Vingadores: Ultimato (2019)

Contém spoilers moderados!

Eis que onze anos depois do lançamento de Homem de Ferro, filme que deu início ao chamado Universo Cinematográfico Marvel ou, simplesmente, MCU, chegamos a esse filme que funciona como um desfecho para a jornada do grupo de heróis. Foram vinte e dois filmes e nesse ritmo é difícil dizer que ainda há empolgação em cada um dos lançamentos.

Mas certamente Guerra Infinita (2018) conseguiu, com o impacto das consequências das ações perpetradas e o reconhecimento de Thanos como o vilão de peso que ele é, se destacar em meio aos demais, dando uma dimensão ainda mais humana aos heróis e um senso de perda em relação a eles. Além disso, entregou algo que poderia ser entendido como uma esperança: o pager de Nick Fury (Samuel L. Jackson) acionando a Capitã Marvel (Brie Larson), que parecia ser a pessoa certa para resolver aquela situação. E se tem uma coisa que o filme da personagem, Capitã Marvel (2019), acerta é em mostrar todo o seu potencial, toda a sua força, como uma personagem que poderia sozinha derrotar Thanos. Infelizmente parece que os roteiristas de ambos os filmes, que não são os mesmos, não conversaram para garantir uma continuidade da história apresentada e o poder da heroína foi praticamente descartado aqui e junto com ele a coerência da narrativa criada.

A maior parte do filme se passa cinco anos após o momento em que Thanos dizimou metade da vida do universo. Cada personagem tenta seguir com sua vida, vivendo de acordo com aquilo que os guia. Assim, Natasha/Viúva Negra (Scarlett Johansson) se mantém ocupada monitorando o globo terrestre no que seria sus função de Vingadora, Thor (Chris Hemsworth) desistiu de tudo e dedica-se a beber e jogar videogame, Bruce Banner (Mark Ruffalo) se voltou à ciência e Tony Stark (Robert Downey Jr.) e Steve Rogers, emblematicamente opostos em seus posicionamentos, também o são no luto: o primeiro se recolheu com sua fortuna e família, agora pai, e o segundo tenta ajudar pessoas com traumas em um grupo de apoio.

O retorno de Scott Lang (Paul Rudd) implica na possibilidade de manipular o tempo e reverter o estrago causado pelas Jóias do Infinito. O que se propõe é uma viagem no tempo, para que o grupo de heróis possa recuperá-las antes que Thanos as pegue. Esse momento de sci-fi com aventura é bastante divertido, recolocando os heróis em momentos icônicos de filmes passados, fazendo-nos revisitá-los. Nesse processo, a figurinista Judianna Makovsky certamente também teve sua diversão pensando os uniformes, com suas novas texturas e cores, bem como as placas e luzes que os recobrem. De quebra, com essas passagens por outros tempos, garantiu-se participações especiais importantes e boas cenas de humor. Mas o humor nem sempre funciona: às vezes é forçado, como em outros filmes da franquia. Em particular as constantes piadas envolvendo constranger Thor pelo seu corpo não são engraçadas e se tornam rapidamente repetitivas. Entre erros e acertos, trata-se de um filme mais leve que o Vingadores anterior.

Chegando ao terceiro ato um pouco da graça do começo se dissolve. É claro que o plano não poderia ocorrer sem contratempos e é necessário um enorme embate entre as partes envolvidas para fechar a história. Instaura-se o caos: uma mistura de fanservice com necessidade de estupidificar as decisões tomadas para que haja, ainda, o conflito. Os acontecimentos só foram possíveis porque, convenientemente, os personagens não só tomam decisões erradas como se mostram enfraquecidos. Novamente, como é possível crer que Capitã Marvel sozinha não seja capaz de derrotar Thanos se for levado em conta todo o background da personagem apresentado em seu filme homônimo? A isso se soma o fato de que, na verdade, ela não está só, mas sim acompanhada por tantos outros Vingadores. Ou mesmo como crer que os exércitos de Wakanda, com tecnologia que foi apresentada como a mais avançada da Terra, se dispondo a ajudar todas as Nações Unidas, aqui só faz número? De fato, todo o destaque construído em torno de Capitã Marvel principalmente, mas também de Pantera Negra (Chadwick Boseman) nos filmes anteriores é deixado de lado para devolver os holofotes para os homens brancos que sempre se destacaram na franquia. O fato do filme precisar minimizar os poderes dos próprio heróis para que um deles se destaque mina o sentido do universo cinematográfico proposto. Na hora do embate real esses personagens iriam mesmo usar soquinho, ao invés dos seus poderes? Essa não é uma questão sobre o filme que eu gostaria de ter visto: é, sim, uma questão de coerência com a construção de personagens e suas trajetórias.

Em se tratando de uma franquia em que levamos onze anos para termos o primeiro filme protagonizado por mulheres, que tem uma personagem, a Viúva Negra, que por muito tempo sofreu com a síndrome de Smurfette, sendo escrita como joguete de interesses amorosos que mudavam conforme o vento, além de enquadrada em cena de maneira objetificada, não é possível dizer que o tratamento conferido às mulheres aqui seja decepcionante. Em uma cena próxima ao final, todas as heroínas da série se juntam à Capitã Marvel em uma empreitada em comum. O girl power se mostra vazio tanto no contexto da franquia, quanto no resultado de suas ações, que fracassam logo em seguida.

O roteiro precisa descartar Capitã Marvel para que o destaque seja Homem de Ferro, tentando forçar uma emoção vinda da noção de auto-sacrifício, reforçando sua importância por ter sido o primeiro dos heróis a ter um filme próprio. Por outro lado confere um final adequado e bonito ao Capitão América, permitindo ao personagem se distanciar do nosso tempo e viver o que gostaria de ter vivido, passando para frente sua funções.

Vingadores: Ultimato não é um filme tão bem resolvido como Vingadores: Guerra Infinita e peca em não tentar dar a coerência necessária para um desfecho de história, mas ganha quem o assiste pela aventura e humor, pelo reencontro de tantos rostos conhecidos e já queridos dos fãs da saga e tantos nomes envolvidos que impressionam quando sobem os créditos.

Nota: 3 de 5 estrelas
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Vidro (Glass, 2019)


Você já foi a a uma convenção de quadrinhos?

[spoilers moderados à frente]

Corpo Fechado (Unbreakable, 2000), foi vendido como um filme de suspense que se revelou um filme de super-heróis, e talvez por isso tenha decepcionado tanta gente na época, logo depois do sucesso estrondoso de Sexto Sentido. Sem efeitos digitais vistosos, sem collants e (quase) sem capas, o filme retratava David Dunn (e a dupla de iniciais coincidente não é por acaso), interpretado por Bruce Willis, descobrindo seu poder de indestrutibilidade, guiado por Elijah Price, que é vivido por Samuel L. Jackson. Elijah tentava ao mesmo tempo ser seu amigo e seu oposto e o filme lidava com a crença nos poderes sobre-humanos: Denis compartilha sua certeza com o filho, Joseph (Spencer Treat Clark), enquanto com um gesto de silêncio pede a ele para não contar a mais ninguém. Dezesseis anos depois é lançado Fragmentado (Split, 2016), dessa vez apresentando o jovem Kevin Wendell Crumb (James McAvoy), que tem Transtorno Dissociativo de Identidade e abriga em si vinte e quatro diferentes personalidades. Uma das personalidades, A Fera, metade humano, metade animal, só é piedoso com quem já sofreu. A surpresa foi descobrir, ao final, que ambos os filmes se passavam no mesmo universo. E agora o diretor M. Night Shyamalan retorna com Vidro como uma forma de dar fechamento à trajetória desses personagens.

Em Corpo Fechado, por mais que a história central pertença a Dunn, é Elijah, posteriormente Senhor Vidro, quem organiza a narrativa. Sua infância dá conta de mostrar um menino temeroso, que, sofrendo com a fragilidade de seus ossos, não consegue brincar como os outros garotos, até se encontrar nos gibis. Depois do desfecho daquele filme, em que temos um vislumbre do que ele é capaz de planejar e executar, é agora que percebemos seu papel como mentor e regente em um plano muito maior.

Os três personagens são apresentados como corpos enquanto potência: a força física, a fragilidade e o descontrole. Denis, Vidro e Kevin são internados em um hospital psiquiátrico, analisados pela Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson). Um herói relutante, um vilão e um agitador, nas suas palavras, enquadrando-os em arquétipos de narrativas heroicas. Todo herói precisa virar um vigilante para se esconder? Todo vilão precisa fazer o mal, nesses termos, raso e absoluto, para compensar as dores sofridas? A psiquiatra, com seu tratamento humano (em todos os sentidos) deseja que os pacientes entendam que seus potenciais são isso, habilidades e não superpoderes. Como em outros de seus filmes, Shyamalan trabalha com a oposição entre fantasia e realidade, colocando na crença das pessoas em algo além do lógico a possibilidade de um mundo diferente. Ele faz isso explorando a própria estrutura de história em quadrinhos, usando Senhor Vidro como uma espécie de narrador-comentarista: quando começamos a questionar uma virada na história, ele aponta qual mecanismo de gibis servem de molde para isso, tudo de acordo com seus planos. As conexões estabelecidas muitas vezes são óbvias ou convenientes, mas é uma apropriação, novamente, da lógica de gibi, com suas mitologias e formulações muito próprias. Ser igual ou ser diferente, para Senhor Vidro, acaba sendo estratégico na forma como se vê em relação aos demais. Ele sabe que os alinhamentos podem mudar se assim for necessário.

Shyamalan também parece à vontade brincando com o imagético dos personagens. Ele rotoma o padrão de cores usado para significá-los anteriormente: Denis usa verde, Vidro é marcado pelos elementos roxos e Kevin e suas demais personalidades se vinculam ao amarelo, todos ampliando para suas variações, como o lilás e o mostarda para os últimos dois. As cores se espalham para as pessoas próximas: Joseph, a mãe de Elijah (sem nome, interpretada por Charlayne Woodard) e Casey (Anya Taylor- Joy). Mas esse filme pertence a Senhor Vidro. O roxo é presente nos flashbacks e até na sacola da loja de quadrinhos, já que a explicação para tudo sempre está neles. O elemento novo, aqui, é Ellie, com suas roupas de corte impecável que vão do branco ao azul-bebê, mas cuja posição nessa narrativa ainda não conhecemos. Os tons pastel a circundam e por isso é significativo que na cena que foi divulgada antes do filme, em que está de frente para os três pacientes, a sala em que se encontram é rosa e as roupas deles são nas versões claras de suas próprias cores. Mas mesmo assim, no pijama amarelo de Kevin, a gola é roxa, e no verde de David é lilás, pois Senhor Vidro não só criou os dois como antecipa os movimentos dos personagens, controlando essa história.

Vidro é mesmo a chave para a composição de diversas cenas. O vidro é a lente removida da máquina que forçaria a realidade na mente de fantasia do paciente a ser operado. Vidro são as lentes das câmeras de vídeos que captam e as telas das televisões que projetam as imagens, ambas cruciais (e não à toa David passou a trabalhar com segurança domiciliar). Vidro é a transparência da pequena janela pela qual os protagonistas, presos a seus quartos hospitalares, são constantemente enquadrados. Mas vidro (glass) também é espelho e pode refletir versões deformadas deles, aprisionados a suas dúvidas. É também por um espelho que Ellie se dá conta de que um plano fácil de ser detectado sempre esconde um outro real. E, por fim, quando Senhor Vidro testemunha e comprova a existência da Fera, não o faz olhando diretamente para ele. É no vidro da porta de um armário em que o vê refletido: a superfície que revela a verdade. A matéria-prima espelha o arco do personagem a quem dá nome.

Em se tratando de quadrinhos, o arco de um herói é marcado por sua ascensão, queda e ressurgimento. Senhor Vidro destaca, mesmo, que nas edições limitadas sempre é necessário um confronto entre as forças opositoras em um lugar público com grande concentração de pessoas, para que todos possam testemunhar. Aqui tudo acontece no hospital, numa escala menor, com menos pessoas. A violência, como nos gibis juvenis, não é mostrada de forma gráfica.

O fato do diretor afirmar que não pretende fazer outro filme dessa série é interessante, porque os elementos estão todos postos. Joseph, na loja de quadrinhos, encontra uma revistinha que mostra em sua um personagem chamado Whispers (Sussurros) se comunicando com outros dois. Da mesma forma ele, que desde criança acreditava que seu pai era um herói, utiliza o microfone para manter contato com ele em suas andanças.

Quando David é institucionalizado e Joseph é informado por Ellie que eles precisam ter senso de realidade, o rapaz, questionado em suas crenças, sai do hospital filmado de cabeça para abaixo, externando seu desajuste naquele momento. Mas Senhor Vidro avisa, essa não é uma edição limitada, era a uma história de origem o tempo inteiro. E, por outro lado, a chave para entender o surgimento de um personagem de quadrinhos está sempre seus pais. No desfecho do filme vemos, pela imagem de uma câmera de segurança, três corpos abraçados por seus queridos. Marcado pela crença e pela perda, esse poderia ser o começo de uma nova história.

Mesmo assim, Shyamalan impregnou o desfecho com aquilo que parece ser objeto de seu interesse enquanto cineasta: a capacidade das pessoas acreditaram e o poder do deslumbramento. Senhor Vidro chega mesmo a dizer a Hedwig que seu poder é ter para sempre nove anos de idade. Isso porque as crianças ainda têm a capacidade de se maravilharem: não se adequaram às regras de um mundo normativo e normalizado. O diretor dialoga com o público. Às vezes o faz de forma óbvia, como quando coloca o próprio personagem que interpreta dizendo que superou os tempos sinistros do passado com a força do pensamento positivo. Mas é por meio das imagens de vídeos, captadas pelas lentes certas, transmitidas e replicadas de tela em tela (de vidro em vidro), que mostra que somos capazes crer na fantasia e nas suas possibilidades, jogando essa promessa das pessoas da diegese para a própria plateia (mediada, ainda, por mais um conjunto de lentes que colocam seu próprio trabalho como diretor). Cada um dos personagens centrais aqui tem alguém que acredita neles e que pode dizer ao mundo a verdade sobre suas capacidades. Dessa forma também destaca a força do contato humano e do carinho, especialmente na relação entre A Fera/ Kevin e Casey, que o toca e demonstra se importar. Sempre um pouco megalomaníaco em suas propostas, Shyamalan aparece mais controlado, alfinetando menos (embora o professor de cinema japonês dos anos 50 a 80 ainda esteja lá) e confiando mais, até mesmo no público. Vidro é sua forma de encerrar essa trilogia com otimismo.

Nota: 4 de 5 estrelas
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Chi-Raq (2015)

Chi-Raq é dirigido por Spike Lee e escrito por ele em parceria com Kevin Willmott, inspirados pela peça Lisístrata, de Aristófanes. Na comédia, a personagem de mesmo nome é uma ateniense que, cansada da prolongada Guerra do Peloponeso, propõe que as mulheres se abstenham de sexo com seus maridos e amantes até que eles negociem a paz. No filme, Lisístrata é interpretada por Teyonah Parris e a guerra passa a ser a violência urbana nas periferias de Chicago, encarnada na ficção pelas gangues de Espartanos (de roupas roxas) e Troianos (de laranja). A cidade tem estatísticas de morte piores do que as das guerras no Oriente Médio, conforme é explicado logo no começo, e por isso detém o apelido de Chi-Raq. Os diálogos são proferidos através de rimas e é interessante acompanhá-los, pois partem da ideia de uma poesia clássica e se estabelecem como um rap fluido e cadenciado.

Além da protagonista, também se destacam no ótimo elenco Nick Cannon interpretando um rapper fictício e espartano chamado Chi-Raq; Wesley Snipes como Ciclope, o líder dos troianos; e Angela Basset como Miss Helen, uma mulher que guia as mais jovens com seu conhecimento. O narrador, Dolmedes, vivido por Samuel L. Jackson é um dos pontos fortes do filme, enquanto John Cusack e seu Padre Mike parecem meio perdidos na narrativa.

A violência urbana é retratada como aquela que tolhe a vida dos jovens e crianças. Ela é mostrada apenas como originada na guerra entre gangues, sem mencionar policiais, acesso a armas e mesmo o contexto sócio-econômico. Os momentos de dor são realistas e tocantes. Mas o tom do filme é inconsistente, uma vez que o drama real faz um contraste por vezes incômodo com a abordagem farsesca. E se na peça, uma comédia, a abstinência das mulheres funciona, aqui, em contraste com o luto de determinados personagens, ela parece despropositada e ingênua.

Foi difícil não traçar paralelos com Mad Max: Estrada da Fúria, dada a proximidade temática e da data de lançamento dos dois filmes. Ambos são produtos de um homem roteirista-diretor. Ambos são protagonizados por mulheres lutando por algo melhor em um mundo que foi destruído pelos homens (e o questionamento “quem matou o mundo?”, presente em Mad Max, é bastante impactante nesse sentido). Mas no filme de George Miller as mulheres-protagonistas, que haviam sido reduzidas a propriedades devido a seu potencial reprodutivo, rebelam-se cortando seus cintos de castidade enquanto clamam por seu status de seres humanos, e não objetos. Já em Chi-Raq, as mulheres literalmente colocam em si mesmas os cintos de castidade e se apresentam como objetos do desejo masculino, quase sempre alheias aos seus próprios. A agência das personagens (duplamente escrita por homens, na fonte original e na adaptação) existe, mas ela é limitada à negação do que é apresentado como um direito masculino. Além disso, a greve de sexo só funcionaria em um contexto heteronormativo e o único momento em que isso é contestado, é em tom de piada.

Ainda que tenha seus problemas na forma em que tentou encaixar a farsa no drama real, o filme é impactante e marcado pela força de suas protagonistas. O peso emocional é maior justamente quando ela é deixada de lado e as histórias dos personagens emergem de forma mais natural. No contexto atual da violência nos Estados Unidos (e no Brasil, diga-se de passagem) contra populações negras e pobres, com o verdadeiro genocídio de todo uma juventude, Chi-Raq aparece como um necessário grito de dor e de raiva e um pedido por união de forças pungente e bem intencionado. O espírito combativo do filme, juntamente com a direção de Spike Lee e a atuação de Teyonah Parris ajudam carregá-lo.

3,5estrelas chi-raq

 

 

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Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015)

Em E Não Sobrou Nenhum (anteriormente chamado de O Caso dos Dez Negrinhos), de 1939, um dos romances policiais mais famosos da escritora britânica Agatha Christie, dez desconhecidos se vêm confinados em uma casa isolada em uma ilha durante um fim de semana. Eles morrem um a um, gradativamente aumentando a tensão entre os sobreviventes, que precisam descobrir quem é o responsável pelos assassinatos. A premissa da cabana isolada não é nenhuma novidade, mas o diretor e roteirista Quentin Tarantino faz bom uso dela em Os Oito Odiados. Kurt Russel é John Ruth, um caçador de recompensas que transporta Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), por quem são oferecidos dez mil dólares viva ou morta, dinheiro o bastante para aguçar a cobiça alheia. Em meio a uma nevasca, juntam-se a eles o também caçador de recompensas Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e Chris Mannix ( Walton Goggins), que afirma ser o novo xerife da cidade vizinha, Red Rock, além do guia da diligência, O.B Jackson (James Parks). Para abrigar-se da neve, param em uma estalagem onde estão o veterano dos confederados General Sandy Smithers (Bruce Dern), o mexicano Bob (Demián Bichir), Oswaldo Mobray (Tim Roth) e o janota Joe Gage (Michael Madsen), formando, assim o grupo que dá nome ao filme.

western funciona como uma peça de teatro, com poucas mudanças de cenário e diálogos afiados desde o começo. De fato, os três primeiros atos se sustentam basicamente em torno deles e são a melhor parte do filme.

O uso largamente propagandeado de câmeras Panavision 70mm resultaram em uma fotografia muita bonita. Na abertura vemos a diligência cortando a neve, engolida pela natureza ao seu redor, enquanto os créditos rolam de maneira bastante tradicional, acompanhados da trilha sonora de Ennio Morricone.

A largura extrema da razão de aspecto favorece tomadas externas e a captura da paisagem como um personagem da trama. Por isso, depois que o filme se encerra na estalagem, ela poderia ser desperdiçada nas mãos de um diretor menos habilidoso, mas continua servindo ao propósito narrativo aqui. O cenário, construído com muitos móveis entulhados de pequenos objetos, é desvelado ao espectador em detalhes. Mas, mais que isso, essa razão permite a observação de ações paralelas durante os diálogos. A profundidade de campo também é explorada de maneira sugestiva e interessante e o terceiro ato, especificamente, tem uma sequência em que ela é utilizada de maneira alternada com o foco em dois personagens, em um momento de negociação que funciona muito bem.

As referências, como em outros filmes do diretor, são várias. Do grupo heterogêneo em No Tempo das Diligências, passando pelo ameaça interna, ambientação e alguns detalhes provenientes de O Enigma de Outro Mundo até chegar na auto-referência em relação a Cães de Aluguel.

São os diálogos, como já mencionado, que seguram e desenrolam lentamente o filme. O isolamento alimenta a tensão entre os personagens, que é pautada nos conflitos já existentes nesses Estados Unidos pós-Guerra da Secessão. Em cena há representantes da União e dos Confederados. Temos um homem da lei, militares e uma fora-da-lei. Há questões de classe social e também de migração. A sociedade americana está representada no pequeno grupo composto por oito pessoas. Mas o mais importante: ele escancara os conflitos étnico-raciais e de gênero. O racismo torna-se o foco principal. Homens brancos destratando homens negros, destratando homens latinos e todos odiando todos.

E nesse ponto Tarantino perde a mão. Parece que tentou rebater as críticas, especialmente do também diretor e roteirista Spike Lee, de que ele aborda questões raciais de maneira insensível. Mas o fez de maneira a demonstrar ainda mais a falta de cuidado com que trata o tema. O filme não precisa ter caráter de crítica social, mas é isso que ele propõe ao colocar frente a frente Warren, um ex-militar negro, e sulistas racistas e confederados. Na verdade, Tarantino já havia feito coisa similar ao confrontar um grupo de mulheres e um stalker misógino em À Prova de Morte, judeus e nazistas em Bastardos Inglórios e um homem negro escravizado e liberto e escravistas em Django Livre.

Por isso a quantidade de vezes que seus personagens falam “nigger”, expressão de cunho racista, é desconfortável. Sim, todos eles são pessoas desagradáveis e o desenvolvimento deles torna isso claro. Mas as falas são colocadas sem crítica e sem ironia, permitindo uma ambiguidade perigosa ao texto.

O mesmo ocorre, em relação a gênero, especialmente com o tratamento conferido a Daisy. O fato de o diretor se apresentar como aliado de causas anti-racistas e feministas o exime de autocrítica? Daisy é apresentada como assassina, mas seus crimes não são deixados claros. Como outros, ela profere injúrias racistas, mas por estar acorrentada, não pode reagir àqueles ao seu redor de forma violenta. Mesmo que reagisse de alguma forma, é patente que todos os demais tem um prazer especial em dirigir seus atos violentos a ela. Os homens em cena repetidamente a chamam de vadia e empilham a violência física. Sangue é derramado, dentes se vão, seu rosto e cabelos são cobertos por pedaços de outros seres humanos, mas não é dado a ela a chance de se limpar ou de se apresentar humana como os demais. Há um certo prazer na forma lenta como ela é torturada. O mesmo ocorre com as demais personagens femininas, reveladas em flashback.

Aí também questiono porque o diretor tem tanto apelo entre o grande público e o que esse mesmo está entendendo sobre o que assiste em seus filmes. Toda cena que envolvia algum personagem duvidando que Warren, por ser negro, tivesse uma carta escrita de próprio punho por Lincoln, foi recebida com grandes gargalhadas pela plateia. Cada soco desferido no rosto de Daisy foi recebido com vibrações, risadas e exclamações dizendo “Esse é o Tarantino” e “Tarantino é foda”. Com o tratamento ambíguo dado ao texto, o discurso é comprado de forma literal e a tortura vira pornografia que deleita um espectador que compactua com os preconceitos e opressões apresentados.

Assim, o terceiro ato do filme se perde ao se transformar em um banho de sangue que não tem o propósito de comentar nada em específico: serve apenas como catarse para o isolamento dos personagens. Violência é esperada nos filmes de Tarantino, mas a falta de uma amarração faz com que ela enfraqueça o restante do texto. As alianças mudam e os comentários a respeito do racismo são esquecidos. E se nos seus filmes anteriores citados aqui o confronto final era a realização de um sonho de vingança violenta de uma minoria oprimida em relação aos seus opressores, a cena final desse torna-se uma aberração discursiva que não se encaixa nessa lógica. Homens brancos e negros, sulistas e nortistas, se juntam com o intuito de dar a última palavra e dominar a mulher, unidos no mesmo sorriso de escárnio. O que Tarantino tenta dizer? Qual é a conclusão que se espera que tenhamos diante dessa cena, no contexto de sua obra?

Os Oito Odiados não parece ter suas quase três horas de duração. Tem uma bela fotografia e uma trilha sonora competente, com atuação forte de todo o seu elenco, direção de arte impecável e diálogos bem escritos. O filme peca no terceiro ato porque Tarantino parece esquecer que o pastiche pós-moderno que lhe é tão querido só funciona com o uso de ironia para clarear os discursos. Mas mesmo assim é um filme interessante e visualmente bonito.

3,5estrelas

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Duro de Matar- A Vingança (Die Hard With a Vengeance/ 1995)

Assistido em: 30/04/2013

Melhor que o segundo filme da franquia ( o que não quer dizer muita coisa), esse filme resgata o espírito do primeiro. Dessa vez a cidade inteira está ameaçada. Menos matança e com um suspense bastante eficaz, temos novamente o vilão alemão caricato (com desejo de vingança, como o título entrega). Dessa vez é Simon, interpretado de forma super canastrona por Jeremy Irons. Os clichês dos nomes estão de novo lá: aquela sequência de Klaus, Gunther, Erik, Otto e por aí vai… O humor até está afinadinho e Samuel L. Jackson funciona bem como sidekick. Bruce Willis é o mesmo de sempre. O terço final do filme é prejudicado por sequências de ação descerebrada, mas nada que prejudique o todo.

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