[43ª Mostra de São Paulo] Honeyland (2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Roteirizado e dirigido por Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov, Honeyland é um documentário que mergulha na rotina de Hatidze, uma mulher que vive isolada em uma aldeia no interior da Macedônia, morando com sua mãe em uma casa de pedra. O filme, vencedor do Grande Prêmio do Júri da seção World Cinema de documentários no Festival de Sundance e o candidato da Macedônia do Norte a uma vaga no prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar, destaca a forma de subsistência de sua protagonista, que cria abelhas e vende mel. Certo dia uma família composta por pai, mãe e sete filhos se muda para o terreno ao lado, com suas 150 vacas e o desejo de também coletar a substância açucarada. A dupla de diretores nos transporta para esse local, nos inserindo nos pequenos detalhes da vida frugal que sua protagonista leva. É curioso divagar como conseguiram encontrá-la para chegar a essa projeto.

Hatidze, a princípio, se alegra com a mudança. Ela fica feliz com o fato de eles serem turcos como ela, gosta da convivência com as crianças e ensina o manejo de abelhas. Mas logo fica claro que as diferenças no modo de vida são grandes demais. Ela se integra à natureza ao seu redor com extremo respeito, de uma forma quase simbiótica. A delicadeza não é reservada apenas ao seu cão e seus gatos, como geralmente se dão as relações humanas, que privilegiam animais domésticos. Ela ajuda uma tartaruga a sair de uma concavidade, usa pequenas folhas para retirar abelhas da água e evitar o seu afogamento, espanta lobos sem feri-los e, principalmente, cria as abelhas de uma maneira que não é predatória.

Sua técnica, ensinada aos vizinhos, consiste em deixá-las encher bem os favos, para só assim retirá-los; e sempre deixar pelo menos metade para elas, para que tenham o que comer e não matem uma à outra. Eles, por sua vez, logo se interessam pelo valor financeiro do mel coletado e, diante do interesse de compradores, não se furtam de colhê-lo muito cedo e de deixar muito pouco para a alimentação de suas produtoras. O valor monetário do mel não parece interessar tanto Hatidze, ainda que consiga sustentar seu modo de vida frugal com tranquilidade. Fica feliz em poder comprar bananas e uma tinta de cabelo e ainda ganhar um leque para sua mãe após uma conversa amigável que entabula com um vendedor. A brutalidade das ações dos vizinhos se estende para a relação diária com as vacas e também entre os humanos, que se agridem verbalmente com constância. Já ela por sua vez, cuida de sua mãe idosa e, embora aconteçam desentendimentos, o carinho está sempre presente.

Com sua camisa amarela cor de mel e sua saia floral, junto com o lenço colorido amarrado aos cabelo, Hatidze é uma figura marcante, e a fotografia a captura integrada ao espaço natural, seja aparecendo minúscula na imensidão do campo, seja de perfil no lindo céu do entardecer, com as cores do céu marcadas contra o negrume do contorno. Ela é uma figura forte, ainda que sua força venha justamente de sua brandura. Honeyland é um documentário contemplativo e imersivo cuja beleza, em grande medida, provém de sua protagonista.

Nota: 4 de 5 estrelas
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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