A Criada (Ah-ga-ssi, 2016)

Perverso e delicioso, A Criada, novo filme dirigido por Park Chan-Wook, se desenrola em camadas, brincando inescrupulosamente com as expectativas de quem o assiste. Adaptado da novela Fingersmith, de Sarah Waters, trata da história de um golpista que se passa por um conde chamada Fujiwara (Jung-woo Ha) para casar com a senhorita Hideko (Min-hee Kim), uma jovem herdeira, com a ajuda de Sook-Hee (Tae-ri Kim), uma batedora de carteiras que posiciona como a criada pessoal do título e por quem a primeira se apaixona. A história original se passa no contexto do rígido sistema de classes vitoriano, e aqui é transposta para a Coréia do Sul sob ocupação japonesa, sendo as classes substituídas pelas relações travadas entre as nacionalidades. Nessa versão, Kouzuki (Jin-Woong Jo), o tio de Hideko quer casar-se com ela para ficar com sua fortuna. O conde é contratado por ele para que falsifique livros antigos que a sobrinha lê em sessões fechadas para cavalheiros colecionadores e curiosos. O tio, de origem coreana, nutre ainda um apreço intenso pela arquitetura e outros elementos da cultura japonesa, que considera de estirpe superior, e ao mesmo tempo pelos costumes britânicos. Esse detalhe levanta pontos a respeito da relação entre ocidente e oriente, bem como das complexas conexões regionais entre os países.

Mas o subtexto mais interessante do filme sem dúvida é o que trata de gênero. Hideko foi criada para ser um belo objeto sexual, sem desejos próprios, pronta para encantar o olhar masculino e agradar apetites com pendor artístico. As mulheres no passado das protagonistas aparecem como tendo opções limitadas: o casamento (que costuma ser uma prisão, como certo personagem afirma em determinado momento), a morte no parto, a loucura ou o suicídio. Essas opções oscilam entre a adequação e aceitação de seu papel social ou a dificuldade em lidar com ele, o desespero e a negação. Hideko, ao ser cortejada pelo conde, é apresentada à essa última solução como um presente de casamento: a morte como uma forma de fugir de um destino pior. Mas ela e Sook-Hee quebram esse ciclo e se tornam donas de suas ações e vidas. Literalmente rasgam a erótica que lhes foi imposta e que nada de prazeroso lhes fornecia, se recusando a entregar o que era esperado e explorando mutuamente seus corpos e outros prazeres.

A câmera despe momentos de intimidade que, com duas jovens e belas protagonistas, poderiam flertar com o pornográfico, mas o que prevalece é um erotismo que não tira a agência das personagens em prol de uma mera estetização. Um banho, um dente raspado com um dedal, uma troca de olhares, um robe branco com manchas vermelhas evocando a perda da virgindade: são nos detalhes que o erotismo ganha força, muito mais que nas cenas de sexo. É perceptível na forma como a trama se desenrola que a história foi escrita por uma mulher (algo que não acontece em Elle, de Verhoeven, por exemplo). De qualquer forma, o que funciona como erótico para alguém, seja personagem ou espectador, pode não funcionar para outrem, como mostra uma cena em que o conde se deita em uma cama coberta de dinheiro, demonstrando que aquele é o maior prazer que pode querer almejar. Esse e outros momentos de humor são pincelados ao longo da história de maneira bastante eficiente.

O visual, como nos trabalhos anteriores do diretor, é um ponto forte. A fetichização de elementos visuais, como a amarração de sapatos de couro marrom, que podem fazer paralelo com a de um corpete e as luvas de couro de Hideko em cores diversas contribuem para com a atmosfera de BDSM que perpassa a narrativa. A direção de arte entrega cenários e figurinos belíssimos. Outro destaque é a trilha sonoro e uso de elementos sonoros que se sobressaem aos demais. A direção sempre competente do diretor realça as qualidades narrativas da história original. Essa qualidade é facilmente perceptível quando o filme é comparado à minissérie britânica Fingersmith: lá a trama é interessante e as atuações competentes, mas aqui são elevados a um outro nível de expertise quando se trata dos detalhes e elegância no tratamento da estética utilizada.

Com reviravoltas e repleto de protagonismo feminino, A Criada constrói de maneira eficaz sua atmosfera de suspense, resultando em uma obra erótica e provocativa. Os defeitos que o filme poderia ter se anulam na beleza e na precisão da forma e do ritmo que compõe a trama. Park Chan-Wook mais uma vez realiza um belo filme.

Dicas Netflix Janeiro

Foram tantos filmes bacanas entrando no catálogo da Netflix nos últimos dias que as indicações desse mês são apenas de lançamentos ou retornos. Os links levam diretamente aos filmes no serviço de streaming.

Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1985)- Escrevi sobre esse filme aqui

A Mosca (The Fly, 1986)

Hook: A Volta do Capitão Gancho (Hook, 1991)

Clássico da Sessão da Trde, dirigido por John Hughes, o filme sobre angústias adolescentes Clube dos Cinco continua atual.

Sintonia de Amor (Sleepless in Seatle, 1993)

Vida de Inseto (A Bug’s Life, 1998)

Um Lugar Chamado Notting Hill (Notting Hill, 1999)

Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, 2001)

Um Lugar Chamado Notting Hill, romance típico dos anos 90 estrelado por Julia Roberts e Hugh Grant.

Cisne Negro (Black Swan, 2010)- Escreve sobre esse filme aqui

Conspiração e Poder (Truth, 2015)- Escrevi sobre esse filme aqui

Um Cadáver Para Sobreviver (Swiss Army Man, 2016)- Escrevi sobre esse filme aqui

Sing Street (2016)

Cisne Negro, dirigido por Darren Aronofsky, é um filme maravilhoso que lida com a temática da obsessão e do perfeccionismo.

Bons filmes e até o mês que vem!

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Um Cadáver Para Sobreviver (Swiss Army Man, 2016)

Um Cadáver Para Sobreviver chega ao Brasil diretamente em homevideo, disponibilizado na Netflix. Dirigido por Dan Kwan e Daniel Sneinert (conhecidos como Daniels), o filme conta a história de Hank (Paul Dano), um rapaz que conhecemos perdido em uma ilha deserta, sozinho e tentando se matar, até que encontra o corpo já sem vida de Manny (Daniel Radcliffe). Com a ajuda das múltiplas utilidades que descobre ter o morto (e daí vem o título original, referindo-se a um canivete suíço), Hank decide tentar sobreviver e reencontrar Sarah (Mary Elizabeth Winstead) uma moça que acha bonita e que costumava observar no ônibus antes de parar naquele lugar. A amizade entre os dois homens pode parecer improvável, afinal um deles não responde mais por si, mas na imaginação de Hank ganha forma, garantindo-lhe forças para continuar através da construção de um mundo lúdico e de grande beleza.

A narrativa é permeada de humor escatológico e infantil, utilizado sem refinamento, mas esse contrasta com a delicadeza com que todo o resto do mundo de ideias pautadas na esperança é construído. A bem da verdade Hank não conhece Sarah, mas a imagem dela lhe permite sonhar. Trata-se de uma idealização do amor romântico, bem como da mulher que é alvo dele, que leva a comportamentos socialmente questionáveis, ainda que tratados com doçura juvenil. Por isso faz todo sentido a escolha da atriz Mary Elizabeth Winstead para o papel de musa do protagonista, uma vez que ela mesma é colocada como esse ideal inalcançável por muitos jovens autointitulados nerds, especialmente depois do filme Scott Pilgrim contra o Mundo, em que interpreta Ramona, outra amada idealizada pelo protagonista. O filme permite que o espectador tenha empatia por uma pessoa com comportamento perseguidor e o que na vida real seria um senso de merecimento masculino bastante tóxico, mas que aqui é relevada pela forma bonita e distorcida como o próprio personagem enxerga o mundo.

Nesse sentido funciona muito bem com uma sessão dupla com As Vozes (The Voices, 2014), de Marjane Satrapi, outro filme que nos mostra com empatia um homem com comportamentos abusivos em relação às mulheres: dessa vez um serial killer que acredita que não mata por que quer, mas sim porque suas vítimas pedem. Nessa outra película, também mergulhamos em um mundo lúdico, de boas intenções e de beleza, enxergado pelo ponto de vista do protagonista. A diferença principal é que, talvez por ser dirigido por uma mulher, há a preocupação de descortinar o mundo real sombrio do personagem antes do desfecho. É como se em Um Cadáver Para Sobreviver se mostrasse o ponto de vista de Sarah, a mulher perseguida, já que aqui a obsessão de Hank é romantizada.

Com boas pitadas de humor, inventivo e poético, todo o segundo ato do filme é um mergulho em sentimentos ambíguos, por meio de uma expressão artística intensa, providenciada por uma direção de arte hipnótica e encantadora. Poucos filmes se permitem explorar de maneira tão intensa as possibilidades de expressão artística que os objetos em cena permitem. O terceiro ato perde em partes sua força criativa, mas não diminui o resultado final.

Há quem diga que o cinema está morto. O público certamente pode não querer ver a história de um cadáver que literalmente peida em cena, mas se aceitar o desafio pode se impressionar com o cuidado quase que de trabalhos manuais colocado com carinho nessa narrativa. Um Cadáver para Sobreviver peida, mas é mágico.

Filmes assistidos em Dezembro

Em primeiro lugar, feliz ano novo a você que lê esse blog! Fechei o ano e tem sido complicado manter o ritmo de filmes a assistir. Mudei de estado, estou praticamente acampada, sem acesso à internet e entre as viagens acabei perdendo vários lançamentos. Sem internet nem Netflix está aí para dar uma aliviada. Mas com alguma sorte consigo voltar ao ~mundo virtual~ até o carnaval. Com isso fechei o ano com 316 filmes vistos, sendo desses 284 longas. Sem mais delongas, seguem abaixo os parcos filmes assistidos no mês passado e suas respectivas notas, subjetivas e de zero a cinco

Chantal Akerman para Feito por Elas:

Jeanne Dielman 23, Quai du Commerce 1080 Bruxelles (1975) ★★★★★

Toda Uma Noite (Toute Une Nuit, 1982) ★★★½

Não é um Filme Caseiro (No Home Movie, 2015) ★★★★

 

Documentários:

For the Love of Spock (2016) ★★★½

 

Repescagem do ano:

Destino Especial (Midnight Special, 2016) ★★★

O Bebê de Bridget Jones (Bridget Jones’s Baby, 2016) ★★★★

Indignação (Indignation, 2016) ★★★

Boi Neon (2015) ★★★★

O Abraço da Serpente (El abrazo de la Serpiente, 2015) ★★★★★

Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos (Warcraft, 2016) ★

O Demônio de Neon (Neon Demon, 2016) ★★★★

A Canção do Pôr do Sol (Sunset Song, 2015) ★★★★

Certo Agora, Errado Antes (Ji-geum-eun-mat-go-geu-ddae-neun-teul-li-da, 2015) ★★★★½

Eu Sou Ingrid Bergman (Jag är Ingrid, 2015) ★★★★

 

Demais: 

Cantando na Chuva (SIngin’ in the Rain, 1952) ★★★★★

 

15 filmes assistidos

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Melhores Filmes de 2016

Chegou aquele momento maravilhoso e terrível do ano: conseguir fechar uma lista de 20 melhores filmes vistos. Esse ano eu tive dois problemas com ela: o número reduzido de lançamentos assistidos por causa da minha dissertação e o a qualidade mediana deles. Levei em conta tanto filmes que passaram no cinema quanto os que chegaram diretamente em homevideo e VoD. Geralmente dedico o meu mês de dezembro para fazer uma repescagem daqueles que não consegui ver no lançamento, mas esse ano, como mudei de cidade e estou ainda sem internet, não consegui fazer isso de forma adequada. Além disso, fica patente que os poucos filmes dirigidos por mulheres no circuito comercial fora dos grandes centros. Dos dez melhores documentários que vi esse ano, oito eram dirigidos por mulheres. Já dos trinta filmes que não são lançamento, foram catorze. Nessa lista apenas um aparece. Dito isso, com esse ano mais fraco, a certeza da lista é o top 10. Depois disso os filmes mencionados poderiam trocar de posição uns com os outros. Colo junto como os escolhidos a avaliação que dei quando assisti, de zero até cinco estrelas. Filmes sobre os quais escrevi tem link para o texto no título. Para ver a lista com todos os filmes lançados esse que eu vi, clique aqui. Para ver essa lista no Letterboxd, acesse aqui.

Carol (2016)

Direção: Todd Haynes

★★★★★

Aquarius (2016)

Direção: Kleber Mendonça Filho

★★★★★

 

A Bruxa (The Witch, 2015)

Direção: Robert Eggers

★★★★★

O Abraço da Serpente (El abrazo de la serpiente, 2015)

Direção: Ciro Guerra

★★★★★

Brooklyn (2015)

Direção: John Crowley

★★★★

A Chegada (Arrival, 2016)

Direção: Denis Villeneuve

★★★★1/2

Tangerine (2015)

Direção: Sean Baker

★★★★

Amor & Amizade (Love & Friendship, 2016)

Direção: Whit Stillman

★★★★

Ave, César! (Hail, Caesar! , 2016)

Direção: Ethan e Joel Coen

★★★★1/2

Certo Agora, Errado Antes (Ji-geum-eun-mat-go-geu-ddae-neun-teul-li-da, 2015)

Direção: Hong Sang-soo

★★★★1/2

Um Cadáver Para Sobreviver (Swiss Army Man, 2016)

Direção: Dan Kwan e Daniel Scheinert

★★★★

A Piscina (A Bigger Splash)

Direção: Luca Guadagnino

★★★★

As Cinco Graças (Mustang, 2015)

Direção: Deniz Gamze Ergüven

★★★★

Demônio de Neon (The Neon Demon, 2016)

Direção: Nicolas Winding Refn

★★★★

Sing Street (2016)

Direção: John Carney

★★★★

Boi Neon (2015)

Direção: Gabriel Mascaro

★★★★

O Que Fazemos nas Sombras (What We Do in The Shadows, 2014)

Direção:  Jemaine Clement e Taika Waititi

★★★★

O Quarto de Jack (Room, 2015)

Direção: Lenny Abrahamson

★★★★

Chi-Raq (2015)

Direção: Spike Lee

★★★★

A Canção do Pôr do Sol

Direção: Terence Davies

★★★★

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