Hoje eu Quero Voltar Sozinho (2014)

Em 2010, Daniel Ribeiro escreveu e dirigiu um curta chamado Eu Não Quero Voltar Sozinho. Disponibilizado no youtube, o vídeo logo se tornou um sucesso boca a boca, graças a delicadeza com que a história dos três jovens protagonistas foi relatada. O sucesso foi tal que agora, passados quatro anos, ele fez um longa metragem que amplia o universo anterior (e que chegou aqui em Manaus um mês depois do resto do Brasil). Voltamos a nos encontrar com Leonardo (Guilherme Lobo), um adolescente cego que tem por melhor amiga Giovana (Tess Amorim). A eles se juntam o novo aluno do colégio, Gabriel (Fabio Audi). Os três atores atuam com grande naturalidade e não parece que esses anos passaram para eles, pois felizmente mantem a mesma aparência juvenil do primeiro filme.

Ao expandir a história original, agora temos a oportunidade de ver que Leo possui uma família extremamente preocupada e por isso, às vezes controladora, por conta de sua deficiência visual. Gi desde sempre o acompanha da escola para casa, mas ele começa a desejar independência, o que explica a mudança do título.

É interessante como ao compor o quarto de Leo, todos os móveis utilizados são antigos: sua cama com cabeceira trançada, um grande baú como criado-mudo, uma cadeira dos anos 50/60 e por aí vai. Geralmente quartos de adolescente são forrados de pôsteres e com cores forte, mas qual seria a utilidade disso para ele? Se os móveis aparentam ser modernos ou não, pouca diferença faz. Além disso ele mostra não ter interesse em coisas novas, já que ouve apenas Tchaikovsky, Bach, Vivaldi e companhia. É Gabriel quem o apresenta a música contemporânea, fazendo uso de Belle and Sebastian (cujas músicas combinaram perfeitamente com o clima do filme). Pergunto-me: os adolescentes de hoje ouvem Belle And Sebastian? Pensei que era coisa da minha geração. Mas isso vem novamente compor com o ar antigo e saudosista do filme: não fosse a presença de tecnologia atual, poderia tranquilamente se passar em qualquer outro período.

O crescimento dos personagens é abordado de maneira leve, quase ingênua. Os trabalhos em grupo da escola, as festinhas, a bebida, os amores: tudo está lá, pintado com a paleta de cores esmaecida que o filme adota, remetendo a tempos passados. Embora eles tenham seus pequenos dramas, estes parecem mais simples do que os da vida real. Afinal, amores eternos de adolescência são sempre intensos (não necessariamente doces, como nesse retrato) e nada fáceis. Mas talvez o protecionismo adotado para com os personagens é que torne o filme tão especial: é quase como rever uma época idealizada que nunca existiu (como em Conta Comigo, por exemplo).

O fato de os dois amigos se descobrirem apaixonados um pelo outro se desdobra de maneira natural, sem maiores conflitos. Mesmo o bully da escola, que provocava os dois, parece deixá-los em paz quando o motivo da provocação se confirma. A cegueira aqui parece ter mais peso que a homossexualidade. O que também não deixa de ser curioso, pois, pelo menos na minha geração, entre meu grupo de amigos, esse momento de saída de armário nunca foi uma coisa simples. Por julgar tão pouco seus protagonistas e simplificar o que poderia gerar dramas, chega a ser cruel o fato de a simpática Karina (Isabela Guasco) ser taxada por Gi de “periguete”. É um julgamento duro e uma palavra agressiva, que destoa do resto do tom do filme.

Apesar disso, é um filme incrivelmente leve e gostoso de assistir, como se sublimássemos todos os dramas de nossas próprias adolescências e pudéssemos todos ter um crescimento assim: suave, amoroso e bonito, que provoca risos e emociona.

hoje eu quero voltar sozinho

 

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  • Sem falar que o fato dele ser cego desmistifica completamente o atrelamento da homossexualidade estar ligada à promiscuidade.
    Achei genial .

    • Isabel Wittmann

      Sim! Também achei uma boa sacada. No final o que o filme mostra é que, independentemente da orientação sexual, nós amamos a pessoa por trás da aparência física.