[43ª Mostra de São Paulo] O Paraíso de Maria (Marian Paratiisi, 2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Os créditos iniciais do filme O Paraíso de Maria avisam que trata-se de uma “ficção baseada em eventos reais”. O que se segue é de tal forma absurdo que mostra porque muitas vezes a criatividade humana se volta a acontecimentos reais para ter inspiração, já que pouca imaginação poderia criar tudo isso do zero.

Com direção de Zaida Bergroth e roteiro de Anna Viitala e Jan Forsström, o filme se passa na Finlândia em 1927. Maria (Pihla Viitala) é uma jovem mulher que afirma ter começado a ouvir anjos aos doze anos de idade. Agora adulta, tendo ao seu lado o companheiro Eino (Tommi Korpela), reúne um exército de seguidores que vão com ela aonde for. A maior parte é constituída por crianças e adolescentes órfãs, mas também há os adultos, que ajudam a estruturar a organização de sua seita.

Fugindo do que declara ser perseguição religiosa, Maria e todos os demais se mudam para uma mansão em Helsinque, que seria, segundo ela, um ponto de passagem para a derradeira viagem à Terra Santa. O apelo da profetisa está não só na sua oratória e imponente figura, mas em suas aparições, geralmente deitada em uma cama, vestindo uma camisola branca e rodeada por velas, em que aparenta se comunicar com seres celestiais. O figurino trata de marcar a opulência em que vive, com seus chapéus sofisticados e suas peles, em contraste com as roupas cinzentas das crianças despossuídas que acolhe, como se isso constituísse caridade.

A narrativa é centrada em Saga (Elina Knihtila), uma adolescente que cresceu no meio, sozinha. Nós temos o ponto de vista dela sobre os acontecimentos. A garota nada conhece do mundo exterior e, como os demais, é desencorajada a ter outros contatos além do grupo, uma vez que, conforme afirma Maria, Satã está por todo lugar, então não seria seguro. Como tem talento para a leitura e a escrita, a menina foi elevada ao papel de uma espécie de secretária ou assistente de Maria. Cumprindo uma tarefa na cidade, conhece Malin (Saga Sarkola), uma menina de sua idade que se prostitui para sobreviver.

É quando Malin, esse elemento externo, se instala na casa como um corpo estranho, que Saga começa a questionar não só os preceitos pregados por Maria, mas as táticas de ação da líder, ignoradas por parte de seus seguidores. Maria é julgada por sua sexualidade na trama de uma forma que fica difícil de identificar se provém de dados históricos ou de um possível viés dos retratos da época, em que era comum misturar a liderança feminina com a impudicícia. De qualquer forma um rastro de violência para garantir seu lugar em meio aos seguidores vai se desvelando, por vezes usando os seus cães e o tratamento a eles delegado como paralelo para aquele conferido às pessoas em torno dela

Usando de elementos de suspense entremeados ao drama da protagonista, o filme faz uso da extraordinária história em que se baseia para surpreender o espectador. O Paraíso de Maria é tenso na medida de certa e mostra que, em se tratando de crenças pessoais, nada é inacreditável.

Nota: 3,5 de 5 estrelas
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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[43ª Mostra de São Paulo] Babenco: Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer Parou (2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Hector Babenco é um cineasta argentino que atuou no Brasil com grandes sucessos, tanto quanto se trata de público, quanto crítica. O filme foi premiado como o Melhor Documentário sobre Cinema no Festival de Veneza, mas não necessariamente fala sobre a obra do diretor, como tal fato pode levar a entender. Dirigido por Bárbara Paz, que também foi sua companheira nos últimos anos de vida, temos um recorte específico do homem por trás da arte.

Babenco estava morrendo. Assim mesmo, no gerúndio. Foram décadas entre o diagnóstico (e o prognóstico negativo) e a derradeira despedida. Em cena, ele mesmo brinca com o fato de que, como uma fênix, sempre ressuscita, até o dia em que não mais o fará. E é em meio a esse processo que Paz resolve registrá-lo, próximo e humano.

Assim aprendemos que se fixou no Brasil porque aqui a realidade, para ele, supera a ficção mais do que na Argentina. Também contou do êxito com O Beijo da Mulher Aranha, em 1985, quando se descobriu doente, o trabalho posterior com Meryl Streep e Jack Nicholson e a forma como filmou Brincando nos Campos do Senhor, lançado em 1991, com mais de 40 pontos espalhados pelo corpo.

Mas no final, pouco disso importa para o documentário. Filmado em preto e branco, retratando com realismo o rosto marcado de Babenco, Paz nos mostra os pequenos momentos quase banais da rotina do casal, como quando ele, impaciente mas carinhosamente a ensina a fazer o foco na câmera ou quando a mão dela dança em cima da dele, parada. Além disso revela o amor dele pelo cinema até o final, quando cantarola Cheek to Cheek, da trilha de O Picolino, no seu quarto do hospital ou quando realiza o desejo de filmar uma última cena de Bárbara, literalmente cantando na chuva.

Babenco é um longo e afetuoso adeus, filtrado pelo amor de sua autora pelo seu retratado. Nele somos confrontados com o desejo pelos pequenos e últimos prazeres, da comida com sabor, dos encontros com amigos, da possibilidade de contar histórias para viver. Com a câmera fechada no rosto de seu personagem, estamos próximos a ele. Ainda assim, é possível que ao fim do documentário não tenhamos aprendido mais nem sobre o diretor nem sobre sua obra. Porque não é disso que se trata. Babenco: Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer Parou é um belo exercício, por vezes tímido e hesitante, mas ao mesmo tempo intenso e carinhoso, sobre o morrer compartilhado.

Nota: 4 de 5 estrelas
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[43ª Mostra de São Paulo] Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia (Gospod Postoi, Imeto i è Petrunija, 2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Petúnia (Zorica Nusheva) mora com os pais, tem mais de 30 anos, um diploma universitário que nunca usou e está desempregada. Ela é o contra-exemplo daquilo que é considerado ideal, especialmente para os referidos pais, a quem é uma fonte de preocupação. Eles só desejam que tenha um emprego estável para ter acesso a seguridade social. Além disso está fora dos padrões estéticos exigidos pelo capitalismo quando se trata de mulheres: além de ter passado da idade considerada atraente (fato reiteradamente lembrado por sua mãe), ela é gorda e, portanto, duplamente marcada como um mulher não desejável. Petúnia é alguém que não se encaixa no nosso modelo econômico.

Quando sai de casa para uma entrevista de emprego, o potencial futuro patrão reitera todas essas características: afirma que ela aparenta ser mais velha do que é e por isso ele sequer conseguiria ter desejo sexual por ela. O valor da mulher está colocado no quão atrativa ela é considerada, em padrões excludentes. A inteligência ou a doçura de Petúnia não têm valor. Petúnia é visualmente contrastada tanto com os manequins que enchem o quarto de sua amiga, que lhe empresta um vestido para que use na entrevista, como naquele que carrega debaixo do braço após a mesma.

Mas é contrastado uma vez mais quando, no caminho da volta, se vê em meio a uma procissão religiosa repleta de corpos não só masculinos, mas semi-nus (em oposição ao seu longo vestido de gola fechada e casacão). Trata-se de uma tradição em que todo ano o padre joga uma cruz na água e o homem que recolhê-la ficará com ela (e a sorte dela proveniente) durante o ano seguinte. Petúnia, sem pensar, entrou na água e pegou a cruz, sem se atentar ao fato que tal ação não era permitida às mulheres.

À partir disso, a protagonista se vê reiteradamente violentada, seja pela polícia, pela igreja ou pelos membros da sociedade civil. As micro-agressões vêm do fato de que ela, sendo uma mulher comum, não excepcional, ousou quebrar as regras não escritas que privilegiam os homens. Uma jornalista cobrindo o caso é adicionada à trama para, de maneira expositiva, ressaltar a jornada dupla de trabalho a que as mulheres são submetidas, a remuneração menor do que de seus colegas de trabalho e outras situações aceitas dentro do lugar de normalidade.

Com direção de Teona Strugar Mitevska e roteiro da diretora em parceria com Elma Tataragic, o filme mostra as reações ao mero desafio dos privilégios masculinos, cujo domínio é validado pela tradição. Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia escancara, de forma simplista, mas sempre bem humorada, os pactos entre as diferentes instâncias de poder para reiteradamente excluir as mulheres socialmente.

Nota: 3,5 de 5 estrelas
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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[43ª Mostra de São Paulo] Três Verões (2018)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Três Verões, com título mais que apropriado, registra o Natal e o Ano Novo de seus protagonistas durante três anos seguidos. Em 2015 Edgar (Otávio Müller) e Marta (Gisele Fróes), donos de uma enorme casa, recebem familiares e amigos para uma grande festa. Eles comemoram bodas de porcelana, o filho está saindo de casa e o pai de Edgar, “Seo Lira” (Rogério Fróes), volta a morar com eles enquanto o seu apartamento está em reforma. Quem orquestra tudo nos bastidores é Madá (Regina Casé), a caseira.

Enquanto Madá sonha em comprar um terreno que custa dez mil reais para que possa ter seu próprio quiosque de comida, os patrões escancaram a falta de gosto e cafonice alugando obras de arte curadas especialmente para a decoração de sua casa, sem sequer serem capazes de entender qual a direção em que uma obra abstrata deve ser pendurada. As diferenças de interesses e preocupações ficam patentes.

No ano seguinte, na mesma época, as festas têm que ser canceladas porque Edgar é preso em virtude de fraudes, desvio de dinheiro e outras falcatruas econômicas. Madá e as outras empregadas da casa se vêm, num primeiro momento, sem ter completo contexto do que ocorria. Como em um regime de escravidão, continuam morando e trabalhando na casa, mesmo sem os patrões presentes. Piadas sobre tornozeleiras e a forma como ricos são presos rendem bons momentos de humor. O retrato de uma burguesia que não parece saber lidar com o novo dinheiro e da classe trabalhadora que emula seus valores, repetindo frases de efeito e valorizando determinados produtos em detrimento de outros, não é novidade, mas aparece como uma construção interessante.

Apesar disso, é difícil não comparar a personagem de Regina Casé nesse filme com a Val de Que Horas Ela Volta, dirigido por Anna Muylaert. E enquanto lá ela encarnava um reflexo preciso das relações de classe no Brasil, do tipo de subalternidade familiar que é imposta às trabalhadoras domésticas, aqui, com um humor mais solto e piadas que por vezes se prolongam demais, se torna, por vezes, caricata. Às vezes parece que com isso se criam momentos em que se ri da Madá e não com ela.

Madá mostra as diversas mansões desocupadas, pois seus proprietários todos estavam presos em escândalos de corrupção. Ela mesma é interrogada sobre os crimes do patrão e uma condução coercitiva é mencionada. Na televisão, em certo momento, se vê uma reportagem sobre a operação Lava-Jato. Mas esse breve comentário político não se aprofunda e fica a cargo de quem assiste posicionar a narrativa no nosso momento histórico.

O que se segue em dezembro de 2017 é algo de mudança e renovação, especialmente para Madá, que escancara seu passado de perdas. Com roteiro de Iana Cossoy Paro junto com a diretora Sandra Kogut, Três Verões aborda com leveza, mas às vezes também de forma caricata ou superficial, a luta de classes e a política brasileira contemporânea.

Nota: 3 de 5 estrelas
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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[43ª Mostra de São Paulo] Bille (2018)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Durante a década de 1930, a menina Bille (apelido de Sibilla) morava com sua Mãe (Elina Vane) e seu Pai (Arturs Skrastins) em um cortiço na cidade de Riga, na Letônia. O Pai bebia demais e colocava a culpa de sua pobreza na Mãe, que, por ter medo de multidões, não trabalhava fora. A Mãe, que já havia sido assistente de uma modista, colocava a culpa, por sua vez, no nascimento de Bille (Ruta Kronberga). “Tudo seria diferente sem Bille”.

Com direção de Inara Kolmane e roteiro de Evita Sniedzs e Arvis Kolmanis, Bille é adaptado da autobiografia de mesmo nome da premiada escritora e poetisa Vizma Belsevica, nome que adota no futuro. A transposição do material literário para a tela transparece na narração em off em primeira pessoa que é utilizada no começo do filme. O recurso parece utilizar trechos do texto de forma integral, mas é abandonado conforme o filme avança.

Muito é escasso na vida de Bille: o dinheiro, os alimentos e o afeto materno. Mas lhe sobra apreço pelos livros, que alimentam sua criatividade e ajudam a criar mundos fantásticos. O mesmo acontece com o cinema, em que se deleita podendo ver com curiosidade o que chama de “a vida dos ricos”, que a ajuda a inventar versões menos duras de sua realidade, gerando um contraste entre o que é e o que ela queria que fosse.

Outras coisas também não são escassas: o carinho paterno, o empenho pela sua criação para ter outras possibilidades na vida e os pequenos momentos que se tornaram boas lembranças. Bille ganhou uma moeda do pai e pôde andar de carrossel e tomar sorvete. Em uma feriado nacional passeou com a vó para ver uma banda marcial e andou de bonde. Certa feita fez um passeio ao campo com os pais para visitar uma parenta da mãe, que rendeu grandes risadas. São esses pequenos momentos que criam respiros no dia a dia.

O filme tem uma linguagem bastante convencional, mas a composição que alterna momentos de frustração com pequenas alegrias cria um ritmo agradável, auxiliado pelas atuações. E é claro que para que Billle pudesse ter a sonhada mudança de vida, ela precisou de auxílio externo. Suas aulas de piano, sua entrada nos escoteiros e sua ida para a escola, todas foram financiadas por terceiros que não seus pais. O fato de ter acesso a esses lugares também a afastou de certa forma, do lugar de onde veio e das crianças com que convivia.

O filme constrói com sensibilidade momentos da infância da escritora, tratando com equilíbrio elementos diversos que a marcaram. Com isso, nunca cai no drama fácil e, portanto. não parte nem de uma idealização do passado nem da autopiedade proveniente dele. O que ele faz é dar pistas de que maneiras esses momentos influenciaram posteriormente Vizma Belsevica. Afinal, carregamos para sempre a criança que nós fomos.

Nota: 4 de 5 estrelas
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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