[43ª Mostra de São Paulo] Head Burst (Kopfplatzen, 2018)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Head Burst não é um filme simples, nem fácil. A sinopse pode repelir quem porventura pretende assisti-lo: trata-se da história de um jovem arquiteto chamado Markus que é pedófilo. Em conflito com seus desejos, ele sente atração sexual por meninos, mas tenta se afastar dos constantes pensamentos que o envolvem. Apesar do tema complicado, o diretor e roteirista Savas Ceviz parece dar conta de lidar com a narrativa que se propõe criar.

Pouco sabemos sobre a vida do protagonista: sua rotina inclui o trabalho em um escritório, que não é mostrado em detalhes; e uma academia onde treina boxe, aparentemente como forma de extravasar. Ele recusa convites de colegas do trabalho e da academia para sair e mantém-se isolado em uma casa vazia, moderna e minimalista. A princípio não vemos família ou amigos próximos. Tudo é solitário e distante.

Markus procura ajuda com um médico que não está disposto a lidar com sua doença. Nessa hora o filme não se poupa de causar incômodo em quem o assiste. Mostra que ele se masturba em frente ao computador e apesar de não mostrar o que observa na tela, o espectador pode deduzir. A fotografia de Anne Bolick se destaca. Com planos distantes e uma câmera que se movimenta lentamente, acompanha o personagem em suas atividades mantendo o mesmo senso de distanciamento que temos em relação a elas. Por outro lado, os meninos são filmados muitas vezes em closes, enquadrando olhos, pescoços, orelhas e boca, transmitindo o ponto de vista do protagonista. Nesse momento o diretor cria um ambíguo jogo entre o olhar da câmera, do personagem e do espectador, que se caracteriza pela banalidade das imagens que são retratadas sem erotismo e o asco que provoca a certeza de que essa não é a percepção de Markus.

Apesar do enorme desconforto causado pelo desenrolar da trama, a vergonha e o nojo de si que o protagonista tem está sempre presente. É significativa a cena em que Markus vê a irmã e atrás dela, na parede, um enorme crucifixo que indica o peso da culpa do personagem. O paralelo entre ele e um lobo que costuma visitar em um parque indica que o homem é o lobo do homem, mesmo quando se trata dele mesmo.

Mérito precisa ser dado para o ator Max Riemelt (de Sense8), pela coragem de assumir um personagem facilmente desprezável e pela intensidade que imprime ao papel. O filme acerta ao diferenciar a doença do abuso sexual propriamente dito e ressaltar a busca por acompanhamento psicológico como uma opção viável. Por outro lado, o desenrolar não parece dar muitas saídas para Markus. Mas Head Burst se abstém de entregar uma só resposta ao final.

Nota: 4 de 5 estrelas
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