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Figurino: X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 04/06/2014.

 

Quando o primeiro filme da franquia X-Men foi lançado em 2000, tornou-se sucesso imediato e foi um dos principais responsáveis por deixar “heróis de quadrinhos” em voga e, consequentemente, pelas produções de filmes com esta temática subsequentes. A trama focada nos protagonistas mutantes cria empatia facilmente, pois claramente traça paralelos entre estes e outras minorias perseguidas em nossas próprias sociedades, com Xavier e Magneto como lideranças com posturas opostas em relação a como lidar com essa opressão.
O diretor Bryan Singer, responsável pelos dois primeiros filmes, precisava tirar das plateias a visão exagerada e ridícula dos filmes do Batman de Joel Schumacher da década de 90. Para isso, optou pelo uso de um estilo contido.
Partindo dessa proposta de fugir de uma estética cartunesca, a figurinista Louise Mingenbach criou para X-Men: O Filme e X-Men 2 um conjunto que fugia das cores utilizadas pelos mutantes nos quadrinhos: os polêmicos uniformes pretos. Embora tenham sido fortemente criticados, eles devem ser entendidos como um produto de sua época, reação aos já citados filmes do Batman e influenciados pelos sucessos de Blade (também vindo dos quadrinhos) e Matrix.

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No terceiro filme, X-Men: O Confronto Final, o diretor passou a ser Brett Ratner e com isso a equipe também foi alterada. As figurinistas passaram a ser Lisa Tomczeszyn e Judianna Makovsky (de A Princesinha). Apesar disso, trabalharam em cima dos conceitos já utilizados nos outros filmes, alterando pouco os uniformes e mantendo uma identidade visual entre os três longas.

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Apenas em X-Men: Primeira Classe, dirigido por Matthew Vaughn, com figurino de Sammy Sheldon, é que o uniforme passou a referenciar o visual clássico dos mutantes nos quadrinhos, com uso marcado de amarelo. A história acontece em 1962, de forma que esse design pode ser usado como uma versão retrô, adequada ao período, da mesma forma que acontece no flashback no início de Watchmen.

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Por fim chegamos ao quinto filme da franquia, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, que estreou nos cinemas no último dia 22 de maio e novamente conta com direção de Bryan Singer e figurino de Louise Mingenbach. Dessa vez a trama se divide entre um futuro desolado, em que mutantes estão sendo caçados e eliminados; e um passado em 1973, para onde Wolverine retorna em seu próprio corpo de então para tentar impedir que isso futuro se concretize.
Nesse futuro, os uniformes voltam a ser pretos, mas dessa vez menos justos e mais utilitários, com calças largas e botinas, além de apliques no tronco que simulam o efeito de uma armadura, garantindo mobilidade, conforto e proteção na luta pela sobrevivência.

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Mesmo Xavier (Patrick Stewart), sempre impecável paletó, abre mão de seu estilo por esse mais seguro, visto que não faria sentido buscar a elegância com o mundo acabando ao seu redor.

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No passado, com a desativação do Instituto Xavier para Jovens Superdotados, os uniformes deixaram de ser utilizados e cada personagem se veste como indivíduo autônomo. A paleta de cores, bastante fiel ao período, é dominada por tons terrosos.
Mística (Jennifer Lawrence) segue em sua jornada de auto aceitação e busca por autonomia e já se mostra totalmente à vontade em sua própria pele, sem a necessidade de roupas ou disfarces que escondam sua verdadeira natureza, a não ser que seja necessário.

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Wolverine (Hugh Jackman) é quem mais abraça a década, fazendo uso de calças justas, cinto de couro com grande fivela do mesmo material (o que é interessante, visto que Magneto não pode manipulá-la), camisa de estampa chamativa e jaqueta de couro marrom. O estilo lhe cai como uma luva.

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Fera (Nicholas Hoult) encarna o bom menino, com um estilo bastante certinho: camisas de botão ou camisetas listradas e jaqueta de veludo cotelê. Suas roupas são menos ajustadas do que as dos demais homens, com exceção da jaqueta jeans, o que causa maior contraste quando muda sua forma.

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Xavier (James McAvoy), passa por uma fase em que perdeu tudo e está emocionalmente abalado. A sua trajetória pode ser percebida através de suas roupas. No começo, desesperançoso e dependente de um soro de cura e de álcool, veste-se de acordo com a extravagância do período, como uma versão atenuada de Wolverine. Também faz uso de camisa estampada (embora menos chamativa) e jaqueta de couro, mas em um marrom mais avermelhado. Com o desenrolar da história e a retomada de sua autoconfiança, volta a utilizar o paletó que lhe é característico.

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Já a Magneto (Michael Fassbender) o que não falta é autoconfiança. Acredita na superioridade dos mutantes e por isso utiliza seus poderes da forma que for preciso para acabar com a perseguição e a opressão deles. Seu cuidado com sua imagem fica patente nas roupas muito bem cortadas e sempre com um toque de design diferenciado. Isso é perceptível na assimetria marcada em suas roupas: a falta de lapela em um dos latos de seu sobretudo e a capa com barra cortada na diagonal. Ao mesmo tempo essa assimetria reflete a sua tendência para métodos que podem ser considerados pouco convencionais ou mesmo questionáveis: ele sempre vai agir de acordo com suas próprias ideias, mesmo ao se aliar com os demais.

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Acima, à esquerda, croqui do sobretudo de Magneto, por Louise Mingenbac. À direita ele sendo usado pelo personagem.

Um personagem que merece ser mencionado é o novato Mercúrio (Evan Peters), que teve uma ótima participação. O filho não declarado de Magneto veste-se predominantemente de preto. Como seu poder é a grande velocidade, faz sentido que o corte de suas roupas pareça futurista em relação à época, de maneira que sua jaqueta prateada (além de acessórios como fone de ouvido e boné) remetem muito mais à década de 1980 que à de 1870.

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Não apenas os figurinos como toda a direção de arte exercem muito bem a função de ambientar os expectadores nas diversas linhas temporais do filme (e isso fica particularmente marcado nas duas cenas em que Wolverine acorda, com as diferenças de decoração ao seu redor e foco nas luminárias e cortinas de cada época). X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, assim como o filme anterior, Primeira Classe, consegue não só ser um bom filme de heróis de quadrinhos, como um bom filme de época, com ambientações e construções de vestuários bastante críveis dentro daquilo que é a sua proposta.

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Figurino: New Look, Cinema e Mudanças na Sociedade

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 04/12/2013.

A década de 1950 geralmente é vista como um período de glamour, em que as pessoas se vestiam com extrema elegância. O que essa interpretação esconde é que as sociedades ocidentais nessa época viviam uma série de opressões, que raramente são lembradas pelos saudosistas. Apenas um grupo diminuto de pessoas podiam desfrutar de uma vida plena.
A roupa feminina do período é marcada pelo chamado New Look, criado por Christian Dior em 1947. A silhueta, criada em Paris, era caracterizada por cintura marcada e saia volumosa, conotando padrões tradicionais de feminilidade. Com o fim da Segunda Guerra Mundial a moda propagou-se para outros países, coincidindo com a época em que as mulheres de classe média, que haviam trabalhado nesse período, retornaram ao interior dos lares como donas de casa. (Para as mulheres de classes populares, não trabalhar fora jamais foi uma opção). Com o término do racionamento de tecidos, as saias passaram a ganhar mais volume. Essa silhueta, juntamente com outras (como a saia lápis) marca a década de 50. Ela vai gradativamente ser substituída por uma forma mais trapezoidal, mas se perpetua até quase meados da década de 60.

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À esquerda, primeiro exemplar do New Look de Dior, em 1947. Ao centro e direita, vestidos Dior de 1958.

Diversas produções cinematográficas se passam nessa era, mas com interpretações diferentes sobre a realidade de então. Compararei aqui três produções que retratam a época, com suas respectivas visões do momento.

A Datilógrafa é um filme visualmente encantador de 2012, dirigido por Régis Roinsard e com Charlotte David como figurinista. Passa-se em 1958 e a protagonista é Rose (Déborah François), uma garota que deseja sair de sua cidade do interior da França. O meio que encontra é ser secretária, mas ela é extremamente desastrada para a função. Seu chefe, Louis (Romain Duris), percebe sua habilidade na datilografia e resolve inscrevê-la em um concurso. Quando faz a entrevista de emprego, Rose utiliza um vestido branco e florido, campestre, indicador do lugar de onde vem, em contraste com as demais candidatas em trajes urbanos.

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Rose não exatamente aspira ser secretária, apenas vê a profissão como uma chance de escapar do interior. Ao obter o emprego, passa a usar tons predominante cinzas. As cores neutras mostram que sua alma não está nas tarefas realizadas e ao mesmo tempo a ligam ao figurino de seu patrão. Mesmo nos concursos de datilografia, ela não tem a ambição de ser a melhor: sente-se satisfeita com o que conquistou. É Louis quem faz questão de que tenha seu melhor desempenho.

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Quando ganha o campeonato nacional, Rose passa a encarnar seu nome como marca e a usar o rosa como cor predominante. A peça publicitária que grava para uma máquina de escrever nessa cor faz lembrar a sequência musical “Think Pink”, do filme Cinderela em Paris. A feminilidade tradicional é utilizada como elemento atrativo para o produto.

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Ao final do filme, Rose conquista o campeonato mundial de datilografia, mas o feito é anunciado no momento em que Louis a beija, de maneira que o afeto dele ganha mais importância que sua vitória. Vestida completamente de rosa, Rose encarna o amor e estereótipo do feminino. O filme retrata com pretensa leveza um período em que mulheres como Rose dificilmente teriam autonomia e carreira e em que apanhavam (como aconteceu com ela) por já possuírem experiência sexual. Mostra que para ela o amor de Louis sempre importou mais que sua própria realização pessoal. É uma visão que traz de volta como positivos e românticos valores que na verdade eram opressores.

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Em A Vida Em Preto e Branco, filme de 1998 dirigido por Gary Ross e com figurino de Judianna Makovsky, David (Tobey Maguire) e Jennifer (Reese Witherspoon) são transportados através de um controle remoto de televisão para dentro de um seriado familiar de 1958, que se passa em uma pacata cidadezinha chamada Pleasantville. David parece ter dificuldade de se relacionar com os jovens de sua própria época e o programa, de que é fã, funciona como um escapismo, um lugar que lhe apresenta pessoas e papéis seguros.

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As mulheres aqui se vestem com estilo esporte americano, com vestidos rodados, pérolas e estampas florais. As adolescentes utilizam cardigãs e pulôveres com saias também rodadas e sapatilhas ou sapatos oxford com meias. Mas há um detalhe: tudo na cidade é em preto e branco.

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As interferências que a presença dos dois irmãos provocam na trama, mesmo que sem querer, passam a alterar o próprio tecido da realidade do local. Amor, sexo, pintura, literatura, enfim, tudo o que desperta fortes emoções no ser humano é trazido a tona e com isso, aparecem as cores. Primeiro acontece com alguns elementos isolados, mas, aos poucos, pessoas vão se tornando inteiras coloridas, em tons technicolor. Padronagens emergem. Vestidos mostram-se vistosos. Esposas já não esperam seus maridos com jantar em casa e passam a questionar a obrigação das atividades domésticas.

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A cidade se divide entre os valores tradicionais, das pessoas que se mantiveram em preto e branco, e aqueles que experimentaram um mundo de sentimentos fora do planejamento. Cartazes contra a entrada das “pessoas de cor” são colocados em estabelecimentos comerciais, em clara referência à segregação racial legalizada que acontecia nos Estados Unidos na época. Os trajes coloridos marcam a despertar das emoções.

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A sequência do julgamento em que as pessoas coloridas ficam isoladas no balcão da corte é uma clara referência ao filme O Sol É Para Todos. David e, posteriormente, os demais habitantes da cidade, entendem que as mudanças são naturais e bem-vindas e as cores passam a fazer parte de tudo. No filme, a vida sexual pretérita de Jennifer é, de certa forma, julgada ao final. Mas por outro lado a questão do racismo é abordada através de metáforas, ainda que tangencialmente, e a liberação da mulher é posta através do questionamento de seus papéis tradicionais de gênero, e exemplificada na ação da dona de casa bem posicionada na comunidade que deixa seu marido em busca de amor, contra todas as críticas. O passado não é visto através de lentes cor-de-rosa, e alguma crítica, ainda que moderada, é feita ao saudosismo.

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Hairspray, musical adaptado da peça homônima, dirigido por Adam Shankman e com figurino de Rita Ryack, se passa na Baltimore de 1962, quatro anos após os outros dois filmes. A moda apresentada no filme ainda remeta à década de 1950, mas é mais colorida e teatral, predominando vestidos bastante armados e com padronagens marcantes entre as adolescentes urbanas. Novamente é frisada a feminilidade tradicional, através das cores, modelagens e acessórios das meninas.

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A protagonista é Tracy Turnblad (Nikki Blonsky), uma garota gordinha que sonha em dançar no programa voltado para o público adolescente local. Mais uma vez aqui são colocadas questões sobre o racismo e a segregação racial, pois a emissora de TV passa a separar pessoas negras de pessoas brancas na programação. Mesmo os bailes das escolas são segregados (fato que ocorre até hoje em certas localidades dos Estados Unidos).

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No filme, as cantoras usam roupas que remetem a The Supremes, grupo da Motown que marcou a época. Já a apresentadora Motormouth Maybelle (Queen Latifah) veste trajes de uma verdadeira diva, com muito brilho, plumas e acessórios grandes.

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Maybelle e Tracy unem-se em passeata para lutar pelo fim da segregação.

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Ao final, com um programa de televisão em que todos dançam, Tracy aparece vestindo uma roupa anacrônica: vestido com comprimento minissaia e estampa mod (com padronagem geométrica) e botas brancas de cano longo. A minissaia viria a ser inventada pela britânica Mary Quant em 1964 e as botas brancas se popularizariam ainda depois. Mas a opção pelo uso dessas roupas junto ao final otimista serve para apontar para o futuro, marcando a transição para uma nova etapa da sociedade, em que direitos passariam a ser reivindicados por diversos grupos oprimidos naquele momento.

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Hairspray é um filme que mostra a beleza estética do passado, mas se atreve a mostrar (mesmo que de forma leve), o impacto do racismo naqueles que viviam o período, finalizando com uma mensagem positiva, ao mesmo tempo em que avança para os nossos tempos, em que padrões de beleza e magreza estritos são cobrados, permitindo que sua protagonista conquiste o galã ao final.
Nessa breve comparação entre representações de um mesmo período, percebe-se que ao olharmos para o passado, podemos enxergar as sociedades de então através de diversas lentes, com muitas possibilidades de interpretações, e que o saudosismo por vezes pode enganar o espectador, levando-o a não perceber as relações invisibilizadas da época retratada.

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Figurino: Jogos Vorazes- Em Chamas: moda e ambiguidade na Capital

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 20/11/2013.

Chegou às telonas Jogos Vorazes: Em Chamas, segundo filme adaptado da série de livros distópico-futuristas de Suzanne Collins. Entre o primeiro e este, muitas mudanças ocorreram: o orçamento quase dobrou, de 78 para 140 milhões de dólares (o que transparece no resultado final); trocou-se o diretor (de Gary Ross para Francis Lawrence) e com ele parte da equipe técnica, incluindo a figurinista, que era Judianna Makovsky (de A Princesinha) e passou a ser Trish Summerville, nome em ascensão após Millenium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres.

Summerville possui um método de trabalho que é pouco apreciado por outros figurinistas: busca parcerias com estilistas e coordena seus trabalhos. Geralmente quando isso ocorre, o nome do estilista sobressai-se ao do figurinista (como Miuccia Prada em O Grande Gatsby) ou há polêmicas em relação à autoria (como ocorreu em O Cisne Negro). (links para ambas as colunas) Ela orquestra os envolvidos e suas estéticas de uma maneira que o que sobressai ao final ainda é sua visão e o que fica gravado é o seu nome. Sabe se beneficiar como ninguém dessa prática mercadológica de explorar o mundo da moda no cinema. Em Jogos Vorazes: Em Chamas, aproveitou o universo criado por Makovsky e avançou, ampliando a escala.
Nos distritos, predominam materiais naturais, como linho, algodão e couro, em cores esmaecidas e tons de cinza e bege. A modelagem continua remetendo às décadas de 1930 e 1940, em uma clara alusão aos regimes totalitaristas que dominavam a Europa nesse período. A vida ali não é fácil e as roupas devem ser práticas, visando as atividades cotidianas.
O uniforme dos guardas pacificadores passou por pequenas alterações. Mantém-se a alvura (que contrasta com as roupas dos habitantes dos distritos), mas a bota passa a ser também branca e acrescenta-se uma placa peitoral e uma nas costas com textura de esqueleto, além de joelheiras, aumentando a organicidade do conjunto.

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Enquanto está em casa, Katniss (Jennifer Lawrence) continua usando a jaqueta de couro do primeiro filme, mas sobre ela é acrescentada uma espécie de cachecol-colete, executado pela designer de tricô Maria Dora. A peça tem um formato interessante, deixando clara a influência da Capital, ao mesmo tempo em que é confeccionada em lã (fibra natural, do distrito), e tem aparência de feita em casa.

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Ao longo da Turnê dos Vitoriosos Katniss utiliza outras peças de lã, bem como outras roupas que seguem o mesmo conceito: minimalistas, como as do distrito, mas com detalhes que despertem o interesse, remetendo à Capital. Seu estilo de se vestir amadureceu. Afinal, após ter vencido a 74ª edição dos Jogos Vorazes, ela não só não é mais a mesma garota do ano anterior, como passa a ser uma pessoa pública, de interesse coletivo e apelo televisivo.

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Um exemplo é o macacão azul-marinho com cinto marrom utilizado no dia do sorteio: ele quase parece uma roupa de trabalho, mas o corte ajustado confere-lhe elegância e demonstra haver design por trás de sua criação.
Peeta (Josh Hutcherson) também começa a usar roupas mais maduras: Summeville o veste em camadas e utiliza muitas jaquetas de maneira a destacar seu porte físico. Seu terno de casamento, feito pelo estilista coreano Juunj, tem corte estruturado, arquitetural: a lapela fendida gera tridimensionalidade à roupa. O toque futurista é acentuado pelo colarinho da camisa, seus punhos e o lenço, substituídos por versões metálicas.

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Para a festa antes dos jogos, o vestido preto com detalhes vermelhos de Katniss aproveita de forma pouco sutil seu apelido de “garota em chamas”.

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O mesmo ocorre com o vestido de casamento, utilizado na transmissão televisiva. Volumoso e com muitas camadas, ele possui uma trama metálica próxima ao ombro em forma de chama, ao mesmo tempo em que tem adornos feitos com penas, lembrando o papel de Katniss como o tordo, símbolo da revolução que ocorre nos distritos. O traje foi desenhado e confeccionado por Tex Saverio, estilista indonésio. Quando Katniss rodopia, o vestido é consumido pelas chamas, transformando-se em outro, negro e com asas. Dessa forma o papel duplo (e dúbio) da personagem é frisado: o povo da Capital a vê como entretenimento: a garota em chamas da televisão; mas sob o espetáculo, esconde-se o símbolo da esperança e da revolução nos distritos.

Croqui do vestido de casamento por Tex Saverio

Croqui do vestido de casamento por Tex Saverio

Entre os novos personagens, dois se destacam. Finnick Odair (Sam Claflin) e Johanna Manson (Jenna Malone). Finnick é do Distrito 4, responsável pela pesca, e por isso, para sua apresentação, usa uma saia de tricô dourado, para lembrar uma rede de pesca, acompanhada de um cinto e, como acessório, um colar de conchas. Já Johanna, do distrito 7, responsável pela produção de lenha e madeira, veste um longo vestido marrom, com lascas de tronco de árvore subindo pelo seu pescoço, criando uma aparência de desconforto.

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A personagem com guarda-roupa mais variado e interessante não poderia ser outra: Effie Trinket. No primeiro filme da série, Joadianna Makovsky teve como inspiração para a moda da capital a obra da estilista Elsa Schiaparelli, marcada pelo surrealismo. Agora, Summerville tem uma inspiração mais próxima de nossos tempos: a marca Alexander McQueen, conhecida pelos excessos em sua estética e que atualmente tem suas coleções criadas por Sarah Burton.

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A inspiração é patente no vestido de casamento de Katniss, mas literal no vestuário de Effie: Seus vestidos são todos retirados de coleções recentes da marca. Não deixa de ser uma escolha interessante, porque o povo da capital vive para o espetáculo e isso coloca a alta-costura como símbolo dessa futilidade.

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Ao mesmo tempo, Effie representa nós mesmos, a plateia sedenta por entretenimento e coisas bonitas aos olhos, por vezes sem perceber as implicações políticas disso. Para Effie, a primavera já chegou (por isso as borboletas monarcas em seu vestido) e não parece se dar conta de que o povo fora da Capital vive um longo inverno de fome, opressão e medo.

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Ao fazer uso de roupas de grife para compor o figurino, e levando-se em conta a temática do filme, Trish Summerville fez uma crítica (talvez inconsciente) às próprias indústrias da moda e do entretenimento. Demonstra talento ao unir trabalhos tão diversos e manter a unidade da proposta visual. Jogos Vorazes: Em Chamas evoluiu muito os conceitos utilizados no primeiro filme e apresenta-se como um produto melhor acabado. E nós, como o povo da Capital, o assistimos, sedentos por ver o desfile de belos trajes utilizados em cena, enquanto em algum lugar dos distritos, faz-se a revolução.

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Figurino: A Princesinha: cores quentes para uma Índia idílica

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 06/08/2013.

Conforme já falado no texto sobre O Grande Gatsby, figurinos de filmes que retratam determinados períodos não necessariamente precisam ser fiéis às modas da época retratada, mas devem, sim, atender às necessidades do diretor, criando uma experiência visual de acordo com a estética almejada na película. Lançado em 1995, com roteiro adaptado do livro de Frances Hodgson Burnett, A Princesinha, primeiro filme em língua inglesa do diretor mexicano Alfonso Cuáron, é um belo exemplo de como isso funciona.
Cuarón claramente divide sua história em duas cores: o amarelo da Índia idílica e o verde da Nova York fria e solitária. É interessante notar que o uso exacerbado do verde repete-se em seu filme seguinte, Grandes Esperanças. Embora essa paleta de cores restrita apareça enfaticamente em diversos elementos da história, é no figurino elaborado por Judianna Makovsky que ela ganha destaque.
A história começa no período que antecede a Primeira Guerra Mundial. Ao final do século XIX, a arte, a moda e a decoração eurocêntricas tiveram grande influência de países como Índia, China, Japão e Turquia. Tais locais eram vistos como exóticos pelos ocidentais. Sarah (Liesel Matthews) e seu pai, Capitão Crewe (Liam Cunningham), moram na Índia e a forma como ela é retratada é reflexo dessa visão de exotismo: uma Índia dos mitos, das especiarias e das aventuras fantásticas. Sarah passa o filme contando a história do bom príncipe Rama, que luta pelo seu amor, a Princesa Sita. Na história, que traça paralelos com a sua própria, ambos usam roupas inspiradas em trajes tradicionais, em tons alaranjados com adornos em dourado. O calor irradia de suas roupas.

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Sarah utiliza vestidos extremamente fiéis ao vestuário infantil da época, com cintura levemente caída, chapéu e casaco rodado com abotoamento duplo, sempre em branco ou em tons de creme. São com essas cores que se muda para Nova York, a fim de estudar em um colégio interno. As responsáveis, srta. Minchin (Eleanor Bron) e sua irmã, Amelia Minchin (Rusty Schwimmer) aparecem em vestidos eduardianos (caracterizados por corte reto e busto volumoso) em tons de verde escuro. Essa é a cor que marca a permanência de Sarah na escola.

FIG 02

Quando Sarah presenteia Becky (Vanessa Lee Chester), a menina que trabalha silenciosamente como empregada na escola, opta por dar-lhe um sapato em um aberto tom de amarelo. O item extravagante provavelmente seria pouco útil a outra menina, mas essa é a cor que Sarah relaciona às coisas boas.

FIG 03

Entre neve, frio e chuva, as alunas do colégio vestem uniformes em tons de verde escuro e apagado, com corte similar aos vestidos de Sarah, junto com um grande laço para os cabelos e um avental creme. O vestido, com golas largas bordadas e gravata, é acompanhado, no inverno, por um casaco de veludo com capa da mesma cor. Ela se repete nas roupas de todos os envolvidos no ambiente escolar, do professor de francês ao entregador de leite. O design de produção frisa isso tornando todos os ambientes sufocantemente verdes, através de outros elementos do cenário, como cristais, vasos, quadros e paredes. Não há dúvidas em relação a intenção de criar uma atmosfera fria, que transmite a sensação de rigidez.

FIG 04

Essa repetição de cor apenas vem a se alterar em relação a Srta. Minchin, que passa a vestir preto a partir de quando recebe um advogado do pai de Sarah, que porta más notícias. Dessa forma ela assume abertamente seu papel de opositora dentro do contexto escolar.
A pobreza é retratada sem cor. Tons de cinza passam a recobrir os trajes de Sarah, bem como as roupas de Becky. Nas ruas os famintos vestem marrons e pretos esfarrapados.

FIG 05

A esperança, nesse contexto, não é verde, e sim amarela. Ela é personalizada na figura do misterioso indiano Ram Dass (Errol Sitahal), que esporadicamente aparece na vida de Sarah, utilizando trajes nessa cor recobertos com bordados dourados. É ele o responsável pela surpresa que Becky e Sarah tem ao acordar e ver seu quartinho decorado e um café da manhã posto, com um lindo robe amarelo com detalhes em dourado e sapatilhas na mesma cor esperando cada uma. O amarelo remete ao antigo lar de Sarah e traz junto consigo a sensação de calor, aconchego e alegria. Quase pode-se sentir o cheiro da Índia que a menina deixou para trás.

FIG 06

Através da criação padrão de uso de cores e de sua repetição exaustiva, Judianna Makovsky serve a todo o design planejado por Cuarón e cria uma ambientação com propósitos claros. Cuarón idealizou uma Índia através das lentes do exotismo com que era vista na época retratada e expressou-a através de cores quentes. Já a solidão, o medo e a frieza nova-iorquina aparecem representados no verde. Apesar de historicamente acurado, o que realmente importa nesse figurino são as sensações suscitadas por suas cores. Com cenas belíssimas e uso de cores inteligente, o filme já é um jovem clássico infanto-juvenil.

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