Tag Archives: 52FilmsByWomen

A Livraria (The Bookshop, 2017)

Em uma pequena cidade no interior da Inglaterra em 1959, uma viúva decide comprar uma casa antiga e abrir uma livraria. Florence Green (Emily Mortimer) é alertada para o fato de que as pessoas do local não tem o hábito de ler, mas insiste na ideia. O imóvel está caindo aos pedaços mas ela se muda para ele, começando os reparos e encomendando os primeiros volumes. E assim conhecemos A Livraria, adaptado de um romance de Penelope Fitzgerald, com roteiro e direção da cineasta espanhola Isabel Coixet.

Florence é convidada para uma festa que conta com a mais alta sociedade local, organizada pelo General Gamart (Reg Wilson) e por Violet Gamar (Patricia Clarkson). Opta por um vestido que insiste em dizer, repetindo as palavras da costureira, que não é vermelho, mas bordô profundo. E assim conhece a acidez de Milo North (James Lance), celebridade local mordaz que lhe diz que vermelho é para empregadas domésticas em dia de folga. E, por fim, é avisada por Violet que ela tinha outros planos para a velha casa: queria construir um centro público de artes para a região.

O filme parece se propor a ser uma fábula de superação da viúva perseguida, mas a qualidade do texto é tão sofrível que nem Mortimer consegue dar conta. Além disso, em termos de discurso, é no mínimo questionável Florence não se importa que as pessoas não se interessem por livros. Com aquele apego de superioridade que costuma acometer amantes de determinadas artes, sua crença na conversão dos demais é inabalável. “Para que a população dessa vila precisaria de um centro de artes?”, ela se indaga, ao mesmo tempo em que enxerga seu próprio negócio particular como um alento para eles.

Os personagens são incomodamente unidimensionais. Os patronos Gamar parecem agir apenas com intuito de prejudica-la e North é tão afetadamente caricato que em certo momento parece ter havido a decisão de inserir uma namorada inócua na história apenas para que não se apontasse a sua criação como a de um capanga gay estereotipado de um filme noir dos anos 40.

O conservadorismo prevalece e mesmo Florence, a protagonista, como boa moça que é, guarda a viuvez e a memória do marido há anos, se privando de qualquer prazer carnal e dedicando-se às letras. Quando se relaciona com alguém, é Edmund Brundish (Bill Nighy), o velho viúvo da cidade, que vive isolado, e tem idade para ser seu pai; ou as crianças. Aliás, quando arruma sua loja, ela chama um grupo de meninos escoteiros para montar seus móveis. Crianças montariam móveis melhor que uma mulher adulta apenas por serem meninos?

Mas o pior é a forma como é retratada sua relação com Christine (Honor Kneafsey). A menina, extremamente madura, uma entre muitos irmãos de uma família desprivilegiada, é contratada como assistente de sua loja, do jeito que aqueles bons e velhos tempos permitiam. Avisa que não vai ler os livros, mas ajuda a carregá-los e a atender os clientes. Nos intervalos Florence brinca com ela e se oferece para ajudar com sua lição de casa. Quando descobre a péssima qualidade das atividades oferecidas e do ensino como um todo, não faz nada a respeito. E quando é notificada por contratar ilegalmente a mão de obra de uma criança, mostra-se ofendida, afinal, são amigas.

Com um figurino caprichoso que delega a Florence cores em tons de mostarda, verde e marrom, o filme tem uma estética extravagante bastante planejada compondo a trajetória da personagem. A Livraria consegue defender, com cores bonitas e muito açúcar, a proprietária e empreendedora de um pequeno negócio que se recusa a abrir mão dele para uso público que poderia beneficiar a população e que trata como brincadeira a exploração de trabalho infantil. É a améliezação do feminismo liberal.

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

Nota: 2 de 5 estrelas

Share

Lou (Lou Andreas-Salomé, 2016)

Lou Andreas-Salomé. É provável que você, assim como eu, nunca tenha ouvido falar desse nome. E isso é mais do que sintomático. Louise von Salomé foi uma romancista, filósofa e psicanalista. Roteirizado (juntamente com Susanne Hertel) e dirigido por  Cordula Kablitz-Post, o filme que leva seu nome se propõe a relatar um pouco de sua biografia.

A protagonista é retratada em diversas idades. Quem rememora sua história é ela mesma, aos setenta e dois anos (Nicole Heesters). Nascida em 1861, aos seis anos (Helena Pieske) queria ter as mesmas liberdades que eram oferecidas a seu irmão. Aos dezesseis (Liv Lisa Fries) se instruiu aprendendo filosofia e teologia com um tutor. Já adulta (Katharina Lorenz), cursou faculdade, um feito raro, dificultado à maior parte de suas contemporâneas. Aos vinte e quatro anos publicou seu primeiro romance. Para consegui-lo, precisou utilizar um pseudônimo masculino. Nessa fase de sua vida, o filme foca no ambiente movimentado de intelectualidade que ela costumava frequentar. Assim ficamos sabendo de seu relacionamento com Nietzsche e Paul Rée, de seu romance com Rainer Maria Rilke, das aulas que recebeu de Freud. Em certo momento ela fala que a falta de espaço para uma mulher se desenvolver é tão ruim como a de liberdade para um homem. Por meio de seus estudos e de seus relacionamentos refletiu sobre questões da mulher, erotismo e sexualidade. Como cinebiografia, Lou utiliza uma estrutura narrativa bastante tradicional. Esteticamente o elemento que chama atenção são as transições, feitas com o uso de postais de cada época e lugar e a inserção de sua protagonista neles. Destaca-se o humor e a forma reverente, mas não rígida com que a personagem é tratada.

E aí divago. Quando eu tinha doze anos, aspirante a escritora, visitei Lindolf Bell, um poeta que eu admirava. Mais tarde, no mesmo ano, pouco antes de falecer, ele me presenteou com um exemplar de Cartas a um Jovem Poeta, do próprio Rilke. Nessa época, proto-feminista, eu costumava dizer que era poeta, e não poetisa, porque poesia não tem gênero. Hoje, feminista com um tempo de estrada, digo que literatura tem, sim, gênero, e ele fica patente nesses pequenos detalhes. É claro que minha referência naquela idade era Bell (embora a escritora que eu mais lesse fosse Agatha Christie). É claro que o autor escolhido por ele para me presentear foi Rilke. (Não estou o criticando pessoalmente). Mas é triste ver como vivemos em uma estrutura social onde a arte ainda é masculina e naturalizada como tal. E facilmente uma pessoa pode passar anos sem nem perceber que simplesmente não lê obras que foram escritas por mulheres. Eu poderia ter lido um romance de Lou, se ela pelo menos sua obra tivesse sido traduzida para o português, e assim ter tomado conhecimento de uma mulher inspiradora e que vivia envolta às letras, como eu desejava fazer. Mas não. Restou-me Rilke. Não conhecia Lou, não conhecemos Lou, deixamos passar despercebido o trabalho de tantas mulheres.

Lou pode ser convencional, mas ainda assim impressiona. E impressiona, talvez, mais por esses elementos extra-filme do que pelo filme em si. Basta pensar em todos esses homens que a rodearam: Nietzsche, Rilke, Freud. Eles são absolutamente célebres: mesmo alguém que nunca leu nenhum de seus trabalhos, reconhece seus nomes e sua importância. E como não a conhecemos? No final é necessário uma mulher escrever e dirigir um filme como esse  pra que o público conheça outra mulher. E de certa forma é um pouco decepcionante, depois de toda a trajetória de vida apresentada, não conseguir tomar forma do que realmente era o trabalho de Lou por meio da película, que foca justamente nessa sucessão de homens célebres. Mas não deixa de ser interessante e mesmo necessário.

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

Nota: 3,5 de 5 estrelas

Share

#52FilmsByWomen ano 2: a conclusão

Em 1º de outubro de 2015 eu comecei o desafio #52FilmsByWomen (ou 52 Filmes por Mulheres). Senti que precisava conhecer mais filmes que fugissem de um olhar androcentrado e que existiam muitas mulheres com filmografias incríveis para desbravar. Ontem concluí, portanto, o segundo ano do desafio. No primeiro foram 72 longas assistidos e dessa vez foram 91. Somo assim, 163 longas em dois anos, que sobem para 185 quando levo em conta os curtas, mas esses não estou computando na minha “contagem oficial”. É claro que o aumento no número se deve à continuidade do trabalho no Feito por Elas. Também escrevi sobre a questão do trabalho dessas cineastas em relação ao orçamento que têm disponível.

Alguns desses filmes foram revisões, muitos deles para o próprio podcast. Foi bom poder rever Persépolis (2007, Marjane Satrapi), A 13ª Emenda (13th, 2016, Ava DuVernay), Selma: Uma Luta Pela Igualdade (2014, Ava DuVernay), Mensagem para Você (You’ve Got Mail, 1998, Nora Ephron) e As Virgens Suicidas (The Virgin Suicides, 1999, Sofia Coppola), entre outros.

Finalmente conheci o trabalho de Ida Lupino, uma daquelas pioneiras que a gente só pode agradecer pela existência. Tive a alegria de entrevistar Júlia Murat e Eliane Caffé, que me encantaram com seus trabalhos, além de Cristiane Oliveira, de quem já aguardo novos filmes. Me entusiasmei com Chantal Akerman, Claire DenisSarah Polley. Me encantei com a criatividade de Juliana Rojas e e me apaixonei tanto por Maya Deren que Maya se tornou o nome da cachorrinha que adotei no começo do ano. (Melhor homenagem, convenhamos!)

O que esse desafio segue me proporcionando é uma diversidade de narrativas, com filmes dos cinco continentes protagonizados por personagens de diversas etnias, meios sociais e perspectivas de mundo, com pontos de vista autobiográficos, biográficos e descolados desse contexto. Narrativas documentais e ficcionais, filmes água com açúcar, engraçados, inspiradores, intensos e dolorosos. Tudo isso mostrando, mais uma vez, que há um mundo muito maior no cinema do que a narrativa dramática tradicional que gira em torno do homem branco heterossexual.

Novamente vou listar aqui os filmes que mais gostei de ter visto pela primeira vez. Tomei a liberdade de aumentar de 10 para 15 (devido ao grande número de filmes maravilhosos). Estão ordenados cronologicamente, porque sou incapaz de ranqueá-los. Como algumas diretoras se destacaram no meu coração, também optei por só incluir um de cada uma.

Melhores filmes (ordem cronológica):

Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce 1080 Bruxelles (1975, Chantal Akerman)

Sonho de Valsa (1987, Ana Carolina)

Chocolat (1988, Claire Denis)

Caramelo (Sukkar banat, 2007, Nadine Labaki)

Floresta dos Lamentos (Mogari no mori, 2007, Naomi Kawase)

Entre o Amor e a Paixão (Take This Waltz, 2011, Sarah Polley)

Trabalhar Cansa (2011, Juliana Rojas)

A Viagem (Cloud Atlas, 2012, Lana e Lily Wachowsky)

Hannah Arendt- Ideias Que Chocaram o Mundo (Hannah Arendt, 2012, Margaret von Trotta)

As Vozes (The Voices, 2014, Marjane Satrapi)

The Fits (2015, Anna Rose Holmer)

Grave (2016, Julia Ducournau)

Era o Hotel Cambridge (2016, Eliane Caffé)

Mulher Maravilha (Wonder Woman, 2017, Patty Jenkins)

O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled, 2017, Sofia Coppola)

Melhores documentários:

Histórias que Contamos (Stories We Tell, 2012, Sarah Polley)

The Barkley Marathons: The Race That Eats Its Young (2014, Annika Iltis)

As Mulheres que Ele Despiu (Women He’s Undressed, 2015, Gillian Armstrong)

Não é um Filme Caseiro (No Home Movie, 2015, Chantal Akerman)

Waiting for B. (2015, Abigail Spindel)

Et la femme créa Hollywood (2016, Clara Kuperberg, Julia Kuperberg)

Weiner (2016, Elyse Steinberg)

Divinas Divas (2016, Leandra Leal)

Bright Lights: Starring Carrie Fisher and Debbie Reynolds (2016, Alexis Bloom)

Laerte-se (2017, Lygia Barbosa e Eliane Brum)

Mais uma vez essa foi uma experiência incrível e cheia de boas descobertas. Quem quiser acessar a lista completa de filmes assistidos no desafio esse ano bem como suas notas, clique aqui. O primeiro ano também está disponível, bem como a avaliação. E estou pronta para começar a o terceiro ano de desafio!

Share
Category: Cinema | Tags: ,

Mulher Maravilha (Wonder Woman, 2017)

É difícil manter a objetividade quando se escreve uma crítica como essa, porque são inúmeros fatores além do filme exibido que se somam à sua avaliação. A começar pelo próprio fato de ser o primeiro filme de super heroína em doze anos, desde o desastre que foi Elektra (2005). Acontece que quando um filme é protagonizado por mulher, ele precisa valer por todos. Se não for bom o suficiente, ele invalida por anos qualquer projeto que possa ser tematicamente relacionado.

Além disso, mesmo quando faz sucesso, geralmente existe isoladamente, não criando uma tendência de filmes similares. Lembro de ter lido há um tempo que depois do sucesso de Thelma & Louise (1991), Geena Davis sondou o estúdio a possibilidade de fazer outro filme centrado em uma dupla de protagonistas mulheres e responderam a ela que já haviam feito: justamente Thelma & Louise. Ou seja, um filme com duas personagens bem construídas e com profundidade deve bastar, não há necessidade de mais do que isso.

Por fim existe o fator do que está por trás das câmeras: Mulher Maravilha é dirigido por Patty Jenkins, cujo primeiro e último longa, Monster, foi lançado em 2002. Existe uma dificuldade sistêmica de mulheres cineastas conseguirem projetos para dirigir ou financiamento quando já os têm, como comentei em um texto anterior. Em geral, os estúdios não lhes confiam um grande orçamento e quando o fazem, o resultado negativo de um filme implica em prejudicar todos os demais, na mesma lógica dos filmes com mulheres protagonistas. Nessa hora, convenientemente, a parte é tomada pelo todo e o trabalho individual de uma diretora representa o esforço de todos as demais.

Em virtude desses fatores, a qualidade de Mulher Maravilha é essencial para garantir que tenhamos outros filmes de grande orçamento com mulheres protagonizando e /ou dirigindo nos próximos anos. Dito isso, é preciso dizer que é, sim, um ótimo filme.

Parte da qualidade dele está na maneira imersiva com que a personagem é apresentada. Conhecemos Diana (Lilly Aspell), filha da rainha Hipólita (Connie Nielsen), ainda criança, rodeada pelas demais amazonas, todas adultas. A líder do exército é Antíope (Robin Wright), sua tia, que treina guerreiras habilidosas enquanto ela aspira poder receber esses ensinamentos. Com auxílio da tia, cresce para se tornar a mais habilidosa de todas, já interpretada por Gal Gadot. Themyscira, a ilha das amazonas, é criada linda e palpitando de vida e a protagonista pode ser entendida em suas motivações. Ao estabelecer a protagonista e esse cenário, o primeiro ato é o de melhor qualidade.

Depois que Diana encontra com Steve (Chris Pine), a trama se desloca para a Europa, sofrendo com seu quarto ano de Grande Guerra, que envolvia vinte e sete países e já deixava milhões de mortos. Diana é acionada por seu senso de verdade e justiça para acabar com o conflito, que acredita ter sido causado por Ares, o deus da guerra. A eles se juntam Sameer (Saïd Taghmaoui), Charlie (Ewen Bremmer), e o Chefe (Eugene Brave Rock). Não fosse pelas breves mas divertidas aparições de Etta (Lucy Davis), Diana sofreria de síndrome de smurfette. Mas com piadas bem encaixadas o roteiro consegue trabalhar seu papel, mostrando o machismo que permeava aquela sociedade de então. Se por um lado é decepcionante que só hajam homens em sua equipe de campo, certamente seria difícil trazer mulheres no contexto da década de 1910, assim como hoje mesmo continua sendo.

O humor, aliás, é utilizado de maneira eficiente, seja comentando o tamanho do relógio de Steve, as formas de obtenção de prazer de uma amazona ou como disfarçar a beleza de uma mulher colocando um óculos. Existe uma piada gordofóbica, é verdade, mas de uma maneira geral o humor se entrelaça na trama de forma ritmada, se sustentando sem a forçação presente em certos filmes mais formulaicos da Marvel, por exemplo.

Em se tratando de um filme de guerra, as cenas de batalha são muito bem orquestradas, especialmente as do primeiro ato, protagonizadas pelas amazonas, demonstrando seu vigor físico. Mesmo a ação filmada em câmeras lentas, comuns em filmes de Zack Snyder e aqui utilizadas com Diana, não atrapalham porque permitem observar melhor cada movimento seu, confirmando sua destreza. O mesmo vale para sua postura em campo, que transmite força e confiança.

Por isso é importante frisar que o que garante o destaque de Diana o tempo todo é o carisma e talento de Gal Gadot. Ela combina a força e a falta de traquejo em nosso mundo da personagem de maneira natural, projetando as características já citadas e tornando-a palpável. Chris Pine também se sai bem, alcançando bons momentos cômicos com poucas expressões faciais, mas não deixa de ser um pouco decepcionante o tratamento heteronormativo que a história adquire no que diz respeito ao seu papel. Claro, em se tratando de um blockbuster com classificação etária 12 anos seria difícil ser diferente, mas, especialmente por se tratar de uma história de amazonas, causa estranhamento.

Outro ponto negativo não é exclusividade desse filme, mas recorrente em filmes de super-heróis: a maneira como as motivações são rapidamente borradas, criando ações duvidosas. Aqui Diana luta pelo fim da guerra e para isso os alemães precisam ser derrotados. Mas em determinado momento um superior daqueles afirma que seus soldados estão passando frio e fome, enquanto em outra hora, um britânico declara que são apenas jovens que não sabem pelo que lutam. Em ambos os lados das trincheiras estavam garotos muitas vezes alistados compulsoriamente, lutando seguindo ordens. Ao ser diretamente responsável pela morte deles, Diana está garantindo a justiça que busca? Seriam eles realmente os verdadeiros vilões? Mais adiante fica claro o quão pouco peso eles tinham diante de todos os acontecimentos, servindo apenas como peões em um tabuleiro divino. No final das contas o verdadeiro vilão é convincente e a batalha final, apesar de recheada de argumentos darthvaderianos, funciona.

É preciso destacar ainda a beleza do figurino do filme. As roupas das amazonas referenciam trajes gregos e dos centuriões romanos, destacando seus corpos atléticos e a permitindo seus movimentos. Quando as primeiras imagens de Gal Gadot caracterizada como mulher Maravilha foram reveladas, critiquei o corpete tomara-que-caia por não ser prático para se movimentar, além de ser confeccionado em material rígido, sendo que a personagem possui superforça e não precisaria de armadura. Mantenho a minha posição quando ao primeiro elemento, mas quanto ao segundo, o filme esclarece o desconhecimento dela a respeito de suas próprias habilidades. De qualquer forma, quando na Europa, Diana se depara com um corpete e pergunta para Etta se aquela era a armadura das mulheres de lá. Não deixa de ser irônico, já que seu traje também é acorpetado. Já as sandálias com salto, nada práticas para corridas ou qualquer atividade física, foram justificadas pela figurinista, Lindy Hemming, que explicou que buscou criar a imagem de pernas alongadas, e que os saltos embutidos ajudaram, além das fendas nas saias.

Mulher Maravilha é um filme que mistura elementos de ação e comédia na medida certa. Patty Jenkins resgatou a inocência de filmes de heróis (não necessariamente super) do passado, ao mesmo tempo em que analisou os erros cometidos nas últimas duas décadas, inundadas por filmes do gênero. Não há exageros, há uma certa sinceridade na forma como a narrativa se desenrola, as cores são bonitas e presentes e não existe uma falsa seriedade que destoa com o produto oferecido. A protagonista é crível e é muito fácil torcer por ela. A força da personagem está em sua crença na possibilidade de salvar os humanos e na forma como age em torno disso, sempre com seu lema de verdade e justiça. Além de ser um respiro em meio a esse gênero que está não só saturado, como desgastado. O filme é leve, divertido e bonito de olhar. Mulher Maravilha sem dúvida é uma mudança de ventos bem vinda e um filme de grandes qualidades.

 

Share

Sobre cineastas e grandes orçamentos

Tem certas coisas que, quando vemos, só dá pra dizer, como se fala na minha terra, que é de cair o c* da bunda. Perdoem-me a finesse. É o caso do tuíte abaixo, do Hollywood Reporter.


#acessível:
Twitter do Hollywood Reporter onde se lê “#MulherMaravilha Warner Bros. está apostando 150 milhões de dólares em uma cineasta cujo único crédito anterior no cinema foi um filme indie de 8 milhões”.
Twitter de Scott Beggs respondendo: “Contexto: mulher faz um sucesso de crítica e e de bilheteria que ganha um Oscar… Tem que esperar fodidos 14 anos para ser contratada para um longa de novo”.

Galera do Hollywood Reporter acha que a Warner fez caridade? Isso aí é investimento! Quantas diretoras conseguem filmes com altos orçamentos? Acima dos 100 milhões, até hoje, só Kathryn Bigelow, com K-19 (2002), Lana e Lilly Wachowski comA Viagem (2012) e O Destino de Júpiter (2015) e recentemente Ava DuVernay com Uma Dobra no Tempo (ainda em produção). Enquanto isso garotos branco de 20 e poucos anos que dirigiram filmes indies bem avaliados são convidados a dirigir outros com orçamentos milionários em grandes franquias.

E quanto tempo diretoras com filmes de pequeno orçamento mas grande impacto, levam para conseguir outro trabalho? A própria Patty Jenkins, cujo Monster (2002) garantiu o Oscar de melhor atriz para Charlize Theron, voltou apenas agora com Mulher Maravilha, depois de alguns anos em seriados como The Killing e Arrested Development. Onde está Lisa Cholodenko, que garantiu 4 indicações ao Oscar (melhor filme, melhor atriz, melhor ator coadjuvante e melhor roteiro original) com o filme Minhas Mães e Meu Pai (2010), com orçamento de apenas 3 milhões? Na televisão, em seriados. Lynne Ramsay, que em 2011 lançou seu elogiado Precisamos Falar Sobre o Kevin, orçado em 7 milhões, indicado ao BAFTA de melhor filme, melhor filme britânico e melhor direção, reapareceu só esse ano com You Were Never Really Here (e ganhou com ele o prêmio de melhor roteiro e melhor ator em Cannes). E já faz 6 anos que Dee Rees lançou Pariah e desde lá está na televisão. Esses são apenas alguns exemplos notórios, mas são muitas e é fácil perceber esse padrão de dificuldade.

Dizer que um estúdio está apostando caro ao contratar qualquer uma dessas diretoras é um malabarismo argumentativo, já que diretores homens com o mesmo tipo de currículo são constantemente premiados com orçamentos milionários em seu próximo trabalho (Gareth Edwards, Rian Johnson, Colin Trevorrow e mesmo Josh Trank com o desastroso Quarteto Fantástico são exemplos recentes). O que existe é uma constante dificuldade de mulheres que dirigem conseguirem financiamento ou contrato para seu filme seguinte. Existe uma exclusão sistemática de todo um nicho de trabalhadores, especificamente em virtude de seu gênero.

E por isso também que um filme como Mulher Maravilha, um blockbuster de heroína, é tão importante politicamente. Ele já é um sucesso absoluto de crítica (é o melhor desempenho de filme de super herói da Marvel ou da DC já feito) e agora precisa garantir no fim de semana de estreia uma bilheteria considerável, para mostrar que as cineastas fazem valer a qualidade de seu trabalho no orçamento investido, sem apostas incertas.

 

Share