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As Mulheres que Ele Despiu (Women He’s Undressed, 2015)

As Mulheres que Ele Despiu é o título da autobiografia jamais publicada do premiado figurinista Orry-Kelly. O documentário homônimo dirigido por Gillian  Armstrong descortina sua vida e obra desde o vilarejo natal na Austrália, passando pelo período em que morou em Nova York e trabalhou na Broadway até chegar à consagração na época de ouro de Hollywood.

Kelly começou a sua carreira como aspirante a ator e foi dessa forma que se mudou para os Estados Unidos. Usou sua experiência com os bastidores do teatro e o contato profissional com as coristas para se alçar primeiro ao papel de cenógrafo e finalmente de figurinista. Foi nessa época, durante a década de 1920, que conheceu o jovem Archie Leach, que também havia migrado em busca de uma carreira dramática. Leach e Kelly rapidamente começaram um relacionamento e moraram juntos por alguns anos. Foi também junto que se mudaram para Los Angeles na tentativa de alcançar maior sucesso. A crise de 1929 e a preocupação com o lucro que os filmes geravam aliadas ao Código Hays e ao Sistema das Estrelas dificultaram a vida de artistas abertamente homossexuais. Kelly jamais ocultou quem era, mas Leach fez concessões e após alcançar o sucesso com o nome de Cary Grant foi gradualmente se afastando das relações homossexuais do passado. O filme foca no relacionamento entre o figurinista e o astro, utilizando-o como pano de fundo para as consequências dele na carreira do primeiro.

Mas para além da vida afetiva, também retrata o gênio dos tecidos, vencedor de três Oscars e que transformou a carreira de atrizes como Bette Davis, Ingrid Bergman, Marilyn Monroe, Jane Fonda e Angela Lansbury, por exemplo. As duas últimas fornecem depoimentos ricos sobre sua convivência com ele nos sets  de filmagem, bem como histórias de bastidores. As falas das estrelas do passado são trazidas com uso de interpretações vocais, que no contexto do documentário funcionam.

Somam-se às vozes das grandes atrizes diretamente afetadas pelo talento de Kelly a visão de grandes figurinistas, como Deborah Nadoolman, Catherine Martin, Michael Wilkinson, Colleen Atwood, entre outros. Utilizando o tradicional formato de cabeças falantes, eles podem analisar com calma e precisão o papel do seu trabalho na sétima arte e como Kelly lidou com obstáculos e criou um estilo seu, bastante particular.

Felizmente o documentário não faz uso apenas de cabeças falantes, que pode se tornar tedioso: utiliza também bonitas encenações que elevam o filme a uma dimensão poética, com destaque para a interpretação de Darren Gilshenan como o próprio Kelly. Tomadas externas se unem a outras gravadas em ambientes internos que misturam uma espécie de encenação teatral com projeções  e elementos cenográficos. O resultado engaja o espectador é visualmente instigante, beirando o experimental.

Orry-Kelly teve uma vida intensa, com suas divas, seus amores e seus três Oscars. Dentre os amores, Cary Grant certamente se destaca e o filme aborda lindamente a trajetória de ambos rumo ao sucesso e à inevitável separação. Como um todo, essa obra é no mínimo interessante, especialmente para quem tem apreço pela Hollywood antiga ou por figurinos. Mas não deixa de ter, também, sua forte carga emocional e engajar por meio dela.

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Três anos de “Vestindo o Filme”

Mais um ano se passou e minha coluna no Cinema em Cena aniversaria hoje. Em 8 de julho de 2013 foi ao ar sua primeira edição, em que escrevi sobre O Grande Gatsby. Tive uma redução de ritmo considerável dessa vez: no primeiro ano foram vinte e cinco textos comentando quarenta e um filmes; no segundo dezoito e trinta e dois, respectivamente. Dessa vez foram treze artigos que abordaram trinta e duas obras. O espaçamento foi maior, mas pelo menos incluí mais filmes em cada um. Todo ano eu escolho os dez que mais gostei de escrever: não necessariamente os melhores, mas os que mais me diverti ou me interessei. Com o número reduzido, dessa vez vou escolher cinco, todos com links para o texto na íntegra. Vamos a eles:

Herói

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Nada como um uso espetacular de cores para auxiliar a narrativa. Esse filme de Yimou Zhang com figurino de Emi Wada é puro deleite para os olhos.

Garota Exemplar

Gone Girl

Figurinos de época geralmente são mais vistosos e chamam mais atenção, mas na sutileza e na minúcia de um bom figurino contemporâneo se esconde muita coisa. Trish Summerville é uma figurinista ainda com poucos filmes no currículo, mas que tem se mostrado consistente. Sua colaboração com David Fincher é uma prova da qualidade do seu trabalho.

Personagens femininas e seus figurinos em filmes de ação

Furiosa Mad Max

Nós sabemos que a representação feminina em filmes é problemática em geral, mas o que dizer das roupas pouco práticas utilizadas em filmes de ação ou aventura?

Juventude Transviada

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Roupas que marcaram época e gerações e uma direção de arte impecável em um filme clássico que eternizou James Dean como ícone que é.

Carol

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“Elegante” é o adjetivo que melhor descreve o último filme de Todd Haynes. Sandy Powell, figurinista veterana, criou para ele peças bonitas e que casam com a estética do conjunto. Como não se apaixonar por Carol (ou Therese)?

Para ler os demais textos sobre figurino no blog, acesse aqui.

Personagens Femininas e Seus Figurinos em Filmes de Ação

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Esse espaço sempre foi utilizado para discutir figurinos no cinema, oras partindo para interpretações subjetivos, oras pensando em termos de contexto histórico ou social. Invariavelmente escapam análises que vão para além do figurino e se estendem para a direção de arte como um todo, mas também para temas relacionados à representação, especialmente em se tratando de gênero. Dessa vez a proposta desse texto vai ser um pouco diferente: ao invés de focar em um filme, vou levantar alguns pontos a respeito dos figurinos utilizados por personagens femininas em filmes que envolvem ação e aventura, especialmente a falta de praticidade e de conforto proporcionada por eles. O foco é o cinema, mas como muitas vezes as mídias dialogam entre si, quadrinhos, videogame e televisão serão citados também.

Star Wars: Episódio VII- O Despertar da Força não estreou ainda, mas muitas pessoas já o esperam ansiosamente. Há poucos dias, na página de facebook do Star Wars, um fã da série deixou um comentário a respeito de uma nova personagem, Capitã Phasma, também chamada de Chrome Trooper, cuja imagem já havia sido divulgada. Ele afirmou o que pode ser traduzido como: “Não quero ser sexista, mas é realmente difícil para mim dizer que essa é uma armadura feminina”. O “não quero ser sexista, mas…” já era sintomático, mas a equipe de social media da página respondeu de forma clara: “É uma armadura. Em uma mulher. Ela não precisa parecer feminina”.

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Imagem do comentário deixado na página do Star Wars e resposta da mesma.

 

Capitã Phasma, em foto divulgada pela revista Vanity Fair.

Capitã Phasma, em foto divulgada pela revista Vanity Fair.

O figurino de Star Wars é desenhado por Michael Kaplan, que começou sua carreira em Blade Runner (cujo figurino já foi analisado aqui) e essa personagem em particular tem o visual claramente inspirado nas roupas de stormtroopers dos outros filmes da franquia. Mas mesmo que não fosse o caso, a questão aqui é a sua proteção. Independente do gênero, essa é (ou deveria ser) a função de uma armadura. Uma armadura tradicional, feita para uma narrativa que se passa em um contexto medieval, de ficção científica ou de fantasia, vai ter, basicamente, as mesmas características. As placas principais vão cobrir cada parte das pernas e braços, um elmo ou capacete para a cabeça e uma grande placa peitoral para o tronco. As juntas sempre são o ponto fraco em se tratando da segurança, pois não podem ser rígidas, para preservar a mobilidade.

Mas o mais importante é: quem veste a armadura não está nu por baixo. Aparentemente, pela expectativa de certa parte do público, esse fato pode parecer inacreditável, mas a verdade é que seios no peitoral não fazem sentido, uma vez que a placa não está em contato direto com o corpo, seguindo suas formas. Uma mulher ou homem não só utilizarão pelo menos um tipo de camisa por baixo da armadura, como também algum material acolchoado, para evitar o impacto, de maneira que suas formas se perdem dentro da proteção. Mas, mais que isso, o ideal é que as laterais do peitoral tenham uma angulação maior que o peito da pessoa, para que lanças, flechas e outras armas arremessadas sobre ele deslizem sobre a superfície. Uma placa que tivesse o formato de seios faria sua portadora correr o risco de fraturar o esterno, pois a depressão entre eles funcionaria como uma cunha sob o impacto de um golpe.

Com seus impressionantes 1,91m de altura, a atriz Gwendoline Christie, que interpreta a Capitã Phasma, também encarna Brienne de Tarth, na série de televisão Game of Thrones. Lá a figurinista Michele Clapton também providenciou a ela uma armadura funcional e adequada às atividades da personagem. Percebe-se que a peça tem uma linha central no peitoral, marcando a inclinação para as laterais que ajuda na proteção.

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Existem bons exemplos de mulheres vestindo armaduras funcionais no cinema. A rainha Elizabeth I da Inglaterra, interpretada por Cate Blanchett com figurino de Alexandra Byrne no filme Elizabeth: A Era de Ouro, de 2007 é uma delas. A Branca de Neve de Kristen Stewart em Branca de Neve e o Caçador, de 2012 é outra. Nesse caso o figurino fica por conta de Colleen Atwood, que também foi responsável por O Silêncio dos Inocentes, cuja análise pode ser lida aqui. Ambas as personagens contam com proteções nos ombros e usam cotas de malha. A rainha veste uma peça decorada e talvez a cintura marcada não seja uma boa decisão, mas o peitoral tem um formato adequado. Branca de Neve ainda conta com calças de couro, bem como o braço de segurar o escudo no mesmo material.

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Entre os lançamentos dessa última temporada do verão americano, Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros também gerou muitos comentários a respeito de sua protagonista, Claire (Bryce Dallas Howard). Ela é retratada como uma pessoa rígida, focada no trabalho de administradora do parque e incapaz de se conectar com os sobrinhos que a estão visitando. Essas características são externadas pelo figurino impecavelmente claro, acompanhado de sapatos de salto alto beges, que destoam das roupas de lazer dos visitantes e das práticas dos demais trabalhadores dos bastidores do funcionamento. A personagem passa por todas as desventuras retratadas no filme sem jamais remover os fatídicos sapatos dos pés.

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A ideia parece ser de mostrar que ela é capaz de tudo: administrar o parque, correr na mata e atrair um tiranossauro sem jamais tirar o salto, como se isso fosse empoderador. Não que se deva cobrar realismo em um filme repleto de dinossauros vivos, mas exigir resistência sobre-humana de uma personagem (que, como tal, foi escrita e idealizada dessa maneira por alguém) reflete apenas os padrões irreais com que as mulheres são retratadas no cinema. E isso é válido mesmo que a ideia tenha partido da atriz, afinal, esse é o meio em que ela está envolvida. Uma pessoa que tenha passado pela experiência de andar sobre um salto sabe que é humanamente impossível correr como Claire corre e por tanto tempo. O contraste com a Doutora Ellie Sattler (Laura Dern) não poderia ser maior. A paleobotânica foi representada à vontade com sua roupa adequada ao trabalho de campo no primeiro Jurassic Park, de 1993.

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Não é à toa que, em Tudo Por uma Esmeralda, de 1984, dirigido por Robert Zemeckis, o aventureiro John T. Colton (Michael Douglas) quebra o salto dos sapatos de Joan Wilder (Kathleen Turner), quando ambos estão na selva.

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Quando uma personagem é construída para ser uma profissional que tem que lidar com ação cotidianamente, isso tem que ser levado em conta. Por isso a construção de Ilsa Faust, interpretada por Rebecca Ferguson no novo Missão Impossível- Nação Secreta funciona quase como uma resposta a Claire. Espiã experiente, em determinado momento da trama Ilsa se veste com vestido longo e fluido, que não impede seus movimentos, além de sandálias de salto alto. O conjunto é necessário como disfarce, uma vez que ela está em uma ópera, o que pede traje de gala. Ainda assim, quando ela precisa fugir ao lado de Ethan Hunt (Tom Cruise), prontamente pede que ele retire seus calçados, pois sabe que eles não são ideais. Essa sequência pode ser vista no vídeo abaixo. No restante do filme a espiã sempre utiliza botas sem salto, adequadas para corrida.

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Há pouco tempo foi revelada a aparência da nova Mulher Maravilha (Gal Gadot), que vai participar do filme Batman vs Superman: A Origem da Justiça, previsto para o ano que vem; e de Liga da Justiça e do filme solo Mulher Maravilha, ambos previstos para 2017. O figurino é desenhado por Michael Wilkinson, que também já trabalhou em Noé e Trapaça, cujos figurinos podem ser conferidos aqui e aqui.

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Em primeiro lugar a bota possui um salto bastante alto, disfarçado como anabela. Também é possível perceber que o corpete da personagem é feito de um material rígido, como uma carapaça. Ora, detentora de super-força garantida pela deusa Deméter e multiplicada por dez vezes pelo seu bracelete de Atlas, a heroína não tem necessidade de uma roupa com armadura. Se fosse o caso, uma com o contorno dos seios, como essa, seria mais perigosa do que segura, conforme já explicado. Além disse ela necessitaria proteger braços e pernas também.

Como não precisa desse tipo de proteção, poderia se pensar em algum tipo de roupa mais prática para a movimentação. Os saltos definitivamente não se encaixam nesse quesito. É possível que sua hot pant tradicional também não seja a melhor opção e talvez calças confeccionadas em tecido com boa elasticidade o fossem. Foi assim que ela foi vestida no seriado de 2011 Wonder Woman, nunca lançado, quando foi interpretada por Adrianne Palicki.

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Mesmo assim, ambas contam com outro ponto de desconforto: o corpete tomara-que-caia. Novamente, qualquer pessoa que já teve a experiência de usar essa peça de vestuário sabe que ela não é a ideal para correr e pular e provavelmente a personagem levaria a mão mecanicamente ao decote, puxando-o para cima de tempos em tempos.

Ainda que o tomara-que-caia faça parte do visual clássico da personagem, em se tratando de uma adaptação de cinema, tudo é possível. Os uniformes dos heróis nos quadrinhos foram originalmente inspirados pelas roupas de artistas circenses, mas cada um passou por diversos modelos e formas ao longo dos anos e a pessoa responsável pelo figurino tem liberdade para tomar decisões a respeito do resultado final que almeja. Tanto é que que as cores escuras dessa versão cinematográfica, nesse caso, em nada correspondem ao azul e vermelho abertos comumente associados à heroína. E de toda forma, em sua última encarnação nos quadrinhos ela já aparece com calças e uma blusa fechada, que jamais teimariam em cair.

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Mesmo a Supergirl (Melissa Benoist), da série homônima que deve estrear esse ano, mantem o uniforme tradicional, mas com botas sem salto, saia mais longa e camiseta simples, com punhos presos aos dedos, passando a ideia de que nenhum tecido atrapalha seus movimentos. As meias-calças provavelmente vão puxar um fio e desfiar na primeira atividade física, mas, no geral, é o tipo de roupa que não é imprópria à ação. O figurino, aqui, também é desenhado por Colleen Atwood.

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As expectativas em termos de representação dos gêneros são bastante diferentes quando se leva em consideração o cinema de ação e aventura em geral. Tomemos um exemplo que talvez possa ser visto como extremo, mas que ilustra tal fato. Os dois personagens abaixo têm a mesma profissão, ainda que à primeira vista pareçam ter pouco em comum: ambos são arqueólogos.

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Indiana Jones (Harrison Ford) teve seu visual, com chapéu e jaqueta de couro, estabelecida em Os Caçadores da Arca Perdida, de 1981, pela figurinista Deborah Nadoolman (que também trabalhou no clássico da sessão da tarde Um Príncipe em Nova York). Enquanto busca por suas relíquias entre as décadas de 1930 e 1950, o personagem tem as pernas resguardadas de qualquer eventual arranhão, enquanto a jaqueta protege seus braços e tronco.

Já Lara Croft (Angelina Jolie), personagem contemporânea adaptada dos videogames, apareceu em dois filmes: Lara Croft: Tomb Raider, de 2001 e Lara Croft: Tomb Raider – A Origem da Vida, de 2003. Em ambos ela foi vestida pela figurinista Lindy Hemming. O que mais chama atenção é que suas pernas estão completamente desprotegidas para qualquer tipo de impacto que possa receber. Novamente optou-se por manter a aparência que ela possuía nos jogos, ignorando que uma nova mídia permitiria a alteração desta. Vale notar que em 2013 a personagem passou por uma remodelação, deixando seu físico mais realista e trocando os shorts por calças.

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Muitas vezes figurinistas, diretores e demais responsáveis pela aparência de personagens femininas em filmes que envolvem cenas de ação e aventura as colocam em um papel fetichizado, desnecessário para o desenvolvimento da trama e especialmente das próprias personagens. Outras vezes esse pode até não ser o caso, mas o retrato é preguiçoso e parece não levar em conta o ambiente em que elas estão inseridas e suas ações. As roupas de qualquer personagem, independente de gênero, deveriam ser pensadas de maneira a refletir as atividades que ele precisa desempenhar em cena. Personagens como Sarah Connor (Linda Hamilton)  e Ripley (Sigourney Weaver) sempre são lembradas quando os gêneros de seus filmes são citados e vestem uma roupa prática  e um macacão de uniforme, respetivamente.

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Ainda esse ano Imperatriz Furiosa, interpretada por Charlize Theron, roubou a cena em Mad Max: Estrada da Fúria, vestindo figurino de Jenny Beavan. A personagem fácil e rapidamente se transformou em um novo ícone feminista, tudo isso com uma roupa que não só não a objetifica, como faz todo sentido estética e conceitualmente no cenário distópico proposto pelo filme. Pelo menos metade do público consumidor de cinema é composto por mulheres, mas a quantidade de pessoas não deveria importar quando o que está em jogo é a construção de personagens. Todos os grupos deveriam ter direito de verem na tela constructos que façam sentido e não sejam meras caricaturas, fabricadas para o olhar de um público específico. Sim, trata-se de ficção e muitas vezes em mundos fantásticos, mas ainda assim, a representação de personagens femininas importa, e muita. Com um pouco mais de empatia por parte dos responsáveis é possível fazer filmes melhores.

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Figurino: Noé

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 23/04/2014.

 

Mantendo fidelidade à temática de sua obra, Darren Aronofsky (Cisne Negro) mais uma vez dirigiu um filme sobre obsessão: Noé. Polêmico, talvez o maior problema do filme tenha sido a falta de compreensão da sua natureza: muitos esperavam uma adaptação literal da história bíblica, quando na verdade trata-se de uma baseada em uma graphic novel desenvolvida pelo próprio Aronofsky, reimaginando o mito.
Se levarmos em conta a interpretação literal da Bíblia, teríamos que considerar que a criação ocorreu entre 6 mil e 10 mil anos atrás. Levando-se em conta a idade do protagonista e sua genealogia, isso localizaria a história no período Neolítico. Nessa época os humanos vestiam trajes confeccionados de pele e couro e usavam ossos para fechamento. Ao fim do período as primeiras roupas de tecidos confeccionados com lã e outras fibras naturais seriam criadas.
Da pré-história até o final da Idade Média não existiu o que nós conhecemos como moda. As roupas a princípio possuíam uma funcionalidade específica (proteção) e mesmo quando o valor estético foi incorporado, suas variações eram baseadas na perpetuação da tradição e não eram mudanças drásticas.
Mas, ao levarmos em conta que se trata de uma reinterpretação de um mito, isso situa a trama fora de nossa escala temporal, permitindo liberdade total para reimaginar as roupas conforme as necessidades narrativas. Por esse motivo o figurino também causou reações de estranhamento: protagonistas de filmes bíblicos costumam vestir túnicas, mas isso está bem longe do que vemos aqui. O figurinista Michael Wilkinson (que recentemente trabalhou em Trapaça e está em franca ascensão na indústria) não parece ter grande preocupação em fidelidade com o que se espera dos períodos retratados, brincando com formas e modelagens de maneira a obter os efeitos desejados para a narrativa.

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A família de Noé (Russell Crowe) é formada por sua esposa Naameh (Jennifer Connelly), seu avô Matusalém (Anthony Hopkins), seus filhos Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll), além de Ila (Emma Watson), jovem que adotaram quando criança e que torna-se companheira de Sem.
Eles vestem-se em camadas sobrepostas de trajes confeccionados em tecidos rústicos e desgastados. As formas são ajustadas e contemporâneas, blindando-os contra as intempéries do clima, em uma natureza que foi dilapidada pelos humanos.

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Os tecidos são artesanais, confeccionados em tear ou tricotados, com matérias primas vegetais, como algodão e linho. Eles são utilizados de forma mesclada, criando-se textura visual para as roupas. Costuras feitas à mão são visíveis. A paleta de cores possui variações bastante sutis e o belo trabalho de tingimento, realizado pelo artista Matt Reitsma, é perceptível, com a obtenção de suaves variações de tons de marrom, creme, cinza e mesmo um certo tom arroxeado sempre presente nas roupas de Naameh.

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É interessante perceber esse uso de tecido de origem vegetal pela família de Noé, pois isso casa com o conceito da trama de que eles seriam vegetarianos, respeitando, assim, o restante da obra do Criador. Dessa forma, as botas de couro que vestem parecem contraditórias dentro do próprio conceito criado para o filme.

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Em contraste com eles, temos os descendentes de Caim, liderados por Tubal-Cain (Ray Winstone). Esses humanos demostram pouco respeito ao restante da Criação, fazendo uso desenfreado de tudo que está ao seu redor e consumindo os recursos naturais. Percebe-se que utilizam não só trajes feitos de couro (já que consomem carne), mas também, devido aos seus instintos bélicos bastante aflorados, adornados de metal, como proto-armaduras.

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Traje de Tubal Cain em desenvolvimento. Fonte: tyrannyofstyle.com

Traje de Tubal Cain em desenvolvimento. Fonte: tyrannyofstyle.com

Recheada de gnosticismo, em Noé Darren Aronofsky criou uma versão interessante, forte e intensa para a história que sempre lhe intrigou. O figurino de Michael Wilkinson não se destaca pela beleza particular das peças, mas sim pela qualidade do trabalho artesanal e pela coerência com o universo criado para a história.

Noé (Noah, 2014)

O antropólogo alemão Franz Boas afirmou que o mito tem origem histórica e se baseia no cotidiano do próprio povo que o criou. Por outro lado, defendeu que ele pode se espalhar através de difusão para outros povos que tenham proximidade geográfica. Ainda assim, seria possível encontrar relatos similares entre povos sem contatos anteriores, mesmo que sem uma causa primária semelhante ou uma significação semelhante. Grande parte dos povos da antiguidade buscavam se fixar nas proximidades de rios, porque facilitava a obtenção de água e alimento. Assim, eventualmente, uma cheia periódica poderia ser maior do que as normais, levando a busca por uma explicação que geraria diversos mitos de dilúvios. Um deles é o mito judaico, também presente na crença cristã. O fato desta história ter significado religioso para grande parte da população ocidental é provavelmente o maior ponto gerador de falta de compreensão relacionado ao filme Noé, dirigido por Darren Aronofsky.

Primeiramente é preciso ressaltar que o filme não é uma adaptação diretamente da história bíblica, mas sim de uma reimaginação feita para quadrinhos pelo próprio Aronofsky. De qualquer forma é preocupante a falta de entendimento do que significa a palavra “adaptação”, ou, pior, a falta de entendimento seletiva, visto que adaptações de outras mitologias raramente geram controvérsias quando ocorrem alterações em relação à fonte.

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Dito isto, Noé é sim um belíssimo filme. Falho, certamente, mas forte e interessante. O personagem-título, interpretado por Russel Crowe, da décima geração após Adão, acredita estar recebendo em sonhos mensagens do Criador (chamado desta forma ao longo de todo o filme). A humanidade estava destruindo a criação e a solução para isso seria removê-la da Terra através de um Dilúvio e  então recomeçar. O mundo se divide entre os descentes de Caim, liderados por  Tubal-cain (Ray Winstone), e os de Seth, terceiro filho Adão e Eva. A família de Noé seria a última dessa linhagem. Ele seria o escolhido para executar essas ordens e construir uma grande arca para abrigar sete pares de cada animal puro e dois pares de cada animal impuro, de maneira a repovoar o planeta. Uma das diferenças entre os descendentes de Seth e os de Caim é que os segundo alimentam-se de carne, por acreditar que esta lhe dá força, enquanto os primeiros apenas se alimentam de ervas e frutas. Embora tenha visto muitas reclamações a respeito desse retrato, ele seria biblicamente apurado na interpretação literal, visto o ser humano foi criado (em uma visão bastante antropocêntrica) para reinar (cuidar e proteger) sobre os animais e só receberia autorização para se alimentar deles após o dilúvio, quando grande parte da vegetação morreu submersa. Por isso a ordem de levar sete pares dos animais puros, que são os animais “kosher”, aqueles aptos a serem ingeridos na tradição judaica.

Matusalém (Anthony Hopkins), avó de Noé, aparece aqui como uma espécie de conselheiro da família. Quando Noé está em dúvida sobre como prosseguir, consulta-o e este o entrega uma bebida que afirma ser um chá, bastante escuro. Impossível não pensar, neste momento, nas religiões baseadas na ayahuasca, em que o chá é bebido e a pessoa passa a ter mirações (visões), sendo que uma cobra brilhante é presente em diversos relatos, tendo especial significação entre os povos indígenas que fazem uso ritual. Não é de se estranhar, visto que o filme parece tomar uma vertente bastante gnóstica do mito, cheia de dualismos místicos. Noé novamente adormece para então ver uma serpente cintilante, aquela do Jardim do Éden e então receber a confirmação das ações a serem tomadas. A serpente vem, depois, a ter importância simbólica, quando seu couro é utilizado para simbolizar a liderança da humanidade através dos primogênitos, enrolado ao braço com um tefilin da tradição judaica.

Repetidamente flashes de imagens da maçã, da serpente e de Caim matando Abel, acompanhadas de um ruído agudo, se inserem em meio à narrativa. Ao mesmo tempo mostram um passado da humanidade que parece nos destinar ao erro e um momento em que a estética de Aronofsky se faz fortemente presente, pois esse tipo de corte rápido, quase publicitário, costuma aparecer em seus filmes. Aliás, em se tratando de autoralidade, não é difícil de perceber a mão do diretor atuando por trás da produção, apesar de se tratar de um filme de estúdio. Outra sequência, também belíssima, é aquela em que Noé conversa com sua esposa Naameh (Jennifer Connelly) e vemos apenas seus perfis negros contra um céu colorido de entardecer. Além dessas, destaco também o relato dos sete dias da criação, em que este fala “no princípio não havia nada” e à partir daí vemos os animais evoluírem em tomadas que parecem animações em quadro a quadro, até a criação dos humanos, seres etéreos e iluminados que viviam no Éden. (Essa é, novamente, uma visão gnóstica, em que somos criados na luz e adquirimos carne e peso material apenas após a expulsão).

Para sua empreitada, Noé conta com o auxílio de gigantes de pedra, que na verdade são os anjos caídos, que não receberam perdão do Criador por querer ajudar os humanos após a expulsão do Éden. Embora cause estranhamento, gigante filhos de anjos caídos e humanas são mencionados na Gênesis da Bíblia. Aqui eles auxiliam no desmatamento da floresta enviada pelo Criador para fornecer madeira à construção da arca e no próprio feitio. Seu visual é bastante interessante, parecendo mover-se, com desconforto, de uma forma que se assemelha ao stop motion de Ray Harryhausen. Aos poucos os animais vão migrando e chegando até o grande barco. Em muita cenas a computação gráfica deixa a desejar e a aparência deles não é crível.

Além de Noé e Naameh, a família é composta por Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll), além de Ila (Emma Watson), jovem que encontraram com um ferimento no abdômen quando criança, adotaram e tornou-se companheira de Sem. Em virtude de seu ferimento, acreditava-se que Ila seria estéril. Por sua vez, Cam, mostrava-se preocupado com a falta de uma esposa para ele, o que acarretou graves desentendimentos entre ele e o pai. Antes de começar as cheias, Matusalém abençoa Ila e reverte sua aparente infertilidade. Já durante o dilúvio, quando lhe é relatado o acontecimento, Noé se enfurece, pois passara a acreditar que estava nos planos divinos que a humanidade fosse extinta para que o restante da criação pudesse viver sem perturbação. Assim, seus filhos seriam os últimos homens da terra. Em um momento bastante inspirado na história de Abraão, Noé pega uma faca para matar as crianças que nasceram de Ila. Mas ao contrário da história que inspirou esse momento, este não é um teste de fé ditado pelo próprio Criador: trata-se de um momento de soberba extrema em que, considerando-se o enviado, passa a criar possíveis interpretações para as mensagens que afirma ter recebido em sonho. É o poder do auto-convencimento e o senso de importância se manifestando.

Dessa forma, pode-se dizer que o filme tenha três vilões: a humanidade que destruiu as demais formas de vida e destrói a si mesma em lutas violentas pela sobrevivência; o Criador, que não possui misericórdia e ordena matanças de inocentes por achar que algo deu errado em sua própria criação; e por fim, o escolhido, um homem tão falho quanto aqueles que condenou à morte, à imagem e semelhança de seu Criador.

O filme não se poupa de retratar a “Vergonha de Noé”, trecho do mito que já apareceu em diversas obras de arte ao longo da história e que explica a divisão da humanidade em tribos diversas após o dilúvio.

A Bebedeira de Noé (1508-1812), afresco de Michelangelo

A Bebedeira de Noé (1508-1812), afresco de Michelangelo

Embora tenha sido pungente a forma como Naameh pediu desculpas a Ila ao informar que havia tido duas meninas, não deixa de ser significativo o discurso ao final de que essas duas serão as responsáveis por recomeçar a humanidade. É revigorante ver que a culpabilização das mulheres, tão fortemente marcada na mitologia judaico-cristã, aqui é contrabalançada pela esperança em relação ao futuro colocada em duas inocentes meninas. O arco-íris ao final marca as pazes feitas entre Criador e criaturas.

Um grande erro do filme é, especialmente do meio para o fim, perder-se em certas cenas excessivamente melodramáticas. As cenas de luta corpo a corpo também mostram-se bastante desnecessárias no contexto geral. Mas, fora isso e o fato de ter um CGI nem sempre competente, trata-se de uma narrativa forte e intensa, recheada de belas cenas e atuações competentes. Não está nem perto de ser a maior realização de Aronofsky, mas ainda é uma obra a ser admirada. Noah-poster