Paris is Burning (1990)

Paris is Burning é o perfeito retrato de uma cultura em um local e época específicos. O documentário de 1990, dirigido por Jennie Livingston, foi filmado entre 1985 e 1989 nos bailes queer do Harlem, em Nova York. Seus protagonistas são os participantes deles, majoritariamente compostos por homens gays e mulheres trans, negros e latinos.

O filme possibilita a reflexão sobre as exclusões sistêmicas de cunho étnico-racial e de classe a que seus personagens são submetidos. Sonhando com riqueza, aceitação e uma vida melhor, eles competem em desfiles de drag em categorias como “empresário”, “estudante universitário”, “magnata do campo”, entre outras, mostrando que se ainda não ocupavam esses espaços, pelo menos poderiam se mostrar capazes de imitar a aparência que os caracteriza. É a aí que surge o conceito de realness, que é vinculado à passabilidade de cada um e cada uma dentro das categorias escolhidas. Com cortes que mostram os competidores e as pessoas de classe média andando pela cidade, o filme trata de estabelecer que todos igualmente montam um personagem.

Outra competição existente é de vogue, em que dois rivais se enfrentam em uma dança que emula as poses encontradas nos ensaios da famosa revista. Até o final das filmagens o vogue já havia se tornado mainstream e sido absorvido pelo mercado fonográfico. Pouco depois do lançamento do documentário, Madonna lança uma música com esse mesmo nome.

Os competidores são divididos em casas com uma matriarca. A estrutura funciona como a de uma família e fornece uma rede de apoio e uma identidade para cada um. De certa forma eles substituem pela cena LGBT o contato e o carinho familiar que geralmente deixam de ter quando saem do armário. Os personagens são incrivelmente carismáticos em seus relatos de vida e na abordagem de seus sonhos. Apesar de todos os problemas no mundo exterior, no baile eles brilham e são estrelas. É triste pensar que não muitos anos depois muitos deles já não estariam vivos, em virtude especialmente do HIV/AIDS, que roubou uma geração de jovens criativos e com espírito artístico.

Se você gosta de RuPaul Drag’s Race, vai perceber que foi nesse contexto que foram criadas muitas das gírias e expressões que agora, graças ao programa e sua apresentadora, chegaram ao mainstream. A assimilação contemporânea também tem a ver com o declínio da cena no começo dos anos 1990. No filme, a câmera não é invasiva e parece mergulhar quase despercebida em seu universo, capturando reflexões, desabafos, mas também força e alegria. Paris is Burning  é um documentário interessante e apaixonante como seus protagonistas.

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