Instinto (Instinct, 2019)

Estreia na direção da atriz holandesa Halina Reijn, Instinto conta com argumento dela mesma e roteiro de Esther Gerritsen. A trama aborda a psicóloga Nicoline (Carice van Houten), que recém começou a trabalhar em um hospital que trata da saúde mental de criminosos. Experiente no ramo, ela é apresentada como uma pessoa que treina outras para esse tipo de atividade, mas não tem intenção de se fixar em um emprego específico. O caso para o qual foi alocada é do agressor sexual em série Idris (Marwan Kenzari), que está prestes a receber autorização para passear sem acompanhamento devido ao seu bom comportamento e colaboração com o tratamento.

A construção de Nicoline como personagem flerta com estereótipo: logo percebemos que sua casa é um caos e não tem elementos de decoração que marquem sua personalidade, toda em tons de cinza. Ela não se importa com seu próprio bem estar e pode comer pão com sucrilhos ou um balde de frango frito. Se maquia em um espelho fragmentado, que reflete um pouco da sua personalidade, composto por diversos hexágonos posicionados em forma de colmeia. Esses elementos são usados para indicar uma pessoa traumatizada.

Embora nunca seja explicitado na trama, fica claro que o problema da personagem tem relação com sua mãe (Betty Schuuman). Quando somos apresentadas a ela, que deve ter entrado sorrateiramente no apartamento de Nicoline, a segunda está tomando banho e uma câmera subjetiva substitui o olhar da primeira, que passeia pelas costas nuas da filha. Há sempre um senso de excesso de proximidade e contato entre as duas, que faz com que Nicoline se retraia em claro sinal de desconforto.

Nicoline, então, é retratada como uma mulher que veste suéteres e cárdigãs largos e prende o cabelo em relaxados rabos de cavalo ou coques, como se não se importasse com a forma como os outros a vêm. Isso muda quando ela tenta flertar com o colega de trabalho Alex (Pieter Embrechts) e usa um vestido bem cortado e passa batom. O envolvimento com Alex nunca é completo: ela foge da intimidade e não deseja olhar nos olhos durante o sexo. Mais uma vez o filme usa do estereótipo cansativa de que uma mulher que busca sexo pelo sexo precisa ter passado por alguma situação traumática.

Isso é exacerbado no fascínio de Nicoline por Idris. Em casa ela deixa a TV ligada para ouvir documentários sobre animais predadores na selva, e isso é usado para demonstrar seu fascínio por esse tipo de comportamento dominante. Ela não confia nele e sabe que está mentindo nas sessões de tratamento, ao mesmo tempo em que se atrai. Em determinada cena, ela confunde um grupo de rapazes brincando com uma amiga na rua com uma situação de assédio, como se isso indicasse que esses limites não são claros para ela. A fascinação culmina em uma marcada mudança de figurino: ela, que só usava roupas largas, vai ao trabalho com calça jeans clara de corte rente ao corpo e camiseta branca justa. Essa é a exatamente a combinação de roupas que ele sempre usa, ou seja, ela emula a aparência dele.

O jogo erótico de perseguição que se estabelece é extremamente incômodo, especialmente se tomarmos a perversidade do título, que transforma uma série de construções sociais sobre o que entendemos sobre sexo, sexualidade, violência e gênero como uma mera manifestação intuitiva da biologia. Se por um lado o suspense é bem trabalhado, por outro a psicologia rasa usada na definição da personagem e de seus traumas torna difícil receber com seriedade qualquer discussão sobre desejo e erotismo que pudesse se estabelecer na trama. Ela chega, mesmo, a colocar a cabeça no colo de Idris, da mesma forma que faz com sua mãe implicitamente abusadora. Idris, por sua vez, questiona se ela acha que outros homens tem fantasias diferentes das dela e em momento algum se estabelece que o que ele tem não são fantasias, já que as coloca em prática; e que há diferença entre a violência consentida e os estupros por ele praticados. Tudo é colocado em uma mesma escala, usando a confusão de Nicoline com esses limites como argumento. A gota da água é representação de um estupro em que a câmera está sempre em seu rosto e, aí sim, ela olha o homem nos olhos, finalmente estabelecendo uma conexão que não atingia com o sexo consensual.

Em um breve momento ao final do filme, Nicole olha para a câmera, quebrando a quarta parede, para em seguida desviar o olhar. É como se compartilhasse conosco o peso de todas as decisões tomadas anteriormente, mostrando sua força. Tarde demais, pois as escolhas narrativas minam esse instante final de autonomia da personagem. Instinto não deixa de ser um primeiro trabalho de direção provocador. Apesar disso, parece que Halina Reijn de alguma forma se inspirou em Verhoeven, mas por mais interessante que seja sua construção de atmosfera, assim como ele, não soube lidar com a profundidade dos temas que pretendeu abordar.

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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Retrato de uma Jovem em Chamas

Mitos

eurídice
que foi ao inferno
morreu por amor
e morreu duas vezes
(quantas vezes uma pessoa
pode morrer?
quantas vezes
na mesma vida?)
as cenas
perdidas do passado
mitologia pessoal
da época que foi inverno
(aqui dentro)
o espelho nada diz
se quebra e foge
diante do espectador
cacos

Em sua filmografia, a cineasta francesa Céline Sciamma é afeita às questões de gênero, de performatividade, de corpo e de sexualidade. Nesse, que é seu primeiro drama histórico, não foge desses temas, explorando-os, mais uma vez, em um recorte de grande intimidade. Héloïse (Adèle Haenel) é uma jovem que será oferecida em casamento para um nobre italiano. Sua irmã mais velha, que morreu em circunstâncias que não se sabe se foi acidente ou suicídio, era a noiva original. Para que o casamento se concretize, é necessário enviar um retrato dela a ele e para isso a Condessa (Valeria Golino), sua mãe, contrata uma jovem, Marianne (Noémie Merlant), que, embora seja pintora, finge ser uma dama de companhia.

Esse processo faz com Marianne precise capturar cada detalhe de Héloïse enquanto a observa em suas conversas, para depois, durante a noite, tentar pintá-la de memória. A tela em branco é inquietante. É o marco de alguém que não conhece a sua própria retratada. O carvão desliza inseguro marcando os traços. Na beira da praia, com os rostos cobertos por véus para protegê-los do vento que açoita, as verdades se escondem. Chama atenção o diálogo trocado na beira do abismo onde a irmã havia sido encontrada. “Venho sonhado com isso há anos”. “Morrer?”. “Correr”. Assim se apresentam as parcas possibilidades de liberdade para uma mulher daquela classe social naquele momento: os poucos momentos em que o corpo está solto. Ao ar livre foge-se das regras e a paisagem inóspita torna-se acolhedora. Ainda assim o corpo livre não se permite deixar escapar um grito. A contenção é subentendida, uma vez que o filme pouco apresenta da sociedade que está fora das propriedade da Condessa. A geografia se resume ao castelo decadente, onde o desenho de som destaca o tempo todo os sons dos passos na madeira que range, como em um palco.

(eu ri e disse
que fui ao inferno)
fotos
fotos
fotos
fatos
congelados
trocados
nos painéis
quão fácil
difícil
é guardar lembranças
e substituí-las por outras
porque é necessário
ver
para lembrar
zeus com a cabeça
partida
e um sorriso
sórdido nos lábios
atena nasceu
(algo sempre se quebra
no surgimento)
eu renasci
(renasço de cada caco)
mas… atena?
perséfone
como outrora
lânguida
estirada no meio termo
a vida e a morte
a ambiguidade de ser

O corpo de Marianne não é preso da mesma forma. Ela nada, ela circula pelos espaços. Ela seca-se nua em frente à lareira fumando seu cachimbo entre as duas telas ainda vazias que trouxe consigo. Novamente a inquietação do vazio a ser preenchido. (Mas ela não pode pintar homens, embora eles possam pintar mulheres). Os detalhes que ela capta de Héloïse são registrados com a câmera próxima de seus rostos, compartilhando-os conosco. O momento de virada vem na descoberta de que Marianne é uma pintora. Héloïse pede para ver o quadro e não se vê na imagem que encontra ali. “Não sabia que você era crítica de arte”. “Não sabia que você era pintora”. O diálogos revelam o desconhecimento e como retratar aquilo que não se conhece? O resultado não reflete a verdade nem de uma nem de outra. Uma vela se aproxima do quadro e o coração está em chamas.

Na ausência da Condessa, a relação entre as duas jovens é mediada pela presença de Sophie (Luàna Bajrami), a jovem criada que compartilha com elas de conversas e momentos de intimidade, incluindo sua suspeita de gravidez, que leva todas a participarem de ritos de união com as mulheres da aldeia. Um olhar procura pelo outro e o vestido está em chamas.

As três meninas dividem a leitura da história de Eurídice, que após morrer foi resgatada por seu amado Orfeu do mundo inferior. Hades permitiu que ela voltasse à superfície com uma condição: que seguisse Orfeu e que ele não olhasse para trás, senão morreria novamente. Orfeu, claro (pois senão não haveria tragédia) virou-se para checar se Eurídice ainda o seguia e, assim, após um breve vislumbre, a perdeu para sempre. Héloïse defende que não foi descuido, foi uma escolha poética e não romântica de guardar a memória de Eurídice.

(eu ri e disse
que sou o inferno)
acariciando
as cabeças de cérbero
nada há a temer
ri-se do medo
tudo é possível
ri-se da vida
ri-se da morte
Isabel Wittmann (06/12/2003)

O filme inteiro evolve na ideia dessa Eurídice mítica. Vire-se. Registre o momento. A intimidade compartilhada, a saliva, as axilas, os lábios que se buscam. A diferença entre o retrato no quadro, posado, austero, e o esboço feito com Héloïse dormindo, tão próximo. As mãos que se soltam na praia. O lenço que descobre a boca. A página 28 no livro. O espelho que esconde a vulva. Elas como espelho uma da outra: olhar inevitavelmente é ser olhada.

O contraste entre as duas é marcado na roupa. O verde de Héloïse é a cor complementar ao vermelho-vinho de Marianne. A primeira usa cetim, tecido caro, enquanto a segunda usa algodão rústico. Ainda assim, é a segunda que pode viajar sozinha e até mesmo já foi pra Itália, futuro lar da primeira. Significativo é que quando Marianne revê Hèloïse no futuro as duas vestem marrom, cor que é criada da mistura entre as tintas verde e vermelha.

A intensidade da construção do relacionamento entre as duas realizada por Sciamma é uma para a qual faltam palavras para descrever. (Essa é a vantagem da pintora: quando faltam palavras, sobram traços). Héloïse se descobre em Marianne. Ambas compartilham de poucos dias na sua juventude que marcarão suas vidas. Pintar o retrato é, sim, olhar e ser olhada, mas mais que isso, é conhecer e ser conhecida, como mais ninguém. A arte funciona como um processo único de comunhão mútua. Vire-se. Existe a lembrança que fica e o que poderia ter sido. (Mas nesse caso não poderia, por todo o contexto histórico-social). O filme de Sciamma arde no sentimento e na beleza de suas cenas. Vire-se e fica a memória da página 28.

Nota: 5 estrelas de 5
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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Adoráveis Mulheres (Little Women, 2019)

Meg, Jo, Beth e Amy já foram protagonistas de diversas adaptações cinematográficas ou televisivas do livro Mulherzinhas, publicado por Louisa May Alcott em 1868. Aqui elas são interpretadas por Emma Watson, Saoirse Ronan, Eliza Scanlen e Florence Pugh, respectivamente. Greta Gerwig, que escreveu e dirigiu essa versão, tomou liberdades que se mostraram frutíferas para a história.

As quatro irmãs March vivem com sua mãe, Marmee (Laura Dern), em uma casa simples, por onde paira a lembrança de uma época em que tiveram mais dinheiro. O pai (Bob Odenkirk), está ausente, na Guerra Civil. Sua figura se materializa nas cartas que envia, mas, no final das contas, aquela é a casa das mulheres March e ele apenas pontua esse fato. Marmee é um exemplo para as meninas, abnegada e sempre preocupada com os demais. Meg, a mais velha, é ajuizada, um professora dedicada e tem grande apreço pela moda. Jo é a menina das letra, tomboy da casa, com os dedos manchados de tinta, sempre envolta em suas histórias. Beth, nas palavras delas mesmas, é a melhor de todas: doce, tímida e encantada pela música. Por fim, Amy é autocentrada, impulsiva e se interessa por desenho e pintura. Juntam-se a elas a rica Tia March (Meryl Streep), o vizinho Mr. Laurence (Chris Cooper) e seu neto Laurie (Timothée Chalamet).

O filme, como o livro, faz recortes de pequenos momentos da rotina das irmãs. E é aqui que Gerwig faz sua primeira subversão na estrutura da narrativa. Tradicionalmente o livro tem duas partes, o próprio Mulherzinhas e a segunda, que se passa 7 anos depois, chamada Good Wives (Boas Esposas, título dado na época pelo editor e não por Alcott). Ambas sempre são publicadas em um livro só e levadas as telas como tal. A diretora optou por trabalhar as duas linhas de tempo em paralelo, criando um passado que, embora não sem seus conflitos, era feliz na união de todas aquelas mulheres. No presente o que vemos são as dificuldades de cada uma já em sua vida adulta. Esse contraponto é externado esteticamente, seja na luz amarela com que os flashbacks são iluminados, em contraste com a luz fria do presente, seja pelo figurino da sempre louvável Jacqueline Durran, que concentra tons de rosa e vinho no primeiro momento e azuis e roxos no segundo, destacando cada linha temporal, também, com o contraste entre tons quentes e frios de uma mesma paleta de cores. Essa contraposição entre os dois momentos faz com que quem assiste ao filme possa entender o ponto de vista das personagens sobre seu próprio passado e ajuda a justificar determinadas escolhas. Nesse sentido, como somos apresentados a Laurie por meio de Amy, o que acontece entre os dois não parece tão abrupto, como seria em uma narrativa linear. Também permite que certas cenas do tempo presente espelhem as do passado com resultados diferentes, como quando Jo desce as escadas da casa correndo e se depara com a mãe sentada à mesa em duas situações diferentes, com uma mudança marcada de tom.

Em se tratando do já mencionado figurino, outros elementos chamam a atenção. Destaco o casaco verde militar com detalhes dourados de Jo, que remete à própria guerra que se desenrola; a cena em que a personagem, vestindo ele sobre camisola branca e calçolas vermelhas, estampa em si as cores do Natal, lembrando-nos que se trata de um filme festivo, especificamente natalino e, claro, o ostensivo uso de tricô.

A segunda das mudanças marcantes criadas por Gerwig é a abordagem metalinguística: Jo, que funciona como narradora em primeira pessoa, é escritora e a história se desenrola em sua versão dos fatos. Com o avançar do tempo, percebemos que o que vemos nos flashbacks são fruto de sua escrita, reminiscente sobre aquela época. Dessa forma os aspectos religiosos do livro podem cair fora da trama, porque seu editor afirma que “moral não vende hoje”. Por isso também se cria um embaralhamento entre a personagem e a própria autora, Alcott, que aparece refletida na trama, que por sua vez se transforma em seu próprio livro real. Sem confusão, essa camada extra celebra a capacidade criativa e o próprio exemplo da escritora, espelhando-a em Jo.

A construção das relações entre as protagonistas, desenvolvendo suas afinidades e rusgas, faz com que criemos facilmente identificação com cada uma delas. As conexões de Jo com Beth e Meg com Amy, mediadas por Marmee, se espelham e se equilibram. E se Amy poderia facilmente ocupar o papel vago de vilã, o texto mordaz, que coloca frases divertidas e sinceras em seus lábios; bem como a atuação cativante de Pugh, salvam-na de tal papel. Além disso, ela, assim como Jo em alguma medida, é a responsável por algumas análises certeiras sobre as condições e os direitos das mulheres de então, especificamente o matrimônio e, com isso, suas ações se externam adequadas à lógica da personagem.

Mas Jo, acumulando a função de narradora, acaba por ser a heroína: aquela que se emancipa e tenta a vida em Nova York, a que comemora a cada pagamento recebido por algo que escreveu, a que a princípio não tem interesse em um relacionamento amoroso como se espera dela, mas que também sente profundamente a solidão. Saoirse Ronan acerta ao não interpretá-la com dureza, como ocorreu em algumas encarnações anteriores, mas sim com uma obstinação que não deixa de permitir que alguma fragilidade se manifeste.

Por fim, o editor de Jo diz que a protagonista dela precisa ser uma mulher e estar ou casada ou morta no final, afirmando que meninas querem ver casamento e não consistência. Em se tratando de romance, Laurie é quase como uma lembrança da juventude, de quando as coisas pareciam fáceis, mas escondiam suas complexidades. Jo sempre esteve certa a esse respeito. O rejuvenescimento de pretendente do presente em relação ao livro, Professor Bhaer, vivido por Louis Garrel, ajuda a colocar em perspectiva as escolhas da personagem. Apesar disso, o romance parece isso: um anexo planejado por um editor em uma história que trata dessas mulheres.

O Adoráveis Mulheres de Greta Gerwig é encantador na forma como dispõe de suas protagonistas e nos permite imergir nas suas vidas e nas suas alegrias domésticas. Ao mesmo tempo, traz reflexões sobre independência financeira, autonomia, ambição e a busca por uma carreira que, já presentes na obra de Alcott, continuam ressoando na contemporaneidade. As decisões artísticas e narrativas da diretora fortalecem a história original, amplificando suas qualidades. Mas, no final das contas, a maior qualidade do filme talvez seja o fato de que Gerwig realizou todo esse trabalho complexo de adaptação e reconstrução do formato da narrativa de uma forma que parece sem esforço, confeccionando uma obra acessível e em certa medida familiar, de aparente simplicidade e deliciosa de assistir.

Nota: 5 estrelas de 5
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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[43ª Mostra de São Paulo] O Paraíso de Maria (Marian Paratiisi, 2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Os créditos iniciais do filme O Paraíso de Maria avisam que trata-se de uma “ficção baseada em eventos reais”. O que se segue é de tal forma absurdo que mostra porque muitas vezes a criatividade humana se volta a acontecimentos reais para ter inspiração, já que pouca imaginação poderia criar tudo isso do zero.

Com direção de Zaida Bergroth e roteiro de Anna Viitala e Jan Forsström, o filme se passa na Finlândia em 1927. Maria (Pihla Viitala) é uma jovem mulher que afirma ter começado a ouvir anjos aos doze anos de idade. Agora adulta, tendo ao seu lado o companheiro Eino (Tommi Korpela), reúne um exército de seguidores que vão com ela aonde for. A maior parte é constituída por crianças e adolescentes órfãs, mas também há os adultos, que ajudam a estruturar a organização de sua seita.

Fugindo do que declara ser perseguição religiosa, Maria e todos os demais se mudam para uma mansão em Helsinque, que seria, segundo ela, um ponto de passagem para a derradeira viagem à Terra Santa. O apelo da profetisa está não só na sua oratória e imponente figura, mas em suas aparições, geralmente deitada em uma cama, vestindo uma camisola branca e rodeada por velas, em que aparenta se comunicar com seres celestiais. O figurino trata de marcar a opulência em que vive, com seus chapéus sofisticados e suas peles, em contraste com as roupas cinzentas das crianças despossuídas que acolhe, como se isso constituísse caridade.

A narrativa é centrada em Saga (Elina Knihtila), uma adolescente que cresceu no meio, sozinha. Nós temos o ponto de vista dela sobre os acontecimentos. A garota nada conhece do mundo exterior e, como os demais, é desencorajada a ter outros contatos além do grupo, uma vez que, conforme afirma Maria, Satã está por todo lugar, então não seria seguro. Como tem talento para a leitura e a escrita, a menina foi elevada ao papel de uma espécie de secretária ou assistente de Maria. Cumprindo uma tarefa na cidade, conhece Malin (Saga Sarkola), uma menina de sua idade que se prostitui para sobreviver.

É quando Malin, esse elemento externo, se instala na casa como um corpo estranho, que Saga começa a questionar não só os preceitos pregados por Maria, mas as táticas de ação da líder, ignoradas por parte de seus seguidores. Maria é julgada por sua sexualidade na trama de uma forma que fica difícil de identificar se provém de dados históricos ou de um possível viés dos retratos da época, em que era comum misturar a liderança feminina com a impudicícia. De qualquer forma um rastro de violência para garantir seu lugar em meio aos seguidores vai se desvelando, por vezes usando os seus cães e o tratamento a eles delegado como paralelo para aquele conferido às pessoas em torno dela

Usando de elementos de suspense entremeados ao drama da protagonista, o filme faz uso da extraordinária história em que se baseia para surpreender o espectador. O Paraíso de Maria é tenso na medida de certa e mostra que, em se tratando de crenças pessoais, nada é inacreditável.

Nota: 3,5 de 5 estrelas
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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[43ª Mostra de São Paulo] Babenco: Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer Parou (2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Hector Babenco é um cineasta argentino que atuou no Brasil com grandes sucessos, tanto quanto se trata de público, quanto crítica. O filme foi premiado como o Melhor Documentário sobre Cinema no Festival de Veneza, mas não necessariamente fala sobre a obra do diretor, como tal fato pode levar a entender. Dirigido por Bárbara Paz, que também foi sua companheira nos últimos anos de vida, temos um recorte específico do homem por trás da arte.

Babenco estava morrendo. Assim mesmo, no gerúndio. Foram décadas entre o diagnóstico (e o prognóstico negativo) e a derradeira despedida. Em cena, ele mesmo brinca com o fato de que, como uma fênix, sempre ressuscita, até o dia em que não mais o fará. E é em meio a esse processo que Paz resolve registrá-lo, próximo e humano.

Assim aprendemos que se fixou no Brasil porque aqui a realidade, para ele, supera a ficção mais do que na Argentina. Também contou do êxito com O Beijo da Mulher Aranha, em 1985, quando se descobriu doente, o trabalho posterior com Meryl Streep e Jack Nicholson e a forma como filmou Brincando nos Campos do Senhor, lançado em 1991, com mais de 40 pontos espalhados pelo corpo.

Mas no final, pouco disso importa para o documentário. Filmado em preto e branco, retratando com realismo o rosto marcado de Babenco, Paz nos mostra os pequenos momentos quase banais da rotina do casal, como quando ele, impaciente mas carinhosamente a ensina a fazer o foco na câmera ou quando a mão dela dança em cima da dele, parada. Além disso revela o amor dele pelo cinema até o final, quando cantarola Cheek to Cheek, da trilha de O Picolino, no seu quarto do hospital ou quando realiza o desejo de filmar uma última cena de Bárbara, literalmente cantando na chuva.

Babenco é um longo e afetuoso adeus, filtrado pelo amor de sua autora pelo seu retratado. Nele somos confrontados com o desejo pelos pequenos e últimos prazeres, da comida com sabor, dos encontros com amigos, da possibilidade de contar histórias para viver. Com a câmera fechada no rosto de seu personagem, estamos próximos a ele. Ainda assim, é possível que ao fim do documentário não tenhamos aprendido mais nem sobre o diretor nem sobre sua obra. Porque não é disso que se trata. Babenco: Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer Parou é um belo exercício, por vezes tímido e hesitante, mas ao mesmo tempo intenso e carinhoso, sobre o morrer compartilhado.

Nota: 4 de 5 estrelas
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