[43ª Mostra de São Paulo] Os Dias da Baleia (Los Días de la Ballena, 2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Primeiro longa da cineasta colombiana Catalina Arroyave Restrepo, Os Dias da Baleia propõe um exercício de coming of age de sua protagonista que circula por lugares que tentam se comunicar, às vezes de forma conflituosa. Cristina, que atende simplesmente por Cris, é uma jovem de classe média que vai passar algum tempo na casa do pai. A mãe, jornalista que desafia carteis em Medellín, precisou sair do país em virtude das ameças de morte. Agora pede que a filha se junte a ela na Europa, onde já tem até um quarto preparado para recebê-la.

Mas apesar do peso que carrega a mãe, Cris não tem as mesmas preocupações. Ela e seu companheiro (de relacionamento e de artes), Simón, , que é morador de uma comunidade, querem saber é de criar suas obras de grafite pelos muros. A direção de arte marca a personagem com um tom de rosa claro, pastel, que parece indicar a leveza ingênua e inconsequente com que encara o cotidiano. A banalidade das dificuldades da adolescente é marcada pela sua rebeldia vazia, que consiste em matar aulas da faculdade e alfinetar a madrasta que parece ser pouco mais velha que ela. A diferença de classe social entre os namoradores é expressa no contraste entre as casas dos dois, assim como a aparência dos bairros quando Cris anda de carro com o pai ou quando ela e Simón cortam as ruas com suas bicicletas.

É no convívio com La Selva, uma espécie de casa coletiva dedicada às artes, que chega algum peso da realidade para a garota. Sem jamais explicitar como se configuram os conflitos, a diretora deixa claro que há uma disputa por territórios acontecendo nas periferias por onde a personagem circula. Os muros transmitem mensagens, de slogans bem intencionados, como “derrube edifícios, plante árvores”, a ameças a delatores, “sapos com bocas costuradas”. Os muros têm vida, multiplicando cores e formas, mas também fazem parte dos espaços em disputa: há uma guerra por eles.

A Baleia do título é o animal preferido da mãe de Cris. Ela aparece em um quadro no futuro quarto da garota na casa nova da mãe, em um córrego, mergulhando e depois encalhada e, por fim, no meio de uma rua, atravancando a passagem dos carros. A conexão entre mãe e filha, por meio do animal, se dá quando a última passa a entender o motivo da fuga da mãe: ela picha uma enorme baleia em um muro que era vetado e aí finalmente descobre o medo e as consequências de desafiar normas não escritas.

A boa atuação de Laura Tobón no papel principal muita vezes compensa a falta de desenvolvimento para os muitos conflitos apresentados na trama. Apesar disso, os elementos fantásticos não parecem se conectar com o restante da narrativa e a ameaça latente nunca se concretiza: parece que as coisas não têm consequências para Cris, como se sua branquitude e condição financeira a blindasse daquilo que é rotineiro para os demais. (e embora isso possa ser verdade para muitas situações reais, aqui é apresentado como uma conveniência narrativa). Os Dias da Baleia acaba por não dar conta de lidar com a realidade que tenta abarcar.

Nota: 3 de 5 estrelas
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