O Som ao Redor (2012)

Assistido me 03/06/2013

Fotos antigas de uma grande fazenda, com sua casa grande e seus trabalhadores. Assim começa o filme, dando dica do que virá em seguida. Na sequência, crianças brincando em um prédio de classe média, com as babás uniformizadas por perto, todos cercados por muros. Tudo acontece na cidade de Recife e a sensação de insegurança permeia todos. Alguns instalam câmeras de segurança, outros possuem cão de guarda. Cada um lida com seus medos à sua maneira. O sentimento de vizinhança não existe. A chegada de uma equipe que oferece o serviço de vigilância particular para as ruas da região, ganhando a confiança de todos,  altera a situação.

Através da vivência nas casas e apartamentos mostrados, temos um recorte das histórias pessoais dos personagens. O protagonista, João, é um rapaz órfão, que já morou na Alemanha e está de volta trabalhando como corretor de imóveis. A sequência em que apresenta um apartamento para uma compradora em potencial e ela pergunta sobre um suicídio no prédio enquanto sua filha adolescente observa na varanda uma criança pobre jogando bola do outro lado do muro é incrível. João tem uma relação completamente “casa-grande-e-senzala” com sua empregada doméstica, Maria. Ela já trabalha para a família há vinte e dois anos e trata tudo com intimidade de quem é de casa. Na mesma sequência em que mostra o apartamento para a mulher interessada, João frisa, que ele, claro, possui quarto de empregada e o mesmo tem até janela. No apartamento de seu avô, a empregada, devidamente uniformizada, mora em quartinho no segundo andar. Assim percebemos como se processam as relações entre as classes sociais nesse contexto.

Além de João, os demais personagens montam um cenário rico vislumbrado através de pequenos detalhes de seus cotidianos. Há um quê de A Separação no filme, não pela temática, mas pela forma que esses momentos se descortinam, compondo as personagens e deixando no ar, para os que não estão familiarizados com o contexto cultural, o que seria características peculiares deles e o que seria realmente da cultura local. Uma bela colcha de retalhos composta por pessoas, medos, barulhos e cotidiano.

o-som-ao-redor