9 anos de Estante da Sala

Eis que o Estante da Sala chegou ao 9º aniversário! No dia 5 de fevereiro de 2009 eu publiquei o primeiro post: uma receita de massa caseira de pizza. Quê? Como assim? Bom, quem acompanha esse espaço por mais tempo sabe que esse nome veio porque eu queria escrever sobre um pouco de tudo: compilar minhas receitas, escrever sobre o que estava lendo, jogando, assistindo, enfim, sobre o que passasse pela cabeça. Até tutorial de costura eu planejei fazer. Foram idas e vindas nesse bloguinho descompromissado e períodos mais ou menos ativos. Depois de todo esse tempo praticamente só sobrou o cinema e um ou outro livro pontual.

O primeiro texto sobre cinema foi sobre foi Milk- A Voz da Igualdade, logo no dia 8. De certa forma isso foi o prenúncio do que viria a ser meus interesses ao longo dos anos: me tornei pesquisadora sobre gênero e diversidade, as questões queer viraram um ponto de interesse e o corpo se colocou como objeto de estudo que agora trago comigo para o doutorado.

Acho que a questão do aprendizado tem andado lado a lado com o blog. Primeiro porque escrever é uma prática contínua. Quantos textos ruins uma pessoa precisa redigir para conseguir extrair de si um satisfatório? E eu passei por fases, uma delas que incluiu postar um parágrafo sobre todos os filmes que eu assisti, o que significava basicamente escrever todo dia. Depois percebi que isso me garantia a prática na quantidade, mas me privava de analisar com maior profundidade filmes que pudessem ser mais interessantes. E aí fui diminuindo a periodicidade e aumentando o tamanho dos textos, até chegar ao número atual de uma a três críticas por mês, com sorte.

Hoje eu lamento não ter mais tempo para me dedicar ao blog, que de certa forma nunca conseguiu ter a minha total atenção. Nesse momento, dividida entre o doutorado e a produção do Feito por Elas, não escrevo o quanto gostaria, mas ele continua aqui, firme e forte para quando preciso de um espaço para as palavras.

Como uma forma de comemorar essa data, trago a você que está lendo os 9 textos sobre figurino (lembra dessa fase?) e as 9 críticas mais acessados da história do blog (mas nem tanto, porque na verdade no meio ele mudou para .com e zerou as estatísticas) . Obrigada a todo mundo que ainda acessa esse espaço e

Figurino e direção de arte:

9º Figurino: … E o Vento Levou

8º Figurino: X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

7º Figurino: Oz, Mágico e Poderoso

6º O Grande Hotel Budapeste, cores e perspectivas

5º Figurino: Precisamos Falar Sobre o Kevin

4º Figurino: Cinderela

3º Personagens Femininas e Seus Figurinos em Filmes de Ação

2º Figurino: Malévola

1º Figurino: Frozen- Uma Aventura Congelante

Críticas:

9º A Chegada (Arrival, 2016)

8º O Duque de Burgundy (The Duke of Burgundy, 2015)

7º Aquarius (2016)

6º Mulher Maravilha (Wonder Woman, 2017)

5º O Regresso (The Revenant, 2015)

4º A Bruxa (The Witch: A New-England Folktale, 2015)

3º Ninfomaníaca: Volume 1 e Volume 2 (Nymphomaniac: Vol. I and Vol. II/ 2013)

2º Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015)

1º Mãe! (Mother!, 2017)

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Category: Cinema, Recados

Filmes assistidos em janeiro

A atriz Zhang Ziyi, de 2016, apoiada com as costas em uma parede segurando um telefone na mão enquanto olha o chão. usa um vestido justo e listrado em tons escuros, um casaco preto sobre os ombros e um relógio de pulso pequeno com pulseira fina no pulso esquerdo.

Socorro que já acabou o primeiro mês do ano! Estou com leituras atrasadas para a tese e pensando seriamente em não escrever sobre nenhum dos indicados ao Oscar dessa vez. Que peso na consciência! Falando em Oscar, resolvi fazer o desafio de ver todos os filmes vencedores na categoria “Melhor Filme” (#ProjetoBestPicture) e talvez rever uns que já vi há muito tempo. Bom, nem bem comecei e já estou falhando miseravelmente, atrasada em uns três filmes. Também voltamos das férias de gravação do Feito por Elas e por isso já começamos o ano vendo e revendo os trabalhos de algumas diretoras. Fora esses filmes listados, assisti à 4ª temporada de Black Mirror e como quase todo mundo, fiquei um pouco decepcionada. Mas vida que segue. Abaixo listo os filmes assistidos no mês com minha nota subjetiva e pessoal.

Oscar:

Eu, Tonya (I, Tonya, 2017) ★★★★

O Artista do Desastre (The Disaster Artist, 2017) ★★½

Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi (Mudbound, 2017) ★★★★½

A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) ★★★★½

Todo o Dinheiro do Mundo (All the Money in the World, 2017) ★★★

Três Anúncios para um Crime (Three Bilboards Outside Ebbing Missouri, 2017) ★★★

 

#ProjetoBestPicture

Melodia da Broadway (The Broadway Melody, 1929)  ★★

Forrest Gump: O Contador de Histórias (Forrest Gump, 1994) ★★

 

52 Films by Women:

Os Filhos da Meia Noite (Midnight’s Children, 2012) ★★★

 

Dee Rees para Feito por Elas:

Bessie (2015) ★★★½

 

Kathryn Bigelow para Feito por Elas:

Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2008) ★★★★

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, 2012) ★★★

Detroit em Rebelião (Detroit, 2017) ★★★★

 

Mia Hansen-Løve para Feito por Elas:

Tout est Pardonné (2007) ★★★½

O Pai dos Meus Filhos (Le Père de Mes Enfants, 2009) ★★★½

Adeus, Primeiro Amor (Un Amour de Jeunesse, 2011) ★★★★

O Que Está por Vir (L’avenir, 2016) ★★★★

 

Lançamentos:

Lou (Lou Andreas-Salomé, 2016) ★★★½

Pela Janela (2017) ★★★½

 

Documentários:

Amanda Knox (2016) ★★★½

Cuba and the Cameraman (2017) ★★★½

The Death of Marsha P. Johnson (2017) ★★★

 

Demais:

A Roda da Fortuna (The Band Wagon, 1953) ★★★★

A Cor do Dinheiro (The Color of Money, 1986) ★★★

Columbus (2017) ★★★★

120 Batimentos por Minutos (120 Battements par Minute, 2017) ★★★★

2046- Os Segredos do Amor (2046, 2004) ★★★★★

Thor: Ragnarok (2017) ★★★½

Frankenstein (1931) ★★★½

29 filmes assistidos

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Visages Vilages (2017)

Postado originalmente em 9 de novembro como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 


Agnès Varda é sem dúvida uma figura cativante. Aos 89 anos, dos quais mais de sessenta foram dedicados ao cinema, a diretora vive uma fase de reconhecimento pleno e foi homenageada com um Oscar honorário por sua trajetória, fato que ironiza, uma vez que mesmo esse seu filme mais recente foi realizado através de financiamento coletivo, como pode ser conferido logo nos agradecimentos dos créditos de abertura. E agora esse mesmo filme foi indicado na categoria de Melhor Documentário, sua primeira indicação ao Oscar. Mas a incansável senhora de cabelo bicolor é uma colecionadora de pessoas e suas histórias, transformando-as em suas deliciosas narrativas audiovisuais.

Em seu novo documentário firmou parceria com o fotógrafo e artista JR. O jovem costuma viajar em seu furgão devidamente adesivado com a imagem de uma câmera fotográfica na lateral e tirar fotos de pessoas comuns, que são impressas e muitas vezes aplicadas a grandes elementos verticais, como muros e paredes, criando murais. Varda resolve acompanha-lo pelos vilarejos do interior da França e coletar os rostos das pessoas que conhece pelo caminho, enquanto entabula diálogos com elas.

A primeira, Jeannine, é uma senhora que mora em um antigo conjunto de casas de mineiros, profissão exercida por seu pai. Ela diz que não pretende sair da casa, por mais que seja pressionada, sendo a última moradora (como uma Clara em seu Aquarius). É homenageada com um painel que cobre toda a fachada. E esse é só um exemplo: Varda está interessada nos pequenos detalhes das vidas das pessoas, mas traz também momentos da sua própria, além de um olho treinado para a visualidade, que compõe cenas belíssimas, com humor e sensibilidade sempre presentes, das pessoas, das obras, das paisagens e de sua combinação.

JR é um bom contraponto a ela: às vezes pesa um pouco a arrogância e o excesso de certezas da juventude, mas seu desejo de embarcar integralmente no projeto se mostra efetivo. Além disso, apesar da diferença geracional, a comunicação entre os dois é bonita de se observar. Mas no final das contas, o filme funciona essencialmente por causa de Varda. Essa figura simpática e carismática, que produz encantamento por onde passa e, apesar de algumas limitações físicas, ainda se preocupa com o criar. O resultado é um filme leve, que faz rir e chorar e a reafirmação de seu talento. O mundo precisa de mais Vardas: pessoas com alma intensa, que respiram arte e sabem transmiti-la.

Selo "approved Bachdel Wallace Test"

Nota 5 de 5 estrelas

 

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Lou (Lou Andreas-Salomé, 2016)

Lou Andreas-Salomé. É provável que você, assim como eu, nunca tenha ouvido falar desse nome. E isso é mais do que sintomático. Louise von Salomé foi uma romancista, filósofa e psicanalista. Roteirizado (juntamente com Susanne Hertel) e dirigido por  Cordula Kablitz-Post, o filme que leva seu nome se propõe a relatar um pouco de sua biografia.

A protagonista é retratada em diversas idades. Quem rememora sua história é ela mesma, aos setenta e dois anos (Nicole Heesters). Nascida em 1861, aos seis anos (Helena Pieske) queria ter as mesmas liberdades que eram oferecidas a seu irmão. Aos dezesseis (Liv Lisa Fries) se instruiu aprendendo filosofia e teologia com um tutor. Já adulta (Katharina Lorenz), cursou faculdade, um feito raro, dificultado à maior parte de suas contemporâneas. Aos vinte e quatro anos publicou seu primeiro romance. Para consegui-lo, precisou utilizar um pseudônimo masculino. Nessa fase de sua vida, o filme foca no ambiente movimentado de intelectualidade que ela costumava frequentar. Assim ficamos sabendo de seu relacionamento com Nietzsche e Paul Rée, de seu romance com Rainer Maria Rilke, das aulas que recebeu de Freud. Em certo momento ela fala que a falta de espaço para uma mulher se desenvolver é tão ruim como a de liberdade para um homem. Por meio de seus estudos e de seus relacionamentos refletiu sobre questões da mulher, erotismo e sexualidade. Como cinebiografia, Lou utiliza uma estrutura narrativa bastante tradicional. Esteticamente o elemento que chama atenção são as transições, feitas com o uso de postais de cada época e lugar e a inserção de sua protagonista neles. Destaca-se o humor e a forma reverente, mas não rígida com que a personagem é tratada.

E aí divago. Quando eu tinha doze anos, aspirante a escritora, visitei Lindolf Bell, um poeta que eu admirava. Mais tarde, no mesmo ano, pouco antes de falecer, ele me presenteou com um exemplar de Cartas a um Jovem Poeta, do próprio Rilke. Nessa época, proto-feminista, eu costumava dizer que era poeta, e não poetisa, porque poesia não tem gênero. Hoje, feminista com um tempo de estrada, digo que literatura tem, sim, gênero, e ele fica patente nesses pequenos detalhes. É claro que minha referência naquela idade era Bell (embora a escritora que eu mais lesse fosse Agatha Christie). É claro que o autor escolhido por ele para me presentear foi Rilke. (Não estou o criticando pessoalmente). Mas é triste ver como vivemos em uma estrutura social onde a arte ainda é masculina e naturalizada como tal. E facilmente uma pessoa pode passar anos sem nem perceber que simplesmente não lê obras que foram escritas por mulheres. Eu poderia ter lido um romance de Lou, se ela pelo menos sua obra tivesse sido traduzida para o português, e assim ter tomado conhecimento de uma mulher inspiradora e que vivia envolta às letras, como eu desejava fazer. Mas não. Restou-me Rilke. Não conhecia Lou, não conhecemos Lou, deixamos passar despercebido o trabalho de tantas mulheres.

Lou pode ser convencional, mas ainda assim impressiona. E impressiona, talvez, mais por esses elementos extra-filme do que pelo filme em si. Basta pensar em todos esses homens que a rodearam: Nietzsche, Rilke, Freud. Eles são absolutamente célebres: mesmo alguém que nunca leu nenhum de seus trabalhos, reconhece seus nomes e sua importância. E como não a conhecemos? No final é necessário uma mulher escrever e dirigir um filme como esse  pra que o público conheça outra mulher. E de certa forma é um pouco decepcionante, depois de toda a trajetória de vida apresentada, não conseguir tomar forma do que realmente era o trabalho de Lou por meio da película, que foca justamente nessa sucessão de homens célebres. Mas não deixa de ser interessante e mesmo necessário.

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

Nota: 3,5 de 5 estrelas

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The Square: A Arte da Discórdia (The Square, 2017)

Postado originalmente em 10 de novembro como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 

O aguardado vencedor da Palma de Ouro em Cannes é outra obra provocativa do cineasta sueco Ruben Östlund. Dessa vez seu alvo é o mercado da arte, representado aqui por Christian (Claes Bang), um diretor de museu extremamente preocupado com sua imagem pessoal e com a relevância midiática de seu local de trabalho.

O primeiro ponto levantado pelo filme diz respeito ao que é a arte. Em determinado momento se pergunta: uma bolsa colocada em uma exposição é arte? Esse tipo de questionamento já é antigo e um tanto enfadonho: desde centenária Fonte de Duchamp já está mais do que debatida. Mas existe aqui um certo moralismo no posicionamento utilizado no filme a respeito da arte contemporânea, não entendida em seu processo, apenas em sua efemeridade. Ela é representada na obra Square (Quadrado), que dá nome ao filme. O Quadrado é espaço delimitado com mangueira de LED no chão no formato especificado. Seu interior, conceitual, é um espaço de cuidado e confiança, onde todos têm obrigações e direitos iguais.

Como a igualdade é um atributo que (teoricamente) não é polêmico, a equipe de marketing do museu tem dificuldade em criar uma campanha que possa engajar as pessoas. Segundo um criativo, se o espectador não for pego nos primeiros dois minutos de um vídeo, ele o abandona. Por isso resolvem fazer um vídeo publicitário polêmico, que viralize nas redes sociais. Ao contrário de Haneke, Östlund demonstra conhecer os preâmbulos da internet, como ele mesmo provou ao filmar um vídeo (que por acaso também viralizou) em que interpreta sua própria reação ao vivo ao não se indicado ao Oscar por Força Maior, mostrando a pretensa sinceridade que as pessoas querem ver. Aqui ele discute as diferenças entre arte e publicidade e até que ponto as pessoas estão dispostas a ir em se tratando de chamar atenção para seu produto.

Por fim existe uma discussão que diz respeito à empatia. Uma instalação do museu onde o protagonista trabalha traz a pergunta “você confia nas pessoas?” e cada um vota sim ou não. Em determinado momento é possível ver que o painel de votos tem cerca de dez vezes mais para o “sim”. Mas embora esse discurso do cuidado seja constantemente utilizado, ele é desmentido nas ações: ajudar uma pessoa pela adrenalina e ainda assim se ver traído nesse ato; ignorar os pedintes e moradores de rua; ter medo de outras pessoas apenas em virtude do lugar onde moram; desconfiar que quem se aproxima de você está querendo aplicar um golpe. Christian muito fala, mas erra um tanto quando se trata de se relacionar com outras pessoas. No final, é fácil argumentar sobre arte marcada pela confiança, quando esta permanece no campo do discurso.

Muito se falou como The Square questiona o limite da arte, e mesmo da arte performática e da própria liberdade de expressão. Mas embora esse seja um dos pontos centrais do filme, ele funciona melhor quando aborda as dinâmicas sociais de relacionamento. Com um humor ácido, pontuado pelo uso da música Ave Maria, que dialoga como o nome do protagonista do mesmo modo como suas ações criam antíteses com ele, a narrativa é mais eficiente em sua primeira metade, no sentido de deixar claro o que pretende dizer. O resultado é uma obra provocativa e instigante.

Nota: 4 de 5 estrelas

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