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Figurino: A Colina Escarlate

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Fantasmas são reais, isso eu sei. Eu os vi toda a minha vida …

Em cartaz nos cinemas, A Colina Escarlate é um romance gótico que se disfarça de história de terror. A protagonista, uma escritora chamada Edith Cushing (Mia Wasikowska), fala sobre suas obras algo que também se estende ao filme: são histórias com fantasmas, não histórias de fantasmas, pois eles representam o passado. O diretor Guillermo del Toro confeccionou a trama entremeada de elementos visualmente marcantes. A figurinista é Kate Hawley, que já havia trabalhado com ele em seu filme anterior, Círculo de Fogo.
Edith, filha única de um homem rico, é cortejada por Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), um misterioso baronete vindo da Inglaterra. Quase nada se sabe sobre ele, mas sua situação financeira precária é percebida através de suas roupas. Isso é ressaltado pela própria Edith, que fala para seu pai que elas, embora bem cortadas, são de pelo menos uma década atrás.
A história se passa na segunda metade da década de 1890. Os trajes femininos deixavam de ter anquinhas e faziam a transição para as saias em forma de sino e os bustos volumosos que iriam caracterizar a primeira década de 1900.

Exemplos de vestidos utilizados na época.

 

As cinturas são marcadas e os ombros são destacados, o que pode ser percebido nos vestidos de Edith. Apesar disso, eles não restringem seu corpo: as camisas sempre são folgadas e os tecidos fluídos. Em um flashback, a vemos ainda criança, no enterro de sua mãe, trajada totalmente de preto, com um chapéu com uma textura rugosa na parte inferior, semelhante a um cogumelo visto por baixo. Essas rugosidades ou ranhuras são a textura que predominará nos tecidos usados em seus trajes, que também são por vezes adornados com dobras, como origamis.

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É possível ligar a personagem ao amarelo e outros tons claros. Na mesma cena de infância já mencionada, os botões frontais de seu vestidinho são de pérolas. Elas aparecem posteriormente em botões e outros detalhes, como nas mangas do vestido que utiliza para ir a um baile com Thomas. Mas não é apenas isso: o tom perolado, como do vestido citado, bem como o branco, vai dominar sua paleta de cores, garantindo sua imagem de inocência. A parte da trama que transcorre nos Estados Unidos é fotografada com uma cálida iluminação amarela. Essa é outra cor que vai marcar a personagem, nesse momento em elementos como saias e acessórios, ligando-a a sua terra.

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Para destacar o amarelo, as paredes da casa de seu pai são predominantemente vermelhas. Já as figurantes na cena do baile formam uma massa em tons acobreados e de verde e amarelo pastel, compondo um degradê que emoldura a valsa dos dois enamorados.

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A leveza dos trajes de Edith contrasta com a restrição dos trajes de Lucille Sharpe (Jessica Chastain), irmã de Thomas. Seus vestidos são justos, com corpetes marcados, gola alta e mangas longas, confeccionados em veludo ou cetim. Não há um só movimento em Lucille que seja espontâneo. Tudo precisa ser calculado e sua roupa conota isso. Ainda nos Estados Unidos, vermelho vivo e preto são as cores que utiliza. Elas transmitem um senso de morbidez e perigo adequado à personagem.

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Edith e Thomas se casam rapidamente e se mudam para a mansão dos dois irmãos, na Inglaterra. A construção é um personagem por si só, responsável por criar a atmosfera adequada para o encaminhamento da trama. A falta do telhado no saguão principal traz para dentro da casa o clima de fora, seja as folhas secas ou a neve caindo. As paredes, manchadas e predominantemente verdes destacam o vermelho que aparecerá recorrentemente. A casa foi construída sobre uma mina de argila vermelha, que no inverno vem à tona manchando a neve e conferindo o nome ao cenário: a colina escarlate.

Lucille, em casa, prioriza o uso de cores escuras. Se nos Estados Unidos vestiu preto e seu irmão também, aqui ela usa frios tons fechados de azul e novamente é acompanhada por ele. Essa estratégia trata de ligar os dois. 007

No dia de sua chegada, Edith veste um casaco longo cinza, adornado com violetas e segura uma espécie de buquê da mesma flor. Tradicionalmente a violeta e sua cor são usados como símbolo de luto. Mas por baixo do casaco, ela usa um vestido de cor amarela.

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Desse momento em diante, os trajes de Edith seguem esse padrão: o amarelo cada vez mais intenso, beirando a cor de mostarda, ligando-a a sua casa, e elementos em tons escuros de luto, que a trazem para a casa nova.

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Quando está despida, utiliza uma longa camisola branca, com mangas bufantes, de tecido vaporoso e novamente com textura enrugada. A peça destaca a fragilidade da personagem, que se torna pequena em contraste com detalhes da cenografia, como os longos corredores, os grandes cômodos e a enorme poltrona da sala. A casa por si só parece ameaçadora, pois os adornos e esculturas projetam-se como estacas das paredes ou estalactites dos tetos.

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Comparar A Colina Escarlate com outros filmes, em virtude de sua temática ou estética, não é difícil. Thomas, com seus óculos escuros, remete facilmente ao personagem título de Drácula de Bram Stocker, de Francis Ford Coppola, especialmente por também se tratar de um romance gótico.
Edith, que não deseja ser uma Jane Austen, mas sim uma Mary Shelley, nada fala sobre as irmãs Brontë, responsáveis por clássicos da literatura gótica. Mas sua própria história guarda grande semelhança com Jane Eyre, livro escrito por Charlotte Brontë. Talvez Edith não seja tão decidida quanto Jane para manter distância daquele que ama, mas o clima fantasmagórico e sobrenatural, o romance trágico e mesmo a temática da mulher louca no sótão podem, em maior ou menor grau, ter paralelos em sua história. Coincidentemente Mia Wasikowska também encarnou a última versão de Jane Eyre, de 2011, dirigida por Cary Fukunaga. Ela e Tom Hiddleston também interpretaram cunhados em outro romance com clima trágico, Amantes Eternos, de Jim Jamursch, com figurino também analisado aqui.
Por fim, é fácil ver semelhanças entre Lucille e a Sra. Denvers, governanta do filme Rebecca de Alfred Hitchcock, bem como entre as casas de ambos os filmes. E se Lucille é contida pelos seus trajes, é a partir de quando tira seu corpete e liberta o próprio corpo que deixa de restringir suas ações e dá início ao ato final.

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Apesar de todas essas possíveis comparações, a estética de A Colina Escarlate é bastante única. Del Toro demonstra todo o cuidado com a criação de ambientação que case com a atmosfera fantasmagórica que deve emanar da história. O figurino de Kate Hawley não só é adequado para a época retratada, como, através de suas formas e paleta de cores, acrescenta camadas de interpretação aos personagens principais. O perigo, o trágico, o calor do pertencimento, a fragilidade, a sintonia: todos esses elementos são externados através das roupas dos personagens, tornando A Colina Escarlate uma narrativa ainda mais interessante visualmente.

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Figurino: Amantes Eternos- a invenção de um oriente exótico

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 08/05/2015.

Quem não sonhou a terra do Levante?
As noites do Oriente, o mar, as brisas,
Toda aquela sua natureza
Que amorosa suspira e encanta os olhos?
(Trecho do poema O Cônego Filipe, de Álvares de Azevedo)

A citação inicial dessa análise não vem por acaso. Poeta romântico, Álvares de Azevedo segue os preceitos da escola literária, entre eles a exaltação da natureza, a visão trágica do mundo e a idealização do assim chamado Oriente. Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton), os protagonistas de Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, 2013) são, cada um à sua maneira, românticos incorrigíveis. Dirigido por Jim Jarmusch, o filme conta com figurino de Bina Daigeler.
Adam e Eve, como os próprios nomes já indicam, são amantes há séculos, talvez mesmo desde o princípio dos tempos, e são opostos que se completam. Geograficamente isolados, ele mora em Detroit, nos Estados Unidos, e ela em Tânger, no Marrocos. As cidades não poderiam ser mais emblemáticas para a definição dos personagens: enquanto ela, otimista, é rodeada por cores e texturas de um Oriente ideal, ele, já desiludido com a humanidade, a quem chama de zumbis, mora em uma cidade-fantasma, fruto de uma política fracassada de industrialização.
Embora fale com desprezo sobre Byron e Shelley, dois dos mais influentes poetas do romantismo anglófono, Eve talvez seja a mais tradicionalmente romântica dos dois. Rodeada por seus livros, sua cama é adornada por tecidos vistosos. Em casa, veste túnicas e trajes bordados que remetem ao Orientalismo que marcou fortemente a literatura e as artes em geral no século 19. A pintura europeia desse estilo retratou vivências, roupas e arquiteturas de lugares distantes. As cores e os padrões de estampa se refletem no viver de Eve.

Um oriental de turbante, pintura sem data de Gabriel Morcillo.

Um oriental de turbante, pintura sem data de Gabriel Morcillo.

 

A grande odalisca (1814), quadro de Jean-Auguste-Dominique Ingres.

A grande odalisca (1814), quadro de Jean-Auguste-Dominique Ingres.

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Nessa época, o Oriente era tudo aquilo que era oposto aos padrões europeus: do norte da África ao Leste asiático, passando pela Ásia Menor. Tânger certamente se encaixa nesse critério. E se Oriente era um lugar imaginário, inventado e exotizado pelo olhar ocidental, não deixa de ser curioso que pelas ruas da cidade ninguém se veste como Eve: seu figurino faz parte da forma como enxerga o mundo, e não de como o mundo realmente é. Na rua, o que veste são roupas minimalistas, de cor clara, mas cobrindo a cabeça e o rosto com um bonito lenço decorado com arabescos, ainda ligando-a ao seu lugar.

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Adam, por sua vez, é um apaixonado por música e coleciona instrumentos antigos e raros. Pessimista e melancólico, se recorda de todos os artistas e pensadores do passado com quem conviveu e pragueja contra essa humanidade que conseguiu contaminar tudo, até mesmo sua água e seu sangue. Mas se o pessimismo é romântico, também está presente no rock gótico: há um quê de Robert Smith, da banda The Cure, em seu visual. Veste roupões surrados e puídos de tempos passados. Eve chega mesmo a avisá-lo que um deles tem mais de 200 anos. Sua casa é escura e cheia de objetos jogados pelos cantos: não há nenhuma preocupação com a beleza. Na rua, usa roupas também minimalistas. Todas são em tons escuros de marrom, vinho e preto.

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Ambos precisam de sangue e este está cada vez mais difícil de encontrar. Sua experiência prazerosa de beber pequenas doses, apenas o mínimo necessário, se reflete na expressão facial de entrega, como se um vício estivesse sendo saciado. Eve o consegue em uma sacola de farmácia e Adam se disfarça de médico para comprar em um hospital. O sangue é seu ópio: a droga consumida pelos escritores românticos e que era facilmente encontrada em estabelecimentos médicos.

Gravura intitulada O vendedor de ópio, de autor e data desconhecidos.

Gravura intitulada O vendedor de ópio, de autor e data desconhecidos.

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Quando Eve visita Adam em Detroit, passa a vestir seus roupões para ficar em casa e na rua, troca sua bata branca por outra em um tom de vinho, que vai utilizar até o final do filme. É como se ampliasse a relação com Adam externando o reencontro através da roupa. É nessa visita que fica clara sua grande apreciação pela vida e pela natureza, manifestada, também, em uma crítica a ele: “Essa auto-obsessão é um desperdício de vida. Poderia ser gasta salvando coisas, apreciando a natureza, cultivando bondade e amizade, e dançando. Você tem sido bastante sortudo no amor, porém, se posso assim dizer”.

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Um elemento externo aos dois, que traz mudança de ares na relação, é Ava (Mia Wasikowska), irmã de Eve. Com comportamento de uma adolescente inconsequente, ela zomba dos hábitos antigos do casal, como o gesto delicado com que Eve pede a Adam que retire suas luvas. Mas apesar disso ela mesma não se veste da maneira mais contemporânea possível. Seus trajes são de adolescente, mas de uma adolescência que ocorreu em algum ponto da década de 1960, com vestido de bolinha, estampa floral colorida, sapato de boneca, meia estampada. O efeito pode até parecer moderno aos nossos olhos, mas isso em virtude da constante reciclagem desses elementos na moda atual, não deixando de entregar a vivência passada da personagem.

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Sobre as diferenças entre o casal de protagonistas, Adam não é aberto a novas tecnologias: ainda conversa com Eve através de um telefone antigo e uma televisão de tubo, enquanto ela utiliza um smartphone. Ele usa uma mala antiga de couro e ela um a moderna de alumínio.

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A oposição entre a forma de encarar a vida dos dois aparece já no começo do filme, quando a câmera para em cada um e ambos estão enquadrados em uma inclinação de 45 graus, mas cada um para um lado oposto.

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Além disso, outros elementos visuais frisam suas diferenças, afirmadas na dicotomia entre o claro e o escuro de suas roupas. Elas são destacadas, também, em acessórios, como as luvas e os pingentes que carregam: ele usa um colar com uma caveira branca (cor dela) e ela, por sua vez, usa a mesma caveira em preto (cor dele) presa em uma pulseira. Mesmo em uma partida de xadrez, Eve utiliza as peças brancas e Adam, as pretas.

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Apesar de tudo que foi citado, o que eles possuem é a imensa compreensão um do outro, manifestada através dos tempos em uma conexão sem limites, que fez com que se casassem diversas vezes e que faz com que, mesmo após algum tempo distantes, acabem por se reencontrar. A intimidade é expressa através não só dos diálogos, que demonstram um grande conhecimento mútuo, como de seus corpos, retratados como um contínuo que sempre busca o contato e o entrelaçamento.

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Se o universo é infinito, assim é a relação de Eve e Adam. Conversando sobre uma teoria de Einstein ele menciona que “Quando você separa uma partícula entrelaçada e move ambas as partes para longe uma da outra, mesmo em extremos opostos do universo, se você altera ou afeta uma, a outra será identicamente alterada ou afetada”. E tal acontece com os dois. Por serem essas partículas universais é que o filme os retratam constantemente vistos de cima, girando, como as estrelas fazem nos créditos de abertura.

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Adam e Eve são vampiros, embora tal palavra jamais seja mencionada no filme. Mas mais que isso, são arquétipos de maneiras de enxergar o mundo: o preto e o branco; o pessimismo e o otimismo. São um yin e um yang que se entendem e se completam na eternidade dos tempos. São o casal primordial. A direção de arte do filme, bem como o figurino de Bina Daigeler, retrata de maneira competente o orientalismo que inspira Eve e a decadência que rodeia Adam. Adam e Eve superam qualquer divergência e se tornam unos, ainda que se mantendo individualidades, atravessando o tempo e o espaço como amantes eternos.

 

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O Duplo (The Double, 2013)

Não é incomum ver filmes sobre pessoas lidando com dificuldades em relação a maneira como são percebidas pelas demais. O Duplo, dirigido por Richard Ayoade, é um exemplo bem realizado disso, trabalhando não uma realidade crível, mas uma espécie de distopia com um protagonista que projeta suas expectativas. Não li a obra de Dostoievsky em que ele foi baseado, mas o tom da adaptação parece ser menos do autor russo e mais kafkiano, com seus absurdos burocráticos. Brazil, de Terry Gilliam também vem a mente diversas vezes pelo mesmo motivo.

A trama traz Simon James (Jesse Eisenberg), que trabalha há sete anos em uma empresa de processamento de dados sem nenhuma forma de reconhecimento. As pessoas sequer reconhecem seu rosto, graças a sua presença balbuciante e pouco marcante. A sequência inicial estabelece sua solidão no caminho de volta para casa, mas também seu comportamento stalker em relação à vizinha Hannah (Mia Wasikowska), que trabalha como copiadora na mesma empresa. A profissão da moça tem relação direta com o que acontece depois: um novato chamado James Simon (também Eisenberg) começa a trabalhar na empresa e graças ao seu grande carisma e presença ascende rapidamente, usurpando as habilidades de Simon.

Em termos de arquétipos, Simon é superego: excessivamente cauteloso e James é id, todo desejos e impulsividade. Já Hannah serve como uma projeção de imagem idealizada por Simon, mas jamais se torna uma personagem plenamente desenvolvida. Sua doçura e feminilidade parecem servir como padrão de garota ideal para ele ao mesmo tempo que presa fácil para James, que facilmente faz pouco dela. Torna-se um joguete entre as necessidades do id e do superego. E o problema só pode ser resolvido, nesse caso, se o segundo conseguir se livrar do primeiro na esperança de que, assim, o ego se sobressaia.

O visual do filme é bastante bonito, com uma fotografia envelhecida, quase sépia, que remete a tempos passados, combinando com os cenários com estética retrô que remete a uma União Soviética dos anos 1960. O figurino da sempre competente Jacqueline Durran reafirma o papel de Hannah como mulher idealizada, quase uma manic pixie dream girl que deu errado, com suas golas estilo peter pan e roupas claras, projetando a imagem de ingenuidade. Já Simon/ James veste um paletó que marca seu desconforto na própria pele, grande demais, mal cortado e ajustada de forma que parece que o está engolindo. O visual é de claro desconforto.

Com boas atuações e direção de arte eficiente, às vezes sombrio, às vezes cômico, o filme consegue segurar bem sua trama baseada nesses arquétipos até o final.

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Amantes Eternos (Only Lover Left Alive, 2013)

Amantes Eternos, de Jim Jarmusch, é um filme de ambientes e personagens, de uma simplicidade complexa e hipnótica. Eve (Tilda Swinton) e Adam (Tom Hiddleston) são dois amantes separados pelo espaço: ela mora em Tanger (Marrocos) e ele em Detroit. As sequências inicias já deixam claro a poética e beleza do filme: o universo gira e eles giram após beberem um pequeno cálice de sangue cada. A palavra “vampiro” jamais é mencionada no filme, mas sua natureza é logo deixada clara. Quando Eve sai de casa, vestindo um traje claro e com um véu cobrindo-lhe parcialmente os cabelos e o rosto, demonstra confiança em si e em seu estilo que só uma criatura centenária poderia ter. Eve é leitora voraz e dona de uma visão sobre a vida que pode-se dizer que seja preenchida de leveza. Já Adam é um melancólico desiludido, sempre vestido de preto, colecionando instrumentos musicais belos e raros. Como muitos casais, eles são opostos e em suas diferenças se amam e se completam. Já se casaram muitas vezes e eventualmente voltam a ficar juntos, comentando sobre as pessoas que conheceram em tempos passados.

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Tilda Swinton e Tom Hiddleston brilham em seus respectivos papéis e a química entre os dois personagens é patente. Apesar do contexto, o resultado é extremamente romântico. O elenco do filme é bastante enxuto, mas os coadjuvantes todos entregam belas atuações: John Hurt como o poeta Marlowe; Anton Yelchin como Ian, fornecedor de instrumentos musicais; Jeffrey Wright como o médico Dr. Watson e Mia Wasikowska como a irmã de Eve, Ava. Ava é um contraponto interessante para o relacionamento dos dois protagonistas. Não se estabelecesse há quanto tempo ela tornou-se vampira, mas seu comportamento é de adolescente inconsequente, irritando Adam e sendo protegida por Eve. Por mais antigos que eles possam ser (e isso nunca se estabelece de maneira certa no filme) são seres falhos e multifacetados.

Se eu vivesse centenas de anos também vestiria túnicas marroquinas e me cercaria de livros sem fim...

Se eu vivesse centenas de anos também vestiria túnicas marroquinas e me me cercaria de livros sem fim…

A trilha sonora cria um clima bastante adequado para as cenas e a direção de arte, bastante inspirada por elementos marroquinos, é linda. Cenários e figurinos transmitem uma beleza sem exageros, como que polida através da passagem do tempo.

O ritmo do filme é lento como deve ser. As imagens devem ser apreciadas com gosto e algumas pessoas podem dizer que não há história, mas a realidade é que o que vemos é apenas uma fração de uma vivência que pode ser milenar. Uma bela e poética fração.

 

Para ler a análise completa do figurino do filme, acesse aqui.

kinopoisk.ru

 

 

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Figurino: Segredos de Sangue – Uso de cores e imagético poderoso

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 13/03/2014.

Às vezes você precisa fazer algo ruim para se impedir de fazer algo pior.

O título original de Segredos de Sangue, de 2013,  é Stoker. Tal nome é uma clara referência a Bram Stoker, autor do clássico Drácula, e entrega uma pista: embora eles não se façam presentes, pode-se dizer que é uma história clássica de vampiros, retratando a solidão, a incompreensão da própria natureza e fazendo relação entre sedução e perigo. Em seu primeiro filme de língua inglesa, o diretor Chan-wook Park constrói um imagético poderoso, com uso característico de cores de forma simbólica, mostrando total controle sobre sua obra. O figurino foi criado pela dupla Kurt Swanson e Bart Mueller, que assinam como Kurt & Bart. Seu trabalho torna-se ainda mais interessante quando percebemos que os próprios personagens relatam a importância que suas roupas possuem em certos momentos da história. Stoker é o sobrenome da família que protagoniza a trama, que começa no 18º aniversário de India (Mia Wasikowska), quando ela e sua mãe, Evelyn (Nicole Kidman) recebem a notícia da morte de seu pai, Richard (Dermot Mulroney). A família vive de uma maneira tal, isolada em seu casarão com alguns criados e um vestir peculiar, distante do contemporâneo, que a história poderia ser ambientada em qualquer período até a década de 1950. Tudo é muito contido e a estética remete ao período gótico americano. Já no enterro podemos perceber que mãe e filha são diametralmente opostas. Evelyn é uma mulher solitária, cujo marido aos poucos parou de lhe dar atenção para ocupar-se da filha. Usa um vestido justo com detalhes assimétricos na gola e um sapato de salto alto. Jovem e bonita, parece querer clamar ao mundo que ainda está viva. Já India sempre vai usar roupas que parecem trajes infantis de outras épocas: blusas soltas e saias em A com corte em viés ou pregas. Veste-se com austeridade, cores neutras e sempre busca a simetria, tanto nos trajes como no cabelo cuidadosamente partido ao meio, passando uma imagem de repressão. Usa sempre o mesmo sapato: um estilo “oxford” bicolor, que acreditava ganhar do pai todo ano em seu aniversário.

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Após o enterro, o misterioso e até então desconhecido tio Charlie (Matthew Goode), irmão mais novo de Richard, aparece. Veste-se de forma preppy, estilo dos mauricinhos americanos, relacionado a colégios e universidades caras, o que também transmite atemporalidade a sua aparência. Seu vestir é prontamente mencionado por pessoas no velório, pois não porta nenhum traje de luto e sua roupa contrasta com os demais.

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Os calçados de India na verdade eram presentes de seu tio: eram uma forma de Charlie criar uma conexão com a sobrinha e tentar controlá-la. Ao mesmo tempo significavam estabilidade e segurança para ela. Em determinado momento do filme, deita-se na cama com todos os pares que usou no passado ao seu redor, como um escudo ou um legado. Sua história e sua jornada de crescimento pode ser contada através dos sapatos, fato que ficará patente ao final do filme.

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Outro acessório importante na história é o cinto de Richard, que Charlie começa a usar. É perceptível sua inadequação, sobrando em comprimento. Quando, em certa cena, o retira, ouve-se perfeita e ampliadamente o couro deslizando sobre o tecido, como um animal rastejaria na relva para chegar a sua presa.

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Após o velório, India usa um vestido cinza e fala explicitamente a sua mãe, como que a recriminando, que está vestindo traje de luto e que no período vitoriano as viúvas faziam isso por pelo menos dois anos. A roupa estabelece um preciso código social.

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Mas Evelyn rapidamente vai se livrar do luto e passará a vestir roupas cada vez mais rosadas e mais translúcidas, abrindo-se diante do flerte de Charlie.

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Amarelo é a cor que vai aparecer desde o princípio como um alerta do que está por vir e posteriormente servirá de elemento importante na composição de determinadas cenas. Ela gravita em torno de India e aparece na forma de bolas de tênis que ela espalha na quadra nos créditos de abertura, na decoração do seu bolo de aniversário, nos ovos diante dela na mesa da cozinha, na fita da caixa de presente, apenas para citar alguns momentos.

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Amarelo vem a ser a cor característica do tio Charlie, que ao chegar veste um colete mostarda e ao final da trama, vestirá um pulôver da mesma cor. Como um vampiro, ele jamais come e sempre aparece sem que ninguém perceba de onde ele veio. Como um vampiro, busca companhia para sua vida diferente das demais. Mas na verdade é menos perigoso do que parece: trata-se de um homem com motivações infantis, preso ao passado e por isso tão apegado a essa cor que lembra a infância. Em flashback, a cor marca momento definidor de sua história.

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Na escola, ao vermos os demais alunos com roupas comuns dos tempos de hoje é que fica claro o quanto os Stokers estão deslocados temporalmente, com o contraste entre India e os demais. Quando se veste de verde, é como se carregasse parte de sua casa consigo.

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Ainda lá, na aula de arte, India não desenha o vaso de flores exposto como modelo e sim o padrão amarelo e vermelho que decora seu interior. A combinação se repete nos potes de sorvete e mesmo no seu lápis com a ponta coberta de sangue. O vermelho sempre tem o duplo significado de paixão e de perigo, que aqui caminham lado a lado, sempre vinculados a Charlie.

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Conforme a moral vitoriana, sexo aparece sinalizado como perigo (e vice-versa), como demonstrado pela aranha que sobe pelas pernas de India, para baixo de sua saia. Como criança que era, seus desejos estavam adormecidos. Mas após seu primeiro contato com a morte diante de seus olhos, encontra dor e êxtase. Sexo e morte se atraem na trama. E nesse momento é que deixa de lado sua camisola de algodão e usa uma camisola de seda. Sentiu que precisava vestir algo confeccionado no tecido, como explica à mãe, no quarto dela, com paredes em vermelho intenso.
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O desfecho da história é como o documentário sobre a natureza, que está passando na televisão ligada. Charlie acha que India já é adulta o suficiente e lhe dá um derradeiro sapato como presente pelo seu aniversário: um scarpin de salto alto vermelhado, assinalando ao mesmo tempo a maturidade sexual e o perigo; feito de couro de crocodilo, pois ele vê na sobrinha uma predadora pronta, como o réptil. Anteriormente ele havia dito “nós temos o mesmo sangue” e agora reafirma “eu estava esperando por você”, querendo que ela veja tudo que poderiam compartilhar. Acontece que em um primeiro momento ela rejeita o presente, retornando à segurança de seu calçado preto e branco anterior.

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Só volta a vesti-lo quando percebe que está pronta para a caça, dessa vez por si mesma e não pela intervenção de um terceiro, despertando para seus desejos e abraçando o que seria sua verdadeira natureza.

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A natureza de India, contra a qual não precisa mais lutar, é construída sobre o legado de seus familiares. Com os cabelos e a roupa livres ao vento, encontrou sua maturidade e sua liberdade e seguirá seu caminho marcado em amarelo. As roupas construíram todo o simbolismo do despertar de sua vida adulta.

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Assim como a saia precisa do vento para ondular, eu não sou composta por coisas que são somente minhas. Eu visto o cinto de meu pai atado ao redor da blusa de minha mãe e os sapatos que ganhei de meu tio. Esta sou eu. Assim como uma flor não escolhe sua cor, nós não somos responsáveis pelo que nós viemos a ser. Só quando percebemos isso é nos tornamos livres e se tornar adulto é se tornar livre.

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Segredos de Sangue é uma fábula sobre crescimento. Plasticamente, o filme é belíssimo, de uma maneira que palavras não podem descrever. As roupas entrelaçam-se na narrativa, fato lembrado o tempo inteiro pelos próprios personagens. O figurino extremamente competente da dupla Kurt & Bart apenas coroa o controle que Chan-wook Park tem sobre a estética de sua obra, que é um trabalho audiovisual impecável.

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