dizer que não há história, mas a realidade é que o que vemos é apenas uma fração de uma vivência que pode ser milenar. Uma bela e poética fração.

 

Para ler a análise completa do figurino do filme, acesse aqui.

kinopoisk.ru

 

 

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