A Palavra (Ordet /1955)

Assistido em 12/02/2014, para o curso Scandinavian Film and Television, disponível em Coursera.org. Texto foi parcialmente adaptado e traduzido de um ensaio escrito para a revista Cinema Scandinavia.

“No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus.”
João 1:1

Em A Palavra o diretor dinamarquês Carl Th. Dreyer lida com temas a respeito de fé e religião. A família Borgen vive em uma fazenda e tem uma religião insitucionalizada diferente daquela de seus vizinhos e isso cria conflitos entre eles, especialmente quando Anders revela o desejo de se casar com Anne, filha do alfaiate. Dentro da família também há diferentes crenças e aproximações sobre o conceito de deidade: Inger (Birgitte Federspiel) é bastante religiosa; seu marido Mikkel (Emil Hass Christensen) é ateu (“não tem fé nem na fé”); o pai dele, Morten (Henrik Malberg), tem uma fé bastante reservada e Johannes (Preben Lerdorff Rye), enlouquecido, acredita que é Jesus. Inger e Mikkel são casados há oito anos e ela está grávida. Muito da trama gira em torno do desejo de eles finalmente terem um menino e a cobrança de seu sogro a esse respeito.

Sobre filmes com temática religiosa, Cardullo (in Tybjerg) diz: “The fundamental requirement of an authentic spiritual style, or a religiously significant one, is that it be grounded in naturalistic simplicity, even abstraction” (O requerimento fundamental de um autentico estilo espiritual ou um de significância religiosa é que seja baseado em simplicidade naturalista e mesmo abstração, tradução minha). Dreyer segue essa interpretação e o filme é bastante minimalista e até mesmo austero (e é fácil imaginar que esse minimalismo influenciou outros diretores posteriormente, como Haneke, por exemplo). Os personagens permanecem juntos dentro de um mesmo cômodo (câmara) e são apresentados um a um e criados com profundidade. A história se constrói em torno de diálogos. Não há pressa. As cenas são produzidas com planos longos e tem um senso de realidade e ritmo lento. O filme é “Lean, quiet, deeply serious” (sem excessos, quieto e profundamente sério, tradução minha), conforme Ebert.

 Como muitos filmes escandinavos, a paisagem rural é uma alegoria, mas aqui é pouco utilizada, sendo trocada pelas cenas confinadas. Ainda assim aparece para frisar a loucura de Johannes, como um lembrete de seu estado mental selvagem.

É interessante notar como o barulho do relógio permeia todas as conversas que se passam na sala de estar, bem como o silêncio que se estabelece depois que Mikkel o para e o contexto de seu retorno ao funcionamento.

A cena final coloca o espectador em um lugar de atmosfera sobrenatural. A simetria do caixão em frente as janelas, no meio do cômodo, é artificial e esteticamente agradável. A ladainha dos religiosos que se aglomeram do lado de fora ajuda a construir uma noção de tristeza. A luz etérea que chega filtrada através das cortinas ajuda a estabelecer essa atmosfera. De acordo com Bondebjerb: “This is the scene, where all narrative conflicts are solved, and, where a more dramatic use of both editing between shots and cinematographic elements inside the shot are used in a very precise way” (Essa é a cena em que todas as narrativas são resolvidas e onde o uso de montagem entre planos e elementos cinematográficos dentro destes são usado de modo muito preciso, tradução minha). A ausência de insanidade em Johannes é contrabalançada com a inocência da menina. O beijo final não é um ato espiritual: é um beijo cheio de paixão e desejo, de urgência de viver. Todos esses detalhes influenciam a percepção do milagre, tornando-o crível e criando grande emoção.

Embora o filme demore a se mostrar plenamente, quando o faz revela-se uma obra belíssima.

“Meus filhinhos, vou estar com vocês apenas mais um pouco. Vocês procurarão por mim e, como eu disse aos judeus, agora lhes digo: Para onde eu vou, vocês não podem ir.”
João 13:33

BONDEBJERG, Ib. A Cinema of Passion: Carl Th. Dreyer – The international auteur in classic danish cinema.  Disponível em: https://www.academia.edu/5152075/A_Cinema_of_Passion._Carl_Th._Dreyer_-_an_international_auteur_in_Danish_cinema
TYBJERG, Casper. Forms of the Intangible: Carl Th. Dreyer and the concept of ‘transcendentalstyle’, in Northern Lights. V.6, 2008. Disponível em: https://www.academia.edu/265918/Forms_of_the_Intangible_Carl_Th._Dreyer_and_the_Concept_ofTranscendental_Style
Ordet. Review by Roger Ebert. Disponível em: http://www.rogerebert.com/reviews/great-movie-ordet-1955

ordet

Share

Isabel Wittmann

Catarinense, 33 anos, louca por bichos, feminista. Hoje mora em São Paulo, mas já passou uns anos no Amazonas. Crítica de cinema, doutoranda em Antropologia Social, podcaster e pesquisadora de gênero.