Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (Män som hatar kvinnor/ 2009 e The Girl with the Dragon Tattoo/ 2011)

Assistidos em: 07 e 08/03/2013

Eu ganhei o livro Os Homens Que Não Amavam as Mulheres no ano passado, do podcast do Cinema em Cena, e resolvi só ver suas versões cinematográficas após lê-lo, coisa que vinha adiando até agora. Primeiro livro da trilogia de sucesso do escritor sueco Stieg Larsson, ele demora para engrenar, introduzindo lentamente os personagens, e a história só começa efetivamente após a página 150!

Os protagonistas são Lisbeth Salander, uma hacker extremamente competente, com dificuldades de sociabilização e um visual que chama atenção por seus piercings e tatuagens e Mikael Blomkvist, um jornalista econômico que foi condenado à uma pequena pena na prisão por acusar um grande empresário sem provas. Lisbeth é contratada por Henrik Vanger, um industrial milionário, para investigar a vida pessoal de Blomkvist e após isso ele mesmo é contratado por um ano com a desculpa de escrever a biografia de Enrik, mas na verdade para investigar o desaparecimento e possível assassinato de sua sobrinha-neta, Harriet, cerca de quarenta anos antes. Para isso ele passa a morar na ilha dos Vanger e pesquisar todos os seus problemas e esquisitices, contando, posteriormente, com auxílio da própria Lisbeth na investigação.

Muito do que me prendeu ao livro e que me faria hipoteticamente ler as continuações, diz respeito à Lisbeth, que é uma personagem fascinante. Ela não é uma personagem fácil: é calada, não lida bem com contato de outras pessoas e fala-se sempre em seu passado problemático. Mas é compreensível, já que na narrativa vemos a pessoa mais próxima de ser uma amigo pra ela, seu tutor, sofrer um ataque cardíaco e ficar incapacitado; na sequência é estuprada pelo novo tutor e sua mãe mora em um casa de repouso e mal a reconhece. Ou seja, ela não exatamente passa por momentos fáceis. Já Blomkvist é o cara boa pinta, competente, que arruma amantes facilmente. Passada a lenta parte inicial do livro, ele se torna interessante, com uma investigação estilo “Agatha Christie”, com direito a mapa, árvore genealógica e tudo o mais. Mas conforme vamos chegando ao final (e o livro tem vários! Ocupam mais de 100 páginas!) percebe-se que a trama de mistério é muito superficial. A história também fala bastante sobre a violência contra as mulheres na Suécia, sendo que em cada início de capítulo algumas estatísticas a esse respeito são citadas. Isso porque não são apenas Lisbeth e Harriet que sofrem violência. O livro é permeado desse tipo de violência de uma forma que tenta ser um manifesto-denúncia, mas em alguns momentos acaba apenas ressaltando o elemento com excesso de descrições. Até entendo que o autor possa querer ressaltar a sensação de desconforto ao se dedicar à descrição dessas cenas, mas acaba que são os momentos de maior destaque (e incômodo) do livro.

Em alguns momentos a escrita do livro é muito ruim, especialmente no início. Os personagens falam de maneira robótica e geralmente relatando um para o outro coisas que eles deveriam saber, deixando claro que isso é apenas um estratagema para informar o próprio leitor. Nessas horas falta um narrador mais eficiente. Cheguei a pensar, a princípio, que se tratava de problema de tradução, já que a edição brasileira é traduzida do inglês, não diretamente do sueco. Mas embora existam termos que visivelmente foram traduzidos de forma equivocada (equipamentos eletrônicos “espertos”, ao invés de “inteligentes”- de smart), é a prosa que é pobre mesmo.  E por falar em tradução, é interessante que o título original significa “Os Homens Que Odiavam as Mulheres”, o título brasileiro atenuou para “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” e o americano fugiu totalmente do tema ao focar em Lisbeth, “A Garota Com a Tatuagem de Dragão”.

Sobre os filmes, existe uma versão de sueca de 2009 e uma americana de 2011. É interessante notar a diferença de orçamentos, já que a sueca custou apenas cerca de 13 milhões de dólares enquanto a americana custou 90 milhões de dólares. Não acho que nenhum deles seja melhor que o outro: realmente são adaptações diferentes, com pequenas alterações em relação ao livro, mas visões  próprias. Como história, a versão americana, que também foi rodada na Suécia, foi muito melhor adaptada. Eles incorporaram mais elementos do livro e a trama ficou mais fluida e fácil de entender. A direção também é muito boa e confesso que eu gostei muito dos créditos iniciais, que remetem a um 007 mais dark (o que é conveniente, já que quem interpreta Blomkvist é Daniel Craig). Considerando as partes que cada um incluiu e excluiu, ambos se complementam. Mas mesmo assim gostei mais do sueco por um motivo: Lisbeth. A personagem é sem dúvida o que há de mais interessante na história e o que mais ajuda a criar empatia. Na versão sueca ela é interpretada de forma multifacetada e com uma certa fragilidade por Noomi Rapace, o que a humaniza da maneira como a percebi no livro. Já na versão americana, Rooney Mara acentua um jeito inexpressivo e durão da personagem, tornando-a fria e distante demais e excluindo outras características. Até o visual da Lisbeth americana é mais extremo, com ela mais magra e com mais piercings. E essa frieza da personagem não consegue nem quebrar um dos finais do livro que foi incluído apenas na versão americana, em que ela pensa em fazer um gesto de demonstração de carinho, mas desiste. Em resumo, o livro e os filmes tem alguns pontos negativos, mas são muito bons. Ainda não sei dizer se pretendo seguir com a série.

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