Respire (2014)

Um soco no estômago. É isso que parece que Respire, dirigido por Mélanie Laurent, nos desfere em seu desfecho. A história é sobre Charlie (Joséphine Japy), uma adolescente comum que vê a dinâmica de suas amizades mudar ao se aproximar de Sarah (Lou de Laâge), a extrovertida aluna nova de sua sala. Sarah diz que mora com uma tia porque sua mãe trabalha em uma ONG na África, onde havia residido até o ano anterior.

As adolescentes e seu círculo de amigos são retratados de forma extremamente crível. A amizade, que começa porque Sarah precisa estudar para uma prova, se desenvolve cheia de altos e baixos, com muitas incertezas e medos, além de expectativas não concretizadas. Os contatos inicias se transformam em um relacionamento abusivo que culmina no gaslighting e é interessante ver esse tipo de relação construída entre duas mulheres e tão jovens.

Charlie mora com sua mãe, Vanessa (Isabelle Carré), também jovem, pois teve a filha quando ainda era adolescente. O pai (Radivoje Bukvic) vem e volta para casa, controla a companheira e é violento. Em determinado momento, Charlie pergunta à mãe por que ela sempre volta para ele. A mãe não sabe explicar: é simplesmente assim que as coisas acontecem. Essas duas relações, dos pais de Charlie e dela com Sarah, são usadas como paralelo e comentário uma sobre a outra.

A câmera na mão de Laurent, tremida, é incômoda e isso é proposital. A maneira como cria uma atmosfera de tensão que cresce ao longo do filme impressiona. Charlie é frágil e passiva. Tem asma e frequentemente recorre à sua bombinha em situações complicadas. Sua dificuldade de respirar é capturada com precisão e transmitida ao espectador: a falta de ar assistindo ao filme é física e real, assim como o desconforto.

Além disso Laurent cria sequências de grande beleza. Destaco duas: uma festa de Ano Novo e uma plano-sequência em que vemos Charlie seguindo Sarah e descobrindo algo muito importante sobre a amiga.

Se eu tivesse assistido a Respire antes, é certo que teria entrado em minha lista de melhores de 2015. É um filme que tem uma escala pequena, íntima, com um núcleo de personagens restrito, mas que revela um grande talento em sua direção e uma bela composição de personagens. 
4,5estrelas

respire

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